3.1.10

O caso da Manela

No calor do anúncio da censura a Manuela Moura Guedes, no dia 3 de Setembro, muitos comentadores se apressaram a vir a terreiro, na maioria dos casos, com a expressa intenção de ilibar o primeiro-ministro, sustentada no argumento que seria uma estupidez ele fazer uma intervenção como aquela, 3 semanas antes das eleições, e alegando que o principal prejudicado pelo caso seria o próprio José Sócrates. Como se viu, porém, tal operação de branqueamento surtiu tal efeito que a principal consequência do caso foi o simples silenciamento da voz mais incómoda da comunicação social para o PS, durante todas as 5 longas semanas eleitorais que se seguiram. Se acumularmos a isto, o caso que pôs em posição defensiva o diário incómodo e o facto de o semanário incómodo parecer ter alinhado por outra facção do PSD contra a direcção actual, criaram-se as condições ideais para um passeio rumo à vitória socrática que tão difícil parecia à partida. É caso para dizer se seriam os próprios comentadores os estúpidos, se estariam a fazer de estúpidos os eleitores. Já agora, não posso deixar de dizer que o programa censurado era de facto revoltante em termos jornalísticos, mas a perda de qualquer referência à deontologia jornalística é comum a todo o jornalismo televisivo, sem que a generalidade dos políticos ou dos jornalistas vejam grande problema nisso. O programa em causa apenas acentuava tendências há muito instaladas na comunicação social.


Uma dessas congregações de comentadores, ocorreu na SIC Notícias, entre Mário Bettencourt Resendes, Pedro Adão e Silva e Luís Delgado, moderados por Mário Crespo, notoriamente pouco virado para a ilibação do primeiro-ministro, ao contrário dos seus convidados. Um deles, aliás, Pedro Adão e Silva, viria, pouco depois, a substituir Vasco Pulido Valente na TVI, após a demissão deste por solidariedade com Manuela Moura Guedes, dando um teor muito mais rosa ao programa em causa. Mas vamos ao que nos interessa, ou seja, as falácias.
Tentando insistir na gravidade da censura, Mário Crespo sublinhou que, apesar de serem gente poderosa, José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes acabaram por ser demitidos ou se demitirem. Para verem a importância das pequenas diferenças semânticas, vejamos esta precisão muito intencional de Mário Bettencourt Resendes: “Eu gosto mais da palavra influente do que propriamente [poderoso], eu não gosto muito de aliar a palavra poderoso a jornalistas porque acho que o poder dos jornalistas deve ser temperado por um conjunto de regras e de serviço público que está inerente à própria missão e profissão.” Esta distinção bizantina tinha um objectivo. Tratava-se de posicionar o assunto de forma a poder ser comparado com outra situação. Na sequência, afirma que o Marcelo ainda era mais influente e foi corrido, responsabilizando, porém, o capital por tal censura, na sequência de afirmações anteriores de Pedro Adão e Silva. Valha a verdade que, posteriormente, cede à argumentação de Mário Crespo que distinguiu entre a influência de um comentador e o poder do principal responsável da estação televisiva (e do seu sucesso), assim como o poder dentro da estação da sua esposa.
No entanto, a sequência mais interessante passou-se com Pedro Adão e Silva, cujo mandato era muito mais óbvio. É preciso relembrar que muitos dos que não se atreviam a incriminar directamente o primeiro-ministro, recordavam, porém, as pressões por ele e por membros do seu partido exercidas contra a estação e o programa em causa. Ora, Pedro Adão e Silva, referindo-se às pressões, considerou que quem as fez foi a Manuela Moura Guedes quando disse que seria muito estúpido tirá-la do ar, porque estaria a fazer “chantagem sobre quem detém o órgão”. Não sei se Pedro Adão e Silva conheceria a legislação que impedia qualquer administração de interferir na linha editorial de um órgão de comunicação social, mas considerar que alguém defender-se de uma censura anunciada é uma forma de pressão inaceitável, é o cúmulo da desfaçatez. Visto até parecer tratar-se de um crime à luz da nossa lei, a argumentação de Pedro Adão e Silva é a de que alguém que se queixa de um crime que aconteceu ou está prestes a acontecer, levado a cabo pela entidade patronal, está a fazer uma pressão intolerável sobre essa entidade.
Mais adiante, frente à insistência de Mário Crespo acerca de José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes terem sido eliminados, o mesmo Pedro Adão e Silva nega que eles tenham sido eliminados ou derrotados, com base nas suas declarações “tipicamente políticas”: “o que eu assisti foi a intervenções de José Eduardo Moniz e de Manuela Moura Guedes (...) que não são intervenções (...) de um jornalista, (...) são intervenções de alguém que tem uma participação política e uma presença política na vida pública, eu não sei se isso é exactamente o papel que cabe a um jornalista.” Deste espantoso argumento, conclui que não lhe parece que sejam os derrotados desta história. A esta conclusão, seguiu-se um ataque ao teor jornalístico do Jornal Nacional por não garantir o pluralismo, o que, sendo inteiramente verdadeiro, soou, na circunstância, a justificação da censura.
Este último argumento é uma verdadeira pérola. Primeiro, os visados não tinham sido eliminados porque, no fundo, protestaram. Segundo, Pedro Adão e Silva parece nem reconhecer o direito a protestar a um jornalista porque isso o torna num político. Terceiro, aparentemente, sendo um político, um pseudo-jornalista já pode ser censurado à vontade. É difícil até pegar nesta argumentação por um lado em detrimento de outro. Um bom jornalista, segundo Pedro Adão e Silva, cala-se bem caladinho quando é censurado, não protesta e, nesse caso, já podemos ser solidários com ele pelo acto de censura. Além disso, desde que proteste, alguém já não é eliminado ou derrotado. Pelos vistos, pode até ser morto, desde que tenha protestado, não foi eliminado. Por outro lado, torna-se claro que há um direito superior a censurar políticos que não existe para os verdadeiros jornalistas (embora esta linha de raciocínio pareça estar em contradição com a utilização, pelo PS, do caso Marcelo para se defender dos ataques neste caso). Finalmente, e esta é a cereja em cima do bolo, desde que se seja político, é-se invencível. Não podem ser os derrotados desta história porque têm uma participação política e uma presença política. Ou seja, não é possível derrotar um político.
Em abono da verdade, estas declarações não constituem nada de especial no coro falacioso que foi feito neste dia e nos seguintes pelos responsáveis do PS e seus comentadores. Já referi isto a propósito do debate com o Louçã. Se há espectáculo político verdadeiramente impressionante é o do coro grandioso que o PS consegue montar na comunicação social sempre que algo corre mal ou sempre que decidem aniquilar alguém. Nas aulas referi um outro caso, o de Manuela Ferreira Leite a quando da declaração sarcástica, dirigida a Sócrates, sobre a suspensão da democracia. Muitos outros casos poderiam ser referidos, o do arranjinho com o Constâncio do deficit de 6,8%, as campanhas contra classes profissionais (que, numa fase inicial, resultaram sempre junto do povo, sempre pronto para dar vazão a uma invejazita), as sucessivas campanhas contra o Presidente, etc., etc.. Em todos os casos, parece haver a crença que uma falácia, se for muitas vezes repetida e por muita gente, deixa de ser falácia e passa a ser a encarnação da verdade e validade. E a verdade é que têm tido sucesso com a estratégia. Sempre que ela é executada na sua forma mais completa, passados alguns dias já toda a gente confunde a falácia com os factos e interpreta os factos à luz da falácia. Tal é o poder da manipulação política. Como disse, as declarações citadas nada têm de especial no contexto desses dias, tratam-se simplesmente das que eu gravei e servem como exemplo da estratégia adoptada a propósito deste caso.

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