16.10.18

O choque macartista de Isabel Moreira

A deputada Isabel Moreira ficou chocada, no recente programa Prós e Contras com a comparação da historiadora Raquel Varela entre o #metoo e o macartismo. Do meu ponto de vista, o que é interessante é analisar a razão de tal choque. O que o macartismo, liderado pelo  senador Joseph McCarthy, pretendia era perseguir os alegados inimigos da América por alegadas atividades comunistas, consideradas pró-soviéticas em pleno início da Guerra Fria. Acabou por se tornar uma campanha de depuração ideológica dos Estados Unidos que, para lá de centenas de detenções, teve como principal consequência para milhares de pessoas a perda dos seus empregos e a destruição das suas carreiras. Isto foi feito não apenas pelas audições e investigações do Senado e da Câmara dos Representantes, mas por duvidosos procedimentos judiciais e privados, entre os quais figura a célebre lista negra de Hollywood (entre muitas que foram redigidas na altura em diferentes ramos). O ambiente vivido nessa época, até meados dos anos 50, era um ambiente de “caça às bruxas” (referência, aliás, também a um episódio norte-americano, em Salem) em que a simples denúncia bastava para destruir a vida do visado, sem necessidade de qualquer processo judicial ou qualquer prova, o que também foi notório até nos muito duvidosos processos judiciais que também ocorreram. Para lá dos comunistas visados, todos os que mostrassem preocupações sociais e até muitos que nada tinham a ver com as preocupações progressistas, por exemplo por serem homossexuais, foram banidos do seu emprego e/ou da sua carreira. Mesmo após a queda em desgraça da campanha, muitos foram aqueles que continuaram banidos dos seus ramos.
Ora, o movimento #metoo, sobretudo a partir da sua expansão em Holywood, mostra características muito similares, sobretudo no que se refere à pretensão de simples denúncias, sem procedimentos judiciais, provocarem o despedimento e o banimento dos acusados. Argumenta-se com a dificuldade da prova, essa chatice, da mesma forma que o macartismo julgava que os comunistas estavam infiltrados e dissimulados pelo Estado e por toda o tecido económico, sendo necessário aproveitar todo e qualquer indício para os desmascarar. Se não se chegou a mais audições no Congresso, como as recentes relacionadas com a escolha do juiz para o Supremo, deve-se apenas ao facto de os republicanos terem a maioria, tal como acontecia no macartismo, mas com um sentido inverso – onde o macartismo foi impulsionado pela maioria, as alegações sem provas e de há longo tempo foram agora reprimidas pela mesma maioria. É perfeitamente evidente que o movimento #metoo tem grandes esperanças nas próximas eleições exatamente por isso. Ver-se-á se o ativismo feminista associado, apesar de um presidente caricatural que tinha tudo para beneficiar os democratas, conseguirá beneficiar o partido que apoia ou se, pelo contrário, o prejudicará. Da mesma forma, também o banimento dos acusados pretendido pelo movimento tem sido mais limitado que o desejado, como, aliás, se verificou nas declarações de alguns intervenientes do programa Prós e Contras, ao identificarem casos de acusados que tinham perdido o emprego e que, entretanto, já se encontravam de novo a trabalhar. Para lá destas limitações resultantes da limitação do seu poder, há outras características similares ao macartismo, não só por os gestos mais irrelevantes do passado, mesmo contra a opinião de alegadas vítimas, poderem ser transformados em indícios acusatórios, mas por se constituir como um exército em que a mínima crítica ao seu sector é respondida com protestos ensurdecedores e a mínima acusação dá origem a um coro de apoio. Por exemplo, é concedido exatamente o mesmo estatuto de vítimas a atrizes que disseram não aos abusos e viram as suas carreiras destruídas ou muito limitadas, e aquelas que os sofreram, se calaram, deixando que acontecessem com outras, e beneficiaram, na sua carreira, desses abusos. Ora, seria muito mais improvável que aquelas tivessem as suas carreiras destruídas, se as outras dissessem não ou, caso fossem violadas, se queixassem do crime. Isso significa que parece, no mínimo, injusto serem postas no mesmo saco. Claro que se pode argumentar com o medo, mas nunca se especifica que medo é esse, pois isso levaria à mesma conclusão. Visto não haver qualquer relato de homicídios ou outras violências físicas, para lá das violações, associado a estes meios, pelo menos nas últimas décadas, o medo em causa parece ser o de ver a sua carreira destruída. Mas foi isso que aconteceu às que resistiram, preferindo tal prejuízo à contemporização com o abuso.
A deputada Isabel Moreira ficou chocada com o paralelo por uma simples razão: porque o macartismo é um movimento de direita e o #metoo é de esquerda, partilhando, aliás, com ela o ideário. Para Isabel Moreira, um movimento que atropela os procedimentos judiciais é bom se for para atacar alegados predadores sexuais, é mau se for para atacar alegados comunistas. Se o #metoo conseguisse tanto poder como o macartismo e estendesse a sua ação ao congresso e às empresas, conseguindo mesmo julgamentos sem provas que não as denúncias, parece óbvio que aplaudiria a vitória do movimento. Daí o seu argumento da empatia, um argumento que procura arrastar as pessoas pela adesão emocional, o que desde a Antiguidade é considerado um procedimento sofístico e demagógico, destinado a conseguir que as pessoas pensem o menos possível, analisem o menos possível e reflitam o menos possível. Aliás, essa é a linguagem de Hollywood que sempre manipulou ideologicamente através dos seus filmes, nomeadamente arrastando as pessoas emocionalmente, como, aliás, bem tem consciência o movimento feminista e LGBT e, por isso, tem feito inúmeras exigências para mudanças nos argumentos e nos elencos. Resumindo, a Dr.ª Isabel Moreira ficou chocada com o paralelo porque nem lhe passa pela cabeça que o objeto da crítica seja o tipo de procedimentos, autocrático e a tender para totalitário, e não tanto o conteúdo ideológico desses procedimentos. Da mesma forma, um filme manipulador que transmitisse uma mensagem conservadora da família e da mulher seria repudiado, ao passo que um filme manipulador que transmitisse uma valorização da ideologia da identidade de género já seria bom. O caráter manipulador de ambos seria indiferente ou só não seria na medida em que servisse de argumento contra a ideologia a que se opõe. Há algum tempo, acusou Ricardo Araújo Pereira de ser de direita (ou ter pensamento de direita) por defender o primado da liberdade de expressão, alegando que a esquerda subordinava tal liberdade às bandeiras da ideologia que defende. É difícil perceber que parte da direita macartista aqui referida seria favorável à liberdade de expressão. E é difícil porque quer de direita, quer de esquerda, quem subordina a liberdade de expressão ao seu roteiro ideológico é o extremismo. O problema é que o Ricardo não é extremista e o Mexia também não, embora seja um de esquerda e o outro de direita, ao passo que o macartismo e Isabel Moreira são. A cisão está aqui entre democráticos e moderados, de um lado, e extremistas e autocráticos do outro.
Que Isabel Moreira não veja qualquer problema nos procedimentos do #metoo ou minimize os seus erros não é de admirar, porque ela é afinal talvez a maior representante desses procedimentos aqui mesmo em Portugal. Por delitos de opinião, Isabel Moreira já exigiu que as ordens profissionais banissem profissionais, incluindo decanos prestigiadíssimos, por muito conservadoras que sejam as suas opiniões, como Gentil Martins. Não se limitou a criticar como estaria em todo o seu direito e até no seu dever, tentou, como noutros casos, obter uma resposta punitiva. Também esteve na linha da frente na luta contra a campanha antitabágica da princesa ou no caso dos cadernos de exercícios, com o respaldo do poder através da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, sempre exigindo proibições, mesmo que isso representasse o desejo de proibir manifestações de ternura da maioria dos portugueses (com as quais, aliás, eu nem me identifico). Isto, aliás, mostra bem como o PS se tornou refém da linguagem e atitudes do ativismo feminista não só de Isabel Moreira, como de amplos sectores do Bloco, que, em muitos aspetos que poderei descrever noutra altura, é contrário a muito do feminismo tradicional. No programa Prós e Contras, foi referida a microfísica do poder estudada por Foucault. Mas se essa microfísica é condenável pela sua normatividade, não a deixa de ser se for feminista ou LGBT, desde que seja igualmente autocrática no limiar dos hábitos que nem são objeto de crítica. Ora, o que pessoas como Isabel Moreira claramente procuram é instituir uma normatividade alternativa mesmo que contrária à vontade da maioria dos portugueses. Daí que não seja de admirar a forma como encerrou o debate, a criticar o resultado da consulta pública por já saber que o resultado lhe não seria favorável. Contra o alegado sexismo português, ergueu a sua condenação moral de iluminada, como sempre aconteceu com todos os fanáticos, incapazes de aceitar a diversidade e julgando-se justificados pela superioridade da sua doutrina, a verdade. E se há coisa que é óbvia em todas as intervenções de Isabel Moreira é a sua inflexibilidade tão fanática, quanto obtusa, incapaz de qualquer compreensão subtil da realidade, ancorada sempre em verdades absolutas. Já não é a primeira vez, a partir do meu canto insignificante, que lanço o aviso para o PS que sempre foi um partido moderado e defensor da liberdade de expressão: está a deixar-se colonizar por uma linguagem que é reflexo de um ideário extremista e autocrático, hipotecando a sua tradição.
Finalmente, há mais um aspeto em que o #metoo e o ativismo feminista recente, e o macartismo se aproximam, desta vez no âmbito do próprio conteúdo: o conservadorismo sexual, o puritanismo. Naturalmente, os seus ataques não incidem exatamente nas mesmas práticas, mas a mesma intenção puritana está lá, tendo como alvo as práticas de sedução, tantas vezes transgressoras até por parte de tantas mulheres (como posso pessoalmente testemunhar abundantemente, apesar de serem casos há muito passados como vários do #metoo). E não é de admirar que por cá, depois de décadas a lutar contra a direita a favor da educação sexual, seja o PS que tenha acabado de banir o seu caráter obrigatório. Também não é de admirar que o género e não o sexo, mesmo no que toca à igualdade, seja o que figura entre as temáticas obrigatórias. Só quem não estudou estes assuntos é que não percebe a importância destas mudanças terminológicas. A instituição da nova microfísica do poder emanada dos setores feministas ativistas e seus aliados ainda está no início e só um sector tem-se mostrado, lá fora, suficientemente forte para se contrapor a este avanço: a extrema-direita. Porque se era evidente há muito a ascensão da extrema-direita, devido à desindustrialização do Ocidente permitida pelo comércio livre, o aumento da dívida, a concorrência desleal da globalização, etc., só faltava mesmo este projeto autocrático à esquerda para dar uma ajuda à captação de fiéis para as fileiras da extrema-direita, visto as forças democráticas não terem capacidade de uma oposição eficaz ao discurso dito politicamente correto. O Brasil não está assim tão longe e não me admirava que um dia destes um Ventura, depois de ser menosprezado por toda a opinião bem-falante, se tornasse o nosso Bolsonaro ou o nosso Orban ou o nosso Trump. E, no final, é isto o mais triste: como é que o feminismo que garantiu uma extensa igualdade sexual jurídica, incluindo inúmeras disposições legitimamente diferenciadoras do estatuto da mulher, iniciou esta deriva intolerante que tenta impor um projeto normativo que se tornou intolerável? como é que os ativistas LGBT se não contentaram com a tolerância sexual legalmente consagrada que muito os protegia e desataram, em vários países, a impor normas de género contrárias às convicções da maioria da população e às próprias necessidades da convivência social? e como não viram que, se conseguissem sequestrar com estes projetos o poder moderado, como conseguiram em tantos países, estavam a empurrar vastos sectores da população para a extrema-direita? Naturalmente, não serão o único fator, mas, pelo que tenho ouvido da boca de tantos alunos ao longo dos anos, são um fator decisivo. Embora Bolsonaro ande a calar muitas das suas opiniões mais extremistas enquanto não tem os votos garantidos, fez questão de sublinhar a intenção de banir das escolas a ideologia do género. Fê-lo porque isso dá votos. Um outro indício ocorreu há algum tempo quando Judith Butler foi impedida de proferir uma conferência numa universidade brasileira não por velhos mas por jovens, tal como aconteceu tanta vez em sentido contrário nas universidades norte-americanas. Não é só a crise, o crime e a corrupção que impulsionaram Bolsonaro. Existe uma saturação das verdades absolutas da esquerda que tem impulsionado, por toda a parte, a extrema-direita. E o que é triste é que esta esquerda, convencida não só da sua verdade mas também do seu poder, tem alienado, arrogantemente, inúmeras pessoas de esquerda como eu ou a Raquel Varela que já não se podem rever neste ideário. Pelo menos, quando se verificar a ascensão da extrema-direita, estarei, enfim, a lutar e talvez a morrer do mesmo lado dessa esquerda. Mas não me esquecerei das suas responsabilidades...

23.9.18

Avaliação 1

     Para quem se tenha perguntado onde estava o "Avaliação 1", transcreve-se em seguida o comentário publicado no Facebook em 17 de setembro:  

     Há já um número razoável de anos, talvez vinte, lembro-me de estar numa formação onde, entre outras coisas, se tratou da avaliação. O formador era um desses exemplos acabados dessas aldrabices pedagógicas que procuram, através de uma relativização prévia, tornar tudo admissível, estratégia já tão antiga como a sofística. Os formandos, com exceção de mim próprio e de outro docente, pareciam aceitar tudo como a palavra de Deus, sem a mínima questão. Penso que o faziam sensatamente porque sempre que era questionada qualquer das suas teses vagamente anarquistas, o formador respondia de forma autoritária, sem minimamente se aperceber do caráter contraditório de tal atitude face às suas teses. Deve ser resultado de um treino especial alcançado nas ciências de educação, uma espécie de artes marciais da absurdidade retórica. Ainda recentemente tivemos um elogio de metodologias dinâmicas e um ataque cerrado às aulas tradicionais, através de uma longa peroração expositiva de mais de três horas. Mas, então, há vinte anos, estava uma destas figuras a atacar a pretensão de se avaliar uma pessoa através dos seus desempenhos. E eu, inesperadamente, vi-me a concordar com ele, tal era a evidência da absurdidade de se pretender avaliar pessoas através de desempenhos circunstanciais. Bom, não me pareceu que estivesse a dizer grande coisa, mas, mesmo assim, não podia discordar de um truísmo. Apenas fiquei mais uma vez descoroçoado por ver vários colegas embevecidos com a revelação, o que me fez ficar desconcertado com a ingenuidade alheia. Mas, de repente, percebi que, contra tudo o que eu estaria disposto a esperar, o formador estava a dizer aquilo para descredibilizar a avaliação dos desempenhos e defender a avaliação das pessoas. Ao longo dos anos, fui lendo e ouvindo a mesma aberração arbitrária reafirmada por tais sumidades e voltei a ouvi-lo no contexto atual.
     Quem no seu perfeito juízo pode pretender estar a avaliar pessoas, seja lá por que processos o faça? Como é que uma pessoa, essa entidade metafísica inefável, pode ser expressa em qualquer qualificação, seja ela de que tipo for? Que tipo de garantias de isenção pode ter uma avaliação que só pode ser uma interpretação subjetiva, no sentido mais arbitrário e abusivo que pode ter a subjetividade? Vejamos, um pouco, que é essa avaliação que só considera secundariamente os desempenhos, o que é que há nela que não é avaliação de desempenhos? Um portefólio é um desempenho que reúne desempenhos, uma intervenção oral é um desempenho, um exercício físico é um desempenho, um insulto dirigido a um colega é um desempenho, assim como um teste ou um trabalho são desempenhos. Tudo o que pode ser objeto de uma avaliação não arbitrária é um desempenho observável. Naturalmente, poder-se-á ter em conta fatores que atingem a pessoa e dos quais se tenha um conhecimento fiável, como, por exemplo, a morte de um dos pais do aluno, uma doença, etc. Mas esses fatores não são o objeto da avaliação, mas sim fatores que se devem ter em conta ao avaliar os desempenhos. De resto, é sempre com os desempenhos observáveis que lidamos, mesmo nos domínios considerados pessoais: este tenta se mostrar muito desgraçado, aquele, por introversão, tenta ocultar as desgraças por que, de facto, passa. Que resta então para lá dos desempenhos observáveis e das circunstâncias factuais apuradas? A avaliação da pessoa. Mas que pessoa é essa que está para lá dos dados observáveis? Com certeza que deve existir uma pessoa para lá do que é observável, mas que um docente tenha a presunção de a atingir poderá ser outra coisa senão uma construção subjetiva arbitrária? Pode, mas é algo ainda pior, é uma construção ideológica que se justapõe aos dados observáveis, com o objetivo de os falsificar e conseguir obter os resultados que se querem. Por mais calhamaços que façam a relativizar a avaliação para poder depois martelar à vontade os resultados, qualquer avaliação que não se cinja aos desempenhos observáveis, mesmo tendo em consideração outros fatores, é pura e simples aldrabice. Pior ainda, serve de sustentação para uma avaliação baseada nos estereótipos, preconceitos e reservas ideológicas que cada avaliador possa ter. Em última análise, essa relativização da avaliação dos desempenhos só serve para permitir que cada qual faça o que lhe apetece, sob o pretexto de estar a avaliar a pessoa. E se já vi tantos docentes e ideólogos pedagógicos a defender essa avaliação integral que transcende os desempenhos, pergunto-me porque é que não vi nenhum a defender que a avaliação dos docentes fosse uma avaliação das suas pessoas em vez do seu desempenho?

22.9.18

Avaliação 2


            Vamos por partes que o nevoeiro lançado pela propaganda para-educativa é tão grande que dificilmente se pode chegar a algum lado com uma abordagem global.
Primeiro, porque é que os testes escritos têm sido o instrumento de avaliação privilegiado? Porque permitem o controlo de quem o faz e de como é feito, ou seja, destinam-se a evitar aldrabices, como ocorrem nos trabalhos feitos pelos alunos fora das aulas, estando os alunos tão deseducados a este nível (pela escola) que nem têm consciência que plágio é crime. Imediatamente, a este propósito há professores que afirmam logo que os testes não garantem nada porque eles copiam e ainda há os que dizem que não são polícias. Pois, é claro que, se não cumprem o trabalho de vigilância, não se pode esperar resultados do que não existe. Um teste escrito é um instrumento de avaliação e de vigilância das condições em que aquela é levada a cabo. Se os professores não vigiam devidamente, não estão a cumprir a sua obrigação, tornam-se agentes de injustiça e, nesse caso, seria melhor que nem fizessem testes.
            Segundo, quando se afirma que o que importa é aprender e não fazer testes, há que perguntar, se se aprendeu, porque é que isso não pode ser revelado num teste escrito ou oral e se considera que são mais adequados instrumentos de avaliação que permitem mais facilmente a fraude? Será que se tem medo do que os testes possam revelar?
            Terceiro, é absurdo fornecer receitas comuns para os doze anos de escolaridade. Mesmo o velhinho Platão defendia uma aprendizagem exclusivamente lúdica nos estágios iniciais, evoluindo muito gradualmente, ao longo dos anos, para uma aprendizagem mais rigorosa, formal e abstrata. Tal evolução corresponde, igualmente, ao desenvolvimento das estruturas cognitivas analisado no construtivismo de Piaget.
            Quarto, os exames que têm existido no secundário favorecem o adestramento. De facto, a sua rigidez permite que existam bons resultados com métodos idênticos aos usados em animais para eles fazerem habilidades, podendo ser condicionados para executar gestos e aparentes comportamentos que, verdadeiramente, não correspondem a uma real aprendizagem. Um animal pode ser treinado para responder a perguntas estereotipadas com sons ou carregando em botões, sendo recompensado pelos simples desempenhos mecânicos, sem isso corresponder a qualquer compreensão. Daí que não sejam de admirar as conclusões de um estudo da Universidade do Porto que concluiu que os alunos provenientes das escolas privadas, após o melhor desempenho nos exames para que foram adestrados, acabavam por ter piores resultados que os alunos provenientes das escolas públicas no prosseguimento dos estudos. Por muito que as escolas públicas tivessem imitado alguns procedimentos das privadas, nunca puseram completamente de parte os objetivos formativos mais globais. Pelo contrário, alunos que foram intensivamente adestrados para os exames perderam três anos de uma formação mais real, mais global e mais útil para o desenvolvimento dos estudos superiores. Mesmo o facto de os alunos das privadas serem de um nível médio socioeconómico superior ao dos das públicas não impediu a maior dificuldade de adaptação à versatilidade das exigências do ensino superior.
            Quinto, mesmo que os exames se tornem menos rígidos, que não seja possível um adestramento tão estrito, que permitam avaliar conhecimentos e não a habituação aos procedimentos até aqui seguidos, não deixarão de ser exames, ou seja, provas escritas (ou orais, em certos casos) presenciais e submetidas a rigorosa vigilância. Determinados entusiastas da atual reforma (apesar de só não ser idêntica a outras antigas devido à muito pior implementação) ficam muitos satisfeitos com a perspetiva de se vir a separar completamente a avaliação do ensino secundário do acesso ao ensino superior. Como também já antes aconteceu, as provas de acesso poderão vir a ser feitas ou avaliadas nos estabelecimentos de ensino superior. Isso nunca alterará o facto de o sucesso desse acesso ser decidido pelo percurso anterior do aluno.
            Sexto, pelo motivo acabado de referir, pretender assegurar, antes de mais, a felicidade dos nossos alunos do ensino público secundário sem nos preocuparmos com o seu futuro é socialmente criminoso. A estas objeções, os representantes da confissão a que chamam ciências da educação respondem (pelo menos, em todos os casos que ouvi até hoje) com referências genéricas do estilo: “há lá fora estudos que mostram que os resultados não se alteram, mas ainda nenhum aqui foi feito” ou “os resultados desta ou daquela experiência situam-se na média nacional”. Qualquer pessoa que tenha trabalho nesta área sabe que isto são declarações absurdas. Tratar um assunto tão decisivo para as aspirações de vida dos nossos alunos com esta ligeireza revela intenções ideológicas que recusam qualquer refutação pelos factos. Aliás, é sabido que só se fazem declarações vagas deste género para ganhar conversas ou discussões, não para fazer verdadeiro trabalho científico. Por outro lado, dizer que está na média não quer dizer nada: pode ser muito bom no Vale da Amoreira e péssimo no Restelo. Depois, se os entusiastas provenientes dos círculos superiores dos estudos sobre a educação não cessam de utilizar como exemplo experiências como os da Escola da Ponte, porque é que, ao longo de todas estas décadas, ainda não fizeram um estudo rigoroso, quantificado, alicerçado em algo mais que retórica, sobre os resultados posteriores dos seus alunos, quer no ensino superior, quer na sociedade? Estes assuntos arrastam-se há tantas décadas que o facto de não se apresentarem estes estudos só pode significar uma de duas coisas: ou têm medo de os fazer porque já sabem quais serão os resultados (a não ser que os aldrabassem com retórica); ou já os fizeram e estão a ocultá-los de forma a não prejudicarem os seus desígnios ideológicos.
            Sétimo, ninguém aprende a nadar andando de bicicleta, ninguém aprende a interpretar um texto fazendo colagens da internet, ninguém aprende a fazer contas copiando o que o barra da turma fez. Uma característica dos agentes destas reformas é sempre o de fazerem uma profissão de fé prévia num relativismo: o que ensinamos não importa para nada porque não está adequado às profissões do futuro, o que se aprende pelos meios tradicionais é esquecido, o que avaliamos negligencia vários estilos de aprendizagem e vários tipos de inteligência, etc. É caso para perguntar, nesta relativização do saber, se nas profissões do futuro dois mais dois passará a ser cinco, se os poemas belos passarão a ser feios ou se a hidrólise passará a decompor, em vez do hidrogénio da água, urânio. Apesar de tudo, todas aquelas declarações têm alguma verdade, mas têm uma intencionalidade fundamentalmente enganadora, pois são seguidas pela apresentação de modelos que se destinam a encontrar sucesso seja de que forma for, sobretudo pela eliminação de controlos rigorosos das aprendizagens. Claro que dizem que não, que até a diversificação de instrumentos permitirá um controlo muito mais rigoroso e diferenciado, mas aí estes modelos confiam em algo que bem conhecem: a preguiça profissional. Despejam em cima dos professores uma catadupa incomportável de exigências burocráticas que tornariam a sua vida um inferno caso as cumprissem criteriosamente. O resultado é que, a pouco e pouco, facilitam até que finalmente se possa afirmar o sucesso global. A receita já é bem conhecida de qualquer docente. De qualquer forma, esse sucesso não garantirá qualquer preparação adequada para o acesso ao ensino superior que, de uma ou outra forma, será feito por testes que terão sido minimizados ou relativizados no ensino anterior.
            Oitavo, tal flexibilização e tal avaliação independente do prosseguimento de estudos já existe no ensino profissional e podemos ver o que significa no acesso ao ensino superior. Porque não se apresentam os dados quanto aos resultados obtidos por alunos do ensino profissional que se candidatam como externos aos exames nacionais? É fácil ver porque não se fazem tais estudos.
            Nono, separar, por completo, como já ouvi muitos dos entusiastas a afirmar e parece estar em algumas intenções de certos setores do poder executivo, a avaliação do secundário do acesso ao ensino superior, sobrevalorizando formas de avaliação discordantes das utilizadas nesse acesso, não poderá deixar de significar um aumento do fosso, no secundário, entre o ensino público e o ensino privado no acesso à universidade. Os pais e, por vezes, os filhos não deixarão de ter ambições sociais e procurarão as instituições de ensino que melhor garantirão o futuro. Estranhamente, a esquerda, como considera negativas as desigualdades sociais, muito embora não acabando com elas, não promove essa mobilidade social vertical que tem sido propiciada pela educação, não vendo que, caso os seus desígnios sejam realizados no ensino público, isso significará que se tratará de um ensino para pobres ou menos abonados que só terão acesso aos cursos e às instituições de ensino superior que os outros não quiserem.
            Décimo, a maior de todas as falácias do nosso sistema de ensino é a rejeição de que seja um sistema de seleção. É e tem de ser, e tê-lo-ia de ser mesmo numa sociedade igualitária que não deixaria de ter uma imensa diversidade funcional que haveria que satisfazer. Uma sociedade é um todo orgânico e é necessário cumprir nesse todo uma imensa diversidade de papéis. O sistema de ensino não surgiu para assegurar o simples cumprimento de direitos, mas para assegurar e melhorar o funcionamento da sociedade. O facto de ser seletiva não deveria, aliás, significar que fosse exclusiva. Um sistema de ensino adequado à sociedade que serve deveria permitir descobrir um lugar adequado para todos, parcialmente decidido pelas escolhas individuais, parcialmente decidido pela exigência das funções. Isto é o que já acontece, embora de forma certamente imperfeita, até porque os entusiastas que tenho vindo a referir insistem em rejeitá-lo porque, não tendo conseguido fazer uma revolução mais ou menos anarquista na sociedade, procuram fazê-la no sistema educativo, mesmo em completa contradição com a sociedade competitiva, estratificada e orgânica, com a esperança que a educação de hoje dê origem à revolução na sociedade amanhã e pouco se importando com o sofrimento a que dão origem ao estarem a criar inadaptados sociais incapazes de lidarem sequer com as vicissitudes do mercado laboral. O sonho, aliás, desses revolucionários encapotados não passa de um idílio sem substância como as referências de Marx, no Capital, à sociedade comunista, sem autoridade, sem Estado, sem divisão fixa do trabalho – e também sem existência possível numa sociedade industrializada, nunca mostrando como a sociedade sem Estado poderia provir do Estado socialista, da ditadura do proletariado. Quanto ao sonho tecnológico de deixar de ser necessário trabalhar, será possível nos países privilegiados enquanto o puderem ser. Para a maior parte da população humana, isso não passa de um sonho sem substância que, aliás, implicaria continuar a predação dos recursos do planeta até à sua exaustão. Sim, porque o trabalho humano é renovável e até necessário para a saúde quando não assume formas opressivas, ao passo que o trabalho maquinal usa sempre recursos não renováveis ou não multiplicáveis do planeta.
            Décimo primeiro, os entusiastas do modelo de dissociação da aprendizagem do acesso ao ensino superior falam sempre aos professores de forma paternalista, com a infinita compreensão de quem viu a luz e tem de ser paciente para com os seres limitados que lançam as suas dúvidas e objeções. Porém, essa luz dos entusiastas é, como todas as formas de fé, demasiado unilateral. Pegam num determinado ponto de vista vago, por exemplo, a aprendizagem em geral e acreditam piamente que o seu modelo será muito mais adequado para as exigências do futuro. Assim que são confrontados com os passos concretamente necessários para os nossos alunos poderem efetivamente realizar as suas ambições, refugiam-se nas generalidades como as das profissões de futuro, como se nessas profissões não se viessem a procurar, se tiverem condições para as contratarem, as pessoas formadas da forma mais exigente possível.
            Por fim, as pessoas que, ao longo dos anos, têm mantido as suas posições, seja de que lado for, ou que só as mudaram por uma evolução intelectual própria merecem o meu respeito. Porém, essas são sempre minoritárias. Também não vale a pena referir aqueles cujo único fito é ver onde e como trabalharão menos. Tão pouco me refiro a tantos que se mantêm prudentemente em silêncio. A maioria dos restantes estava há alguns anos a exigir que os testes “sumativos” pesassem 85 ou 90% na avaliação e agora já está a defender a conceção formativa da avaliação que está consagrada na legislação desde os anos 90. Ainda há não muitos anos fui proibido, por tal maioria, de ter uma conceção estritamente formativa dos testes (apesar de sempre diferentes e muito mais rigorosos que muitos “sumativos”), muito embora a alicerçasse na legislação, numa série de teorias pedagógicas e no próprio programa disciplinar, e de o ter escrito em diversíssimos documentos. Na verdade, essa maioria já passou por outras fases anteriormente. Se recuarmos aos tempos da Área-escola, a maioria chegou a situar-se mais ou menos numa situação próxima da atual. Agora diz que os DAC são diferentes unicamente porque aquela falhou e porque as designações mudaram. E apesar de já saber isto há muito tempo, não posso deixar de me continuar a perguntar: como se pode defender coisas tão contraditórias num tão curto período, só porque a tutela dá uma diferente indicação? Não estou a falar de obedecer. Eu sou funcionário, eu obedecerei. Estou a falar de defender uma posição, estou a falar de pensamento próprio. Ou será que não o tem, apenas seguindo o lado de que sopra o vento?

27.1.18

Objetivo central do Clube de Debate

O Clube de Debate é um pequeno contributo para uma tarefa titânica, porventura impossível: promover pessoas e combater a gente. Nenhum outro objetivo é mais importante. Trata-se de combater a tendência das pessoas desaparecerem sob a forma de gente. A gente é o coletivo indiferenciado, é “o que se diz”. “É o que toda a gente diz”, “é o que toda a gente faz”, “toda a gente sabe isto” – esta é a forma de cada qual desaparecer no meio de uma autoridade indiscutível que não é nada, nem ninguém, a que não se pode pedir contas até por não ser alguém que se possa responsabilizar. Se, de facto, fosse toda a gente nem seria necessário utilizar tal recurso argumentativo, mas a verdade é que a gente não se preocupa muito com a racionalidade. Tem a força do coletivo e essa força é especialmente eficaz não a expor razões, mas a anular qualquer razão que se pudesse apresentar.
Que tal atitude todos possa infetar não é surpreendente. Desde a minha juventude, tenho visto pessoas inteligentes e interessantes que, assim que enfileiram uma organização política, passam a ser soldados de um exército ideológico e não hesitam em ser incongruentes, falaciosos, desonestos, recorrer a todas as táticas primárias de intimidação e ridicularização, só para trazerem dividendos para o seu regimento. Tornam-se gente e aquilo que define a pessoa, a racionalidade, deixa de ser importante ou até passa a ser algo a combater. Vê-se isso nestas redes sociais, como indivíduos com qualidades se anulam dizendo a tudo que sim se vier dos seus chefes e apaniguados, por mais absurdo que seja, de forma acéfala, sem o mínimo espírito crítico, e repudiam veementemente tudo que lhes cheira vir de ou convir a adversários por mais razões que sejam apresentadas – e isso abrange gente de rigorosamente todos os partidos parlamentares. Por outro lado, é impressionante ver como homens que se dedicaram à política partidária voltam a ser pessoas quando abandonam essa vida política e acabam por mostrar quanto da sua individualidade reflexiva tinham castrado para servir as suas hostes. Enquanto membros de um coletivo e em prol do coletivo, havia que arregimentar, ganhar força, contar espingardas, não só (mas também) para fazer frente a outros coletivos, mas sobretudo para eficazmente esmagar pessoas. É a lógica dos grupos de bullies. Se temos força, se temos número, podemos humilhar, ridicularizar, violentar até – não precisamos de ter coragem, não precisamos de nos esforçar, não precisamos de argumentar pois temos o regimento para nos apoiar por mais disparatado que seja o que dissermos, o que fizermos ou o que impormos. Claro que isso é útil para confrontar grupos de rufias inimigos, mas primariamente o seu alvo são as pessoas, visto na sua fragilidade individual residir, por um lado, uma ameaça de pensamento livre que tais grupos abominam, mas, por outro, caso consigam quebrar a sua individualidade, também a possibilidade de reforço do exército com mais soldados. Não é, aliás, por acaso que as praxes, que ou tinham desaparecido, ou nunca tinham existido (conforme os locais e estabelecimentos) ainda há poucas décadas, tenham regressado com tanta força ou sido criadas do nada. Ali faz-se gente – é o que significa a alegada integração. Onde é que o espírito crítico que deveria ser apanágio do espírito académico se encontra nesses supostos detentores da vida académica é que é impossível dizer.
O Clube de Debate deveria ser a antítese dessa atitude, deveria ser um fórum da afirmação da individualidade crítica e reflexiva que se expressasse através da argumentação e não um confronto de seitas como os que vemos nos debates televisivos partidários ou futebolísticos, em que é raro o argumento decente que se apresenta, a razão do adversário que é considerada seriamente ou qualquer dialética que permita que algum desenvolvimento argumentativo nasça do confronto de ideias. Alguém que mantenha alguma integridade intelectual, ao estudar um pensamento adversário, tenta em primeiro lugar compreendê-lo, identificar as suas razões, examinar a consistência e valor dos seus argumentos e ponderar se as suas conclusões não poderão ter, afinal, algum sentido. Em tempos, estudei com alguma atenção o livro de Hitler, não para gozar com os seus argumentos ou teses, mas para tentar compreender as suas razões e o seu sentido, muito embora abomine as suas teses. Um partizan nunca faz semelhante coisa a não ser em relação aos autores canonizados na sua seita. Mas mesmo entre os partidos encontra-se sempre pessoas que resistem a este enfileiramento acéfalo. Lembro-me de dois excelentes historiadores, um conservador e outro esquerdista que nem, por isso, deixaram de mostrar, o primeiro, como a monarquia caiu de podre, não acreditando em si mesma, ao contrário do discurso habitual de certos setores conservadores, e o segundo, como o Estado Novo correspondeu-se ao desejo de uma solução autoritária comum à generalidade dos atores políticos, incluindo os próprios políticos da primeira República. Mas quão raras são estas figuras dado o ambiente tóxico dessas estruturas intelectualmente burocráticas a que chamam partidos.
Quem mantém alguma integridade intelectual não pode fazer aquilo que vemos ser feito pelos nossos políticos no Parlamento. É preciso que se diga: isso não é nenhum debate. Cada político reproduz um discurso estereotipado que todos os membros do seu partido proferem e está aparentemente impedido de considerar qualquer razão de um adversário (razões identicamente estereotipadas, é certo) a não ser com apartes, ridicularização, grunhidos diversos e gargalhadas alarves em conjunto com os parceiros que parecem um bando de ébrios arruaceiros já incapaz de um grau maior de argumentação. Quando vão à televisão, onde já não têm o seu bando a fazer coro, os políticos recorrem a todas as falácias clássicas e modernas, abusando da falta de educação lógica do público para conseguir dividendos com os argumentos mais grosseiramente defeituosos. Nunca consideram a argumentação adversária senão com variações diversas da falácia do espantalho, em que distorcem ou caricaturam a posição adversária até se tornar irreconhecível, para depois pretender refutá-la. Nunca tentam verdadeiramente compreender o outro, nunca há verdadeiro diálogo, trata-se de uma transmissão unilateral da propaganda própria que tem como única vantagem em relação à de uma ditadura, o facto de se consentir que vários divulguem a sua propaganda, isto claro se pertencerem a uma das seitas reconhecidas. Ora, nada disto é, ao contrário do que se busca fazer crer, um verdadeiro debate, uma luta argumentativa em que os argumentos adversários são considerados, ponderados no seu valor e validade, e respondidos não por argumentos que ignorem os argumentos contrários, mas por argumentos que incorporem os contrários, que os considerem no que se julga dever ser considerado, que rejeitem o que se julga dever ser rejeitado por argumentos melhores, que permitam ir além do que antes se foi e assim sucessivamente em cada ronda argumentativa. Só por isso o debate vale a pena. O debate permite efetivamente a evolução da nossa reflexão e o confronto com outras perspetivas faz-nos crescer argumentativamente. Embora possam existir fases de solidão, nenhum pensamento verdadeiramente rico e penetrante se constituiu sem ser em diálogo e em debate com os outros. Que não se confunda o verdadeiro debate com essa pantomina que vemos ser encenada nos media a fingir debates que não existem, com uma falta de integridade e de honestidade que tem vindo a afastar cada vez mais as pessoas de boa vontade desses meios pouco recomendáveis. Que antes se debata para melhor se pensar e não que se finja o debate, papagueando o discurso da fação, para nunca se correr o risco de pensar. Que se debata para se crescer como pessoa e não que se faça coro para definhar como gente. Que assim seja no nosso Clube ou ele não terá qualquer sentido.

16.2.17

Liberdade e necessidade - Análise temática da totalidade da correspondência entre Gottfried Leibniz e Samuel Clarke (1715/1716)

Tornei público recentemente um trabalho meu concluído no ano passado. Como ninguém mostrou qualquer interesse em publicá-lo, disponibilizei-o graciosamente na net. Podem encontrá-lo no seguinte endereço:
https://www.academia.edu/30666397/Liberdade_e_necessidade_-_An%C3%A1lise_tem%C3%A1tica_da_totalidade_da_correspond%C3%AAncia_entre_Gottfried_Leibniz_e_Samuel_Clarke_1715_1716_

11.9.16

Primeiro apontamento com atividades de Filosofia - 10º C, D, E e I - AESA

Bem vindos. Em baixo, têm uma hiperligação a um ficheiro que tem alguns dos textos que serão utilizados nas aulas neste primeiro período. Após os textos, encontra-se um apontamento referente a toda a primeira unidade didática do programa. Boa leitura e bom ano.


12.9.15

Primeiro apontamento de Lógica - Filosofia e AI


Olá pessoal

Aqui fica a ligação ao primeiro apontamento, dedicado, sobretudo, à lógica formal. Está em pdf porque tenho visto que se desconfigura com facilidade em word, nos vários PCs do pessoal. A abordagem em AI será muito menos exigente, mas podem recorrer ao mesmo apontamento, visto esta parte da matéria não estar no vosso manual (apesar de prevista no programa).





5.11.14

Apontamento para o 2º tema de A.I.

Aqui podem encontrar este apontamento complementar ao 2º tema:
https://groups.google.com/forum/?fromgroups=#!topic/riskici/j96FdgTCWlA

3.11.14

Apontamento atividade e valores

Podem encontrar o 2º apontamento, juntamente com a última versão do 1º apontamento, já com todas as gralhas detetadas corrigidas, aqui:
https://groups.google.com/forum/?fromgroups=#!topic/riskici/yizo1zHzWxg

13.9.14

Primeiro conjunto de textos, atividades e apontamentos para Filosofia - 10º ano

Bem vindos ao secundário e à Filosofia. Nesta ligação, poderão encontrar o primeiro conjunto de materiais complementares de apoio que se tentará também disponibilizar por correio eletrónico:
https://groups.google.com/forum/?fromgroups=#!topic/riskici/qmaOGHLONF8

27.1.14

Apontamento de gnosiologia - Fil 11º


Este apontamento inclui uma introdução aos problemas gerais do conhecimento, um conjunto de apontamentos e textos de apoio que visam completar ou esclarecer os pontos do manual acerca de Descartes e de Hume, e um apontamento genérico acerca de Kant (cujo grau de aprofundamento na lecionação poderá não ser tão grande). Pode ser acedido, em formato Word, aqui: https://groups.google.com/forum/?fromgroups#!topic/riskici/QeW_nwzTD2Y

14.9.13

Apontamento de Lógica - Filosofia 11º ano

Bem vindos ao novo ano. Encontram o apontamento em Word nesta hiperligação:
https://groups.google.com/forum/?fromgroups#!topic/riskici/8oQnEzj1Thw

13.9.12

Primeiro apontamento e atividades de Filosofia

Bem vindos! Podem descarregar o primeiro apontamento do 10º ano de Filosofia aqui:
https://groups.google.com/forum/?fromgroups#!topic/riskici/wy6xrvK4cYA

13.9.11

Novo apontamento comum a Filosofia e AI - Lógica

Espero que tenham tido umas boas férias. Aqui começa a nova liça. Extraordinariamente, Filosofia e AI vão ter uma leccionação muito semelhante em comum, razão do apontamento, originalmente feito para Filosofia, ser comum. Poderão encontrá-lo em

http://groups.google.com/group/riskici/browse_thread/thread/4d3e7d3bb6f2fa40#

8.12.10

M.F.I.
MOVIMENTO DAS FORÇAS INTERROGATIVAS


O Blog das Perguntas!
As perguntas poderão ser o caminho Régio para a VERDADE!
Alguns diriam: "A PERGUNTA É UMA ARMA"
(A boa pergunta, diga-se)
Uma Arma contra o Conformismo, a favor da verdade e da lucidez!
Quem pergunta procura o caminho!

Luís Mourinha

18.11.10

Apontamento para Filosofia - 10º ano - Acção e valores

Este 2º apontamento tenta complementar o manual, sem o substituir, nas unidades da acção, dos valores e na introdução à unidade de ética. Pode ser descarregado aqui:
http://groups.google.com/group/riskici/browse_thread/thread/6f9f0329ec37b635?pli=1

11.10.10

Esclarecimento da Actividade 2 de Filosofia

A actividade 2 requer, sobretudo, a interpretação do final do texto 2 de Bertrand Russell, onde este põe em confronto as figuras do pintor, do homem prático e do filósofo, a propósito do exemplo anterior da cor do tampo de uma mesa. Nesse exemplo, Russell contrapõe uma atitude inicial ingénua (“Se bem me convença de que esta mesa é toda "realmente" da mesma cor…”), a uma primeira atitude dubitativa com base na constatação de que, de facto, não está a ver uma mesa toda da mesma cor, nem tão-pouco as cores se mantêm quando ocorre uma mudança de perspectiva. No parágrafo final, ele começa por dizer que para o homem prático (o senso comum) estas distinções não importam. O homem prático, se fosse solicitado a dizer se a mesa era toda da mesma cor, diria prontamente que era; e, se se insistisse, perguntando-lhe como é que ele o sabia, diria imediatamente que era o que via. Responderia isso por duas razões: a primeira é porque considera a cor uma realidade da mesa e não da sua percepção da mesa – daí que lhe pareça mais adequada uma cor substancial, persistente, do que um conjunto de tonalidades sempre a mudar; a segunda é porque lhe parece ser a resposta mais fácil e imediata, que traz menos problemas e que despacha um assunto que não lhe interessa problematizar (se é que algum interessa).
Ora bem, a figura do pintor surge no texto exactamente para evidenciar os erros do homem prático. O pintor que pretenda reproduzir num quadro exactamente aquilo que vê de uma mesa, não poderia pintá-la toda da mesma cor. Sem sombras, sem reflexos, sem tonalidades, sem a mistura de várias as cores, o quadro seria péssimo. Desta forma, esta figura evidencia o duplo erro do homem prático: em primeiro lugar, confunde aparência com realidade – o que vê não pode ser a exacta realidade da coisa, pois isso significaria que conforme a mudança de perspectiva, imediatamente mudaria essa realidade; em segundo lugar, aquilo que diz que vê nem sequer é o que vê – o que diz que vê é o resultado da sua percepção, daquilo que interpreta automaticamente a partir daquilo que vê, e não, de facto, o que está a ver. Pelo contrário, o pintor, ao pretender captar num quadro o que vê, tem perfeita consciência de estar a captar uma aparência momentânea que nunca poderia ser a realidade da coisa em causa.
A este propósito, ainda alguém poderia dizer: “Está bem… Mas se descontarmos os reflexos e a perspectiva subjectiva, a mesa é, de facto, toda da mesma cor.” Na aula e na continuação do texto de Russell, foi sublinhado que se se tirar toda a reflexão da luz e toda a perspectiva subjectiva, não faz sentido sequer falar de cor da mesa. Não há cor que não a que resulta da própria luz e da sua reflexão. A cor varia conforme varia a fonte de luz. Da mesma forma, diferentes aparelhos perceptivos poderão ver cores diferentes na mesma situação. Daí que se considere a cor uma qualidade subjectiva, que nos diz mais acerca da forma como percebemos uma coisa, do que acerca da própria coisa.
A consciência da distinção entre aparência e realidade é fundamental para o filósofo, para que este inicie a sua investigação acerca do que é a realidade. Tendo a perspectiva do homem prático, não há qualquer investigação a fazer: basta olhar para algo, para se conhecer a coisa em questão. É verdade que parece mais próximo do filósofo do que do pintor porque quer saber o que é a realidade – mas qualquer resposta imediata lhe serve para considerar que já conhece a realidade; além disso, contradiz-se sem sequer se dar conta disso (não se dando conta que o que diz que vê, não é, afinal o que, de facto, vê). Tão-pouco se pode considerar próximo do pintor visto nem conseguir (porque não lhe convém) identificar correctamente a aparência sensível. Não pode, assim, deixar de estar longe de ambos.
Assim, concluindo, o pintor intenta captar a aparência, com perfeita consciência da sua distinção da realidade; o homem prático confunde aparência e realidade, acabando por não conseguir ter consciência nem de uma, nem de outra; o filósofo parte da distinção para tentar descobrir o que é a realidade, mesmo que acabe por nunca ter a certeza do que ela é – no fundo, também está aqui presente o velho projecto que deu origem à palavra filosofia: amor à sabedoria significa que o objectivo é sempre desejado muito embora possa nunca vir a ser alcançado.

28.2.10

David Hume: O problema da existência do mundo exterior; Crítica ao realismo

Parece evidente que os homens são levados, por um instinto ou predisposição natural, a depositar fé nos sentidos; e que, sem qualquer raciocínio ou mesmo quase antes do uso da razão, supomos sempre um universo externo, que não depende da nossa percepção, mas existiria, ainda que nós e todas as criaturas sensíveis estivessem ausentes ou fossem aniquiladas. Até mesmo o mundo animal é governado por uma opinião semelhante e preserva a crença dos objectos externos em todos os seus pensamentos, intenções e acções.
Parece também evidente que, ao seguirem este cego e poderoso instinto da natureza, os homens supõem sempre que as próprias imagens, apresentadas pelos sentidos, são os objectos externos e nunca alimentam qualquer suspeita de que umas nada são excepto representações dos outros. Pensa-se que esta mesa aqui, que vemos ser branca e cuja dureza sentimos, existe independentemente da nossa percepção e é algo de externo à nossa mente, que a percebe. A nossa presença não lhe confere o ser; a nossa ausência não a aniquila. Ela salvaguarda a sua existência uniforme e inteira, independentemente da situação dos seres inteligentes, que a percebem ou contemplam.
Esta opinião universal e primitiva de todos os homens, porém, cedo é destruída pela filosofia mais trivial, a qual nos ensina que nada pode estar presente à mente a não ser uma imagem ou percepção, e que os sentidos são apenas as entradas por onde as imagens são transportadas, sem conseguirem suscitar uma comunicação imediata entre a mente e o objecto. A mesa, que vemos, parece diminuir, à medida que dela mais nos afastamos, mas a mesa real, que existe independentemente de nós, não sofre nenhuma alteração; não passava, pois, da sua imagem, que estava presente à mente. Eis os óbvios ditames da razão; e nenhum homem, que reflicta, alguma vez duvidou que as existências, por nós consideradas ao dizermos esta casa e aquela árvore, são unicamente percepções na mente e cópias ou representações fugidias de outras existências, que permanecem uniformes e independentes.
 
Até agora, pois, somos forçados pelo raciocínio a contradizer ou a apartar-nos dos instintos primitivos da natureza e a adoptar um novo sistema em relação à evidência dos sentidos. Mas a filosofia encontra-se aqui extremamente embaraçada, ao ter de justificar este novo sistema e neutralizar as cavilações e as objecções dos cépticos. Não mais pode defender o instinto infalível e irresistível da natureza, porque isso nos levou a um sistema completamente diferente, que se reconhece ser falível e até erróneo. E justificar o pretenso sistema filosófico por meio de uma cadeia de argumentos claros e convincentes, ou mesmo mediante uma aparência de argumentação, excede o poder de toda a capacidade humana.
Mediante que argumento se pode demonstrar que as percepções da mente devem ser causadas por objectos externos, totalmente diferentes delas embora com elas se parecendo (se isso é possível) e que não podiam surgir ou da energia da própria mente, ou da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, ou de uma outra causa ainda mais incógnita para nós? Sabe-se que, de facto, muitas das percepções não brotam de algo externo, como nos sonhos, na loucura e noutras doenças. E nada pode ser mais inexplicável do que a maneira como o corpo tem de agir sobre a mente, a fim de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância de natureza supostamente tão diversa e mesmo contrária.
É uma questão de facto se as percepções dos sentidos são produzidas por objectos externos, a elas semelhantes: como irá decidir-se tal questão? Pela experiência, certamente, como todas as outras questões de natureza similar. Mas, aqui, a experiência é e deve ser inteiramente muda. A mente nunca tem algo presente a si a não ser as percepções e, possivelmente, não pode obter qualquer experiência da sua conexão com os objectos. Por conseguinte, a suposição de uma tal conexão é desprovida de todo o fundamento no raciocínio.
Recorrer à veracidade do Ser supremo para demonstrar a veracidade dos nossos sentidos é, sem dúvida, realizar um circuito muito inesperado. Se a sua veracidade estivesse nesta matéria deveras implicada, os nossos sentidos seriam totalmente infalíveis, porque não é possível que Ele nos possa enganar.
 
David Hume, trad. port. Artur Morão, Investigação sobre o Entendimento humano, XII, Parte I, 118-120.

30.1.10

Descartes - A demonstração da existência do mundo físico e a forma como é recuperado

Devido à confusão provocada pela obscuridade do manual no que respeita à recuperação do mundo físico e à forma como é recuperado, e, ainda, ao facto de não ser citado qualquer texto a este propósito, apresento, em seguida, algumas palavras do próprio Descartes:

“1. Que razões nos fazem saber certamente que há corpos.

Se bem que estejamos suficientemente persuadidos que há corpos que existem verdadeiramente no mundo, como, porém, duvidámos anteriormente disso e pusemos isso no número dos juízos que havíamos feito desde o começo da nossa vida, é necessário que investiguemos aqui as razões que nos fazem ter disso ciência certa. Em primeiro lugar, experimentamos em nós mesmos que tudo o que sentimos vem de outra coisa qualquer que não o nosso pensamento; porque não está no nosso poder fazer que tenhamos um sentimento em vez de um outro, dependendo isso dessa coisa segundo a forma como toca nossos sentidos. É verdade que poderíamos nos questionar se Deus ou qualquer outro que não ele, não poderia ser essa coisa; mas, por causa de nós sentirmos, ou melhor, dos nossos sentidos nos excitarem, muitas vezes, a perceber, clara e distintamente, uma matéria extensa em comprimento, largura e profundidade, da qual as partes têm figuras e movimentos diversos, de onde procedem os sentimentos que temos das cores, dos odores, da dor, etc., se Deus apresentasse à nossa alma, imediatamente por ele próprio, a ideia dessa matéria extensa, ou, somente, se ele permitisse que ela fosse causada em nós por qualquer coisa que não tivesse qualquer extensão, nem figura, nem movimento, não poderíamos encontrar razão alguma que nos impedisse de crer que ele encontrava prazer em nos enganar; pois nós concebemos essa matéria como uma coisa diferente de Deus e do nosso pensamento, e nos parece que a ideia que temos disso se forma em nós ocasionada pelos corpos de fora, aos quais é inteiramente semelhante. Ora, considerando que Deus não nos engana de forma alguma, visto isso repugnar à sua natureza, devemos concluir que há uma certa substância extensa em comprimento, largura e profundidade, que existe presentemente no mundo com todas as propriedades que manifestamente conhecemos pertencerem-lhes. E essa substância extensa é aquilo que apropriadamente designamos por corpo ou substância das coisas materiais.

3. Que os nossos sentidos não nos ensinam a natureza das coisas, mas somente aquilo em que elas nos são úteis ou prejudiciais

Chegará que consideremos somente que tudo aquilo de que nos apercebemos por meio dos nossos sentidos, diz respeito à estreita união que a alma tem com o corpo, e que conhecemos, ordinariamente, por seu intermédio aquilo em que os corpos de fora nos podem aproveitar ou prejudicar, mas não qual é a sua natureza, a não ser, talvez, raramente e por acaso. Pois, após esta reflexão, deixaremos sem pena todos os preconceitos que não são fundados senão sobre nossos sentidos, e não nos serviremos senão do nosso entendimento, porque é só nele que as primeiras noções ou ideias que são como sementes das verdades que somos capazes de conhecer, se encontram naturalmente.

4. Que não é o peso, nem a dureza, nem a cor, etc., que constituem a natureza do corpo, mas somente a extensão.

Assim fazendo, saberemos que a natureza da matéria ou do corpo tomado em geral, não consiste de forma alguma em ser uma coisa dura, ou pesada, ou colorida, ou que toque nossos sentidos de qualquer outra forma, mas somente no facto de ser uma substância extensa em comprimento, largura e profundidade. No que respeita à dureza, disso não conhecemos outra coisa, por meio do tacto, senão que as partes dos corpos duros resistem ao movimento das nossas mãos quando se encontram; mas se, de todas as vezes que levássemos nossas mãos para qualquer parte, os corpos que aí estivessem se retirassem tão depressa quanto elas se aproximassem, é certo que não sentiríamos jamais a dureza; e, no entanto, não temos qualquer razão que nos possa fazer crer que os corpos que, desta forma, se retirassem, perdessem, por isso, aquilo que os faz corpos. Donde se segue que a sua natureza não consiste na dureza que sentimos, por vezes, a seu respeito, nem também no peso, calor e outras qualidades desse género; pois se examinarmos seja qual for o corpo, podemos pensar que ele não tenha em si qualquer destas qualidades e, no entanto, conhecermos, clara e distintamente, que tem tudo o que o faz corpo, desde que tenha a extensão em comprimento, largura e profundidade: donde se segue também que, para ser, ele não precisa de forma alguma delas e que a sua natureza consiste apenas no facto de ser uma substância que tem extensão.”

René Descartes, tr. fr. Abbé Picot, Les Principes de la Philosophie, 2ª parte, 1, 3 e 4.

20.1.10

Não te im-Portas, Sócrates?

Face à manifesta decadência de Francisco Louça, os dois maiores tribunos da política portuguesa, José Sócrates e Paulo Portas, confrontaram-se, no dia 2 de Setembro de 2009, num debate, a propósito das eleições legislativas, transmitido pela TVI. Como espelhos um do outro, em termos retóricos, foi curioso ver o recurso sistemático ao mesmo estilo retórico, incluindo, em vários casos, os mesmos tipos de falácias.

Logo para começar, como se tivesse desertinho por uma falácia, Portas faz a seguinte declaração: “Em termos económicos, eu entendo que a política económica de José Sócrates falhou, fracassou. Há dois momentos que os portugueses não esquecem: o primeiro, o governo decretou o início da retoma exactamente quando a crise estava a chegar a Portugal de uma forma violenta; e, bem recentemente, José Sócrates anunciou, praticamente, o princípio do fim da crise na véspera de se saber que Portugal tinha meio milhão de desempregados e tinha, infelizmente, batido esse recorde histórico.” Depois, conclui, enunciando aquilo que, segundo ele, a política económica de Sócrates havia gerado, incluindo muitos aspectos advindos da crise que ele implicitamente reconheceu vir de fora. Mas a falácia já estava feita. De facto, a demonstração feita por Portas do falhanço da política económica de Sócrates consistia na referência a duas declarações alegadamente erradas feitas por José Sócrates ou por membros do seu Governo. A associação é verdadeiramente insólita. Uma política económica não é feita por declarações. Os ministros poderiam ter feito milhares de declarações erradas e terem políticas de sucesso, e vice-versa, não ter feito nenhuma e as medidas serem um fracasso. Quem nos dera que os únicos erros de política económica dos nossos governos fossem as calinadas que este ou aquele ministro deu e às quais ninguém ligou!
Curiosamente, não demorou muito até que José Sócrates, nesta muito curiosa competição, fizesse uma falácia muito semelhante: “O senhor tem direito aos seus argumentos e às suas críticas, mas não tem direito a alterar os factos. Quando o senhor esteve no governo, não havia nenhuma recessão internacional e o senhor teve uma recessão por causa do discurso do país de tanga (referindo-se a uma declaração, no Parlamento, do então primeiro-ministro Durão Barroso).” Notável! Com estas declarações, percebe-se porque é que os nossos políticos não conseguem fazer grande coisa do país. Aparentemente, eles julgam que são as suas declarações públicas, talvez por serem transmitidas pela televisão, que decidem o destino do país. Provavelmente, em vez de tentarem resolver, de facto, os problemas do país, o seu trabalho consiste em treinar declarações, visto terem esta crença de tipo mágico de que são as suas declarações que poderão assegurar o sucesso ou desgraça do país. Veja-se como Sócrates atribui a causa de uma recessão a uma única expressão de um discurso de um político. E devo dizer que isto não foi um lapso. Ouvi, incontáveis vezes, responsáveis do PS e comentadores alinhados atribuírem a causa da recessão ao discurso do país de tanga. Já agora, relembro que o que Durão Barroso fez nesse discurso foi acusar o PS de deixar o país de tanga. Ora, os responsáveis “socialistas” conseguiram esta proeza de alterar as causas da recessão, da gestão dos dinheiros públicos e da política económica, para a declaração que denunciava essa gestão e essa política. Assim, a causa da crise, em vez de ser a gestão, seja do PS, seja do PSD; passou a ser a declaração.
Já antes desta declaração de José Sócrates, Paulo Portas nos havia brindado com uma outra preciosidade tão típica quanto vazia do discurso político: “Eu não concordo com nenhum pessimismo estrutural. Portugal sempre foi capaz e o facto de este primeiro-ministro e de estes governos não serem capazes, não quer dizer que Portugal não seja capaz.” Ora, o que é que quer dizer isto de Portugal ser capaz ou não ser capaz? Estamos perante uma daquelas vacuidades políticas que, muitas vezes, servem de slogans, mas que não dizem rigorosamente nada. Animam o disposição dos eleitores mais papalvos, neste caso, com um patrioteirismo bacoco, sentem reforçada a crença não se sabe em quê porque a afirmação é absolutamente abstracta e, daí, em termos políticos, retira-se que opção? Obviamente, nenhuma. Qualquer político de qualquer quadrante poderia dizer isto, até porque não poderia dizer o contrário, sob pena de contradizer a sua própria função de político. E dizendo isto, diria um disparate. As pessoas são capazes de fazer isto e aquilo, desde roubar a ir às compras. Um conjunto de muitas pessoas é capaz de muito mais coisas. Mas ninguém é capaz em geral, nem mesmo Deus, para quem crê, visto não ser capaz do mal. Mesmo admitindo que um país seja capaz de alguma coisa, é muito estranho que seja capaz em geral. Aliás, como remete para o passado, talvez fosse útil a Portas uma releitura de qualquer História de Portugal para se dar conta de uma longa lista de incapacidades, não apenas dos governos, mas da sociedade e da economia portuguesa. Mas, claro, o que interessa é animar as hostes.

Mais adiante no debate, foi bem óbvia a forma como José Sócrates contorna as objecções levantadas por Paulo Portas relativamente às alterações à concessão do subsídio de desemprego, assim como foi óbvio que Paulo Portas ignorou, na comparação das taxas de desemprego entre o seu governo e o actual, o impacto da crise internacional. Igualmente, ambos lançam objecções infundadas e não justificadas, muitas vezes em apartes, às medidas enumeradas pelo outro, com o único objectivo de impedir que a mensagem do outro chegue, com clareza, ao telespectador. Ambos, aliás, apresentam um elenco unilateral das medidas tomadas pelos respectivos governos, nunca reconhecendo qualquer virtude a qualquer actuação do outro. Nestes passos, há muito material para análise mais detalhada, pelo que recomendo uma olhada ao vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=4DD_Hbj8FVE.
Estas semelhanças continuam por todo o debate. Por exemplo, Paulo Portas desvia-se à questão relativa à segurança interna posta por Sócrates – que o havia interrogado acerca do facto de se Portas tinha ou não votado a lei que criticava relativa à prisão preventiva – exortando-o a ir “interrogar os seus camaradas”, repetição de exortação anterior que tinha, na altura, feito todo o sentido, a propósito da Segurança Social e de posições tomadas por responsáveis do PS num documento oficial, mas que vinha completamente a despropósito nesta questão. Porém, logo em seguida, é José Sócrates que ignora a questão relativa ao relatório sobre segurança que o Governo reteve e não divulgou antes das eleições.
Porém, neste capítulo da Segurança Interna, a pérola final cabe a José Sócrates, com esta declaração: “Em matéria de segurança, eu acho que nós não devemos poupar esforços e sempre fiz aquilo que achava que devia fazer para pôr o Estado português e a sociedade portuguesa em segurança. Mas há uma coisa que eu nunca fiz e o que o senhor fez, sabe. Eu nunca aceitei que o Estado português entrasse numa guerra ilegítima e numa guerra errada como o senhor decretou e apoiou, a Guerra do Iraque. E essa diferença, e esse fardo do passado, vai persegui-lo por muitos anos.” Ou seja, Sócrates, para refutar as acusações de Portas relativas ao policiamento e à política penal, à falta de uma política de segurança eficaz, preventiva e protectora das vítimas, responde, acusando Portas de quê?... Da Guerra do Iraque… No comments.

5.1.10

http://estoriasdeoutrosvelhos.blogspot.com/
Deixo o Convite para visitar este Blog!

3.1.10

O TGV verde e encarnado (vermelho, não, nem a falar de comunas, Jesus, credo)

Para mais uma demonstração das agendas políticas dos jornalistas comentadores, o seguinte caso passou-se na TVI 24, no suposto debate de comentadores/jornalistas que se seguiu ao debate entre Manuela Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa. António Ribeiro Ferreira, actualmente na equipa do Correio da Manhã, teve como missão ridicularizar o dirigente comunista, enquanto os restantes participantes tomavam o ar de analistas mais sérios, embora favorecendo, claramente, a candidata social-democrata, quanto mais não seja pela atenção não jocosa muito maior que lhe foi dada.
Vejam-se estas declarações de António Ribeiro Ferreira a propósito de Jerónimo e do PCP: “A posição do PC é perfeitamente extraordinária porque eles, hoje, (...) foram à Amadora onde era a Sorefam (...), e o Jerónimo de Sousa diz esta coisa: sim, gosto do TGV, quero o TGV (...), mas quero as carruagens feitas em Portugal, os carris feitos em Portugal, todo o material feito em Portugal. (...) Não existe. Nós fazemos o Tgv, obviamente que as carruagens vêm de fora, os carris, o ferro vem todo de fora e nós temos uma incorporação de mão-de-obra, praticamente. (...) Agora, o que ele quer é a utopia total, não há, não há, deixou de existir, nós não temos ferro, quer dizer, a Siderurgia não há, a fabricação de carruagens, nós não temos há uns anos, e agora ele quer um TGV assim, mas com produtos nacionais. Está bem, então, vamos ter um TGV de plástico, para nós brincarmos todos com TGVs, podemos oferecer às crianças ao lado do Magalhães, um TGVêzinho de plástico (galhofa geral).” Repare-se, pode-se discordar da perspectiva do PCP, contrária à internacionalização da economia e defensora da existência de um forte sector produtivo nacional, nomeadamente um forte sector industrial, mas não faz sentido considerar que é uma utopia total que indústrias que existiam em Portugal ainda há meia dúzia de anos, não possam voltar a existir. Pode-se discordar da perspectiva do PCP que pensa que o Estado deve assegurar a existência de os sectores mais estratégicos da produção nacional, como ocorria até há umas décadas, mas não faz sentido considerar que é impossível algo que já foi possível e com menos custos que muitos empreendimentos megalómanos que têm sido feitos. Ainda menos faz sentido considerar absurdo que se queira produção industrial, siderúrgica, ferroviária, etc., em Portugal – mesmo sem o modelo do PCP, na economia de mercado, qualquer governo deveria desenvolver todos os esforços para voltarmos a ter um razoável sector industrial pesado.
A intenção de António Ribeiro Ferreira não poderia ser mais clara quando ele compara Jerónimo de Sousa com Manuela Ferreira Leite, sempre muito elogiada nestes debates na TVI: “Este discurso de Jerónimo de Sousa não teve uma novidade, até no TGV não tem novidade nenhuma, eles querem um TGV nacional, português, tudo português, pintado de encarnado e verde, e com as quinas, e com bandeiras nacionais, tipo a União Soviética dos velhos tempos, aquelas ideias daquelas inaugurações todas que tinham as bandeiras, o assalto ao Palácio [de Inverno], não sei quê. Portanto, ele não teve uma ideia nova, quando se fala em baixar impostos, ele fica logo nervoso, como a esquerda toda fica nervosa quando se pensa em baixar impostos, ficam logo nervosos, falam logo do investimento público, do Estado, que é preciso não sei quê, ficam logo tudo muito nervoso.” Apesar de dar uma imagem excelente, comparativamente com as expectativas, segundo ele, de Manuela Ferreira Leite, não deixa de ser curioso que não mencionou qual a novidade trazida por ela que contrastaria com a lastimável ausência de novidades de Jerónimo de Sousa.

O primeiro defensor das PME

No dia 7 de Setembro de 2009, na SIC, apesar de se estar a confrontar com Paulo Portas, Jerónimo de Sousa já pareceu estar recuperado da estranha anemia que o abateu no encontro com Sócrates. Na verdade, devo dizer que se tratou de um muito razoável debate de parte a parte. Mas, não havendo bela sem senão, desta vez foi Paulo Portas que, logo no início, não resistiu aos recursos falaciosos.

Depois de um remoque de Paulo Portas saudando o reconhecimento da importância das PME pelo PCP, Jerónimo de Sousa recordou que não existia qualquer referência no programa eleitoral do CDS-PP de 2005 às PME, contrariamente às 34 referências de 2009. A isto respondeu Paulo Portas da seguinte forma: “Eu acho que o deputado Jerónimo de Sousa foi influenciado pelo argumento do primeiro-ministro Sócrates que é o meu adversário, segundo o qual ele nunca foi primeiro-ministro e eu fui primeiro-ministro.” O argumento de Paulo Portas não podia ser mais disparatado. Primeiro, porque Jerónimo não se referiu a uma medida de um governo a que Portas tivesse pertencido, mas sim ao seu programa eleitoral. Segundo, porque Jerónimo não foi, certamente, primeiro-ministro ou sequer um qualquer ministro. Terceiro, porque isso nada tinha que ver com a questão – foi Paulo Portas que pretendeu valer-se de uma suposta anterioridade na atenção às PME, tendo sido cabalmente desmentido por Jerónimo e, não tendo forma de superar a inesperada refutação, socorreu-se de um argumento de algibeira que costuma utilizar contra Sócrates (e aí tendo, de facto, alguma razão).

A fera amansada

No dia 5 de Setembro de 2009, transmitido pela RTP, realizou-se o massacre de Jerónimo de Sousa por José Sócrates. Infelizmente, não se tratou apenas de Sócrates, com as suas capacidades retóricas, ter superado Jerónimo. No próprio capítulo das falácias, foi Jerónimo quem pior se portou e, mais tristemente ainda, com falácias especialmente ineficazes, claramente introduzidas para ultrapassar a falta de ânimo e de argumentos. Não é que Sócrates não tenha também cometido das suas, mas fê-lo de forma muito mais eficaz e até o deixou de fazer quando se apercebeu que Jerónimo estava derrotado para lá de qualquer esperança. Por exemplo, a meio do debate, Sócrates utilizou de forma falaciosa a luta dos professores relativa às aulas de substituição, mas a verificação do carácter falacioso dessa declaração só poderia ser feita fora do discurso, conhecendo o que, de facto, estava em causa nessa altura, conhecimento vedado à generalidade da população. Referiu-se à greve aos exames desta forma: “Acha razoável que por causa de uma medida de aulas de substituição, tivesse havido uma greve aos exames? Pois eu não acho.” Ora, as aulas de substituição estavam há muito consagradas na lei, mas nessa lei, bem ou mal, o antigo estatuto da carreira docente, essas aulas eram consideradas trabalho extraordinário. Aliás, o governo havia revisto esse estatuto (que também havia sido, originalmente, aprovado pelo PS) no Verão anterior e, logo um mês e meio depois, já estava a desrespeitá-lo, recusando-se a pagar o que estava previsto na lei por eles próprios promulgada. De facto, apesar das decisões em contrário dos tribunais, ainda hoje não pagou nada. Foi por isso que os professores fizeram a tal greve e é especialmente grave que um governo considere que as leis só são para cumprir pelos outros e não pelo próprio governo.

Porém, o debate foi dominado pela anemia de Jerónimo de Sousa. A maior parte do tempo só conseguia responder com declarações vagas às referências concretas de Sócrates, sempre, no entanto, apelando para o real e o concreto que nunca concretizava. Outras vezes, só conseguia balbuciar que havia ainda muito por fazer frente ao rol de medidas enunciadas por Sócrates. Enfim, um espectáculo triste. Por exemplo, após as referências concretas às alterações que permitiram a extensão temporal do subsídio de desemprego e do subsídio social de desemprego, Jerónimo de Sousa declarou: “Quando ouvimos o engenheiro Sócrates a falar de um país que eu não conheço, eu conheço outro, mais duro, mais real, com pessoas a sofrer muito, com pessoas a dirigirem-se a nós, a fazerem apelos para que isto mude.” Na sequência, apenas se refere à pobreza em geral, como se isso desmentisse as medidas enunciadas ou concretizasse alguma alternativa política.
Não foram estes, porém, os únicos recursos falaciosos. Já antes, a propósito das referências de Sócrates às diversas medidas na área da educação, incluindo a extensão do horário escolar até às 17.30 no 1º ciclo, declarou: “Algumas das medidas são discutíveis! Por exemplo, manter as crianças onze horas numa sala, considero negativo nalgumas situações. Porque é que foi esta medida? Para flexibilizar os horários dos pais e das mães, foi para que, numa situação de aperto, os pais aceitem esse espaço. A perspectiva de aumentar esse período que está proposta, isso serve os pais, não têm outra alternativa. Agora, o que nós defendemos é horários com regras.” Para se perceber a falácia, a referência à flexibilidade do horário de trabalho diz respeito ao código laboral. Ora, Jerónimo interpreta o alargamento do horário laboral como resultante da flexibilização laboral, como se antes os pais só trabalhassem até às 13.30. Mesmo que esteja a falar da proposta de extensão até às 19 h., parece óbvio que já antes os pais trabalhavam até essa hora e até chegavam mais tarde a casa.
Finalmente, ao referir-se ao caso Manuela Moura Guedes e ao procurar afastar a ideia de que estava a insinuar uma ligação entre os antigos ataques de Sócrates e a censura feita à jornalista, procurando distinguir a sua posição da direita, ao manifestar um certo escândalo perante a posição do PSD, não se conteve ao dizer: “A direita que já fez o mesmo, particularmente o PSD, quer dizer, houve um caso idêntico (referindo-se ao episódio de censura de Marcelo Rebelo de Sousa).” Como é óbvio, tratando-se de um caso atestado de interferência do governo numa estação de televisão com o objectivo de silenciar alguém, acabou por afirmar a ligação que pretendia nem sequer estar a insinuar.

O pequeno comércio e o fascismo

No dia 3 de Setembro de 2009, num frente-a-frente moderado por Mário Crespo, na SIC Notícias, Alfredo Barroso, histórico militante do PS, começou por se referir a uma intervenção de Manuela Ferreira Leite, feita dois dias antes, em Silves, que tinha o seguinte teor: “Os grandes grupos e as grandes empresas, tal como as grandes superfícies, levam ao empobrecimento dos pequenos comerciantes.” De início, na sua intervenção, começou por reduzir ao absurdo a afirmação, sem que aí tivesse detectado qualquer falácia, mas rapidamente acabou por estender a sua análise a uma comparação com o poujadismo, um movimento populista e fascizante dos anos 50 em França que surgiu com a intenção de defender o pequeno comércio. Intercalando a sua análise do poujadismo com associações a afirmações de Manuela Ferreira Leite (a dos ucranianos e cabo-verdianos), acaba por criar um cenário relativo às posições de Manuela Ferreira Leite, utilizando as suas declarações acerca do casamento e da procriação, acerca dos imigrantes, acerca do Estado e do investimento público, de tal forma que acabou por considerar a sua posição análoga ao do tal poujadismo, ou seja, fascizante.


Não deixou de ser engraçado ver o seu adversário no frente-a-frente, nem mais nem menos que Luís Filipe Menezes, a ter que fazer o papel de defender Manuela Ferreira Leite, sua arqui-inimiga no seio do partido, perante tão óbvia argumentação defeituosa.

O caso da Manela

No calor do anúncio da censura a Manuela Moura Guedes, no dia 3 de Setembro, muitos comentadores se apressaram a vir a terreiro, na maioria dos casos, com a expressa intenção de ilibar o primeiro-ministro, sustentada no argumento que seria uma estupidez ele fazer uma intervenção como aquela, 3 semanas antes das eleições, e alegando que o principal prejudicado pelo caso seria o próprio José Sócrates. Como se viu, porém, tal operação de branqueamento surtiu tal efeito que a principal consequência do caso foi o simples silenciamento da voz mais incómoda da comunicação social para o PS, durante todas as 5 longas semanas eleitorais que se seguiram. Se acumularmos a isto, o caso que pôs em posição defensiva o diário incómodo e o facto de o semanário incómodo parecer ter alinhado por outra facção do PSD contra a direcção actual, criaram-se as condições ideais para um passeio rumo à vitória socrática que tão difícil parecia à partida. É caso para dizer se seriam os próprios comentadores os estúpidos, se estariam a fazer de estúpidos os eleitores. Já agora, não posso deixar de dizer que o programa censurado era de facto revoltante em termos jornalísticos, mas a perda de qualquer referência à deontologia jornalística é comum a todo o jornalismo televisivo, sem que a generalidade dos políticos ou dos jornalistas vejam grande problema nisso. O programa em causa apenas acentuava tendências há muito instaladas na comunicação social.


Uma dessas congregações de comentadores, ocorreu na SIC Notícias, entre Mário Bettencourt Resendes, Pedro Adão e Silva e Luís Delgado, moderados por Mário Crespo, notoriamente pouco virado para a ilibação do primeiro-ministro, ao contrário dos seus convidados. Um deles, aliás, Pedro Adão e Silva, viria, pouco depois, a substituir Vasco Pulido Valente na TVI, após a demissão deste por solidariedade com Manuela Moura Guedes, dando um teor muito mais rosa ao programa em causa. Mas vamos ao que nos interessa, ou seja, as falácias.
Tentando insistir na gravidade da censura, Mário Crespo sublinhou que, apesar de serem gente poderosa, José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes acabaram por ser demitidos ou se demitirem. Para verem a importância das pequenas diferenças semânticas, vejamos esta precisão muito intencional de Mário Bettencourt Resendes: “Eu gosto mais da palavra influente do que propriamente [poderoso], eu não gosto muito de aliar a palavra poderoso a jornalistas porque acho que o poder dos jornalistas deve ser temperado por um conjunto de regras e de serviço público que está inerente à própria missão e profissão.” Esta distinção bizantina tinha um objectivo. Tratava-se de posicionar o assunto de forma a poder ser comparado com outra situação. Na sequência, afirma que o Marcelo ainda era mais influente e foi corrido, responsabilizando, porém, o capital por tal censura, na sequência de afirmações anteriores de Pedro Adão e Silva. Valha a verdade que, posteriormente, cede à argumentação de Mário Crespo que distinguiu entre a influência de um comentador e o poder do principal responsável da estação televisiva (e do seu sucesso), assim como o poder dentro da estação da sua esposa.
No entanto, a sequência mais interessante passou-se com Pedro Adão e Silva, cujo mandato era muito mais óbvio. É preciso relembrar que muitos dos que não se atreviam a incriminar directamente o primeiro-ministro, recordavam, porém, as pressões por ele e por membros do seu partido exercidas contra a estação e o programa em causa. Ora, Pedro Adão e Silva, referindo-se às pressões, considerou que quem as fez foi a Manuela Moura Guedes quando disse que seria muito estúpido tirá-la do ar, porque estaria a fazer “chantagem sobre quem detém o órgão”. Não sei se Pedro Adão e Silva conheceria a legislação que impedia qualquer administração de interferir na linha editorial de um órgão de comunicação social, mas considerar que alguém defender-se de uma censura anunciada é uma forma de pressão inaceitável, é o cúmulo da desfaçatez. Visto até parecer tratar-se de um crime à luz da nossa lei, a argumentação de Pedro Adão e Silva é a de que alguém que se queixa de um crime que aconteceu ou está prestes a acontecer, levado a cabo pela entidade patronal, está a fazer uma pressão intolerável sobre essa entidade.
Mais adiante, frente à insistência de Mário Crespo acerca de José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes terem sido eliminados, o mesmo Pedro Adão e Silva nega que eles tenham sido eliminados ou derrotados, com base nas suas declarações “tipicamente políticas”: “o que eu assisti foi a intervenções de José Eduardo Moniz e de Manuela Moura Guedes (...) que não são intervenções (...) de um jornalista, (...) são intervenções de alguém que tem uma participação política e uma presença política na vida pública, eu não sei se isso é exactamente o papel que cabe a um jornalista.” Deste espantoso argumento, conclui que não lhe parece que sejam os derrotados desta história. A esta conclusão, seguiu-se um ataque ao teor jornalístico do Jornal Nacional por não garantir o pluralismo, o que, sendo inteiramente verdadeiro, soou, na circunstância, a justificação da censura.
Este último argumento é uma verdadeira pérola. Primeiro, os visados não tinham sido eliminados porque, no fundo, protestaram. Segundo, Pedro Adão e Silva parece nem reconhecer o direito a protestar a um jornalista porque isso o torna num político. Terceiro, aparentemente, sendo um político, um pseudo-jornalista já pode ser censurado à vontade. É difícil até pegar nesta argumentação por um lado em detrimento de outro. Um bom jornalista, segundo Pedro Adão e Silva, cala-se bem caladinho quando é censurado, não protesta e, nesse caso, já podemos ser solidários com ele pelo acto de censura. Além disso, desde que proteste, alguém já não é eliminado ou derrotado. Pelos vistos, pode até ser morto, desde que tenha protestado, não foi eliminado. Por outro lado, torna-se claro que há um direito superior a censurar políticos que não existe para os verdadeiros jornalistas (embora esta linha de raciocínio pareça estar em contradição com a utilização, pelo PS, do caso Marcelo para se defender dos ataques neste caso). Finalmente, e esta é a cereja em cima do bolo, desde que se seja político, é-se invencível. Não podem ser os derrotados desta história porque têm uma participação política e uma presença política. Ou seja, não é possível derrotar um político.
Em abono da verdade, estas declarações não constituem nada de especial no coro falacioso que foi feito neste dia e nos seguintes pelos responsáveis do PS e seus comentadores. Já referi isto a propósito do debate com o Louçã. Se há espectáculo político verdadeiramente impressionante é o do coro grandioso que o PS consegue montar na comunicação social sempre que algo corre mal ou sempre que decidem aniquilar alguém. Nas aulas referi um outro caso, o de Manuela Ferreira Leite a quando da declaração sarcástica, dirigida a Sócrates, sobre a suspensão da democracia. Muitos outros casos poderiam ser referidos, o do arranjinho com o Constâncio do deficit de 6,8%, as campanhas contra classes profissionais (que, numa fase inicial, resultaram sempre junto do povo, sempre pronto para dar vazão a uma invejazita), as sucessivas campanhas contra o Presidente, etc., etc.. Em todos os casos, parece haver a crença que uma falácia, se for muitas vezes repetida e por muita gente, deixa de ser falácia e passa a ser a encarnação da verdade e validade. E a verdade é que têm tido sucesso com a estratégia. Sempre que ela é executada na sua forma mais completa, passados alguns dias já toda a gente confunde a falácia com os factos e interpreta os factos à luz da falácia. Tal é o poder da manipulação política. Como disse, as declarações citadas nada têm de especial no contexto desses dias, tratam-se simplesmente das que eu gravei e servem como exemplo da estratégia adoptada a propósito deste caso.