28.9.08

Apontamentos de Filosofia

Podem descarregar os apontamentos para o primeiro período nos anexos de:
http://groups.google.com/group/riskici/browse_thread/thread/5a8a8a6e625d43d8#

26.9.08

Se eu fosse um lider político...

Abro este espaço de debate, na disciplina de Área de Integração, para que aqui possam desenvolver ideias relativas aos trabalhos a realizar mais tarde noutro suporte, susceptível de exposição.

Tenham em consideração o regime político, a organização estatal, o modelo económico, o modelo social ou, simplesmente, o mundo que gostariam que existisse... Tentem ser criativos, libertem a vossa reflexão para lá do imediato e próximo quotidiano e das circunstâncias da nossa "politicazinha". Pensem-se com um poder equivalente aos senhores das imagens e construam o pior ou o melhor mundo possível segundo a vossa imaginação. Escolham a vossa salvação ou desgraça. E discutam as opções dos outros...

31.7.08


8.6.08


18.5.08

Reportagem TSF em Santo António

Reportagem TSF na Escola Básica e Secundária de Santo António, a propósito da Semana Entreculturas. Uma Organização CODEC (Turma 12º B), Cidade Jovem (Programa Escolhas).

http://tsf.sapo.pt/online/radio/index.asp?id_artigo=TSF192098&pagina=Interior

4.5.08

A vida após a morte

Sendo a crença mais generalizada entre as confissões religiosas, muito embora seja concebida de formas muito diversas, poderá tal crença ter um fundamento que não seja o do desejo de se libertar do medo mais profundo do homem, que não seja o de uma fantasia dissimuladora da realidade com que é mais difícil se confrontar, que não seja o de um consolo infantil para a angústia de ser vivo? Tenham coragem e ponham em debate as vossas crenças.

Apontamento sobre a religião - Filosofia 10º ano

Podem descarregar o apontamento já dado aos delegados nesta ligação:

http://groups.google.com/group/riskici/browse_thread/thread/f3cd569a3ec6a040

3.5.08

28.2.08

Concepções de justiça distributiva (segundo Perelman)

1. A cada qual a mesma coisa. – Sendo absolutamente equitativa, esta fórmula poderia ser considerada como a que melhor expressa um dos valores centrais dos ideais políticos modernos e contemporâneos. Porém, ao ignorar as diferentes condições das diferentes pessoas, acaba por ser injusta, na medida em que não castiga comportamentos inadequados, não premeia esforços meritórios e não considera necessidades diferenciadas. Além disso, pode ser nefasta para a sociedade pois não estimula a competição e, logo, a tendência natural da maioria dos homens para alguma preguiça e inércia leva a uma redução global da produtividade. Nos regimes socialistas do leste europeu, quando o entusiasmo revolucionário e a repressão estalinista extrema passaram, essa tendência revelou-se de tal forma que a URSS se mostrou incapaz de acompanhar a competição directa com os EUA. O mesmo se tem criticado, por exemplo, na nossa Função Pública (onde, em geral, apenas o tempo de serviço servia de factor diferenciador), servindo tal situação de argumento governamental para as recentes reformas.
2. A cada qual segundo seus méritos. – Embora esta seja uma fórmula diferenciadora, o facto de seguir um princípio universal permite que se possa considerar uma fórmula de justiça e até uma das mais tradicionais. Parece justo a distribuição depender das capacidades e esforços desenvolvidos por cada qual, o que, aliás, estimula a competição e a produtividade. Porém, como se define o mérito? Em cada profissão ou estatuto existem muitos elementos a ser considerados. Quais são os mais relevantes? Ou deverão ser todos considerados por igual, fazendo uma espécie de média? E dever-se-á considerar o empenho e o esforço mesmo que frustrado ou só as realizações? A determinação do mérito, sendo extremamente subjectiva à partida, pode acabar por se tornar completamente arbitrária. Além disso, exactamente por ser tão obscura pode permitir, com facilidade, a camuflagem de favorecimentos sem fundamento em qualquer concepção de justiça.
3. A cada qual segundo suas obras. – Contrariamente às restantes fórmulas que são inteiramente contraditórias entre si, esta pode ser considerada uma especificação da anterior. A diferença consiste em retirar as considerações mais subjectivas, centrando-se unicamente nos desempenhos e resultados observáveis. Porém, mesmo neste caso, se já não se está a referir o domínio interno do sujeito visado, mantém-se a subjectividade da apreciação. Quaisquer obras podem ser consideradas de forma diversa por diversos sujeitos e onde um vê uma bela ou útil obra, outro poderá ver um desperdício de recursos. Além disso, poderão existir discrepâncias em relação aos desempenhos que se consideram mais importantes, levando a uma situação idêntica à anterior. Por fim, poder-se-á considerar que o facto de não se considerar o esforço e o empenho dá origem a uma avaliação fria e desumana, beneficiando aqueles que já são afortunados pela natureza, dotados de capacidades que lhe permitem realizações fáceis sem grande dispêndio de energias.
4. A cada qual segundo suas necessidades. – Contrariamente à frieza e desumanidade da fórmula anterior que poderia deixar morrer quem, por exemplo, pelas suas deficiências, se mostrasse incapaz de apresentar uma obra competitiva, esta fórmula é animada pela compaixão pelos mais incapazes e, por vezes, até mais necessitados. Além disso, todos os homens na infância e, potencialmente, na velhice, vêem-se numa situação em que não estão em condições de competir em pé de igualdade com os restantes, tendo, porém, ainda por cima, necessidades acrescidas pela sua fragilidade ou doença. No entanto, o prosseguimento desta fórmula, como concepção geral de justiça, é extremamente nefasto para a sociedade, na medida em que estimula a competição pela demonstração das necessidades. Alguém que queira mais, como o egoísmo humano quer normalmente, perante tal critério, tentará exagerar, senão mesmo inventar, todo o tipo de deficiências, maleitas e situações sociais adversas (como a dificuldade de arranjar emprego) para convencer as autoridades a concederem-lhe maiores proventos. Ora, isso leva a que se generalize a competição por fazer o menos possível, levando à diminuição da riqueza global na sociedade. Embora tal prática seja injusta à luz da fórmula em causa, que os homens o fazem naturalmente é bem provado pelas múltiplas fraudes na nossa segurança social que, apesar de não ser das mais desenvolvidas, chega para criar cobiça, desviar recursos e fazer com recursos não sejam criados, para aqueles que verdadeiramente são mais necessitados.
5. A cada qual segundo sua posição. – Aparentemente, esta fórmula, devido ao seu aspecto aristocrático, parece contraditória com os ideais de justiça da modernidade. Faz depender a distribuição da categoria social a que o indivíduo pertence, o que, parecendo injusto à partida, corresponde à realidade ainda hoje predominante na nossa sociedade. Porém, a não consideração desta fórmula em absoluto provoca, também, situações que, do ponto vista racional, são injustas. Se pensarmos a posição do ponto de vista do estatuto profissional, este deve efectivamente ser diferenciado nos seus direitos porque não pode deixar de ser diferenciado nos seus deveres. Funções distintas, obrigações diversas e responsabilidades diferenciadas, devem corresponder a condições diferentes, regalias variadas, subsídios especificados e até a honorários escalonados. Para fornecer um exemplo, se alguém, devido à sua profissão ou devido à posição adquirida nessa profissão, corre muito mais riscos que as restantes pessoas, é justo que receba um subsídio de risco ou que seja compensado nos seus honorários. O mesmo se diga para múltiplas outras situações, profissões de desgaste rápido, de exposição pública, de responsabilidade extrema, etc.
6. A cada qual segundo o que a lei lhe atribui. – Sendo provavelmente a mais popular das fórmulas de justiça, visto ser a justiça que as pessoas e os seus advogados exigem nos tribunais, como critério geral de justiça é viciosa. De facto, estas fórmulas, ao definirem a justiça, devem servir para enunciar as próprias leis. Ora, esta fórmula faz depender da lei a enunciação da própria lei, o que é obviamente absurdo. O facto de ser tão popular advém da maioria das pessoas não se conceber a si própria como co-legisladora, visto os deputados que formulam as leis não serem mais do que representantes. Assim, contentam-se em exigir que as leis que existem, mesmo que injustas segundo outros critérios, sejam, pelo menos, cumpridas. E têm uma certa razão porque a maior doença das sociedades, repetida de diversas formas ao longo da história, não reside na aplicação de um critério em detrimento de outros, mas no facto de, até mesmo leis injustas segundo qualquer critério, não serem aplicadas universalmente como é próprio das leis. Continuamos a ver que as mesmas leis são aplicadas de forma muito diferenciada conforme aqueles a quem são aplicadas, senão nas decisões finais, pelo menos nos procedimentos que, por exemplo, levam uns a serem julgados sumariamente, ao passo que outros, recorrendo a inúmeros expedientes, invariavelmente são ilibados por prescrições e anulações por motivos formais. De facto, as condições de acesso ao sistema judicial (assim como o administrativo) são de tal ordem que a maioria nem a ele recorre (suporta apenas, passivamente, as suas decisões) mesmo que seja gravemente prejudicada. Quando as pessoas se queixam de não existir justiça na nossa sociedade, na maior parte dos casos nem se estão a referir a grandes ideais de justiça, mas ao facto de ela nem sequer formalmente ser cumprida.

25.2.08

Ética, direito e política

Idealmente, dever-se-ia derivar os princípios do direito dos princípios éticos, e a política concreta dever-se-ia derivar dos enunciados universais do direito. Porém, a ligação entre ética, direito e política não é tão simples como a das matérias de um sistema lógico-dedutivo. Mesmo aqueles que defendem a ligação referida, têm noção da diferença que existe entre os níveis de tratamento. Por exemplo, Kant, ao enunciar o princípio universal do direito segundo a estrutura já, por ele, consagrada do imperativo categórico, submete-o à seguinte forma: “age externamente de modo tal que o uso livre do teu arbítrio possa coexistir com a liberdade de cada um segundo uma lei universal.” A liberdade já estabelecida na fundamentação feita a nível da crítica da razão prática é, aqui, subordinada a duas condições específicas do direito: o domínio externo (não são os problemas éticos da consciência e da intenção que são aqui considerados, mas o domínio factual) e o domínio social (não pode ser a conduta individual isolada o objecto do direito, mas a relação entre as pessoas, entre as liberdades).
Tal diferenciação ocorre mesmo num registo ideal de um direito determinado de forma exclusivamente racional, aquilo a que os iluministas chamavam o direito natural, mas é muitíssimo maior relativamente ao direito positivo, o direito que, de facto, existe nos diferentes Estados e que, em muitos casos, espelha os interesses predominantes numa sociedade e não qualquer ordem racional. É óbvio que, tal como a ética procura influenciar a moral de facto existente nas diversas sociedades, o direito natural que tem vindo a ser formulado pelos filósofos, procura influenciar o direito positivo, mas, muitas vezes, essa influência só se nota na legislação positiva mais geral e abstracta.
Ora, a distância entre a ética e a política é ainda maior, pois, sendo a actividade política a aplicação concreta das medidas, tem que ter em conta todas as circunstâncias sociais e não apenas os princípios universais. O próprio Kant que já tomámos como referência, por muito que gostasse de ver a moralidade a orientar a actividade política, reconhece que o que mais tem orientado a história concreta dos homens é o seu desejo, o seu egoísmo, não vendo, aliás, grandes possibilidades de transformação dessa orientação. Considera que o homem é portador de uma “sociabilidade insociável” que o leva a entrar em sociedade, visto que a sua inteligência orientada pelo desejo vê mais vantagens na vida em sociedade que na vida isolada; mas que, assim que se encontra em sociedade, visto ser orientado pelo desejo, procura retirar privilégios para si em detrimento dos outros, até por medo que os outros já o estejam a fazer ou o venham a fazer para si. Assim, a sociedade é um constante conflito de egoísmos, constantemente à beira da desagregação e constantemente a ser regenerada pelo interesse dos homens em que ela exista.
Neste quadro, a política afigura-se, sobretudo, como uma actividade de gestão dos conflitos, de gestão dos interesses contraditórios presentes numa sociedade. Isto, bem entendido, mesmo no caso de verdadeiros políticos bem intencionados, cujo objectivo último é o bem comum, o interesse da polis, da sociedade. Os indivíduos que ocupem o aparelho de Estado para satisfazerem unicamente interesses privados não são políticos, mas sim criminosos. Mesmo que ultimem umas leis à medida para tornarem legais as suas actividades, do ponto de vista do direito natural e da própria definição de política, continuam a ser criminosos e não políticos. A verdadeira luta política ocorre quando existem divergências ideológicas acerca da melhor forma de satisfazer o bem comum, e não quando o indivíduo x protege os interesses da Confederação y contra a acção do indivíduo z que quer dar um concurso a ganhar ao Consórcio k. Por isso mesmo, um Estado clientelar tem tendência a ser um Estado criminoso, embora se possa admitir que ainda exista pior: um Estado caciquista em que um ditador utilize o aparelho de Estado para roubar directamente um país para si e para os seus. Devido a tais perigos é que se afigura de importância extrema a clara divisão dos poderes defendida desde o Iluminismo (legislativo, executivo, judicial), assim como diversos mecanismos e instâncias que funcionem como contra-poderes aos poderes existentes seguindo a velha e desconfiada tradição da República Romana. O objectivo principal é sempre o mesmo: evitar abusos do poder político para fins que não sejam estritamente políticos ou que, mesmo quando bem intencionados, acabem por pôr em causa o fim da política, o bem comum.

11.2.08

Uma verdade inconveniente

Independentemente de algum narcisismo típico da política americana, o filme coloca algumas questões fundamentais da política e da ética contemporâneas. Sem orientar em nada a discussão que aqui gostaria de ver realizada, gostaria que associassem os temas do filme à leccionação feita relativamente à ética de Hans Jonas. Podem comentar o filme sob qualquer ponto de vista, económico, político, ético, teleológico, existencial, o que quiserem. O que importa é que reflictam, discutam e retirem material para maior reflexão dessa discussão.
Também podem, se quiserem, comentar as fotos.

28.1.08

Autonomia e heteronomia da consciência moral

A consciência moral forma-se, inevitavelmente, sob pressão, imposição ou até fruto da repressão do meio social sobre a criança, começando pelo meio familiar e alargando-se pelos meios escolares, nos contactos com os amigos, pela influência da comunicação social, etc., levando, a pouco e pouco, à interiorização dos padrões morais até ao ponto de se tornarem formas de pensamento próprias. A heteronomia da consciência moral inicia-se nessa subordinação às normas sociais, colectivas dos outros (hetero) sobre cada qual. Não seria possível educar uma criança de outro modo. Não faz sentido pedir a uma criança de 2 ou 3 anos que desenvolva um pensamento crítico e autónomo, que reflicta sobre o sentido de uma norma, sobretudo se dessa norma depender até mesmo a possível sobrevivência da criança (pensem, por exemplo, na curiosidade infantil pelas instalações eléctricas ou pelo fogo).
O facto da origem temporal da consciência moral se radicar na heteronomia, não significa que a mesma não possa evoluir e, até mesmo, que essa origem explique integralmente uma consciência moral verdadeiramente amadurecida. Muitos são aqueles que fazem depender, durante toda a vida, a sua consciência dos outros, como crianças com medo dos mais velhos, mas essa consciência moral induzida do exterior fundamenta-se no medo e não no pensamento próprio. Não é uma verdadeira consciência moral, uma consciência do dever próprio, mas sim uma consciência das sanções que se pode sofrer se se fizer isto ou aquilo ou uma simples consciência da aceitação social. A autêntica consciência moral fundamenta-se no pensamento próprio e tem assim uma natureza diferente da consciência heterónoma. Necessita da maturação da razão humana, tal como a matemática ou a lógica, só podendo desenvolver-se após a consciência heterónoma, mas só parcialmente derivando desta. De facto, mais do que derivar desta, esta apenas suscita material para a reflexão e deliberação autónoma. A autonomia da consciência moral radica, em primeiro lugar, na razão humana e nos seus critérios específicos, resulta da reflexão ética sobre a acção e permite a auto-determinação do homem segundo princípios universais.

7.1.08

O problema do livre-arbítrio - Determinismo e indeterminismo

Desculpem-me o atraso. Eu sei que esta matéria foi leccionada no 1º período. Mas esta temática sai nos testes e não foi objecto de trabalho de grupo. Daí que aqui proponha um debate alternativo ao trabalho. Os seguintes textos defendem posições antagónicas relativamente ao problema em questão. Um comentário óptimo seria o que argumentasse favoravelmente a cada um dos textos, pesasse os argumentos de cada parte e se decidisse, também com base em razões apresentadas, por uma delas.
Este debate foi pensado, primeiramente, para a disciplina de Filosofia. Porém, esta matéria foi também leccionada na disciplina de Área de Integração, pelo que os alunos dessa disciplina também podem e devem participar.

"Uma criança julga desejar livremente o leite... Um ébrio julga dizer, por decisão sua, aquilo que, quando voltar a estar sóbrio, quereria ter calado. (...) De facto, mesmo constatando que, perante dois desejos contrários, vêem o melhor e executam o pior, continuam, entretanto, a acreditar que são livres."

Baruch Spinoza

"A negação da liberdade é uma velha teoria que não tem em conta a vida prática, (...) tal como de facto é experimentada. (...) Nós sabemo-nos livres, nós experimentamo-nos constantemente perante novas decisões que reclamam o nosso parecer e frente às quais nós mesmos, como que a partir do mais íntimo do nosso ser pessoal, somos obrigados a tomar uma posição por esta ou aquela possibilidade de agir."

Emmerich Coreth

16.11.07

Apontamento sobre a acção - Filosofia 10º ano

Este apontamento contém alguns aspectos não contemplados no manual. Porém, ao contrário do anterior, ainda não tem indicações para o estudo no manual. Espero ter oportunidade de fazer uma actualização no fim de semana. Já agora, o apontamento tem também alguma utilidade para os alunos de Área de Integração. Carreguem a partir de:
Desculpem o erro anterior, enviei mal a nova entrada.

31.10.07

Área de Integração - Complemento à unidade relativa à ética

Juízos de facto e juízos de valor

Esta distinção surgiu no início do séc. XX, no âmbito da sociologia positivista, para afastar da ciência toda a consideração dos juízos de valor. A distinção continuou, no entanto, a ser usada muito depois das pretensões positivistas se terem tornado obsoletas e independentemente das mesmas.
Um juízo de facto é um juízo que caracteriza ou descreve um objecto ou que relata uma ocorrência. É um juízo objectivo, no sentido de pretender transmitir o que é o objecto em causa. É um juízo verificável, visto ser, em princípio, possível compará-lo com a realidade, verificando se é verdadeiro ou falso.
“Esta mesa é verde” – é um juízo de facto mesmo que a mesa seja amarela, visto estar apenas a caracterizar a mesa, sendo susceptível de ser verificado pela experiência. “Nesta jogada, houve um fora de jogo não assinalado” – é um juízo de facto porque relata uma ocorrência. Repare-se que, neste último caso, embora seja verificável, isso não acaba necessariamente com as discussões interpretativas porque basta uma diferente disposição das câmaras de filmar para já se considerar de uma forma diferente o lance. Não se confunda, pois, verificável com certo, embora exista aqui, certamente, um maior grau de certeza possível que nos juízos de valor.
Um juízo de valor é um juízo apreciativo que diz mais acerca de como o sujeito é afectado pelo objecto, do que sobre o próprio objecto. Daí que seja considerado um juízo subjectivo, opinativo, de natureza afectiva e emocional, sem possibilidade de qualquer verificação.
“A Anabela é bela” – é um juízo de valor visto a beleza não ser nenhuma característica do objecto, nem adiantar nada para o conhecimento do objecto. O juízo expressa o gosto de quem profere o juízo, a forma como ele é afectado pelo objecto, e não o próprio objecto. Um outro pode considerar a Anabela feia e não há forma de verificar qual tem razão, pois a beleza ou a fealdade não são características do objecto como seriam “loura”, “alta”, “gorda” ou “rapariga”. Repare-se, porém, que um juízo de valor não tem que enunciar um valor de forma explícita: “o Jaime é pior que cuspir na sopa” – é também um juízo de valor pois, igualmente, não nos está a transmitir qualquer característica do Jaime, muito embora não nomeie nenhum valor. Veja-se, no entanto, que o sujeito que profere o juízo deverá ter um valor em mente, como, por exemplo, a maldade, que está na base da apreciação que faz. Sempre que um juízo seja apreciativo ou depreciativo, utilize os termos que utilizar, mesmo que não expressem directamente valores, é um juízo de valor.

Os valores

Os valores que nos importam na medida em que são susceptíveis de orientar a conduta humana, são aqueles que possuem um significado ideal. Os valores matemáticos, financeiros, comerciais, ou ainda as coisas a que atribuímos valor afectivo, nada têm a ver com o sentido da palavra “valor” que aqui nos interessa. Os valores são ideais no sentido em que expressam aquilo que se julga que “deveria ser” ou que se “deveria fazer” ou que se ”deveria atingir”, embora como um horizonte abstracto que nunca se pode considerar plenamente realizado. Não se deve confundir ideais com metas concretas. A riqueza é um ideal, possuir a Microsoft é uma meta concreta que até pode contribuir para realizar o ideal, mas que não o esgota. Quem se orienta pelo valor da riqueza pode querer sempre mais como o Tio Patinhas.
Outra característica dos valores é a sua polaridade. Os valores podem ser positivos ou negativos, podendo-se sempre que um valor é apresentado, ver qual é o seu polo oposto. Porém, nem sempre os valores que são considerados positivos por uma cultura ou uma pessoa, são positivos para outra. Por exemplo, a cultura aristocrática romana nunca consideraria a humildade um valor positivo, ao passo que a cultura cristã não só considera a humildade positiva, mas também como um dos seus valores mais altos. Um valor negativo não deixa de ser um ideal, visto ser também um horizonte abstracto que orienta a acção. A nossa acção não é só orientada por aquilo que procuramos alcançar, mas também por aquilo de que nos procuramos afastar, aquilo que nos repugna, de que temos medo ou que desaprovamos.
Os valores ordenam-se, sempre, seja numa doutrina, seja numa sociedade, seja num grupo social, seja num indivíduo, segundo uma hierarquia. Nem sempre essa hierarquia é clara para quem a segue. Muitas vezes aquela que até é declarada, não é a que verdadeiramente é seguida. Uma pessoa pode julgar que o seu valor máximo é a amizade, mas se o amigo põe em causa a sobrevivência, a integridade física ou até a simples prosperidade económica, por exemplo, da família, ou se tem relações sexuais com o namorado(a) ou o cônjuge, imediatamente tal pessoa se esquece da amizade, trocando-a pelo valor da segurança, do bem-estar ou da fidelidade. Mesmo que uma pessoa ou um grupo não tenha um conhecimento correcto da sua hierarquia, ela está lá e revela-se nas situações de conflitos de valores. É, aliás, por causa desses conflitos que tem que existir uma hierarquia. Nos dilemas mais difíceis que a vida nos coloca, temos que decidir entre agir desta ou daquela maneira, o que, em geral, significa, dar mais importância a um valor do que a outro. Os dilemas de Kohlberg que se destinavam a aferir o estádio de desenvolvimento moral do indivíduo, podem ser utilizados também para um melhor conhecimento de si próprio, nomeadamente no que se refere à sua hierarquia de valores, até para se estar melhor preparado para saber o que fazer quando a vida colocar os verdadeiros dilemas. Porém, essa hierarquia, sobretudo nos indivíduos, não é fixa, podendo mudar ao longo do tempo.
Há que salientar, no entanto, que os valores não se aplicam ao comportamento directamente. Eles estão, não obstante, na base das normas que regulam directamente o comportamento. As normas são as regras que qualquer doutrina, sociedade, grupo ou indivíduo, estipula especificamente em relação ao comportamento que deve ser seguido. Muitas vezes os conflitos acima referidos, expressam-se mais directamente como conflitos de normas.
(A discussão quanto à natureza relativa ou absoluta dos valores já foi antes feita a propósito do etnocentrismo e do relativismo..)

Exemplos de valores: ético-políticos – bem, solidariedade, liberdade, justiça, coragem, fidelidade, pudor, imparcialidade, generosidade, moderação, virtude, seriedade, heroísmo, castidade, nobreza, humildade, etc.; estéticos – beleza, sublimidade, elegância, harmonia, singeleza, criatividade, graciosidade, etc.; religiosos – sagrado, divino, inefável, piedade, santidade, misericórdia, martírio, etc.; cognitivos: certeza, verdade, provável, objectividade, etc.: sensíveis: prazer, saúde, riqueza, bem-estar, agrado, vigor, etc.; existenciais: serenidade, felicidade, realização, sabedoria, etc.; outros de difícil classificação – feminilidade, masculinidade, puerilidade, ingenuidade, pureza, força, perfeição, etc.; assim como todos os contrários destes valores.

25.10.07

Proposta de correcção da Actividade 1

1º texto – Conquista e destruição da cultura dos conquistados – Aculturação dos índios pelos norte-americanos: A declaração do senador no texto é já o resultado de uma política norte-americana que se iniciou pela conquista, muitas vezes traindo acordos e tratados, que passou por práticas de expropriação quando recursos valiosos estavam em causa, por deportações muitas vezes para terras miseráveis e inadequadas à economia índia tradicional, por segregação, por bloqueamento económico, por parcelamento com vista à compra das terras aproveitando as situações de miséria, por estimulação do alcoolismo, acabando, em alguns casos, por cometer massacres brutais. Dentro desta mentalidade que considerava a cultura índia selvagem e que só admitia a sobrevivência dos índios se deixassem de ser índios (muito embora, quando lhes convinha, os tratassem como estrangeiros sem direitos de cidadania), acabou, por mais tarde, se generalizar a prática de retirar as crianças das suas comunidades para as “civilizar” em instituições de regime de internato. O objectivo consciente era a desculturação total das culturas índias, sendo a única alternativa o extermínio.
2º texto – Domínio “cultural” (religioso e tecnológico) – Aculturação dos nativos da Nova Guiné e Melanésia pela Civilização Ocidental: Boa parte dos povos do interior da Nova Guiné (papuas) vivia, até há pouco, numa situação semelhante à Idade da Pedra. A intervenção da civilização ocidental na região através do colonialismo, provocou profundas alterações que nem sempre puderam corresponder à compreensão da nossa cultura. Para os papuas, por exemplo, as incríveis máquinas produzidas pela indústria ocidental deverão ter criado uma estupefacção que abriria a possibilidade ao desenvolvimento de outras influências ocidentais. É óbvio que terão associado essas máquinas mágicas à mensagem dos missionários que atacavam os cultos tradicionais, abandonando esses cultos, mas não entendendo claramente os novos e juntando-lhe características da sua própria estrutura perceptiva e do seu próprio imaginário. Assim, nasceu uma cultura nova, fruto da influência religiosa cristã, da influência tecnológica ocidental e da estrutura perceptiva provinda da cultura nativa.
3º texto – Domínio comercial – Aculturação dos portugueses (entre outros) pela cultura anglo-saxónica e, em especial, norte-americana: O domínio comercial da língua inglesa provém já do domínio britânico dos tempos do império colonial, continuado pelo domínio da super-potência norte-americana. Por outro lado, sucessivas indústrias de sucesso no domínio da comunicação (cinema, televisão, música, jogos de computador, informática em geral, etc.) amplificaram cada vez mais esse domínio, ao ponto dessa língua passar a ser usada mesmo nos produtos criados em países cuja língua não é anglo-saxónica. Porém, a influência não fica pelo domínio da língua. Os produtos que usam a língua inglesa são consumidos e imitados na sua própria estrutura e padrões culturais (valores, crenças, costumes, etc.), transferindo para outras culturas os padrões culturais norte-americanos (ou melhor, aqueles que são expressos pelo cinema, música e jogos comerciais). Assim, não se trata apenas do uso de palavras inglesas no meio de um discurso noutra língua; através desse uso, são também padrões de cultura que estão a ser transferidos, condicionando as pessoas a pensarem cada vez mais segundo esses padrões e consumido cada vez mais produtos dessa cultura, em áreas cada vez mais diversificadas, nomeadamente as áreas académicas, tendendo a impor uma cultura mundial única.
4 º texto – Conquista e destruição da cultura dos invasores – Aculturação dos bárbaros pela cultura latina: Apesar das conquistas bárbaras (germânicas) terem destruído boa parte da herança cultural greco-romana, isso não significa que a Europa Ocidental se tenha tornado germânica. De facto, a muito breve trecho os povos germânicos começaram a adoptar o que restava da antiga cultura romana, deixando-se influenciar por ela a todos os níveis, politico, artístico, jurídico, religioso, linguístico, etc. Embora isso não significasse a restauração total da cultura romana, significou uma desculturação gradual dos germânicos que, em certos casos, chegou a ser total. Só nas ilha britânica é que a língua germânica persistiu, mas, mesmo aí, com profundas modificações e influências latinas, para lá da influência romana em muitas outras áreas culturais. Tratou-se, pois, de uma caso em que os invasores reconheceram, implicitamente, o maior desenvolvimento da cultura romana, quanto mais não seja para lidar com populações mais vastas e com reinos mais complexos, tendo sido conquistados culturalmente pelos invadidos.
5º texto – Imigração – Aculturação dos norte-americanos pelos italianos: Toda a imigração influenciou, enormemente, a formação desse cadinho de culturas em que se transformou os Estados Unidos. Entre essa imigração, a “importação” da Máfia foi dos fenómenos mais relevantes na formação da actual “América”. A Máfia acabou por dominar vastos sectores da economia norte-americana, chegando a dominar cidades inteiras e influenciar muito significativamente a política norte-americana. Fê-lo, porém, mantendo a sua estrutura original, os seus valores, os seus costumes e as suas crenças. Assim, quer se goste ou não do facto, muito contribuiu para a afirmação da comunidade ítalo-americana nos USA, fazendo com que os seus padrões de cultura influenciassem inúmeros hábitos, práticas e até obras nos mais variados sectores. Houve, assim, significativa troca cultural em que, durante bastante tempo, foi mais a cultura americana que foi influenciada do que a cultura imigrante (embora esta também acabasse por ceder frente à cultura dominante).

24.10.07

Moodle: Plataforma de Investigação

O Grupo de Investigação CODEC, dipõe agora de uma Plataforma Digital, a partir da qual pode publicar e divulgar os trabalhos realizados e os Planos de Investigação.
Num mesmo espaço é possível trabalhar com três "Disciplinas" autónomas, nas quais três Grupos de Investigação apresentam e partilham tarefas e ideias.
Ficam convidados a visitar o Moodle de Santo António, através dos acessos:
Moodle
Área Projecto 12º

21.10.07

Crash

Porque estamos em colisão entre nós? Porque é que a sociedade norte-americana chegou a tais extremos de incompreensão? Porque é que há quem tente dar uma imagem de não pertencer ao seu grupo étnico? E que diferença será a mais significativa - a de grupo étnico ou a de classe social? Ou o cruzamento das duas classificações dá origem a novos grupos? Porque não tratamos os outros simplesmente como pessoas? E se podemos ser pessoas, porque não o somos sempre, se, quando o somos, a vida faz tanto mais sentido?
Estas são apenas algumas das questões que o filme exibido pode levar a colocar. Não fiquem, porém, limitados por elas. Elas visam dar ideias e não delimitar o que podem escrever. Escrevam um comentário (ou mais) tendo como quadro de referência as temáticas da pessoa, da mentalidade de grupo e do racismo.
Já agora, reparem que a imagem, apesar do filme respeitar a um enorme número de grupo étnicos, só contempla dois e um deles está representado por três dos quatro actores.

23.9.07

Texto de debate para os alunos do 10º ano de filosofia

"Admite-se que importa ter estudado as (...) ciências para as conhecer e que só em virtude de um tal conhecimento se tem o direito de sobre elas proferir um juízo. Admite-se que, para fazer um sapato, se deve ter aprendido e exercitado, embora cada um tenha no próprio pé a medida do sapato e possua mãos e nela a habilidade natural para a ocupação requerida. Só para filosofar é que não se exigem nem o estudo, nem a aprendizagem, nem o esforço."


Georg Wilhelm Friedrich Hegel


Acrescentaria que qualquer um cantarola no duche e não se considera, por isso, um músico; que qualquer um pode verificar as contas do supermercado e não se considera, por isso, um matemático; qualquer um faz rabiscos para se distrair e não se considera, por isso, um pintor, etc.. Porém, qualquer bêbado se considera filósofo por dizer duas ou três larachas sem nexo. Qualquer um pode ser matemático, músico, pintor ou filósofo. Mas só relativamente à filosofia é que há quem pense que todos os homens, só por pensarem, sem qualquer excepção, são filósofos. Poderá isto ter sentido?


22.9.07

L'enfant sauvage

Abro aqui o primeiro espaço para debate deste ano lectivo, motivado pela exibição (apesar dos problemas logísticos no 10º J) do filme L'enfant sauvage de François Truffaut.

Gostaria que considerassem as seguintes questões: se os genes são determinantes na formação da personalidade, como compreender que não assegurem as características específicas mais básicas do ser humano quando o indivíduo é privado de contacto com outros seres humanos? Ao contrário, será, então, que os genes em nada influenciam a formação da personalidade?
Poderão, em vez de responder às questões, salientar os aspectos que julgaram mais relevantes, por exemplo, características que consideramos universais no ser humano e que a criança não tinha, ou aspectos da evolução da criança. Aliás, poderão fazer os comentários que entenderem que se relacionem minimamente com o filme ou com a matéria. Tenham coragem que ninguém vos morde.

20.9.07


Primeira unidade do 10º ano de Filosofia

Os textos de apoio, as actividades e os apontamentos para este primeiro período, estão disponibilizados em formato word no seguinte endereço de um grupo google: http://groups.google.pt/group/riskici/browse_thread/thread/6d6a7b582910a409?hl=pt-PT
É só transferir para o vosso pc.

Boas vindas aos alunos de Área de Integração e do 10º ano de Filosofia

Agora que chegam, pela primeira vez, a este espaço de debate e reflexão, na vossa condição de neófitos, comecem por ter coragem. Não sei se é verdade que, dos fracos, não reza a história. Mas, pelo menos, neste blog não serão notados. Em breve, surgirão aqui temas de debate e de reflexão. Mas vós mesmos podereis trazê-los aqui e mostrar uma coragem ainda maior que o do simples comentário. O futuro é dos audazes.

26.5.07

A Astrologia - Trecho 5

Dá-se o caso de os astrólogos sempre se terem vangloriado de que as suas teorias se baseavam num número enorme de verificações - numa quantidade esmagadora de provas indutivas. Essa pretensão nunca foi seriamente investigada nem explorada, e não vejo por que não haveria de ser verdadeira. Mas pouco ou nada interessante é saber se a astrologia foi muitas vezes ou poucas vezes verificada; a questão é a de saber se ela alguma vez foi seriamente testada por meio de tentativas sinceras de a falsificar.

A explosão demográfica e o humanitarismo

Quem, no seu perfeito juízo, poderia não louvar os esforços humanitários desenvolvidos por médicos, enfermeiros e outro pessoal das mais diversas organizações, que se têm esforçado por minorar o sofrimento das populações do Terceiro Mundo facultando-lhes medicamentos, dando-lhes acesso a antibióticos, promovendo gigantescas campanhas de vacinação, tentando mesmo irradicar certas doenças e chegando mesmo a irradicá-las, como aconteceu com a terrível varíola? Frente a populações esquecidas pelo mundo, esses heróis lutam com meios extremamente escassos para fazerem face às mais diversas doenças epidémicas, algumas das quais, como a malária, continuam a matar em larga escala (2 milhões de vítimas mortais da malária por ano). Haverá outra forma de tratar o tema senão através da idolatração de tais pessoas?
Custa-me fazer o papel de advogado do diabo, mas raramente encontrei uma situação em que melhor se empregasse o velho ditado popular: "de boas intenções, está o inferno cheio." Poderão essas pessoas regressar a suas casas das suas cidades exuberantes de desperdício, com a boa consciência de terem salvo milhares de vidas humanas e, caso sejam religiosos, com a secreta esperança de um lugar no paraíso. Mas, entretanto, o que acontecerá a esses milhares de pessoas que "salvaram"? Para que vida salvaram essas pessoas? Nunca houve massas tão vastas de famélicos como na nossa humanitária época. Cada pessoa salva de doenças que eram mortais no passado, reproduzir-se-á e engrossará a massa de famintos. Em vez de morrer de uma doença que a faria sofrer durante alguns dias, semanas ou meses, poder-se-á arrastar com sede, fome e sofrimento, durante décadas. As vacinas e os antibióticos poderão ter chegado a tais remotas paragens, mas não a comida, com excepção de campanhas pontuais, e não as condições produtivas para superarem a miséria. As situações são diversas e em muitos locais as condições de vida são suficientemente aceitáveis para que as campanhas humanitárias sejam incondicionalmente boas. Não deixa de ser interessante que até essas condições aceitáveis sejam inferiores àquelas que, no mundo desenvolvido, se consideram inaceitáveis para a vida e justificativas, nas campanhas políticas, para a execução do aborto. Mas vastas regiões do mundo, como, por exemplo, a maior parte do Sahel, defrontam-se com condições, para uma população sempre crescente, inferiores a qualquer limiar mínimo aceitável. E, nesses casos, essas pessoas e a sua imensa prole que acompanha sempre, em qualquer lado, a miséria, foram "salvas"?
Claro que não é do pessoal humanitário a culpa das condições de vida dessas regiões desoladas. Claro que esse pessoal humanitário é o primeiro, no mundo desenvolvido, a conhecer essas condições e a revoltar-se contra a inércia das potências políticas e económicas que esbanjam recursos inimagináveis e só olham para essas regiões se a cobiça por matérias primas lá encontrar um alvo de exploração, que chegam a provocar instabilidade, conflitos e guerras apenas para terem um acesso mais fácil e barato à espoliação de tais recursos. Claro que têm a consciência de estar a lutar contra a maré e que a sua acção pouco pode melhorar as condições de vida daquelas pessoas. A questão, porém, é se não piorará em vez de melhorar. Criando condições para o aumento populacional, a acção médica, sem a evolução económica das zonas desenvolvidas, salva pessoas para uma cada vez maior pressão sobre os recursos disponíveis, levando a que se intensifique e se estenda a actividade agrícola a zonas reservadas tradicionalmente à pastorícia, à floresta ou a pântanos, provocando, imediatamente, desastres ecológicos e, com o tempo, a erosão dos solos e uma cada vez maior desertificação. Muitas vezes, a única solução é partir para cidades que não têm condições para os receber e onde se criam cidades de lata gigantescas, nas quais os famélicos procuram encontrar migalhas que caiam da mesa dos ricos que os possam sustentar um pouco mais de tempo. Mesmo nos países mais miseráveis, há sempre quem se banqueteie à beira das condições humanas mais deploráveis. De facto, algumas das maiores fortunas convivem com a miséria inominável da esmagadora maioria.
Muitas vezes, não se tem sequer conciência que a medicina é também uma área tecnológica. Como área tecnológica, tem o objectivo de mudar a realidade, nomeadamente as condições naturais. Como um engenheiro que tem como objectivo chegar à outra margem do rio e, para tal, constrói uma ponte sem estar a considerar todo o resto do mundo, assim um bom médico trata uma doença de um ser humano só porque é um ser humano, independentemente de quaisquer condições que existam à sua volta. Como poderá qualquer pai não querer que um médico salve o seu filho em sofrimento e que, antes, estava a caminho de uma morte certa? É por isso que é humana e humanitária a acção. E, com certeza, que esse esforço médico é infinitamente mais meritório que o dos médicos que só agem a peso de ouro em confortáveis consultórios acolchoados. Mas esta actuação tem as características de toda actuação tecnológica. Nunca parece haver consciência de que a mudança ou transformação de um grão de areia, passe o exagero, poderá ter impacto no conjunto do mundo. Com certeza que as organizações humanitárias poderão dizer que fizeram a sua parte e que cabe a outro tipo de organizações fazer o resto. Mas a questão está no facto de ser ou não benéfico fazer esta parte sem que as outras sejam feitas.
Os meios naturais de controlo da população foram muito diminuídos e, em vastas áreas do globo, não existem condições sociais, económicas e políticas para a criação de meios estritamente humanos de controlo. O desespero é de tal ordem que, em muitas zonas, já se levaram a cabo campanhas mais ou menos secretas de esterilização forçada e de abortos sistemáticos. Os locais onde tais práticas ocorrem não são, porém, os mais desfavorecidos de todos. Nos locais mais desfavorecidos, como em grande parte da África sub-saariana, a proliferação é entregue, simplesmente, à sede e fome massivas. No seu desespero, arriscam-se a tudo para virem bater à porta dos reinos do desperdício, a Europa e a América do Norte, e aí ganhamos consciência deles como um incómodo. Não temos sequer consciência que esse "incómodo" corresponde à esmagadora maioria do mundo. Sempre fiquei deprimido com o facto de os meus alunos pensarem que pertencem a um povo desfavorecido no mundo e de não terem nenhuma consciência que, mesmo os mais desfavorecidos entre eles, pertencem aos 15% da população mundial mais privilegiada. E esta cegueira é a primeira condição cultural para que todos os restantes erros de cálculo sejam feitos. O mundo está à beira do abismo e muita gente julga que está contribuir para a salvação do mundo com chazinhos de caridade.
Seria melhor, então, não fazer nada? É demasiado tarde para e demasiado horrível não fazer nada. Costuma-se dizer que o bom é inimigo do óptimo, mas, por vezes, trata-se, simplesmente, do mau ser melhor que o pior. Estou certo que a África estaria muito melhor se não tivesse existido a colonização e se nunca lhe tivessem sido trazidos os "benefícios" da "civilização", da tecnologia. A natureza geriria muito melhor a realidade humana do que os humanos têm gerido. Porém, as multidões sempre crescentes de famélicos já aí estão e deixá-los, simplesmente, morrer é já o que acontece, sem que isso signifique, porém, qualquer paragem ou recuo na explosão demográfica. O que seria importante é que se começasse a pensar melhor e que se ponderasse, sempre, o conjunto das situações, em vez de entregar o tratamento dos constantes cenários catastróficos a tão arrebatados como inconsequentes (quando não nefastos) gestos de entrega do coração. O que seria importante é que se deixasse de pensar parcialmente, unilateralmente, fragmentariamente, e cada acto se integrasse num todo. É isso que se vai passar? A julgar pelas sucessivas declarações da ONU, o fim da fome no mundo está sempre a um passo, mas, passados uns anos, estamos sempre mais distantes do que estávamos. Não me parece crível que vá ocorrer uma reforma na humanidade de tal ordem que, por todo o lado, em uníssono, se comece a pensar decentemente. Julgo que, infelizmente, o melhor que se pode esperar é que tudo continue, mais ou menos, na mesma, nuns lados melhor, noutros pior. E temo, sinceramente, que tudo esteja a progredir para a desgraça inexorável, até porque o que o passado nos mostra das tentativas de "civilizar" o mundo é que parece sempre querer dar-se razão a um outro ditado popular: "pior a emenda que o soneto."
Que assim não seja, podem crer que adoraria estar enganado...

25.5.07

As matanças mundiais

Mais de cem milhões de homens morreram nas duas guerras mundiais e na guerra civil russa (que foi uma extensão da grande guerra) e muitos outros milhões em outras guerras ligadas à 2ª grande guerra. Uma matança de tal ordem não se faz sem tecnologia e sem uma mentalidade tecnológica.
Que quero eu dizer com uma mentalidade tecnológica? Uma mentalidade que, julgando que algo está mal na realidade, se concentra nos meios para alterar essa realidade. Uma mentalidade que considera a realidade como um quadro no qual se devem fazer as alterações julgadas necessárias, um conjunto de matérias primas brutas que é necessário transformar para dar origem à matéria esmerada, à realidade considerada ideal. Uma mentalidade que concebe a realidade como algo que se usa e abusa para atingir os objectivos considerados superiores. O pretender alcançar objectivos superiores, o que a realidade deveria ser, é antigo e não é imputável à mentalidade tecnológica. Mas a esse desiderato, juntou-se contemporaneamente um cálculo frio e rigoroso que entrega o mundo inteiro à usura e que não o considera verdadeiramente como mundo, mas sim como matéria transformável, como um mero fundo a partir do qual, num atelier, se pode desenhar o que se quiser e transformar, inteirinho, num estaleiro de obras.
Esse estaleiro abrange toda a realidade, mesmo a humana, afirmando-se tanto na engenharia monumental, como na engenharia utilitária, como na engenharia do extermínio, como na engenharia da conquista, como na engenharia genética, como em qualquer outra área, mesmo a ecológica. E quando o mundo for acabado pela regra e pelo esquadro, seja a régua e o esquadro dos nazis, seja a da União Europeia, da China ou da União Soviética, seja a das multinacionais norte-americanas ou japonesas, seja que régua e esquadro for, ainda teremos um mundo onde valha a pena viver? Infelizmente, cada régua e esquadro concorre com as outras e não parece que possamos chegar ao fim desta concorrência - mas se pudéssemos ultrapassar esta situação de constante conflito, um mundo tecnológico todo orientado na mesma direcção, seria desejável? Ou seria um despotismo inominável onde a própria realidade humana desapareceria, considerada um fundo a transformar, uma matéria bruta de que se poderia pôr e dispor em prol de objectivos mais altos, mais um objecto de usura entre tantos outros, um conjunto de produtos que se possa transaccionar de acordo com o valor da transformação? Talvez esse admirável mundo novo não esteja tão distante quanto se possa supor...

24.5.07

Holocausto

Crianças vítimas de experiências "científicas".






Seria possível o holocausto judeu, na dimensão que teve, sem a tecnologia e, sobretudo, sem uma mentalidade tecnológica? Seriam possíveis as guerras mundiais, as purgas soviéticas, os múltiplos genocídios, sem tecnologia e sem mentalidade tecnológica? No fundo, não são só as grandes barragens ou canais (também com um triste registo de uma mortandade sem fim - vejam o canal do Panamá ou os canais soviéticos), não são só os arranha-céus e as grandes vias de comunicação, não são só as nossas cidades iluminadas de noite como se fora dia, que são grandes realizações da tecnologia. O holocausto ou a 2ª guerra mundial também são grandes realizações da tecnologia. Como diria o vendedor de J. K. Rowling a propósito de Voldemort: "grandes mas terríveis".

A doença de Minamata


Simples descargas de uma fábrica (Chisso Corporation) no Japão deram origem à doença. Outras em Niigata, também no Japão, continuaram-na. As descargas continham altos teores de mercúrio. Ascendem a cerca de 3000 as vítimas reconhecidas da doença. Descubram o sofrimento que está por detrás da fotografia.

A nuvem negra de Mordor?

Infelizmente, não havia sido a primeira vez e, provavelmente, não será a última. Em 2006, os incêndios provocados no Borneo para desbastar terras para a agricultura à custa da selva tropical, criaram uma gigantesca nuvem de fumo que tornou o ar dificilmente respirável em todo o sueste asiático, transformando o dia numa noite poeirenta e afectando a região durante mais de um mês. A segunda foto refere-se à cidade de Kuala Lumpur, bem distante dos incêndios no Borneo.

Exxon Valdez

Em 1989, o petroleiro Exxon Valdez derramou cerca de 11 milhões de galões de crude, segundo as menores estimativas, junto à costa do Alasca, atingindo mais de 2000 Km de costa e afectando uma área muito maior. Centenas de milhares de aves e biliões de animais marinhos morreram e os ecossistemas continuam, ainda hoje, destruídos ou afectados.

O desastre de Bhopal





Em 1984, numa fábrica da multinacional americana Union Carbide situada em Bhopal, na Índia, a libertação de um gás venenoso de um contentor de armazenamento devido à destruição de uma válvula sob pressão excessiva, provocou a morte quase imediata de milhares de pessoas e continuou a matar, a pouco e pouco, outras milhares ao longo do tempo, sendo, ainda hoje, a causa de inúmeras enfermidades que encontram tão pouco acompanhamento médico, como se encontram números exactos relativos à catástrofe. Só 20 anos depois as vítimas sobreviventes começaram a receber indemnizações, num acordo muito criticado entre a Dow Chemichal (que adquiriu a Union Carbide) e o governo indiano, tendo este último acordado o encerramento definitivo de toda a disputa. As pessoas, porém, continuam a sofrer.
Legenda das fotos: A idosa da foto sobreviveu em estado grave mas toda a família morreu. Criança não identificada. Cremação em massa. Crânios abandonados após a investigação médica.

Lago Chad



Como parecem gostar de temas apocalípticos, o lago Chad fornece outro, sintoma da desertificação do Sahel em proveito do Saara e, novamente, da agricultura intensiva. Dos 26000 km2 de 1960, restavam 1500 km2 em 2000. O resto do lago surge a azul, na foto maior de 2001. Pode-se ver por cima a progressão desde 1973.

Resposta ao concurso "Quem é este bacano?"

Desculpem o atraso na resposta. O trabalho distraiu-me. A resposta é "A reencarnação do meu caniche." Ou seja, falharam miseravelmente. Como vos disse, a net engana muito. No final do ano, vou por um que vocês não conseguirão responder com a net.

22.5.07

A situação no Mar de Aral

Para verem que as catastrofes ecológicas não se resumem a Chernobyl, eis aqui um outro exemplo. Para irrigar e transformar em terras agrícolas vastas áreas das estepes da Ásia Central, sobretudo destinadas à produção de algodão, as águas do Amu Darya e do Syr Darya que alimentavam o mar de Aral, foram sistematicamente desviadas para os canais de irrigação, provocando, a pouco e pouco, a redução das dimensões do mar, estando, hoje, reduzido a um quarto da área original (1960 - 68000 km2; 2004 - 17160 km2). Aparentemente, a situação não é pior devido ao influxo proveniente de correntes subterrâneas. A salinização quer do lago, quer das terras resultantes do recuo das águas, e a deposição de químicos, nomeadamente, resultantes dos fertilizantes e pesticidas usados a montante, tornaram a região inóspita, levando ao abandono da região por grande parte da antiga população, sem recursos para sobreviver, e ao desenvolvimento de doenças cancerígenas e pulmonares entre a população remanescente. Pior ainda, verificou-se que boa parte do desvio das águas (em algumas estimativas, a maior parte) é destinado ao desperdício por falta de impermeabilidade dos canais e por evaporação (repare-se que se tratam de terras, originalmente, desérticas ou semi-desérticas). O antigo mar dividiu-se nos anos 90 em dois lagos menores e ameaçava dividir-se em três em 2003. Recentes medidas do governo casaque têm vindo a melhorar a situação na secção norte do Mar de Aral.

Paralelamente a esta situação, com muitos pormenores aqui não referidos, outros assuntos interessantes são os efeitos das instalações de investigação e deposição de resíduos de armas biológicas localizadas numa antiga ilha situada no meio do Aral, assim como os actuais interesses na exploração de petróleo e gás na zona.


Legenda das fotos: Redução progressiva do Mar (1964; 1985; 2003). Navio abandonado. Antigo porto de Aral. Antigo mapa do Aral e da sua bacia hidrográfica.