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16.2.17

Liberdade e necessidade - Análise temática da totalidade da correspondência entre Gottfried Leibniz e Samuel Clarke (1715/1716)

Tornei público recentemente um trabalho meu concluído no ano passado. Como ninguém mostrou qualquer interesse em publicá-lo, disponibilizei-o graciosamente na net. Podem encontrá-lo no seguinte endereço:
https://www.academia.edu/30666397/Liberdade_e_necessidade_-_An%C3%A1lise_tem%C3%A1tica_da_totalidade_da_correspond%C3%AAncia_entre_Gottfried_Leibniz_e_Samuel_Clarke_1715_1716_

12.5.09

A noção de pré-ciência

A abordagem de T. S. Kuhn da história da ciência tem um forte pendor sociológico. Daí que, segundo Kuhn, só se possa falar de ciência quando exista uma comunidade científica formada por um modelo conceptual, lógico, metodológico, técnico e filosófico, comum. A noção de pré-ciência refere-se às fases pré-paradigmáticas em que uma área de investigação ou se restringe à recensão de factos ainda não explicados (por muito rigorosa que seja a constatação desses factos), ou em que se multiplicam as explicações, normalmente pouco fundamentadas, sem que haja qualquer consenso na comunidade que as considera. Esta fase pré-científica carece, por falta de paradigma, de organização, quer da recensão dos factos (parecendo todos igualmente importantes, ou restringindo-se apenas por questões de acessibilidade), quer da investigação, quer dos pressupostos filosóficos, quer do aparelho conceptual, quer das metodologias, quer das técnicas, etc.
Actualmente, parecem ter um estatuto claramente pré-científico, por exemplo, as pesquisas sobre fenómenos paranormais, onde nem sequer teorias suficientemente consistentes se conhecem, mas poder-se-á perguntar se não se mantém nessa situação também boa parte das ciências sociais e humanas, apesar de a estas já ser reconhecido um estatuto académico. De facto, nestas últimas, parecem existir paradigmas que constituem comunidades científicas que desenvolvem a sua investigação e o seu trabalho académico. Porém, não existe um só paradigma por área de investigação, provocando uma concorrência entre teorias onde tudo se discute sem possibilidade de entendimento (como é comum entre paradigmas), visto cada qual avaliar a outra teoria segundo os seus próprios critérios. O que acontece nas ciências sociais e humanas parece corresponder mais a um período de crise científica ainda antes de se ter alcançado um paradigma consensual. O próprio Kuhn se interroga a este propósito: “poder-nos-emos perguntar quais os ramos das ciências sociais que já encontraram tais paradigmas”; e, em sentido contrário, mas concordante, mais adiante: “Em certos sectores das ciências sociais, é bem possível que essa evolução esteja a ocorrer actualmente”, referindo-se à evolução dos livros para os artigos especializados, sintomática da instauração de um paradigma (The structure of scientific revolutions, I, trad da trad. fr. Laure Meyer). A este último propósito, o seguinte trecho é esclarecedor: “Apenas nos primeiros estádios do desenvolvimento das ciências, anteriores ao paradigma, é que o livro possui, regularmente, o carácter de realização profissional que conserva ainda noutros géneros de criação. E é somente nos domínios onde o livro (...) continua a ser um meio de comunicação para a investigação, que as exigências da profissionalização são suficientemente vagas para que o profano possa esperar pôr-se ao corrente do progresso, lendo os textos originais dos especialistas.” (idem) A partir da instauração do paradigma, a comunicação torna-se esotérica e explicitamente destinada unicamente aos colegas da comunidade científica, os únicos, aliás, capazes de entender os problemas crípticos a que se dedicam.
Regressando ao problema inicial, não se deve confundir o período pré-científico com o período de revolução científica. No segundo, muito embora não haja momentaneamente um paradigma dominante, existe uma comunidade científica que se formou no paradigma anterior e que acabou por se cindir entre os partidários do modelo conservador e os do novo modelo. Também não se deve confundir a pré-ciência com a pseudo-ciência. As pseudo-ciências podem até possuir um paradigma consensual (não se confundindo, assim, com pré-ciências), mas não se sujeitam ao trabalho empírico que, mesmo em Kuhn, é condição de cientificidade. Daí que, por exemplo, Kuhn considere que os astrónomos podem aprender com os seus erros, ao passo que os astrólogos não.

O critério popperiano de demarcação – A teoria da falsificabilidade

Por solicitação de alguns alunos, aqui vai um pequeno apontamento que resume a abordagem do assunto correspondente na aula:

Segundo Popper, uma teoria, para que se possa considerar uma teoria da ciência empírica, deverá ser capaz de enunciar os casos em que, se fossem verificados, seria refutada. Se o objectivo da ciência é a busca da verdade, deverá, em vez de impor (como se fosse uma religião) aquilo que diz como verdade definitiva, testar rigorosamente as suas teorias em busca de falhas, tentando aproximar-se cada vez mais da correspondência exacta à realidade, nunca, porém, se podendo ter a certeza de a ter atingido.
Exemplificando o modelo proposto por Popper, para que a proposição “Todos os cisnes são brancos” possa ser aceite na ciência empírica, deve ser capaz de formular os enunciados básicos potencialmente falsificadores, ou seja, os possíveis factos que, caso se verificassem, refutariam a proposição, enunciados semelhantes a esta forma: “Foi visto um cisne da cor x (laranja, azul, verde, rosa, preto, etc.) no lugar y e no tempo z.” Caso se verifique um só caso bem atestado que corresponda à forma acima exposta, a proposição é refutada. Por exemplo, eu tive a oportunidade de ver várias vezes, há uns anos, dois cisnes pretos no centro do Barreiro. Logo, a proposição está refutada. Se fizermos uma nova proposição, “Todos os cisnes são brancos ou pretos”, ela deve-se sujeitar, de novo, à falsificabilidade, mantendo-se sempre provisoriamente aceite enquanto não se registe nenhum caso falsificador. Mesmo que víssemos todos os cisnes do mundo, nunca se poderia considerar a proposição confirmada, pois no futuro poderia sempre surgir um cisne de outra cor.

20.4.09

Apontamento sobre Popper e o positivismo - Filosofia - 11º ano

Este apontamento pode ser descarregado nos grupos do Google em:

http://groups.google.com/group/riskici/browse_thread/thread/f3135418434cc228

(O actualizado é o segundo ficheiro chamado positivismo2);

ou copiado aqui neste blog em:

http://riskici.blogspot.com/2007/05/o-positivismo-e-teoria-da.html

26.5.07

A Astrologia - Trecho 5

Dá-se o caso de os astrólogos sempre se terem vangloriado de que as suas teorias se baseavam num número enorme de verificações - numa quantidade esmagadora de provas indutivas. Essa pretensão nunca foi seriamente investigada nem explorada, e não vejo por que não haveria de ser verdadeira. Mas pouco ou nada interessante é saber se a astrologia foi muitas vezes ou poucas vezes verificada; a questão é a de saber se ela alguma vez foi seriamente testada por meio de tentativas sinceras de a falsificar.

20.5.07

A Astrologia - trecho 4

Vemos aqui, como em tantos outros casos (por exemplo, no caso de Copérnico), que é possível que hipóteses importantes tenham origem em ideias verdadeiramente fantásticas: a origem é coisa que nunca importa, enquanto a hipótese for testável. Compreende-se a frieza de Galileu face a Kepler: Galileu pertencia ao partido racionalista (tal como a Igreja Católica Romana) e opunha-se à astrologia. É claro que também é esta a razão por que ele estava tão obsesso com a sua teoria das marés, uma teoria anti-astrológica mas errada, e com a sua versão ultra-simplificada do sistema copernicano.

16.5.07

Os limites da Ciência

No programa de Int. Filosofia que caducou há dois anos, ainda a temática actual dos poderes e riscos da ciência tinha um outro tema: os poderes, os limites e os riscos da ciência. Apesar dessa referência ter desaparecido, o tema dos limites da ciência continua a estar implícito em toda a problemática epistemológica de um critério de demarcação entre o que é ciência e o que não o é. De facto, mesmo o critério de demarcação popperiano parece excluir não só as pseudo-ciências ocultas, mas também boa parte das ciências sociais e humanas, podendo-se questionar se não será um critério injustificadamente restritivo. Além disso, existe a questão das ciências não empíricas (lógica, matemática), assim como a questão do estatuto de áreas que também se reivindicavam como ciências, tal como a metafísica e a teologia. Finalmente, poder-se-á questionar se não existem vias de acesso à realidade ou a áreas da realidade vedadas aos métodos científicos e que poderão ser trilhadas por outras áreas como a religião (nomeadamente, através da fé) ou a arte. Outra questão ainda que se poderá pôr é a relativa a áreas de investigação que, embora ainda não tenham um corpo teórico, possam estar numa situação pré-científica, susceptível de vir a dar origem a áreas científicas (como no passado já aconteceu) se não forem rejeitadas dogmaticamente: parapsicologia, paranormal, ovnilogia, etc.
A discussão ocorrida na entrada que tem mais comentários e o facto de muitos outros alunos quererem participar na discussão, fez-me dar origem a esta entrada destinada ao debate sobre estes temas: "O que faz de uma ciência, uma ciência?", "As áreas consideradas pseudo-científicas não têm qualquer interesse?", "O para-isto, o para-aquilo é só charlatanice?", "Há realidades acessíveis só à fé e não à razão, ou a fé é apenas o porvir de uma ilusão?", etc., etc.. Há mil e uma vias de tratar estas questões, mil e um temas possíveis, mil e uma perspectivas possíveis. É só vocês quererem.

15.5.07

A Astrologia - trecho 3

Pelos vistos, a textonovela é um fiasco. Desisto da do marxismo, visto parecer que já nem os camaradas o defendem como científico. Mas vou continuar com a da astrologia, visto os amantes da astrologia continuarem a pulular por aí:

"Um bom exemplo de como tudo isto pode ser complicado é-nos dado por Kepler, cujas teorias eram uma curiosa mistura de ciência e astrologia. Diferentemente de Newton, que só muito relutantemente é que aceitava ideias astrológicas, Kepler pertencia à tradição astrológica. Como Copérnico, Kepler pertencia à tradição platónico-pitagórica, acreditando em «influências» astrais, sobretudo a do Sol sobre os planetas. Não obstante, Kepler era um astrónomo altamente sofisticado e crítico: nunca se cansava de submeter as suas hipóteses a testes engenhosos e altamente criativos, examinando as suas consequências à luz das melhores provas astronómicas à disposição. A sua atitude maravilhosamente crítica («Que tolo que eu fui», escreveu ele) fez com que lhe fosse possível dar os grandes contributos que deu à ciência - apesar do carácter fantástico de algumas das suas belas hipóteses."

7.5.07

A astrologia - trecho 2 da textonovela

A teoria lunar das marés, por exemplo, foi historicamente uma descendência de crenças astrológicas. Antes de ter sido aceite por Newton, foi rejeitada pela maior parte dos racionalistas como sendo um exemplo de superstição astrológica. Mas a teoria da gravitação universal de Newton mostrou não só que a Lua podia influenciar os acontecimentos «sublunares» mas, para mais, que alguns dos corpos celestes supralunares exerciam uma influência, uma atracção gravitacional sobre a Terra, e, desse modo, sobre os acontecimentos sublunares, em contradição com a doutrina aristotélica. Assim, Newton aceitou, relutante mas conscientemente, uma doutrina que tinha sido rejeitada por alguns dos melhores cérebros, incluindo Galileu, como sendo parte de uma pseudociência sem crédito.
Isso mostra até que ponto é fácil perdermos uma ideia importantíssima rejeitando indisciplinadamente uma teoria pseudocientífica.

6.5.07

O marxismo

Reparando que passou recentemente o aniversário da morte de Karl Marx e que a textonovela da astrologia não está a vender, decidi provocar os nossos "camaradas" com uma textonovela complementar, proveniente do mesmo livro, do mesmo autor e sobre o mesmo tema. Considerem isto uma cotextonovela, visto o objectivo ser o mesmo que o da textonovela da astrologia. A pergunta, neste caso, é:

"Será o marxismo (ou o materialismo dialéctivo, ou o socialismo científico) uma ciência?"

Trecho 1

"Em 1919, comecei a suspeitar das várias teorias psicológicas e políticas que reivindicavam o estatuto de ciências empíricas, em especial a «psicanálise» de Freud, a «psicologia individual» de Adler, e «interpretação materialista da história» de Marx. A mim parecia-me que todas estas teorias eram defendidas de uma forma acrítica. Dispunha-se de um grande número de argumentos a favor delas. Mas a crítica e os argumentos contrários a elas eram vistos como hostis, como sintomas de uma recusa obstinada em admitir a verdade manifesta; e, por isso, eram enfrentados com hostilidade e não com argumentos."

A astrologia

Não sei se alguém já fez isto, mas, para mim, é uma experiência nova. Vai ser uma textonovela. A ideia é que vão dando respostas a uma questão (que contam como trabalhos para a disciplina), comentando ou, pelo menos, inspirados num texto que irá sendo apresentado a pouco e pouco, um trecho cada dia. Devem começar a responder logo depois do primeiro trecho e podem voltar a responder quantas vezes quiserem. O texto é de Karl Popper (não digo a obra para não irem ver as cenas dos próximos capítulos) e a questão é:

"Será que a astrologia é uma ciência?"

Trecho 1

"Como exemplo clássico de uma pseudociência, podemos considerar a astrologia. Pode-se fazer recuar a história desta, juntamente com a da astronomia, à crença religiosa de que os planetas são deuses (como até Platão afirmou). Esta crença politeísta foi abandonada quer na astrologia, quer na astronomia, de maneira que ambas as ciências acabaram por concordar na ideia de que os planetas eram simplesmente designados a partir dos nomes dos deuses. Mas a astrologia, enquanto abandonava o politeísmo, continuou não só a associar um significado mágico aos velhos nomes divinos, como também a atribuir aos planetas poderes tipicamente divinos, que ela tratava como sendo «influências» calculáveis. Não é de espantar que tenha sido rejeitada pelos aristotélicos e por outros racionalistas. Mas rejeitaram-na, porém, em parte, por razões erradas, e levaram essa rejeição demasiado longe."

Nota - O termo "racionalista" não tem aqui o mesmo significado que teve nas aulas do 2º período. Surge aqui apenas em oposição ao cultivo da imaginação em detrimento da razão.

O positivismo e a teoria da falsificabilidade

O Positivismo

O positivismo ou filosofia positiva (por contraposição a metafísica) foi fundado por Auguste Comte (1798-1857), sobretudo a partir do início dos Cursos de filosofia positiva (1830). No fundamental, o que caracteriza todo o positivismo é a exigência da redução do conhecimento aos factos e às leis (ou factos gerais) que deles se inferem. O sistema de Comte funda-se numa filosofia da história que supõe que toda a história humana evoluiu de um estádio religioso para um metafísico, evoluindo, progressivamente, na modernidade, para o estádio final positivo. A partir desta fundamentação, pretende Comte fundamentar e classificar as próprias ciências (e também limitá-las e orientá-las). Finalmente, funda uma sociologia que conclui o edifício das ciências (reduzidas a cinco: astronomia, física, química, biologia e sociologia) e também a evolução definitiva para o estádio positivo, relegando a metafísica para o passado. Além disso, a fundação da sociologia permitia a reforma prática, dando origem ao Estado positivo, e a reforma religiosa, dando origem à religião da Humanidade. Muitos dos positivistas posteriores rejeitaram este último aspecto da filosofia de Comte.
Do ponto de vista epistemológico, são especialmente óbvios dois aspectos: a recusa de toda a hipótese não originada na observação, e a pretensão de descobrir as leis da própria realidade a partir da experimentação. Tal pretensão funda-se numa concepção rigorosamente determinista dos fenómenos naturais. A reiteração de um resultado experimental serve de legitimação definitiva de uma lei (estabelecimento das leis por indução). É, aliás, a lei que mais importa a Comte, permitindo mesmo que não mais sejam feitas observações no âmbito a que a lei se refere. De facto, Comte parece temer que elas sejam feitas: “as leis naturais, verdadeiro objecto das nossas investigações, não poderiam permanecer rigorosamente compatíveis, em nenhum caso, com uma investigação demasiado minuciosa”; pelo que reduz a exactidão requerida às nossas necessidades práticas. É o que se poderia chamar uma certeza à força.
O positivismo lógico ou empirismo lógico (círculo de Viena, sobretudo nos anos 20 – Carnap, Neurath, Hahn) é, em muitos aspectos, completamente diferente do positivismo de Comte – porém, os traços fundamentais da epistemologia positivista do sec. XIX mantêm-se: recusa de toda a metafísica ou especulação; redução aos enunciados de observações; comprovação das hipóteses pela experimentação. Porém, seguindo assumidamente David Hume, o positivismo lógico admite que as leis sejam apenas prováveis – o que não impede que sejam consideradas comprovadas ou verificadas, pois tal probabilidade é suficiente para o trabalho científico (o que é, afinal, uma nova versão do dogmatismo comtiano antes ilustrado).

Crítica popperiana ao positivismo

Três aspectos se destacam na crítica de Karl Popper (1902-1994) ao positivismo.
Primeiro, Popper sublinha a irrelevância da questão da origem da hipótese para a ciência. Para que uma hipótese seja considerada como científica, deve-se sujeitar à experimentação. Mesmo que uma hipótese tenha uma origem considerada pouco respeitável, por exemplo, a teoria das marés de origem astrológica, não deve, por isso, ser rejeitada pela ciência. Tal rejeição sem experimentação só pode ser prejudicial à própria ciência, nem lhe permitindo encontrar eventuais respostas correctas, nem lhe permitindo evoluir pela demonstração do erro. Para além de promover a mentira, a exigência positivista não só é preconceituosa, como limita a imaginação e a criatividade dos cientistas, impedindo-os de descobrir novas respostas.
Segundo, Popper mostra que a pretensão positivista de verificar a hipótese através do teste é ilógica. O teste experimental não pode comprovar um enunciado universal. A única coisa que pode comprovar é a refutação do enunciado universal. Trata-se de uma mera aplicação da lei das subalternas do quadrado aristotélico da oposição: da verdade de uma particular nada se pode concluir quanto à universal; mas da falsidade da particular, pode-se concluir a falsidade da universal.
Terceiro, Popper defende que o confirmacionismo positivista é dogmático. Se se procura apenas aquilo que comprova a teoria, tende-se a não procurar o que a pode refutar: age-se como advogado de defesa da sua hipótese. Além disso, não se fornece com tal confirmacionismo, ao contrário do pretendido pelo positivismo, um verdadeiro critério de demarcação entre a ciência e a pseudo-ciência. Qualquer pseudo-ciência é capaz de reunir comprovações empíricas das suas previsões. De facto, qualquer teoria de senso comum consegue fazer isso. O que provavelmente não conseguem, em muitos casos, é dizer claramente em que casos seriam as suas teorias refutadas.
Dos dois últimos aspectos resulta que não faz sentido para Popper falar de provas ou de leis na ciência empírica. Tal vocabulário advém dos dogmatismos positivistas e congéneres. Pode-se considerar uma hipótese atestada, visto ter passado por verdadeiros testes, nunca como comprovada, visto mesmo inúmeros testes particulares nunca poderem comprovar uma hipótese universal.

O critério popperiano de demarcação – A teoria da falsificabilidade

Segundo Popper, uma teoria, para que se possa considerar uma teoria da ciência empírica, deverá ser capaz de enunciar os casos em que, se fossem verificados, seria refutada. Se o objectivo da ciência é a busca da verdade, deverá, em vez de impor (como se fosse uma religião) aquilo que diz como verdade definitiva, testar rigorosamente as suas teorias em busca de falhas, tentando aproximar-se cada vez mais da correspondência exacta à realidade, nunca, porém, se podendo ter a certeza de a ter atingido.
Exemplificando o modelo proposto por Popper, para que a proposição “Todos os cisnes são brancos” possa ser aceite na ciência empírica, deve ser capaz de formular os enunciados básicos potencialmente falsificadores, ou seja, os possíveis factos que, caso se verificassem, refutariam a proposição, enunciados semelhantes a esta forma: “Foi visto um cisne da cor x (laranja, azul, verde, rosa, preto, etc.) no lugar y e no tempo z.” Caso se verifique um só caso bem atestado que corresponda à forma acima exposta, a proposição é refutada. Por exemplo, eu tive a oportunidade de ver várias vezes, há uns anos, dois cisnes pretos no centro do Barreiro. Logo, a proposição está refutada. Se fizermos uma nova proposição, “Todos os cisnes são brancos ou pretos”, ela deve-se sujeitar, de novo, à falsificabilidade, mantendo-se sempre provisoriamente aceite enquanto não se registe nenhum caso falsificador. Mesmo que víssemos todos os cisnes do mundo, nunca se poderia considerar a proposição confirmada, pois no futuro poderia sempre surgir um cisne de outra cor.

Exemplo de teoria pseudo-científica ou ideológica

Popper entende por ideologia uma crença dogmática que rejeita, à partida, qualquer possibilidade de refutação empírica. Se tal ideologia pretende ser uma ciência empírica, trata-se de uma pseudo-ciência. Em contraposição ao exemplo do cumprimento do critério de falsificabilidade (a não ser que se defenda que os cisnes são brancos por definição), pode-se dar o seguinte exemplo adaptado de Popper. Tomemos a seguinte proposição, mais ou menos afirmada em muitas correntes das ciências sociais e humanas, assim como da filosofia especulativa (onde pode ser afirmada à vontade porque a metafísica não pretende ser empírica): “Todos os actos humanos são egoístas”.
Quem afirme tal proposição, afirma-a, com certeza, com a consciência de que há pessoas que dedicam a sua vida a ajudar os outros. O que está implícito em tal proposição é que qualquer acto altruísta é feito por uma intenção egoísta (ir para o paraíso, auto-satisfação, fama, etc.). Porém, é fácil ver que se poderia dizer o mesmo de qualquer acto imaginável por mais incrível que fosse – o que quer dizer que, com tal argumentação, não existe à partida qualquer possibilidade de refutação empírica da proposição. Não existe verdadeira possibilidade de testar a proposição, pelo que a proposição não se pode considerar científica empírica. A mesma linha argumentativa segue Popper para rejeitar, por exemplo, a psicanálise como ciência empírica. A mesma crítica é dirigida ao marxismo, embora com uma argumentação diferente, assente mais na sua tendência confirmacionista.