28.2.10

David Hume: O problema da existência do mundo exterior; Crítica ao realismo

Parece evidente que os homens são levados, por um instinto ou predisposição natural, a depositar fé nos sentidos; e que, sem qualquer raciocínio ou mesmo quase antes do uso da razão, supomos sempre um universo externo, que não depende da nossa percepção, mas existiria, ainda que nós e todas as criaturas sensíveis estivessem ausentes ou fossem aniquiladas. Até mesmo o mundo animal é governado por uma opinião semelhante e preserva a crença dos objectos externos em todos os seus pensamentos, intenções e acções.
Parece também evidente que, ao seguirem este cego e poderoso instinto da natureza, os homens supõem sempre que as próprias imagens, apresentadas pelos sentidos, são os objectos externos e nunca alimentam qualquer suspeita de que umas nada são excepto representações dos outros. Pensa-se que esta mesa aqui, que vemos ser branca e cuja dureza sentimos, existe independentemente da nossa percepção e é algo de externo à nossa mente, que a percebe. A nossa presença não lhe confere o ser; a nossa ausência não a aniquila. Ela salvaguarda a sua existência uniforme e inteira, independentemente da situação dos seres inteligentes, que a percebem ou contemplam.
Esta opinião universal e primitiva de todos os homens, porém, cedo é destruída pela filosofia mais trivial, a qual nos ensina que nada pode estar presente à mente a não ser uma imagem ou percepção, e que os sentidos são apenas as entradas por onde as imagens são transportadas, sem conseguirem suscitar uma comunicação imediata entre a mente e o objecto. A mesa, que vemos, parece diminuir, à medida que dela mais nos afastamos, mas a mesa real, que existe independentemente de nós, não sofre nenhuma alteração; não passava, pois, da sua imagem, que estava presente à mente. Eis os óbvios ditames da razão; e nenhum homem, que reflicta, alguma vez duvidou que as existências, por nós consideradas ao dizermos esta casa e aquela árvore, são unicamente percepções na mente e cópias ou representações fugidias de outras existências, que permanecem uniformes e independentes.
 
Até agora, pois, somos forçados pelo raciocínio a contradizer ou a apartar-nos dos instintos primitivos da natureza e a adoptar um novo sistema em relação à evidência dos sentidos. Mas a filosofia encontra-se aqui extremamente embaraçada, ao ter de justificar este novo sistema e neutralizar as cavilações e as objecções dos cépticos. Não mais pode defender o instinto infalível e irresistível da natureza, porque isso nos levou a um sistema completamente diferente, que se reconhece ser falível e até erróneo. E justificar o pretenso sistema filosófico por meio de uma cadeia de argumentos claros e convincentes, ou mesmo mediante uma aparência de argumentação, excede o poder de toda a capacidade humana.
Mediante que argumento se pode demonstrar que as percepções da mente devem ser causadas por objectos externos, totalmente diferentes delas embora com elas se parecendo (se isso é possível) e que não podiam surgir ou da energia da própria mente, ou da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, ou de uma outra causa ainda mais incógnita para nós? Sabe-se que, de facto, muitas das percepções não brotam de algo externo, como nos sonhos, na loucura e noutras doenças. E nada pode ser mais inexplicável do que a maneira como o corpo tem de agir sobre a mente, a fim de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância de natureza supostamente tão diversa e mesmo contrária.
É uma questão de facto se as percepções dos sentidos são produzidas por objectos externos, a elas semelhantes: como irá decidir-se tal questão? Pela experiência, certamente, como todas as outras questões de natureza similar. Mas, aqui, a experiência é e deve ser inteiramente muda. A mente nunca tem algo presente a si a não ser as percepções e, possivelmente, não pode obter qualquer experiência da sua conexão com os objectos. Por conseguinte, a suposição de uma tal conexão é desprovida de todo o fundamento no raciocínio.
Recorrer à veracidade do Ser supremo para demonstrar a veracidade dos nossos sentidos é, sem dúvida, realizar um circuito muito inesperado. Se a sua veracidade estivesse nesta matéria deveras implicada, os nossos sentidos seriam totalmente infalíveis, porque não é possível que Ele nos possa enganar.
 
David Hume, trad. port. Artur Morão, Investigação sobre o Entendimento humano, XII, Parte I, 118-120.

30.1.10

Descartes - A demonstração da existência do mundo físico e a forma como é recuperado

Devido à confusão provocada pela obscuridade do manual no que respeita à recuperação do mundo físico e à forma como é recuperado, e, ainda, ao facto de não ser citado qualquer texto a este propósito, apresento, em seguida, algumas palavras do próprio Descartes:

“1. Que razões nos fazem saber certamente que há corpos.

Se bem que estejamos suficientemente persuadidos que há corpos que existem verdadeiramente no mundo, como, porém, duvidámos anteriormente disso e pusemos isso no número dos juízos que havíamos feito desde o começo da nossa vida, é necessário que investiguemos aqui as razões que nos fazem ter disso ciência certa. Em primeiro lugar, experimentamos em nós mesmos que tudo o que sentimos vem de outra coisa qualquer que não o nosso pensamento; porque não está no nosso poder fazer que tenhamos um sentimento em vez de um outro, dependendo isso dessa coisa segundo a forma como toca nossos sentidos. É verdade que poderíamos nos questionar se Deus ou qualquer outro que não ele, não poderia ser essa coisa; mas, por causa de nós sentirmos, ou melhor, dos nossos sentidos nos excitarem, muitas vezes, a perceber, clara e distintamente, uma matéria extensa em comprimento, largura e profundidade, da qual as partes têm figuras e movimentos diversos, de onde procedem os sentimentos que temos das cores, dos odores, da dor, etc., se Deus apresentasse à nossa alma, imediatamente por ele próprio, a ideia dessa matéria extensa, ou, somente, se ele permitisse que ela fosse causada em nós por qualquer coisa que não tivesse qualquer extensão, nem figura, nem movimento, não poderíamos encontrar razão alguma que nos impedisse de crer que ele encontrava prazer em nos enganar; pois nós concebemos essa matéria como uma coisa diferente de Deus e do nosso pensamento, e nos parece que a ideia que temos disso se forma em nós ocasionada pelos corpos de fora, aos quais é inteiramente semelhante. Ora, considerando que Deus não nos engana de forma alguma, visto isso repugnar à sua natureza, devemos concluir que há uma certa substância extensa em comprimento, largura e profundidade, que existe presentemente no mundo com todas as propriedades que manifestamente conhecemos pertencerem-lhes. E essa substância extensa é aquilo que apropriadamente designamos por corpo ou substância das coisas materiais.

3. Que os nossos sentidos não nos ensinam a natureza das coisas, mas somente aquilo em que elas nos são úteis ou prejudiciais

Chegará que consideremos somente que tudo aquilo de que nos apercebemos por meio dos nossos sentidos, diz respeito à estreita união que a alma tem com o corpo, e que conhecemos, ordinariamente, por seu intermédio aquilo em que os corpos de fora nos podem aproveitar ou prejudicar, mas não qual é a sua natureza, a não ser, talvez, raramente e por acaso. Pois, após esta reflexão, deixaremos sem pena todos os preconceitos que não são fundados senão sobre nossos sentidos, e não nos serviremos senão do nosso entendimento, porque é só nele que as primeiras noções ou ideias que são como sementes das verdades que somos capazes de conhecer, se encontram naturalmente.

4. Que não é o peso, nem a dureza, nem a cor, etc., que constituem a natureza do corpo, mas somente a extensão.

Assim fazendo, saberemos que a natureza da matéria ou do corpo tomado em geral, não consiste de forma alguma em ser uma coisa dura, ou pesada, ou colorida, ou que toque nossos sentidos de qualquer outra forma, mas somente no facto de ser uma substância extensa em comprimento, largura e profundidade. No que respeita à dureza, disso não conhecemos outra coisa, por meio do tacto, senão que as partes dos corpos duros resistem ao movimento das nossas mãos quando se encontram; mas se, de todas as vezes que levássemos nossas mãos para qualquer parte, os corpos que aí estivessem se retirassem tão depressa quanto elas se aproximassem, é certo que não sentiríamos jamais a dureza; e, no entanto, não temos qualquer razão que nos possa fazer crer que os corpos que, desta forma, se retirassem, perdessem, por isso, aquilo que os faz corpos. Donde se segue que a sua natureza não consiste na dureza que sentimos, por vezes, a seu respeito, nem também no peso, calor e outras qualidades desse género; pois se examinarmos seja qual for o corpo, podemos pensar que ele não tenha em si qualquer destas qualidades e, no entanto, conhecermos, clara e distintamente, que tem tudo o que o faz corpo, desde que tenha a extensão em comprimento, largura e profundidade: donde se segue também que, para ser, ele não precisa de forma alguma delas e que a sua natureza consiste apenas no facto de ser uma substância que tem extensão.”

René Descartes, tr. fr. Abbé Picot, Les Principes de la Philosophie, 2ª parte, 1, 3 e 4.

20.1.10

Não te im-Portas, Sócrates?

Face à manifesta decadência de Francisco Louça, os dois maiores tribunos da política portuguesa, José Sócrates e Paulo Portas, confrontaram-se, no dia 2 de Setembro de 2009, num debate, a propósito das eleições legislativas, transmitido pela TVI. Como espelhos um do outro, em termos retóricos, foi curioso ver o recurso sistemático ao mesmo estilo retórico, incluindo, em vários casos, os mesmos tipos de falácias.

Logo para começar, como se tivesse desertinho por uma falácia, Portas faz a seguinte declaração: “Em termos económicos, eu entendo que a política económica de José Sócrates falhou, fracassou. Há dois momentos que os portugueses não esquecem: o primeiro, o governo decretou o início da retoma exactamente quando a crise estava a chegar a Portugal de uma forma violenta; e, bem recentemente, José Sócrates anunciou, praticamente, o princípio do fim da crise na véspera de se saber que Portugal tinha meio milhão de desempregados e tinha, infelizmente, batido esse recorde histórico.” Depois, conclui, enunciando aquilo que, segundo ele, a política económica de Sócrates havia gerado, incluindo muitos aspectos advindos da crise que ele implicitamente reconheceu vir de fora. Mas a falácia já estava feita. De facto, a demonstração feita por Portas do falhanço da política económica de Sócrates consistia na referência a duas declarações alegadamente erradas feitas por José Sócrates ou por membros do seu Governo. A associação é verdadeiramente insólita. Uma política económica não é feita por declarações. Os ministros poderiam ter feito milhares de declarações erradas e terem políticas de sucesso, e vice-versa, não ter feito nenhuma e as medidas serem um fracasso. Quem nos dera que os únicos erros de política económica dos nossos governos fossem as calinadas que este ou aquele ministro deu e às quais ninguém ligou!
Curiosamente, não demorou muito até que José Sócrates, nesta muito curiosa competição, fizesse uma falácia muito semelhante: “O senhor tem direito aos seus argumentos e às suas críticas, mas não tem direito a alterar os factos. Quando o senhor esteve no governo, não havia nenhuma recessão internacional e o senhor teve uma recessão por causa do discurso do país de tanga (referindo-se a uma declaração, no Parlamento, do então primeiro-ministro Durão Barroso).” Notável! Com estas declarações, percebe-se porque é que os nossos políticos não conseguem fazer grande coisa do país. Aparentemente, eles julgam que são as suas declarações públicas, talvez por serem transmitidas pela televisão, que decidem o destino do país. Provavelmente, em vez de tentarem resolver, de facto, os problemas do país, o seu trabalho consiste em treinar declarações, visto terem esta crença de tipo mágico de que são as suas declarações que poderão assegurar o sucesso ou desgraça do país. Veja-se como Sócrates atribui a causa de uma recessão a uma única expressão de um discurso de um político. E devo dizer que isto não foi um lapso. Ouvi, incontáveis vezes, responsáveis do PS e comentadores alinhados atribuírem a causa da recessão ao discurso do país de tanga. Já agora, relembro que o que Durão Barroso fez nesse discurso foi acusar o PS de deixar o país de tanga. Ora, os responsáveis “socialistas” conseguiram esta proeza de alterar as causas da recessão, da gestão dos dinheiros públicos e da política económica, para a declaração que denunciava essa gestão e essa política. Assim, a causa da crise, em vez de ser a gestão, seja do PS, seja do PSD; passou a ser a declaração.
Já antes desta declaração de José Sócrates, Paulo Portas nos havia brindado com uma outra preciosidade tão típica quanto vazia do discurso político: “Eu não concordo com nenhum pessimismo estrutural. Portugal sempre foi capaz e o facto de este primeiro-ministro e de estes governos não serem capazes, não quer dizer que Portugal não seja capaz.” Ora, o que é que quer dizer isto de Portugal ser capaz ou não ser capaz? Estamos perante uma daquelas vacuidades políticas que, muitas vezes, servem de slogans, mas que não dizem rigorosamente nada. Animam o disposição dos eleitores mais papalvos, neste caso, com um patrioteirismo bacoco, sentem reforçada a crença não se sabe em quê porque a afirmação é absolutamente abstracta e, daí, em termos políticos, retira-se que opção? Obviamente, nenhuma. Qualquer político de qualquer quadrante poderia dizer isto, até porque não poderia dizer o contrário, sob pena de contradizer a sua própria função de político. E dizendo isto, diria um disparate. As pessoas são capazes de fazer isto e aquilo, desde roubar a ir às compras. Um conjunto de muitas pessoas é capaz de muito mais coisas. Mas ninguém é capaz em geral, nem mesmo Deus, para quem crê, visto não ser capaz do mal. Mesmo admitindo que um país seja capaz de alguma coisa, é muito estranho que seja capaz em geral. Aliás, como remete para o passado, talvez fosse útil a Portas uma releitura de qualquer História de Portugal para se dar conta de uma longa lista de incapacidades, não apenas dos governos, mas da sociedade e da economia portuguesa. Mas, claro, o que interessa é animar as hostes.

Mais adiante no debate, foi bem óbvia a forma como José Sócrates contorna as objecções levantadas por Paulo Portas relativamente às alterações à concessão do subsídio de desemprego, assim como foi óbvio que Paulo Portas ignorou, na comparação das taxas de desemprego entre o seu governo e o actual, o impacto da crise internacional. Igualmente, ambos lançam objecções infundadas e não justificadas, muitas vezes em apartes, às medidas enumeradas pelo outro, com o único objectivo de impedir que a mensagem do outro chegue, com clareza, ao telespectador. Ambos, aliás, apresentam um elenco unilateral das medidas tomadas pelos respectivos governos, nunca reconhecendo qualquer virtude a qualquer actuação do outro. Nestes passos, há muito material para análise mais detalhada, pelo que recomendo uma olhada ao vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=4DD_Hbj8FVE.
Estas semelhanças continuam por todo o debate. Por exemplo, Paulo Portas desvia-se à questão relativa à segurança interna posta por Sócrates – que o havia interrogado acerca do facto de se Portas tinha ou não votado a lei que criticava relativa à prisão preventiva – exortando-o a ir “interrogar os seus camaradas”, repetição de exortação anterior que tinha, na altura, feito todo o sentido, a propósito da Segurança Social e de posições tomadas por responsáveis do PS num documento oficial, mas que vinha completamente a despropósito nesta questão. Porém, logo em seguida, é José Sócrates que ignora a questão relativa ao relatório sobre segurança que o Governo reteve e não divulgou antes das eleições.
Porém, neste capítulo da Segurança Interna, a pérola final cabe a José Sócrates, com esta declaração: “Em matéria de segurança, eu acho que nós não devemos poupar esforços e sempre fiz aquilo que achava que devia fazer para pôr o Estado português e a sociedade portuguesa em segurança. Mas há uma coisa que eu nunca fiz e o que o senhor fez, sabe. Eu nunca aceitei que o Estado português entrasse numa guerra ilegítima e numa guerra errada como o senhor decretou e apoiou, a Guerra do Iraque. E essa diferença, e esse fardo do passado, vai persegui-lo por muitos anos.” Ou seja, Sócrates, para refutar as acusações de Portas relativas ao policiamento e à política penal, à falta de uma política de segurança eficaz, preventiva e protectora das vítimas, responde, acusando Portas de quê?... Da Guerra do Iraque… No comments.

5.1.10

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3.1.10

O TGV verde e encarnado (vermelho, não, nem a falar de comunas, Jesus, credo)

Para mais uma demonstração das agendas políticas dos jornalistas comentadores, o seguinte caso passou-se na TVI 24, no suposto debate de comentadores/jornalistas que se seguiu ao debate entre Manuela Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa. António Ribeiro Ferreira, actualmente na equipa do Correio da Manhã, teve como missão ridicularizar o dirigente comunista, enquanto os restantes participantes tomavam o ar de analistas mais sérios, embora favorecendo, claramente, a candidata social-democrata, quanto mais não seja pela atenção não jocosa muito maior que lhe foi dada.
Vejam-se estas declarações de António Ribeiro Ferreira a propósito de Jerónimo e do PCP: “A posição do PC é perfeitamente extraordinária porque eles, hoje, (...) foram à Amadora onde era a Sorefam (...), e o Jerónimo de Sousa diz esta coisa: sim, gosto do TGV, quero o TGV (...), mas quero as carruagens feitas em Portugal, os carris feitos em Portugal, todo o material feito em Portugal. (...) Não existe. Nós fazemos o Tgv, obviamente que as carruagens vêm de fora, os carris, o ferro vem todo de fora e nós temos uma incorporação de mão-de-obra, praticamente. (...) Agora, o que ele quer é a utopia total, não há, não há, deixou de existir, nós não temos ferro, quer dizer, a Siderurgia não há, a fabricação de carruagens, nós não temos há uns anos, e agora ele quer um TGV assim, mas com produtos nacionais. Está bem, então, vamos ter um TGV de plástico, para nós brincarmos todos com TGVs, podemos oferecer às crianças ao lado do Magalhães, um TGVêzinho de plástico (galhofa geral).” Repare-se, pode-se discordar da perspectiva do PCP, contrária à internacionalização da economia e defensora da existência de um forte sector produtivo nacional, nomeadamente um forte sector industrial, mas não faz sentido considerar que é uma utopia total que indústrias que existiam em Portugal ainda há meia dúzia de anos, não possam voltar a existir. Pode-se discordar da perspectiva do PCP que pensa que o Estado deve assegurar a existência de os sectores mais estratégicos da produção nacional, como ocorria até há umas décadas, mas não faz sentido considerar que é impossível algo que já foi possível e com menos custos que muitos empreendimentos megalómanos que têm sido feitos. Ainda menos faz sentido considerar absurdo que se queira produção industrial, siderúrgica, ferroviária, etc., em Portugal – mesmo sem o modelo do PCP, na economia de mercado, qualquer governo deveria desenvolver todos os esforços para voltarmos a ter um razoável sector industrial pesado.
A intenção de António Ribeiro Ferreira não poderia ser mais clara quando ele compara Jerónimo de Sousa com Manuela Ferreira Leite, sempre muito elogiada nestes debates na TVI: “Este discurso de Jerónimo de Sousa não teve uma novidade, até no TGV não tem novidade nenhuma, eles querem um TGV nacional, português, tudo português, pintado de encarnado e verde, e com as quinas, e com bandeiras nacionais, tipo a União Soviética dos velhos tempos, aquelas ideias daquelas inaugurações todas que tinham as bandeiras, o assalto ao Palácio [de Inverno], não sei quê. Portanto, ele não teve uma ideia nova, quando se fala em baixar impostos, ele fica logo nervoso, como a esquerda toda fica nervosa quando se pensa em baixar impostos, ficam logo nervosos, falam logo do investimento público, do Estado, que é preciso não sei quê, ficam logo tudo muito nervoso.” Apesar de dar uma imagem excelente, comparativamente com as expectativas, segundo ele, de Manuela Ferreira Leite, não deixa de ser curioso que não mencionou qual a novidade trazida por ela que contrastaria com a lastimável ausência de novidades de Jerónimo de Sousa.

O primeiro defensor das PME

No dia 7 de Setembro de 2009, na SIC, apesar de se estar a confrontar com Paulo Portas, Jerónimo de Sousa já pareceu estar recuperado da estranha anemia que o abateu no encontro com Sócrates. Na verdade, devo dizer que se tratou de um muito razoável debate de parte a parte. Mas, não havendo bela sem senão, desta vez foi Paulo Portas que, logo no início, não resistiu aos recursos falaciosos.

Depois de um remoque de Paulo Portas saudando o reconhecimento da importância das PME pelo PCP, Jerónimo de Sousa recordou que não existia qualquer referência no programa eleitoral do CDS-PP de 2005 às PME, contrariamente às 34 referências de 2009. A isto respondeu Paulo Portas da seguinte forma: “Eu acho que o deputado Jerónimo de Sousa foi influenciado pelo argumento do primeiro-ministro Sócrates que é o meu adversário, segundo o qual ele nunca foi primeiro-ministro e eu fui primeiro-ministro.” O argumento de Paulo Portas não podia ser mais disparatado. Primeiro, porque Jerónimo não se referiu a uma medida de um governo a que Portas tivesse pertencido, mas sim ao seu programa eleitoral. Segundo, porque Jerónimo não foi, certamente, primeiro-ministro ou sequer um qualquer ministro. Terceiro, porque isso nada tinha que ver com a questão – foi Paulo Portas que pretendeu valer-se de uma suposta anterioridade na atenção às PME, tendo sido cabalmente desmentido por Jerónimo e, não tendo forma de superar a inesperada refutação, socorreu-se de um argumento de algibeira que costuma utilizar contra Sócrates (e aí tendo, de facto, alguma razão).

A fera amansada

No dia 5 de Setembro de 2009, transmitido pela RTP, realizou-se o massacre de Jerónimo de Sousa por José Sócrates. Infelizmente, não se tratou apenas de Sócrates, com as suas capacidades retóricas, ter superado Jerónimo. No próprio capítulo das falácias, foi Jerónimo quem pior se portou e, mais tristemente ainda, com falácias especialmente ineficazes, claramente introduzidas para ultrapassar a falta de ânimo e de argumentos. Não é que Sócrates não tenha também cometido das suas, mas fê-lo de forma muito mais eficaz e até o deixou de fazer quando se apercebeu que Jerónimo estava derrotado para lá de qualquer esperança. Por exemplo, a meio do debate, Sócrates utilizou de forma falaciosa a luta dos professores relativa às aulas de substituição, mas a verificação do carácter falacioso dessa declaração só poderia ser feita fora do discurso, conhecendo o que, de facto, estava em causa nessa altura, conhecimento vedado à generalidade da população. Referiu-se à greve aos exames desta forma: “Acha razoável que por causa de uma medida de aulas de substituição, tivesse havido uma greve aos exames? Pois eu não acho.” Ora, as aulas de substituição estavam há muito consagradas na lei, mas nessa lei, bem ou mal, o antigo estatuto da carreira docente, essas aulas eram consideradas trabalho extraordinário. Aliás, o governo havia revisto esse estatuto (que também havia sido, originalmente, aprovado pelo PS) no Verão anterior e, logo um mês e meio depois, já estava a desrespeitá-lo, recusando-se a pagar o que estava previsto na lei por eles próprios promulgada. De facto, apesar das decisões em contrário dos tribunais, ainda hoje não pagou nada. Foi por isso que os professores fizeram a tal greve e é especialmente grave que um governo considere que as leis só são para cumprir pelos outros e não pelo próprio governo.

Porém, o debate foi dominado pela anemia de Jerónimo de Sousa. A maior parte do tempo só conseguia responder com declarações vagas às referências concretas de Sócrates, sempre, no entanto, apelando para o real e o concreto que nunca concretizava. Outras vezes, só conseguia balbuciar que havia ainda muito por fazer frente ao rol de medidas enunciadas por Sócrates. Enfim, um espectáculo triste. Por exemplo, após as referências concretas às alterações que permitiram a extensão temporal do subsídio de desemprego e do subsídio social de desemprego, Jerónimo de Sousa declarou: “Quando ouvimos o engenheiro Sócrates a falar de um país que eu não conheço, eu conheço outro, mais duro, mais real, com pessoas a sofrer muito, com pessoas a dirigirem-se a nós, a fazerem apelos para que isto mude.” Na sequência, apenas se refere à pobreza em geral, como se isso desmentisse as medidas enunciadas ou concretizasse alguma alternativa política.
Não foram estes, porém, os únicos recursos falaciosos. Já antes, a propósito das referências de Sócrates às diversas medidas na área da educação, incluindo a extensão do horário escolar até às 17.30 no 1º ciclo, declarou: “Algumas das medidas são discutíveis! Por exemplo, manter as crianças onze horas numa sala, considero negativo nalgumas situações. Porque é que foi esta medida? Para flexibilizar os horários dos pais e das mães, foi para que, numa situação de aperto, os pais aceitem esse espaço. A perspectiva de aumentar esse período que está proposta, isso serve os pais, não têm outra alternativa. Agora, o que nós defendemos é horários com regras.” Para se perceber a falácia, a referência à flexibilidade do horário de trabalho diz respeito ao código laboral. Ora, Jerónimo interpreta o alargamento do horário laboral como resultante da flexibilização laboral, como se antes os pais só trabalhassem até às 13.30. Mesmo que esteja a falar da proposta de extensão até às 19 h., parece óbvio que já antes os pais trabalhavam até essa hora e até chegavam mais tarde a casa.
Finalmente, ao referir-se ao caso Manuela Moura Guedes e ao procurar afastar a ideia de que estava a insinuar uma ligação entre os antigos ataques de Sócrates e a censura feita à jornalista, procurando distinguir a sua posição da direita, ao manifestar um certo escândalo perante a posição do PSD, não se conteve ao dizer: “A direita que já fez o mesmo, particularmente o PSD, quer dizer, houve um caso idêntico (referindo-se ao episódio de censura de Marcelo Rebelo de Sousa).” Como é óbvio, tratando-se de um caso atestado de interferência do governo numa estação de televisão com o objectivo de silenciar alguém, acabou por afirmar a ligação que pretendia nem sequer estar a insinuar.

O pequeno comércio e o fascismo

No dia 3 de Setembro de 2009, num frente-a-frente moderado por Mário Crespo, na SIC Notícias, Alfredo Barroso, histórico militante do PS, começou por se referir a uma intervenção de Manuela Ferreira Leite, feita dois dias antes, em Silves, que tinha o seguinte teor: “Os grandes grupos e as grandes empresas, tal como as grandes superfícies, levam ao empobrecimento dos pequenos comerciantes.” De início, na sua intervenção, começou por reduzir ao absurdo a afirmação, sem que aí tivesse detectado qualquer falácia, mas rapidamente acabou por estender a sua análise a uma comparação com o poujadismo, um movimento populista e fascizante dos anos 50 em França que surgiu com a intenção de defender o pequeno comércio. Intercalando a sua análise do poujadismo com associações a afirmações de Manuela Ferreira Leite (a dos ucranianos e cabo-verdianos), acaba por criar um cenário relativo às posições de Manuela Ferreira Leite, utilizando as suas declarações acerca do casamento e da procriação, acerca dos imigrantes, acerca do Estado e do investimento público, de tal forma que acabou por considerar a sua posição análoga ao do tal poujadismo, ou seja, fascizante.


Não deixou de ser engraçado ver o seu adversário no frente-a-frente, nem mais nem menos que Luís Filipe Menezes, a ter que fazer o papel de defender Manuela Ferreira Leite, sua arqui-inimiga no seio do partido, perante tão óbvia argumentação defeituosa.

O caso da Manela

No calor do anúncio da censura a Manuela Moura Guedes, no dia 3 de Setembro, muitos comentadores se apressaram a vir a terreiro, na maioria dos casos, com a expressa intenção de ilibar o primeiro-ministro, sustentada no argumento que seria uma estupidez ele fazer uma intervenção como aquela, 3 semanas antes das eleições, e alegando que o principal prejudicado pelo caso seria o próprio José Sócrates. Como se viu, porém, tal operação de branqueamento surtiu tal efeito que a principal consequência do caso foi o simples silenciamento da voz mais incómoda da comunicação social para o PS, durante todas as 5 longas semanas eleitorais que se seguiram. Se acumularmos a isto, o caso que pôs em posição defensiva o diário incómodo e o facto de o semanário incómodo parecer ter alinhado por outra facção do PSD contra a direcção actual, criaram-se as condições ideais para um passeio rumo à vitória socrática que tão difícil parecia à partida. É caso para dizer se seriam os próprios comentadores os estúpidos, se estariam a fazer de estúpidos os eleitores. Já agora, não posso deixar de dizer que o programa censurado era de facto revoltante em termos jornalísticos, mas a perda de qualquer referência à deontologia jornalística é comum a todo o jornalismo televisivo, sem que a generalidade dos políticos ou dos jornalistas vejam grande problema nisso. O programa em causa apenas acentuava tendências há muito instaladas na comunicação social.


Uma dessas congregações de comentadores, ocorreu na SIC Notícias, entre Mário Bettencourt Resendes, Pedro Adão e Silva e Luís Delgado, moderados por Mário Crespo, notoriamente pouco virado para a ilibação do primeiro-ministro, ao contrário dos seus convidados. Um deles, aliás, Pedro Adão e Silva, viria, pouco depois, a substituir Vasco Pulido Valente na TVI, após a demissão deste por solidariedade com Manuela Moura Guedes, dando um teor muito mais rosa ao programa em causa. Mas vamos ao que nos interessa, ou seja, as falácias.
Tentando insistir na gravidade da censura, Mário Crespo sublinhou que, apesar de serem gente poderosa, José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes acabaram por ser demitidos ou se demitirem. Para verem a importância das pequenas diferenças semânticas, vejamos esta precisão muito intencional de Mário Bettencourt Resendes: “Eu gosto mais da palavra influente do que propriamente [poderoso], eu não gosto muito de aliar a palavra poderoso a jornalistas porque acho que o poder dos jornalistas deve ser temperado por um conjunto de regras e de serviço público que está inerente à própria missão e profissão.” Esta distinção bizantina tinha um objectivo. Tratava-se de posicionar o assunto de forma a poder ser comparado com outra situação. Na sequência, afirma que o Marcelo ainda era mais influente e foi corrido, responsabilizando, porém, o capital por tal censura, na sequência de afirmações anteriores de Pedro Adão e Silva. Valha a verdade que, posteriormente, cede à argumentação de Mário Crespo que distinguiu entre a influência de um comentador e o poder do principal responsável da estação televisiva (e do seu sucesso), assim como o poder dentro da estação da sua esposa.
No entanto, a sequência mais interessante passou-se com Pedro Adão e Silva, cujo mandato era muito mais óbvio. É preciso relembrar que muitos dos que não se atreviam a incriminar directamente o primeiro-ministro, recordavam, porém, as pressões por ele e por membros do seu partido exercidas contra a estação e o programa em causa. Ora, Pedro Adão e Silva, referindo-se às pressões, considerou que quem as fez foi a Manuela Moura Guedes quando disse que seria muito estúpido tirá-la do ar, porque estaria a fazer “chantagem sobre quem detém o órgão”. Não sei se Pedro Adão e Silva conheceria a legislação que impedia qualquer administração de interferir na linha editorial de um órgão de comunicação social, mas considerar que alguém defender-se de uma censura anunciada é uma forma de pressão inaceitável, é o cúmulo da desfaçatez. Visto até parecer tratar-se de um crime à luz da nossa lei, a argumentação de Pedro Adão e Silva é a de que alguém que se queixa de um crime que aconteceu ou está prestes a acontecer, levado a cabo pela entidade patronal, está a fazer uma pressão intolerável sobre essa entidade.
Mais adiante, frente à insistência de Mário Crespo acerca de José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes terem sido eliminados, o mesmo Pedro Adão e Silva nega que eles tenham sido eliminados ou derrotados, com base nas suas declarações “tipicamente políticas”: “o que eu assisti foi a intervenções de José Eduardo Moniz e de Manuela Moura Guedes (...) que não são intervenções (...) de um jornalista, (...) são intervenções de alguém que tem uma participação política e uma presença política na vida pública, eu não sei se isso é exactamente o papel que cabe a um jornalista.” Deste espantoso argumento, conclui que não lhe parece que sejam os derrotados desta história. A esta conclusão, seguiu-se um ataque ao teor jornalístico do Jornal Nacional por não garantir o pluralismo, o que, sendo inteiramente verdadeiro, soou, na circunstância, a justificação da censura.
Este último argumento é uma verdadeira pérola. Primeiro, os visados não tinham sido eliminados porque, no fundo, protestaram. Segundo, Pedro Adão e Silva parece nem reconhecer o direito a protestar a um jornalista porque isso o torna num político. Terceiro, aparentemente, sendo um político, um pseudo-jornalista já pode ser censurado à vontade. É difícil até pegar nesta argumentação por um lado em detrimento de outro. Um bom jornalista, segundo Pedro Adão e Silva, cala-se bem caladinho quando é censurado, não protesta e, nesse caso, já podemos ser solidários com ele pelo acto de censura. Além disso, desde que proteste, alguém já não é eliminado ou derrotado. Pelos vistos, pode até ser morto, desde que tenha protestado, não foi eliminado. Por outro lado, torna-se claro que há um direito superior a censurar políticos que não existe para os verdadeiros jornalistas (embora esta linha de raciocínio pareça estar em contradição com a utilização, pelo PS, do caso Marcelo para se defender dos ataques neste caso). Finalmente, e esta é a cereja em cima do bolo, desde que se seja político, é-se invencível. Não podem ser os derrotados desta história porque têm uma participação política e uma presença política. Ou seja, não é possível derrotar um político.
Em abono da verdade, estas declarações não constituem nada de especial no coro falacioso que foi feito neste dia e nos seguintes pelos responsáveis do PS e seus comentadores. Já referi isto a propósito do debate com o Louçã. Se há espectáculo político verdadeiramente impressionante é o do coro grandioso que o PS consegue montar na comunicação social sempre que algo corre mal ou sempre que decidem aniquilar alguém. Nas aulas referi um outro caso, o de Manuela Ferreira Leite a quando da declaração sarcástica, dirigida a Sócrates, sobre a suspensão da democracia. Muitos outros casos poderiam ser referidos, o do arranjinho com o Constâncio do deficit de 6,8%, as campanhas contra classes profissionais (que, numa fase inicial, resultaram sempre junto do povo, sempre pronto para dar vazão a uma invejazita), as sucessivas campanhas contra o Presidente, etc., etc.. Em todos os casos, parece haver a crença que uma falácia, se for muitas vezes repetida e por muita gente, deixa de ser falácia e passa a ser a encarnação da verdade e validade. E a verdade é que têm tido sucesso com a estratégia. Sempre que ela é executada na sua forma mais completa, passados alguns dias já toda a gente confunde a falácia com os factos e interpreta os factos à luz da falácia. Tal é o poder da manipulação política. Como disse, as declarações citadas nada têm de especial no contexto desses dias, tratam-se simplesmente das que eu gravei e servem como exemplo da estratégia adoptada a propósito deste caso.

Casamento homo


Infelizmente, devido a um problema na zonbox, não pude extrair a citação exacta deste responsável do PS, mas não podia deixar passar a oportunidade de referir na nossa lista de falaciosos um dos mais recorrentemente responsáveis por argumentações defeituosas na nossa televisão. Trata-se de José Lello. Na RTPN, no dia 22 de Dezembro de 2009, pelas 10 horas e 10 minutos, defendeu a legislação que consagra o casamento homossexual por ser uma “legislação moderna” que segue a legislação promulgada por países que ele considerou “países de referência”. Na sequência da argumentação, atacou a posição retrógrada do Presidente da República, não só neste como noutros assuntos relativos ao universo dos costumes.

2.1.10

MFI

http://estoriasdeoutrosvelhos.blogspot.com

BLOG MOVIMENTO DAS FORÇAS INTERROGATIVAS

http://estoriasdeoutrosvelhos.blogspot.com

31.12.09

QUE SEJA DIFERENTE:
- se for para chorar que seja de alegria;
- se for para mentir, que seja sobre a idade;
- se for para enganar, que seja o estômago;
- se for para roubar, que seja um beijo;
- se for para sofrer, que seja por não podermos passar mais tempo com os amigos;
- se for para caminhar que seja em conjunto;
- se for para esperar,que seja de mãos dadas;
- se for para ser feliz, que seja o Ano inteiro;

QUE ESTE NATAL SEJA O RECOMEÇO DO UM CICLO MELHOR!

O Blog das Perguntas!http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Festoriasdeoutrosvelhos.blogspot.com%2F&h=233e97247567614529f27f8bbdca2b86 As perguntas poderão ser o caminho Régio para a VERDADE! Alguns diriam: "A PERGUNTA É UMA ARMA" (A boa pergunta, diga-se) Uma Arma contra o Conformismo, a favor da verdade e da lucidez! Quem pergunta procura o caminho!Luís Mourinhahá

22.11.09

Nota sobre os argumentos de autoridade

Os argumentos de autoridade têm uma história nefasta na história da filosofia e da ciência que provoca uma reacção negativa na maioria dos profissionais de filosofia que os consideram. De facto, estes argumentos foram, em diferentes épocas e diferentes contextos, utilizados para calar todo o pensamento próprio, toda a investigação inovadora, toda a criatividade e toda a autonomia. Porém, como toda a restante argumentação retórica (argumentos indutivos, analógicos e causais), estes argumentos mostram-se necessários, de forma inevitável, para a nossa vida diária. Ninguém percebe de todos os assuntos e se, relativamente a assuntos académicos, se pode fazer uma suspensão de juízo em relação a assuntos que não dominamos, na vida quotidiana é necessário tomar decisões em domínios que desconhecemos. No mínimo, é preferível, nestes casos, sustentar as nossas decisões no parecer de autoridades qualificadas do que na nossa opinião ignorante. Por exemplo, é preferível agir de acordo com o parecer das autoridades médicas no referente à gripe A, do que com base em rumores e nos nossos medos.
Quer neste contexto quotidiano, quer em contextos académicos, o cumprimento das regras enunciadas no manual diminui, consideravelmente, o risco de erro, de dogmatismo e de manipulação, mas não o anula. No domínio académico, a sustentação de uma tese apenas por referência a uma (ou muitas) autoridade é sempre inaceitável. Qualquer tese, mesmo que sustentada por autoridades, deve ser justificada por razões, mesmo que sejam as mesmas que as autoridades utilizam. Se quem defende a tese não se sente qualificado para enunciar as razões, remetendo para as autoridades na matéria, também não se devia sentir qualificado para enunciar a tese. Falar do que não se sabe, só para fazer eco das autoridades na matéria, poderá dar muito jeito a acções de propaganda, mas devia ser inaceitável em domínios académicos ou outros deles dependentes.
De qualquer forma, mesmo cumprindo as regras do manual, estes argumentos, como mostra incontáveis vezes a história da humanidade, não garantem qualquer verdade. Aparentemente, se existe consenso entre os especialistas da matéria (2ª regra), parece estar garantida uma enorme probabilidade ao argumento. Porém, se viajássemos no tempo, ao início do sec. XVI e perguntássemos a todos os especialistas de astronomia da época qual a posição da Terra no Universo, todos diriam que ela estava, mais ou menos, no centro do Universo e que o Sol orbitava circularmente em torno dela. Se viajássemos para meados do sec. XVIII, os químicos falar-nos-iam do flogisto. Se para meados do sec. XIX, os biólogos considerariam as espécies como estáticas. Mesmo no início do sec. XX, os físicos continuariam a referir-se ao espaço e ao tempo como absolutos. Ou seja, não podemos ter a mínima certeza de que o consenso científico nos garanta mais o acesso às verdades atingidas do que aos erros da época. Quanto muito, podemos aceitar que, se não somos entendidos numa matéria, temos muito menos razões para afirmar uma tese do que aqueles que toda a vida se dedicaram ao assunto.

NOTA FINAL: Este apontamento visa completar e não substituir a abordagem do manual.

21.11.09

Falácias da saúde

No passado dia 16 de Novembro, diversos responsáveis da Saúde deste país (Ministra da Saúde, Director Geral de Saúde, Director da Maternidade Alfredo da Costa, Directores de serviços de obstetrícia, etc.) fizeram declarações acerca da morte do primeiro feto após ser tomada a vacina para a Gripe A que são especialmente interessantes para a nossa análise das falácias por misturarem o discurso político típico com um infelizmente ainda recorrente discurso científico-tecnológico. Faço notar que o que está aqui em causa não é, como sempre, a verdade ou falsidade das teses mas sim a validade dos argumentos. Aliás, quem, neste caso, está do outro lado são os amargurados familiares que não são, na sua argumentação, menos falaciosos. Mas como não são políticos, nem para-políticos, não nos interessam neste trabalho – tanto assim é que até, neste caso, posso referir a falácia central que cometem, uma das falácias da falsa causa, sobretudo a que é conhecida pela expressão latina post hoc, ergo propter hoc, que consiste em considerar algo como causa de um acontecimento simplesmente por ter ocorrido num momento anterior. Existirão eventualmente outras, sobretudo, nas desesperadas declarações do pai, mas não vale a pena estarmos aqui a explorar situações com elevada carga emocional – já basta o que fazem as televisões.
Julgo, porém, que se houvesse um cultivo generalizado, na nossa educação, na nossa política e na nossa formação académica, mesmo quando tecnológica, da lógica e da honestidade intelectual, não haveria necessidade de recorrer a falácias, sem que, com isso, resultasse alguma situação de descontrolo ou pânico maiores que os actuais. Tomemos, por exemplo, as palavras da ministra Ana Jorge em declarações à RTP:

“Isto não tem nada a ver com o facto de a grávida ter feito a vacina às 34 semanas, três, dois dias, penso eu, antes de ter ocorrido a morte do feto in útero e, portanto, aquilo que nós achamos, neste momento, e todos os profissionais e os técnicos, que esta morte não tem nada a ver com a vacina, é uma coincidência no tempo. Portanto, vamos aguardar a autópsia, mas, provavelmente ou há muita probabilidade, porque muitas vezes as autópsias, nestes casos, também não nos contribuem muito para a identificação da causa. De qualquer forma, estamos seguros, dentro que inclusive já hoje de manhã os obstetras que mais trabalham nesta área têm dito que não há relação causal, que isto não é, não há nenhuma referência no mundo inteiro das grávidas vacinadas que tenha ocorrido uma situação dessas. Portanto, aquilo que nós gostaríamos de transmitir é que todas as grávidas do 2º e no 3º trimestre devem fazer a sua vacina. E também aquilo que me foi dito que aconteceu nesta grávida, no dia da vacina, é um efeito que não está descrito em ninguém que tenha feito a vacina e a vacina não dá, em quaisquer circunstâncias, não dá efeitos imediatos. Os efeitos adversos, os efeitos secundários levam muitas vezes, ou são imediatos, na altura da vacina, que não aconteceu nunca, ou os efeitos secundários, ou os adversos aparecem muito depois e, de facto, não está nada descrito naquilo que aconteceu. Portanto, nós confiamos e garantimos, a vacina é segura e, portanto, apelamos a todas as grávidas que se vacinem.”

Não estamos aqui para avaliar a capacidade oratória da ministra que, como se vê, não é apreciável. Deste arrazoado que chega a parecer contraditório, penso que se pode retirar a seguinte argumentação: «A morte do feto não tem relação causal com a vacinação ocorrida três dias antes. Porquê? Porque não existe qualquer registo, em todo o mundo, da morte de um feto ocorrer por causa da vacinação. Também os efeitos que, segundo a família, começaram a surgir logo a seguir à vacinação, não foram provocados por ela porque, novamente, não há qualquer registo de efeitos deste género que surjam imediatamente. De qualquer forma, vamos aguardar a autópsia, embora seja muito provável que a autópsia não esclareça nada.»
Sublinhei a referência a casos passados porque ela é crucial na argumentação, conjuntamente com a eventual inutilidade da autópsia. Já Jorge Branco, Director da Maternidade Alfredo da Costa, havia sustentado a mesma tese com base no facto de que “não há nenhuma referência internacional de morte fetal após a vacinação contra o vírus H1N1”. Por outro lado, Luís Graça, director de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, após defender a mesma tese, com o mesmo argumento (embora este fosse o único a admitir, por absurdo, que, se existisse relação, seria o primeiro caso), acrescenta, relativamente à autópsia: “Em grande número destes casos que sucedem de morte fetal súbita perto do fim da gravidez, na maior parte destes casos a autópsia é, como nós costumamos dizer, branca, não se encontra situação palpável que possa ser atribuída a essa morte, é, pura e simplesmente, a morte súbita.”
Recapitulemos, de novo. Não há relação causal entre a morte fetal e a vacinação. Como sabemos isso? Porque não existe qualquer registo internacional de que tal tenha ocorrido. E como chegaram a tal conclusão em todo o mundo? Através de autópsias que, em muitos casos, não tiveram qualquer resultado (dizer que é morte súbita não é um resultado, é uma declaração de desconhecimento da causa). Ou seja, conclui-se, à partida, que não há qualquer relação porque não há qualquer registo, mas, se se utilizou o mesmo raciocínio nos outros casos, não há qualquer registo porque sempre se pensou que não havia relação com base em não existir qualquer registo. Além disso, a mesma conclusão é retirada da ausência de resultados da autópsia, ou seja, do facto de se desconhecer a causa da morte, em vez de se retirar uma simples interrogação sem resposta, retira-se um pseudo-resultado (a morte súbita) e o reforço da constatação inicial de que não há relação causal entre a morte e a vacinação.

Penso que os médicos dão estes frequentes pontapés na lógica confortados pelo facto de o estarem a fazer por bons motivos e com boas intenções. Estão acostumados a manipular as reacções das pessoas para o bem delas, como quando prescrevem placebos. Porém, é notório que a eficácia da argumentação foi reduzida neste caso, apesar da imensa campanha feita, porque, muito embora tenham uma fraquíssima formação lógica, as pessoas percebem, intuitivamente, que há algo de errado com estes argumentos. O mesmo aconteceu com a morte do rapaz de 10 anos umas semanas antes. A ministra bem veio defender o procedimento médico de diagnosticar uma virose para despachar o rapaz para casa (vindo a morrer dois dias depois). Virose é outro caso de não resultado ou, neste caso, de não diagnóstico. Virose é um diagnóstico tão genérico que inclui desde as mais insignificantes perturbações de saúde até algumas das mais graves doenças que podem ocorrer a um ser humano. Além disso, mas por isso mesmo, não é diagnóstico que razoavelmente sustente a consequência de não ser necessário fazer exames. Ora, qualquer utente dos serviços públicos de saúde, sobretudo os pais, sabem que esse diagnóstico tem como consequência, quase invariável, nos hospitais públicos, não só não serem feitos quaisquer exames, como serem enviados para casa os pacientes. O mesmo não acontece, muitas vezes, nos hospitais privados onde cada exame feito é dinheiro em caixa – e isso tem sido bem notório nesta questão da gripe e na forma como alunos da nossa escola com os mesmos sintomas, foram diagnosticados em instituições dos dois tipos. A razão dos diferentes procedimentos é, portanto, económica e/ou funcional e não médica.
Não digo que não possam ser boas razões. Mas, para mostrar que de boas intenções está o inferno cheio, quando se declara que é uma virose e não gripe, como parece ter ocorrido no referido rapaz e com alunos da nossa escola, sem ter feito exames e para não ter que os fazer, não só se provoca a diminuição de precauções relativamente a eventuais complicações, como se promove a eventual transmissão da gripe relativamente à qual tantas campanhas se fizeram, pois se declara, sem mais, ao paciente que ele a não tem, estando livre de transitar por onde lhe apetecer. Pergunto-me se não seria preferível a honestidade de um “não sei” e a explicação da verdadeira razão para não fazer exames, de forma a não bloquear e a não onerar despropositadamente o sistema com uma doença que é, na generalidade dos casos, banal e sem gravidade. Aliás, muitos são os médicos que o dizem, pelo que tal prática de diagnosticar evasivamente não é sequer generalizada (embora não passasse a ser boa, mesmo que fosse generalizada). Do referido resulta que, ao menos neste aspecto, se é verdade que um tal diagnóstico foi feito para o referido rapaz de 10 anos, a ministra não tivesse razão na defesa feita, muito embora o resultado viesse a ser o mesmo se os médicos reconhecessem que não sabiam o que se passava e o enviassem para casa. Mas, para os pais, poderia ser diferente porque poderiam não se ter sentido, como se sentem tantos utentes, manipulados.
Por fim, voltando ao caso inicial, devo referir que, em todo o caso, só ouvi uma argumentação que, não sei se será verdadeira ou falsa, mas não me pareceu falaciosa. Trata-se do argumento do Director de Obstetrícia do Hospital de São João, Luís Montenegro, que remeteu para a própria constituição da vacina a impossibilidade de relação causal entre a morte do feto e a vacinação. De facto, um argumento causal deve ser capaz de explicar a possibilidade de relação entre a alegada causa e o alegado efeito. A falta dessa explicação leva a uma falácia causal ou a outra congénere (e. g., falácia do acidente, da falsa analogia, etc.). Ao referir a sua incapacidade de perceber a possibilidade da relação com base na ausência do vírus na preparação da vacina, está a abordar pela negativa a explicação da relação. Este procedimento não só não é falacioso, como é o aconselhável em qualquer raciocínio causal.

Dr. Jekyll Primeiro-Ministro e Mr. Hyde Sócrates


Em 24 de Junho, o primeiro-ministro José Sócrates, na sequência do debate quinzenal na Assembleia da República, onde foi questionado pelo CDS-PP acerca do negócio que estava a decorrer entre a PT e grupo Prisa, envolvendo a TVI, à saída do hemiciclo, declarou, segundo a versão digital do jornal Público: “Não estou sequer informado disso, nem o Estado tem conhecimento disso”, insistindo, aliás, que se tratavam de negócios privados em que o Estado não se metia. Ora, recentemente, o semanário Sol revelou que, nas escutas de Março a Armando Vara, no âmbito do processo “Face Oculta”, o primeiro-ministro aborda o negócio que afirma desconhecer três meses depois.
Confrontado com a notícia do Sol, no dia 13 de Novembro, José Sócrates declarou à RTP (entre outros órgãos), junto ao Centro Cultural de Belém, que o jornal em causa não dava uma notícia, mas, antes, fazia um insulto, insistindo que mantinha tudo o que havia dito no Parlamento, não tendo nada a acrescentar. Mas acrescentou. E acrescentou de tal forma que confirmou a notícia que, supostamente, era apenas um insulto, ao avançar com uma estranha hermenêutica que distinguia os conhecimentos informais que eram discutidos em conversas entre amigos e os conhecimentos formais de Estado. Assim, talvez para obviar um possível conhecimento público futuro da escuta, o primeiro-ministro acabou por considerar um insulto que se considerasse que o primeiro-ministro tinha conhecimento daquilo que só José Sócrates tinha conhecimento. De facto, é de ficar espantado com o facto de se poder fazer um tão grade insulto. Mas “ouçamos” José Sócrates (ou será o primeiro-ministro):
“Porque uma coisa é naturalmente discutirmos aquilo que, com amigos, como o fiz, relativamente às notícias que vinham nos jornais e aos conhecimentos informais, outra coisa, como disse no Parlamento, como primeiro-ministro, o conhecimento oficial e o conhecimento prévio, cativo desse negócio: Não tive. Eu não tenho nada a acrescentar ou a retirar. Outra coisa é, e não me apanham nesse jogo, agora, comentar conversas que tive com amigos meus que são do domínio privado e que, lamento muito, não aceito essa ditadura de as querer transformar em conversas públicas.”
Obviamente que esta curiosa distinção não foi enunciada na sessão do Parlamento de 24 de Junho, nem houve qualquer esclarecimento acerca do sujeito elidido na declaração “Não estou sequer informado disso” – quanto ao sujeito ser José Sócrates ou o Primeiro-Ministro. Além disso, também não é esclarecido como é que o primeiro-ministro consegue ignorar os conhecimentos informais de José Sócrates. Talvez se esqueça do que acontece e do que toma conhecimento sob o efeito da poção. De uma coisa podemos já ter a certeza: o primeiro-ministro não afastou, directa ou indirectamente, Manuela Moura Guedes do ar – quanto a José Sócrates...

Embora pareça já fora do domínio da falácia, não posso deixar de comentar a intangibilidade que José Sócrates associa às conversas privadas, considerando uma ditadura querer transformá-las em conversas públicas. Para dizer a verdade, nem consigo perceber o que ele quer dizer. Quererá dizer que só se as conversas forem públicas é que podem ser objecto de um tribunal e de um julgamento? Quer dizer que não se pode investigar ou condenar um mafioso se a informação ou a prova obtida se basear na escuta de uma conversa privada, onde o suspeito encomenda um homicídio ou combina os detalhes de uma operação de tráfico de droga? Ou estar-se-á a referir à consideração política dessas conversas? Mas como algo pode ser investigado e/ou julgado e não poder ser considerado politicamente? É verdade que, neste caso, provavelmente, essas escutas nem poderão ser consideradas, mas devido a um diploma berlusconiano (aprovado, aliás, por Sócrates e pelo “seu” Parlamento) em que se limitam as investigações possíveis dos detentores dos mais altos cargos do Estado. Mas se se trata de evocar a sua situação excepcional, não deveria subsumi-la no enunciado de escandalizados princípios universais que, se fossem tomados em conta, tornariam inúteis todas as escutas – porque de conversas públicas, não é necessário fazer escutas – aliás, só são públicas se estiverem a ser, consentidamente, “escutadas por”, ou seja, emitidas para o público. Tendo em conta que Sócrates teve a maioria na Assembleia da República para poder acabar com as escutas, não se percebe que ele não aceite, só para si, a ditadura de fazer o que fazem todas as escutas judiciais, tornar o privado em público, quando manteve essa ditadura para todos os outros.


19.11.09

Apontamento 2 - Retórica e tipos de falácias (Fil - 11º)

Este apontamento inclui as imagens antes distribuídas, acrescidas dos tipos de falácias. As falácias podem ser consultadas também num glossário incluido no moodle da escola. Podem aceder a ele em http://moodle.esec-sto-andre-bar.rcts.pt/. A disciplina é a de Filosofia do 11º ano. A chave de inscricão para alunos é a que foi referida nas aulas mas com espaços entre as palavras. O apontamento em formato Word pode ser descarregado aqui:

http://groups.google.com/group/riskici/browse_thread/thread/7aa520ea0fb9a832

16.11.09

Falácias das “juventudes”


Não sendo meu hábito indicar casos de falácias sem identificação dos intervenientes, vou aqui abrir uma excepção só para mostrar que não é preciso ir buscar os grandes debates políticos para nos confrontarmos com o discurso político falacioso. Estava eu a percorrer os canais televisivos, quando passo pelo final de um debate (eram 13.50 h.) entre juventudes partidárias num programa da TVI24 intitulado “Rédea Solta”, exibido (não sei se pela primeira vez) no dia 16 de Novembro. Não foi preciso mais de meio minuto para choverem falácias tão banais quanto recorrentes no discurso político. Devo dizer que nunca ouvi mais de alguns segundos deste programa porque o nível da argumentação (e trata-se de um programa argumentativo) é notoriamente tão baixo que não consigo suportá-lo mais tempo. Porém, para enunciar falácias, não é necessário um grande nível argumentativo – arriscaria mesmo a dizer que quanto mais baixo o nível argumentativo, tanto mais falacioso o discurso tende a ser. É claro que é possível encontrar falácias bastante elaboradas, mas a maioria do discurso falacioso é elementar e grosseiro (mas nem por isso menos eficaz junto da população). Pelo contrário, o discurso argumentativo honesto necessita de maior elaboração, esmero e subtileza.
Logo assim que liguei o canal, um jovem do Bloco de Esquerda afirmava que todos os estudos provavam que o aumento das desigualdades (juntamente com a mentalidade consumista) estava associado ao aumento da criminalidade, ao que um representante da Juventude Social-Democrata respondeu num aparte rápido: “Então, quem é pobre, é ladrão.” Para ajudar um pouco na análise, reduzindo a questão ao roubo, da declaração do jovem do BE poder-se-ia extrair que o aumento dos ladrões se devia ao aumento das necessidades económicas e sociais, mas poder-se-ia extrair a afirmação do jovem da JSD? Acresce-se que também as declarações do jovem do BE estão londe de não revelar mácula...

Como, neste caso, não tenho a identificação dos intervenientes, caso alguém queira tratar este caso, consideraria como muito valorizador do trabalho conseguirem junto da TVI a identificação dos envolvidos. Mas, caso não seja possível ou dê muito trabalho, sugiro que dêem maior atenção a este programa – pelo que pude ver, o programa deve ser uma verdadeira mina de falácias. Como os jovens não conseguem fazer grandes argumentações, centram-se nas declarações mais imediatas que podem extrair dos lugares comuns dos seus camaradas mais velhos que são, quase invariavelmente, falaciosos. Desconfio que é capaz de ser quase um curso intensivo das falácias políticas mais recorrentes no nosso discurso político, reduzidas ao seu esqueleto mais patentemente falacioso. Por isso, bom trabalho.

2.11.09

CIDE

BLOG DE INVESTIGAÇÃO 12º I, da Escola Secundária de Alcochete!

CIDE (Cultura, Iniciativa, Diversidade e Empreendedorismo)

Projecto Área Projecto da Escola Secundária de Alcochete

BLOG CIDE.

Blog dedicado ao Empreendedorismo e à Iniciativa.

Visita em:
www.areaprojecto1.blogspot.com

A Guerra do Fogo

Que factores se mostram mais fundamentais no processo de desenvolvimento e de advento do homem? Em que medida o filme de Jean-Jacques Annaud os representa rigorosamente? Qual o sentido global do desenvolvimento da narrativa? Quais as razões para certos aparentes anacronismos na tribo da personagem central? Que aspectos mais o impressionaram? Etc. Abro aqui este espaço para a elaboração de trabalhos de comentário, podendo ter aqui um carácter mais livre que nas eventuais perguntas do teste.

28.9.09

Apontamento sobre a história da cosmologia - A. I.

Como vimos, no ano lectivo passado, na unidade relativa à religião, o homem religioso que emerge desde as mais remotas eras da humanidade, expressa, nas suas crenças, a necessidade de se sentir situado num cosmos ordenado (cosmos opõem-se a caos, nos gregos antigos) pelas forças sagradas, quer no espaço, quer no tempo. Tal como na infância individual do homem, apesar de se sentir esmagado por poderes superiores, necessita de sentir o centro das atenções desses mesmos poderes. A cosmologia que por todo o lado emerge desde a mais remota antiguidade, corresponde-se a estas necessidades: um mundo finito no tempo e no espaço, com a terra no seu centro, criado pelas forças divinas que, de uma forma ou de outra, se ligam aos céus que são considerados, fisicamente, transcendentes ao nosso nível de realidade.
A história a que me vou referir, em traços muito vagos e genéricos, é também a história de como os homens ficaram órfãos dos deuses e de como, ainda hoje, tentam recuperar os seus pais e, com eles, o sentido para a sua existência através da explicação de de onde vimos, para onde vamos e onde, simplesmente, estamos.
Não é de estranhar que, quando o homem rompeu com as explicações fantásticas da realidade (não só na Grécia, mas, como vimos no ano transacto, noutros locais), tendesse a reproduzir os traços gerais das explicações míticas: um mundo finito, originado num tempo longínquo (muito embora a explicação fosse, agora, racional, quer através de forças naturais, quer por acção de um Deus Universal, quer por acção de princípios místicos abstractos), com centro na Terra e uma concepção mais ou menos transcendente dos céus. Sendo estas as características da cosmologia primitiva, é também fácil enunciar quais os problemas que se desenvolverão ao longo da história da cosmologia: 1º O centro do mundo: se o centro do mundo será a Terra (geocentrismo) ou o Sol (heliocentrismo) – e, no final, se sequer tem centro; 2º A contraposição entre heterogeneidade ou homogeneidade do mundo: se a física celeste é a mesma ou diferente (normalmente, transcendente) da da Terra; 3º Se existimos num mundo fechado ou num Universo infinito, quer no espaço, quer no tempo.
Não são apenas as necessidades psíquicas que explicam a concepção primitiva do cosmos. Qualquer pensamento baseado na experiência sensível, na observação empírica, tende para ele. Vemos o Sol rodar à volta da Terra, não vemos nos céus a variedade, a mistura, a corrupção e a morte que vemos na Terra, vendo, ao contrário, uma regularidade matemática que não encontramos em nenhuma coisa terrestre, e, finalmente, não podemos ter qualquer experiência do infinito. Esta última questão será, aliás, a última fronteira entre os espíritos empíricos e os espíritos especulativos, porque, se a concepção geocêntrica terá que se confrontar com cada vez maiores dificuldades empíricas e a defesa da heterogeneidade do mundo acabará por colidir com melhores observações (telescópio de Galileu), a finitude do mundo, quer temporal, quer espacial, não poderá nunca ser desmentida por qualquer experiência imaginável, pois só existe experiência do finito, só sendo questionável por concepções metafísicas e/ou matemáticas.
Na Grécia Antiga, embora a tripla tendência já referida se afirmasse maioritariamente, a dupla tensão da racionalidade, empírica, por um lado, especulativa, por outro, levou a que surgisse todo o tipo de respostas às questões centrais da cosmologia, embora não de uma forma uniforme, onde fosse possível identificar, facilmente, as concepções progressistas e as concepções retrógradas. Por exemplo, Anaxágoras de Clazómenas (assim como os atomistas), filósofo do sec. V a. C. (500-427), parece ser um dos progressistas, visto parecer defender uma infinidade de mundos e a homogeneidade do universo. Porém, não só coloca a Terra no centro do nosso mundo particular (ou sistema), como a concebe plana, a flutuar no ar. Ao contrário, Aristóteles (384-322 a.C.), que parece personificar os conservadores, não só concede a forma esférica à Terra, como concebe o mundo como eterno, contrariamente a Anaxágoras e à maioria dos filósofos do tempo que faziam depender a sua explicação da Natureza de uma cosmogonia. A complexidade do assunto obriga-me, aliás, a não enunciar mais que vagas referências impressionistas. Caso contrário, transformaria o que se pretendia um pequeno apontamento num longo ensaio e este não é o lugar, nem a ocasião para tais desenvolvimentos.
A filosofia e ciência gregas antigas foram, maioritariamente, geocêntricas e finitistas. Embora tivesse havido um notável esforço de muitos autores para a homogeneização da Natureza, a balança acabou por pender para uma concepção diferenciadora da física relativamente à astronomia. Isto aconteceu mesmo com Platão, apesar das suas influências pitagóricas (mas, por outro lado, também por causa delas), ao conceber a astronomia como uma matemática, mais próxima do mundo das ideias que a nossa impura, corrompida e triste Terra.
Quanto ao infinito, muito embora tenham existido rupturas com a concepção maioritária, a filosofia grega sempre teve dificuldade em sequer concebê-lo, não só a nível cosmológico, mas também a nível matemático, quer a nível da compreensão dos números, quer a nível da divisibilidade das áreas. A este propósito, é conhecida a polémica que dividiu os pitagóricos quanto à existência de números irracionais. Estes mesmos pitagóricos, apesar de conceberem a realidade física como matemática, só parecem admitir o ilimitado como componente dos seres finitos a partir de uma cosmogonia em que o ilimitado correspondia ao vazio original, o que se pode considerar como uma versão racionalizada do caos original dos mitos gregos. Porventura, o ápeiron de Anaximandro não será muito diverso, apesar da sua divinização pelo autor, embora seja discutível até que inclua, no seu conceito, o conceito de infinito.
O heliocentrismo, em contraposição ao geocentrismo dominante, teve em Aristarco de Samos (310-230 a.C.) o seu grande defensor da Antiguidade. Contrariamente ao que se poderia supor, não se tratava de um filósofo especulativo, mas, sim, de um astrónomo com os métodos de observação mais exactos de toda a Antiguidade. É possível, porém, que tivesse sido influenciado por teorias mais especulativas de origem pitagórico-platónica. Aliás, os pitagóricos não parecem ter defendido jamais o geocentrismo. Já na primeira fase do pitagorismo, defendiam uma espécie de “pirocentrismo”, em que o centro era ocupado pelo fogo, orbitado pela Terra, a Anti-Terra (imaginada, claro) e os outros planetas, incluindo o Sol. Estes mesmos pitagóricos atribuíram a noite e o dia à rotação da Terra e não à translação do Sol. É incerto, porém, que algum pitagórico ou platónico de inspiração pitagórica tenha defendido o heliocentrismo.
O geocentrismo dominante teve a sua realização máxima na física e cosmologia aristotélica. Será, ainda, contra esta física e cosmologia que se realizaria a revolução astronómica do sécs. XVI-XVII e a revolução física do séc. XVII. A física aristotélica nasce de uma confiança quase ilimitada na experiência sensível. Os elementos da física antiga (ar, água, terra e fogo) são definidos por pares de contrários de características tácteis (seco, húmido; quente, frio), exactamente por o sentido do tacto ser analogamente primitivo como os próprios elementos. Ora, todas as coisas que existem na Terra eram, de acordo com Aristóteles, constituídas, materialmente, de diferentes composições destes quatro elementos. A sua natureza impura e corruptível permitia a mistura de elementos que, naturalmente, tenderiam a fixar-se em quatro esferas distintas, sendo a primeira, a da terra, a segunda, a da água, a terceira, a do ar, e a quarta, a do fogo, razão porque, no mundo terrestre, as coisas sólidas tendiam sempre para baixo e as chamas sempre para cima. Porém, nos céus, não era observável qualquer mistura ou composição, os corpos celestes eram sempre idênticos, descrevendo órbitas mais ou menos regulares em torno da Terra, não registando quaisquer mudanças na sua natureza. Daí, Aristóteles ter concluído que os céus eram constituídos por um único elemento não misturável com os quatro elementos infra-lunares, um elemento puro e incorruptível, o éter.
Por não admitir a possibilidade da existência do vazio, julgou que os astros estariam incrustados em esferas translúcidas ou cristalinas de éter que se encaixavam dentro umas das outras. A própria física do movimento era distinta para os céus e para a Terra: ao passo que, na Terra, existiriam dois movimentos naturais, para cima (o fogo) e para baixo (a terra), tendendo os outros elementos mais para um lado ou para o outro, nos céus, apenas existiria um movimento natural, o circular, o único que era concebível como eterno, adequado às coisas eternas, materialmente constituídas de éter. Porém, visto se verificarem movimentos diversos e até contraditórios entre os astros, Aristóteles teve que supor não só agentes motores próprios de cada uma das esferas (que viriam a ser convertidos em anjos na adaptação ao cristianismo), como a existência de esferas intermédias (e totalmente invisíveis) que explicassem toda a mecânica do Universo. Ao todo, o Universo seria constituído de 59 esferas, 55 das quais de éter, sendo na sua totalidade impelido para o movimento pelo último céu, o céu das estrelas, ele próprio impelido pelo primeiro motor, Deus, embora não mecanicamente, antes como causa final, por o último céu tentar imitar com o seu movimento circular perfeito, a perfeição absoluta da imutabilidade divina.
Quando Cláudio Ptolomeu (+/-90-+/-168 d. C.), já na sequência de Hiparco, propôs o seu sistema de cálculo astronómico, já se haviam verificado muitas incompatibilidades empíricas no sistema geocêntrico aristotélico. Aliás, a proposta heliocêntrica de Aristarco poderia já resultar da verificação de tais incompatibilidades: infelizmente não resistia nem à mentalidade comum da época, nem a algumas objecções empíricas, como a do facto de não se registar qualquer diferença no brilho e direcção das estrelas ao longo do ano – o que não é de admirar, visto só com os instrumentos científicos do sec. XIX se ter detectado, pela primeira vez, a paralaxe das estrelas mais próximas. O sistema de Ptolomeu é uma engenhosa forma de cálculo que tenta conservar, a qualquer custo, os pressupostos fundamentais da astronomia aristotélica: redução de todos os movimentos celestes a movimentos circulares, geocentrismo e, naturalmente, finitude. Logo à partida, porém, para explicar a diferença de brilho e magnitude nos planetas e no Sol, teve que admitir que a Terra não era bem o centro do Universo, ficando o “verdadeiro” centro um pouco ao lado. Além disso, para explicar os movimentos retrógrados dos planetas, teve que introduzir os epiciclos, movimentos circulares em torno de um centro situado na órbita primária. Finalmente, para explicar porque se moviam os planetas, por vezes, mais depressa que noutras vezes, teve a necessidade de introduzir, periodicamente, um equanto que, durante esse período, se tornava o “verdadeiro” centro da órbita, um pouco mais próximo do astro, tendo este que descrever, assim, um círculo menor. Estas complicações ad hoc salvaram durante muito tempo o sistema geocêntrico, permitindo o cálculo dos movimentos astronómicos, mas fizeram-no de forma assaz artificiosa, sendo difícil compreender como é que epiciclos e equantos se encaixavam nas esferas de éter e na suposta uniformidade e perfeição do seu movimento. De facto, as já artificiosas 55 esferas de Aristóteles transformavam-se em mais de 80 movimentos simultâneos, só para explicar o movimento de sete astros.
Só mesmo a história pode explicar a manutenção deste sistema por tanto tempo. A Europa afundou-se na barbárie da Alta Idade Média e a cultura clássica quase se perdeu. Coube ao Islão cultivá-la e trazê-la de novo para a Europa Ocidental através da Espanha muçulmana. Redescoberto nos sécs XII e XIII no Ocidente (só se conheciam, antes disso, dois livros de lógica de importância menor), Aristóteles provoca uma revolução intelectual na Cristandade que acabou com a sua adopção como referência dogmática para o estudo da Natureza, após as necessárias adaptações de Tomás de Aquino (e.g., negação da eternidade do mundo defendida por Aristóteles). Porém, se Aristóteles é o grande responsável pelo Renascimento do Sec. XIII (que continua pela 1ª metade do XIV), será um dos grandes entraves do Renascimento dos sécs. XV-XVI, culminando com os episódios dramáticos da morte cruel de Giordano Bruno em 1600 e do julgamento de Galileu Galilei em 1633.
É preciso, porém, não confundir o Renascimento dos sécs, XV e XVI com a ciência mecanicista que emerge no sec. XVII. É verdade que existe uma redescoberta do interesse pela Natureza no Renascimento (já antecipado por uma figura do séc. XIII e por algumas outras do século XIV), mas tal redescoberta tem um cunho mágico, alquímico, estético e místico, em vez de matemático e mecânico como acontecerá com a ciência moderna. Como vimos nas aulas, o próprio geocentrismo vai se alterando, fundindo-se com concepções alquímicas e místicas, em parte já provenientes da Idade Média, primeiro inserindo as esferas dos anjos para lá da esfera das estrelas, recuperando a música das esferas pitagórica, introduzindo uma esfera última da mente para observar o mundo platónico das ideias, etc. Aliás, o Renascimento é também a redescoberta das concepções pitagóricas e platónicas, embora explorando os seus aspectos mais esotéricos e místicos, contrariamente ao que acontecerá no sec. XVII, e essas influências não são irrelevantes para compreender as revoluções que irão ocorrer. Uma única figura desta época surge como uma ponte de ligação entre as concepções renascentistas e as mecanicistas: Leonardo da Vinci (1452-1519).
Porém, ainda antes de Leonardo, uma outra figura, muitas vezes esquecida, pesa na nossa história de forma incontornável: Nicolau de Cusa (1401-1464). A partir de considerações de ordem metafísica sob influência platónica (como sempre acontecerá), Nicolau afirma de forma mais clara que qualquer autor da Antiguidade, a infinitude do mundo, abolindo por completo a heterogeneidade da física aristotélica e admitindo, visto não existir razões para não supor geração e corrupção nos outros astros, a existência de seres vivos noutros planetas. Afirma, igualmente, embora de forma não muito clara, o movimento da Terra, não perfeitamente circular, tal como a sua forma esférica (e, em ambos os casos, com razão). Naturalmente, nem tudo foram antecipações das teses futuras, havendo até casos de retrocesso, como na atribuição de luz natural à Terra e à Lua. Em certos aspectos, a sua física, desenvolvendo a física occamista do séc. XIV, antecipará a de Leonardo que, recebendo igualmente a influência da redescoberta de Arquimedes, estará na origem directa da ciência galilaica.
Contrariamente ao que é afirmado pelo manual, não foi o aumento da precisão das observações astronómicas que levou ao sistema copernicano. Já depois das descobertas copernicanas, embora não da sua publicação, o nosso Pedro Nunes terá inventado o instrumento mais rigoroso da época (o nónio) e, mesmo depois de conhecer a teoria copernicana, manteve-se sempre um defensor do geocentrismo. Se se tratasse de uma mera questão empírica, os observadores com os instrumentos mais rigorosos da época deveriam ter dado o aval ao novo sistema e isso não aconteceu. Nicolau Copérnico (1473-1543) inscreve-se, inequivocamente, no Renascimento místico, pitagórico e platónico, com toda uma série de ressonâncias alquímicas, cabalísticas e esotéricas, que o motiva para a descoberta de um modelo matemático, adequado ao ideal clássico da simplicidade, onde o Sol assume o papel de símbolo físico ou até manifestação directa do divino. Embora também razões de ordem metafísica, a fazer lembrar os pitagóricos, tenham presidido à sua escolha do Sol, o facto decisivo terá sido a redução dos mais de 80 movimentos ptolomaicos para apenas 34. A maior simplicidade do modelo terá convencido, em primeiro lugar, o próprio Copérnico, em segundo lugar, de forma apenas utilitária, as próprias autoridades eclesiásticas para a elaboração dos seus calendários, porventura também os empreendimentos de navegação e, por fim, a elite intelectual da época.
O cosmos de Copérnico está, porém, mais próximo de Ptolomeu e Aristóteles, do que do nosso. Insiste e até aperfeiçoa a tese do movimento circular como único movimento natural dos céus. Embora elimine os equantos, mantém a excentricidade e os epiciclos. É verdade que, na sequência de Cusa, ao explicar a gravidade como um fenómeno local resultante da tendência da matéria a formar massas esféricas, reduziu, significativamente, a heterogeneidade da física. Porém, insiste, ao contrário daquele, na finitude do mundo. É verdade que, para explicar a ausência da paralaxe das estrelas, as distancia de forma imensa e extraordinária da nossa órbita. Mas o mundo continua fechado. Por fim, inventa um movimento inexistente para a Terra e continua a manter uma margem de erro que deixou em aberto problemas a resolver pela investigação astronómica que levariam à solução final relativa ao sistema solar em menos de um século.
Entre muitos outros modelos surgidos na época, o seguinte passo mais decisivo foi dado por Tycho Brahe (1546-1601), astrónomo dinamarquês, cujos registos astronómicos são os mais detalhados do período anterior à invenção do telescópio. Este investigador é, usualmente, esquecido de forma injusta, devido ao facto de restabelecer o sistema geocêntrico. De facto, ao chamar a atenção para as inexactidões copernicanas, ao romper, definitivamente, com qualquer possibilidade de conceber o universo como um conjunto de esferas cristalinas, visto só o sol, a lua e as estrelas orbitarem à volta da Terra, orbitando os restantes astros em torno do sol, ao aumentar a precisão do cálculo dos movimentos astronómicos e, finalmente, ao fornecer, nas vésperas da morte, os seus registos a Kepler, Brahe foi um elo fundamental para a fundação da astronomia moderna e, com ela, da ciência moderna.
Juntamente com a influência de Brahe, não é de negligenciar o desenvolvimento dos estudos empíricos das órbitas dos cometas que levaram a que definitivamente se enterrasse a hipótese peripatética de eles serem fenómenos meteorológicos, assim como a muito renascentista, ainda, formação mística pitagórico-platónica, na origem da solução kepleriana final dos movimentos celestes. O astrónomo alemão Johannes Kepler (1571-1630) foi, durante a sua vida, conhecido das cortes europeias como grande astrólogo, muito embora a sua verdadeira astrologia (não tanto a dos conselhos fornecidos ao imperador) fosse uma cosmologia mística. Para lá de muitos outros contributos, como a observação da supernova de 1604 que contribuiu para a refutação da imutabilidade celeste defendida por Aristóteles (ainda por cima, logo no céu mais próximo de Deus), Kepler, após longos anos de ensaio e erro, preso ao pressuposto metafísico do movimento circular, tentando compatibilizar os modelos teóricos com os movimentos celestes (sobretudo o de Marte), descobriu, enfim, as leis que o iriam imortalizar: em primeiro lugar, substituiu o movimento circular pelo elíptico, com o Sol num dos focos da elipse; em segundo lugar, descreveu matematicamente as diferenças de velocidade dos planetas como resultantes da sua ligação ao Sol, visto o raio de ligação do planeta ao Sol percorrer, em tempos iguais, áreas iguais; finalmente, como corolário das suas especulações pitagórico-platónicas, estabeleceu a lei que estabelece uma correlação entre a distância de cada planeta relativamente ao Sol e o período de revolução de cada um deles, permitindo que se concebessem, pela primeira vez, as órbitas planetárias como pertencentes a um sistema matemático, expressável numa lei única, o sistema solar. Porém, a estas leis descritivas faltava um elemento fundamental: a causa – e esta só seria estabelecida, após os contributos de Galileu e Descartes, por Isaac Newton.
Entretanto, outro problema cosmológico fundamental se ia desenvolvendo: o problema da finitude ou infinitude do Universo. Embora Kepler haja dado um contributo fundamental para abrir o mundo fechado de Aristóteles, a verdade é que, como todos os investigadores mais inclinados para os critérios empíricos, tinha muita dificuldade em lidar com a hipótese da infinitude. Frente às teses de Bruno ou Gilbert (apesar da influência do magnetismo deste último sobre ele), ele declara: “Este pensamento transporta consigo não sei que horror secreto: com efeito, encontramo-nos errando nesta imensidão à qual foram negados qualquer limite, qualquer centro e, por isso mesmo, qualquer lugar determinado.” Também Galileu Galilei (1564-1642), apesar dos contributos empíricos das observações telescópicas para a refutação da heterogeneidade do cosmos (manchas solares, satélites de Júpiter), preso como está ao movimento circular do modelo copernicano, não extrai consequências da sua lei da queda dos graves (não chega à lei da inércia – sigo aqui Koyré)) e mantém uma atitude de suspensão de juízo relativamente ao problema da finitude do universo. Quanto a Giordano Bruno (1545-1600), apesar do esforço posto na publicitação das teses infinitistas que lhe valeram, por fim, a fogueira, a sua metafísica desvairada mais não fez do que afirmar de forma inequívoca o infinitismo de Cusa, introduzindo nele a novidade do copernicanismo.
Foi, porém, a dois grandes matemáticos e metafísicos que se deveu a afirmação do infinitismo no cerne da nova concepção matemática do universo da física moderna: René Descartes (1596-1650) e Gottfried Leibniz (1646-1716). Embora as suas concepções sejam muito diversas (mecanicista a primeira, dinamista a segunda), ambos, ao conceberem, a priori, a realidade física (embora a extensão seja fenoménica para Leibniz) como uma realidade matemática, transferem para aquela as propriedades desta. Por outro lado, a inteira matematização do Universo por parte de Descartes, permitiu-lhe afirmar, sem hesitação, a lei da inércia como fundamento da sua mecânica, ao contrário de Galileu, estranhamente preso ao pressuposto aristotélico do movimento natural dos céus (circular) e aos critérios empíricos de que partia. Em vários livros e manuais com reduzido conhecimento histórico, atribui-se a descoberta da lei da inércia a Newton, ignorando o facto de Descartes chamar primeira lei da natureza à lei que afirma que cada coisa se mantém no estado em que está enquanto nada o mudar (Princípios, II,37). A esta, mais adiante, se acrescenta a segunda: que todos os corpos que se movem, tendem a continuar o seu movimento em linha recta (Princípios, II,39) - sendo que, nas explicações dadas logo na primeira lei, se percebe que também não há razões para a velocidade se alterar.
É a Isaac Newton (1642-1727) que coube o mérito de resolver, definitivamente, a segunda questão cosmológica, unindo os contributos das leis do movimento celeste (Kepler), da lei da queda dos graves (Galileu) e da lei da inércia (Descartes, conforme foi demonstrado por Koyré), na lei da gravitação universal. Ao estabelecer tal lei para quaisquer duas partículas do Universo, Newton encerra, de vez, a possibilidade de distinguir uma física da Terra de uma física dos céus.
Concluindo, se Kepler encerrou, do ponto de vista da evolução histórica, a polémica entre geocentrismo e heliocentrismo, a favor do heliocentrismo (na medida em que superou a última tentativa, com valor científico, de geocentrismo, a de Brahe), se os infinitistas e até mesmo os que suspenderam o juízo acerca desta questão (como Galileu e Newton), mas que admitiam um universo imenso, foram superando o próprio problema do centro, foi com Newton que se resolveu o problema da heterogeneidade ou homogeneidade do universo e da física a favor da última. Já o problema da finitude ou infinitude do universo que, muitas vezes, se julgou estar resolvido a favor deste último, é ainda hoje um problema em discussão.
A chamada (inicialmente por sarcasmo) teoria do big-bang volta a defender um universo finito quer no tempo, quer no espaço (pois se está em expansão, por muito que se tenha expandido, é finito). Implícita na teoria, incapaz de explicar a causa primeira de forma física, parece-me estar presente uma ressurreição do criacionismo. Por outro lado, muito embora a teoria seja de natureza bastante especulativa (visto alguns dos passos fundamentais estarem por explicar), tal como no passado, os seus pressupostos são empíricos, partindo do nosso ponto de vista relativamente ao Universo observável (supondo que o Universo que se observa em expansão é todo o Universo), da radiação de fundo do céu e de dados da física das partículas. Outras teorias mantêm a discussão, partindo de motivações mais metafísicas que não suportam a concepção intelectual supostamente irracional de um universo limitado, quer defendendo a infinitude temporal, corolário da teoria do big-crunch que levaria a uma espécie de eterno retorno de expansões e contracções, quer defendendo o modelo de explosões localizadas de Fred Hoyle (1915-2001) – correcção de 93 do seu modelo estático anteriormente refutado, modelo que não admite origem temporal e onde não se encontra razão para a limitação espacial. Embora, actualmente, a teoria expansionista pareça vitoriosa, a história da ciência há muito que nos deveria ter ensinado a não tirar conclusões precipitadas e a manter a mente aberta à discussão.