25.1.24

A inclusividade pedagógica

 


            A generalidade dos professores já pouco ou nada reage às investidas doutrinárias das modernas inclusividades, transição digital, flexibilidades, etc. Se instados, em privado, a dar a opinião, é, porém, muito generalizada a rejeição quer através de trejeitos, quer com declarações relativas à sua absurdidade. Porém, existe um número amplo de comissários políticos e de professores carreiristas que estão dispostos a seguir qualquer orientação do poder momentâneo, mesmo que em completa contradição com a que seguiam também fervorosamente ainda há poucos anos, para tornar quase axiomáticas as maiores falácias ou simples falsidades através da estratégia mais usada pelos próprios políticos da repetição ad nauseam. Este período é bastante diverso de anteriores, por exemplo, o do consulado de Guterres, porque, para realizar os desígnios ideológicos que passam por ciências de educação, se criou uma guarda pretoriana própria. Esses comissários de política educativa foram colocados em número muito superior a qualquer grupo disciplinar, ano após ano dos anos deste consulado, aproveitando o grupo já existente do ensino especial – mas deixaram de ficar circunscritos ao tratamento dos casos desses alunos (muitas vezes até mais negligenciados que anteriormente), até por o seu número exceder em muito as necessidades do ensino especial. Muito embora possam proferir objetivos mais construtivos, na verdade, como iremos ver, nada mais têm a dizer quando se dá a positiva a todos os alunos. Por muito que digam o contrário, nunca os vi (nem eles, nem ninguém) ir verificar se uma determinada classificação positiva corresponde a algum tipo de aprendizagem, mesmo que ínfima. A partir do momento em que se atribui a positiva, deixam de existir considerações de tipo algum. Torna-se, por isso, claro que o objetivo central desses comissários é o de produzir a adulteração dos resultados educativos de forma a garantir estatísticas de pleno sucesso. Em termos públicos, não existe a consciência desta realidade. Ainda recentemente, ouvi um dos comentadores televisivos referir como um dos problemas do ensino a falta de professores do ensino especial. Não, apesar de poder haver falta de funcionários ou especialistas dedicados às NEE, esse é o único grupo que não tem falta de professores em lado algum, embora, como qualquer massa, busque sempre ter um ainda maior número. Ora, esse processo de ampliação do número de comissários começou exatamente na altura em que se anunciava para breve o início da falta de professores nas escolas.

O público em geral não tem consciência de que esse grupo é atualmente constituído por docentes dos mais diversos grupos disciplinares, na maioria dos casos, sem qualquer formação académica relacionada com as NEE, quanto muito uma das bem pouco sustentadas formações de professores, que estavam em situações mais ou menos precárias e viram no ingresso nesse grupo a possibilidade de estabilização da sua vida numa efetivação segura. Do ponto de vista governamental, tal decisão mostra uma opção inequívoca que tem sido muito pouco sublinhada, para não dizer ocultada. O governo sabia que, ao desviar tão grande número de docentes para esta função, estava a criar condições para uma aceleração vertiginosa da falta de docentes disciplinares. Porém, não tenho a mínima dúvida que o fez intencionalmente, visto ouvir, há décadas, da parte de professores alinhados e políticos, uma desvalorização sistemática do saber disciplinar e a defesa de que qualquer um pode “ensinar” seja o que for, sem necessitar de qualquer conhecimento especializado. Fê-lo porque lhe importava mais garantir que os professores martelassem resultados do que quaisquer aprendizagens reais. Na verdade, isso mostra que, ao governo, importa mais a aparência presente que os resultados futuros na sociedade – e, para ocultar tal facto, envolve todo o sistema numa nebulosa de considerações difusas destinadas a relativizar a avaliação e recusa todo o escrutínio rigoroso dos resultados das suas intervenções. Declara-se que os resultados são mais ou menos os mesmos com toda a desfaçatez, quando se veem as escolas que anteriormente se destacavam pela positiva a afundarem-se nos exames na direta proporcionalidade da implementação das inclusividades – ao contrário, exatamente, das escolas que resistem a ou moderam essa implementação. Por isso, procuram desesperadamente acabar com os exames, pela maior dificuldade de aí levar a cabo uma fraude equalizadora.

            Pior ainda, como existe falta de professores, muito agravada por esta migração para o comissariado, o número de alunos por turma tem que ser cada vez maior, não se importando a tutela de impor o ingresso em turmas já cheias, até perfazerem 32 alunos, quantas vezes com alunos estrangeiros “despejados” na escola que nem inglês sabem e que os docentes, à falta de melhor solução, apenas acrescentam ao número das fraudes educativas que já têm de cometer. Como os horários estão mais que preenchidos, existe um cada vez menor recurso ao instrumento tradicional do apoio pedagógico acrescido e são as próprias Direções que o desincentivam, apelando a meios mágicos alternativos.[1] E os comissários têm de continuar a transmitir a doutrina da diferenciação que requereria um ensino individualizado quando os docentes não privilegiados pelos arranjos feitos nas escolas têm que lidar com verdadeiras massas industriais, com os quais só é possível o ensino massificado universal ou a pura e simples desistência dos docentes, dando positivas a todos sem critério e sem aprendizagem, de forma a não serem incomodados. Não creio que os comissários sejam de tal modo alienados da realidade que possam crer que tais pedagogias diferenciadas possam ser implementadas sem esforço algum pelos docentes, como já os vi defender sem que ninguém levantasse a voz para lhes dizer que estavam a delirar. O seu objetivo é apenas o mesmo que orienta os ideólogos há muitas décadas, criar má consciência nos docentes, fazê-los crer que a culpa do insucesso é sempre sua e, assim, para se redimirem da culpa, forçá-los a apresentar resultados falsificados que, hipocritamente, se declara nunca terem sido pedidos. Se o governo tivesse a mínima intenção de aferir os resultados desta política, bastava-lhe ver se a percentagem de alunos do ensino público aumentou ou diminuiu no ingresso nos cursos mais procurados, as medicinas, certas engenharias, etc. Mas os dirigentes do partido que promove esta exclusão camuflada de inclusividade sabem bem o que estão a fazer e têm quase todos os filhos e netos nas escolas privadas de excelência. Perante este cenário, o que é fornecido nas escolas para mantê-las no caminho pretendido? Retórica falaciosa, reproduzida pelos comissários dos ideólogos pedagógicos e dos políticos alinhados.

Escalpelizando logicamente um exemplo recente, pode-se, por exemplo, apresentar como premissas de uma conclusão inicialmente apresentada a já velha distinção entre os estilos de aprendizagem. Poder-se-ia também ter ido buscar os tipos de inteligência e ainda várias outras teorizações psicológicas que os docentes bem conhecem há muito. Qualquer dessas abordagens é muito meritória e seria ótimo poder tê-las em constante consideração, mesmo tendo em conta a massificação já referida. Na verdade, tais premissas já ignoram um fator que é o da progressão entre os níveis de ensino, desde um ensino que deveria ser quase só lúdico, até à necessidade de uma aprendizagem muito mais formalizada que, por isso mesmo, se torna muito inapropriado adequar a qualquer estilo de aprendizagem. Mas, lá está, o mal aqui estará, do ponto de vista dos ideólogos, nas disciplinas, mesmo quando elas já são escolhidas e não são obrigatórias, de forma correspondente aos cursos superiores em que se pretende o futuro ingresso. Voltarei mais adiante a esta questão. Não chegando as limitações desta abordagem no contexto fornecido, nunca se apresentam tais premissas sem recurso a falácias grosseiras. No exemplo referido, qual era a conclusão a propósito da qual se apresentavam depois as justificações, ou seja, as premissas relativas aos estilos de aprendizagem? A conclusão era a relativização da avaliação das aprendizagens, procurando defender como aprendizagem de algo seja o que for que o aluno dissesse. Para isso, forneceu-se antes um exemplo edificante que ignorava por completo as diversas condições de aprendizagem e forçava um aluno que não tinha condições para fazer uma determinada aprendizagem a chegar a um resultado, exclusivamente, com os seus meios próprios, tudo envolvido num embrulho poético que convidava a desencadear emoções e não a pensar.[2] Mas tais exemplos narrativos servem para tudo e o seu contrário. Também há o filme da professora que se vê alvo de todo o tipo de processos por se atrever a considerar errado que 2+2=22. Ora, como se poderia considerar a discriminação dos estilos de aprendizagem justificação para a conclusão inicial, a de que se deveria considerar como aprendizagem qualquer resultado construído pelo aluno? Esta afirmação não se segue (non sequitur) daquelas premissas, para lá de se ignorar, deliberadamente, as condições que deveriam ser respeitadas ao adotar instrumentos adaptados aos diversos estilos de aprendizagem (ignoratio elenchi). De facto, quem for honesto intelectualmente e tiver condições para aplicar esses instrumentos, visa que o aluno atinja um determinado conhecimento pelas vias que forem mais adequadas para o aluno, em função do seu estilo de aprendizagem. Pode-se admitir, igualmente, a flexibilização da avaliação em função das várias vias seguidas pelo aluno ao construir o seu próprio conhecimento. Em lado algum, esta abordagem meritória implica que se aceite seja qual for o resultado que o aluno atinja, valorizando sempre positivamente a opinião do aluno. Mas é exatamente isso que todos os apaniguados da ideologia pedagógica governamental dizem, de forma mais ou menos clara, chegando a ter tal determinação nas grelhas destinadas a avaliar as aulas dos colegas, segundo os modelos de supervisão que não é por acaso que a maioria dos docentes rejeita.

            Há uns anos, lembro-me de um aluno que procurava defender que os norte-americanos nunca tinham ido à lua. Não sei se por ter visto isso em algum lado, se por originalidade própria (o que deveria ser muito valorizado segundo os nossos comissários), justificou a sua tese pelo facto de, nas imagens, os astronautas terem sombra. Segundo ele, se estivessem na lua, não a poderiam ter porque, sendo a lua uma estrela e irradiando luz, impediria a formação de sombras. Segundo os nossos brilhantes pedagogos, eu agi mal e fui um péssimo professor, visto lhe ter dito que o que ele estava a dizer estava errado, logo à partida pelo facto de a lua não ter luz própria e não ser uma estrela. Presumo que, em certas disciplinas, em que o que importa é o cultivo de um instrumento, por exemplo, uma língua estrangeira, pouco importe a falsidade ou verdade de outros conteúdos que podem ser abordados apenas como oportunidade de troca de ideias. Digo troca de ideias e não debate porque os docentes alinhados com estas ideologias relativistas se mostram extremamente avessos a qualquer forma de debate, tal qual os políticos e pedagogos se mostram hostis a qualquer forma de escrutínio. Na verdade, comportam-se nas escolas como uma seita que não admite contraditório. Consideram-se portadores da luz, consideram que estão a promover o progresso e distinguem apenas os docentes em termos da fidelidade aos seus ideais, tendo um declarado projeto de levar o conjunto dos docentes, a pouco e pouco, para o que consideram o bem. Deve-se dizer que, assim, se mostram bem mais honestos que os carreiristas que aplicaram, com o mesmo fervor com que seguem o Costa, as determinações do Crato, tendo já defendido tudo e o seu contrário, ficando sempre bem nas graças do poder instituído. Esta luta ideológica nada tem a ver com ciência, pois tudo está decidido antes de qualquer investigação científica, determinando, aliás, o teor da própria investigação. O que está em causa seria do âmbito da filosofia da educação e, mais amplamente, da filosofia política, isto é, se os agentes em causa permitissem algum tipo de filosofia. Mas não permitem. De facto, assumem uma atitude em tudo similar às religiões dogmáticas, mas sem sequer o seu sentido de transcendência, razão pela qual a atitude só revela uma ideologia política autoritária. O que está em causa é a finalidade da escola, para que serve a escola na sociedade, qual o serviço essencial da escola para a sociedade. Afinal, é logo aqui que se decide se a avaliação deve ser totalmente relativizada ou não, porque esta resposta depende daquilo que se pretende do sistema educativo.

            Antes de tratar essa questão, porém, gostaria de reafirmar uma tese que tenho já defendido em diversos textos e que está intimamente ligada com toda a circunstância relatada. Desde, pelo menos, os anos 90 que tenho ouvido os responsáveis, por exemplo, do Conselho Nacional de Educação a defenderem que a retenção dos alunos é, em todos os casos, contraproducente, levando à simples reiteração do insucesso. Embora ainda aí tivesse detetado diversas falácias, novamente devidas aos pressupostos que tratarei no fim, não tenho nenhuma razão para me opor à conclusão que decorreria dessas afirmações: o fim das retenções. Ora, os sucessivos governos socialistas, talvez com medo de serem acusados de facilitismo (como se fosse possível facilitismo maior do que aquele que têm promovido), têm optado não por tal medida que estaria na sua inteira responsabilidade, mas pela intimidação dos docentes, visando que cumpram o seu desígnio sem implementar o fim das retenções. Como consideraram que a intimidação das Direções e inspeções era ainda insuficiente, amplificaram enormemente um grupo dedicado a casos excecionais, pondo em causa as aulas disciplinares ordinárias por falta de professores, e fizeram desse grupo um grupo que vigiava a atribuição das avaliações de todos os alunos por todos os docentes, de forma a garantir, com recurso a ameaças diversas, que os docentes alterassem as suas classificações negativas. Como, ainda assim, não conseguiam cobrir todos os Conselhos de Turma (e até já se terem cansado de o tentarem) e nem todos os professores se deixavam intimidar, deu-se origem a uma sistemática arbitrariedade: alunos com desempenhos superiores a outros transitados por razão nenhuma que não a intimidação, podem ser retidos por estarem na turma errada com os professores errados – isto, considerando como errados os professores que insistem em fazer uma avaliação mais honesta (completamente honesta é coisa que já não existe) e não aceitam a ignomínia de outros exigirem que alterassem a sua avaliação, não por considerações suas, mas dos outros, sem que os outros, tal como o governo, assumam a responsabilidade pela adulteração dos dados. Os professores pedem respeito nas ruas, como se o respeito fosse medido pelo salário, e aceitam a desautorização e a imposição aviltante da fraude avaliativa, o que constitui uma absoluta falta de respeito aos docentes, de forma passiva. Mais ainda: os sindicatos tradicionais que falam em respeito colaboram empenhadamente nesta mistificação. E nada disto seria necessário se simplesmente tivessem acabado com as retenções. Os professores poderiam fazer uma avaliação honesta, os dados dessa avaliação seriam fiáveis, os alunos teriam uma informação fiável para os guiar nas escolhas que fariam de disciplinas e de exames de ingresso no superior. Não haveria ainda falta de professores, pois não teria sido necessária a ampliação desmesurada do grupo de ensino especial, mesmo se essa falta acabasse mais tarde por ocorrer. Mas como os docentes não seriam forçados a práticas aviltantes, a própria profissão seria mais atrativa e, sobretudo, atrativa não para demagogos relativistas, mas para profissionais ciosos do seu saber e da aprendizagem dos alunos.

            As falácias atrás identificadas no exemplo atual nada têm de especial. A falta de educação lógica ou a desonestidade intelectual parecem estar sempre presentes no discurso pedagógico. Ao longo de décadas, as falácias foram tão constantes que muitos se habituaram a elas até o ponto de as julgarem bons argumentos. Não vou repetir a denúncia do caráter falacioso do mantra dos responsáveis socialistas dos 80% das profissões que, desde os anos 90, iriam desaparecer nos próximos 10 anos, usado para relativizar os cursos orientados para a formação académica que, exatamente, não pretendem formar ninguém profissionalmente (sendo bem mais provável que a especificidade dos Cursos Profissionais os torne obsoletos, como já ocorreu em muitos casos passados, a curto prazo); nem a linguagem das competências transversais que foi, por sua vez, desenvolvida para atacar as disciplinas tradicionais, quando são exatamente essas disciplinas (Matemática, Português, Filosofia, Inglês, etc.) que permitem aprendizagens que serão sempre úteis em qualquer profissão; nem as sistemáticas estatísticas relativas ao ensino tradicional, descredibilizadoras do mesmo, sem nenhuns números, nem sequer martelados, sobre as experiências educativas que defendem, apenas as envolvendo em declarações holísticas, sem se admitir o mais ínfimo dos escrutínios reservados apenas para o ensino tradicional; nem a pretensão de aplicar a massas de alunos modelos de diferenciação desenvolvidos para pequenos grupos, etc. Tudo isto é do domínio do mesquinho que será esquecido sem deixar rasto. Mesmo estes argumentos que se prolongam durante décadas só parecem persistentes para a curta vida humana, acabando por vir a ser descartados como inutilidades absurdas e nocivas, como ocorreu com os precursores destas correntes do início do séc. XX. São citados pelos realinhados, mas sem nunca explicar porque é que algo tão perfeito foi desprezado. A verdade é que, ontem como hoje, os revolucionários ideologicamente motivados estão tão convencidos da verdade absoluta do que defendem que se consideram justificados para aldrabar todos os dados e olhar de viés para as mais óbvias objeções, sem nunca seriamente as considerar. Por isso, aliás, criaram as mistificações recentes à custa da falta de professores para os grupos disciplinares. Por isso, também, desenvolvem todo um discurso que visa acabar de vez com o saber disciplinar. Por isso, tentam, também, tornar obsoletos os professores pela sua substituição, cada vez maior, por formadores, dinamizadores e meios digitais.

É adequado denominar pedagogos aos profissionais que estes partidários defendem. O pedagogo, na Antiguidade clássica grega, não era o professor, mas sim o escravo que levava as crianças e que procurava que elas se comportassem devidamente. Esse é o papel que se mantém reservado, segundo estas gentes, para o professor, acompanhar e vigiar as crianças, ocupar-lhes o tempo na melhor das hipóteses. O professor era o didáskalos que procurava transmitir da melhor forma o que era considerado saber na sua época. Ora, das mais diversas formas, os responsáveis governamentais e os pedagogos fazem de tudo para relativizar o saber, de forma a considerar qualquer opinião saber, ficando, depois, muito surpreendidos com os Qanon deste tempo que ameaçam diretamente os seus efetivos criadores, visto terem transformado todo o disparate em opinião legítima que não se podia qualificar de errada e ignorante. Sempre houve maluquinhos, a diferença da nossa época é a de terem sido legitimados pelas instituições supostamente educativas. Ora, se já é discutível que se possa aceitar tudo no presente para não frustrar as crianças, para não macular a felicidade imediata que estes pedagogos consideram que é a única coisa por que devem zelar numa escola, para lisonjear as famílias todas satisfeitas com o êxito do seu rebento, quando se tenta pensar na finalidade de uma instituição assim para a sociedade, sobretudo para o seu futuro, a gravidade do que se está a fazer é verdadeiramente avassaladora. Tal processo é solidário do processo de mecanização mental que eu trato noutro artigo ainda deixado incompleto, que prepara o futuro triunfo da inteligência artificial (não aquela que por aí se propagandeia e que é apenas o desenvolvimento da anterior estupidez artificial). O objetivo que resulta dos atos destes pedagogos e não das suas palavras enganosas é muito simplesmente alienar o ser humano mediano do seu saber, do seu fazer e da sua vontade. Pretende-se ensinar empatia e pensamento positivo para criar um ser conformado e disposto a aceitar tudo, ou seja, sem vontade. Fala-se de pensamento crítico, mas o que defendem está nos antípodas da filosofia e é completamente contrário ao debate. O saber é sistematicamente considerado dispensável e defendem-se apenas as competências transversais, uma espécie de florescimento indeterminado de capacidades holísticas, o aprender a aprender nem se sabe bem o quê, pois se deve estar aberto às possibilidades futuras. Finalmente, entregar-se-á todo o fazer às máquinas e à inteligência artificial, realizando plenamente o sonho do preguiçoso e cancelando definitivamente o humano, o humano que sempre foi o homo faber, o animal cuja essência se realizava por aquilo mesmo que fazia. E para toda esta aniquilação do homem enquanto homem não faltam demagogos a conduzirem a massa para o abismo. Teme-se o colapso ambiental, mas eu pergunto-me, sobreviver, para quê? Para uma distopia técnica em que o homem já não terá lugar a não ser como um ser amorfo ou, o que até é preferível, um escravo?

            Os demagogos, sejam eles pedagogos ou não, apresentam essa distopia como a utopia que realizará plenamente a história humana, visto permitir aos homens realizarem plenamente a sua criatividade. Ora, em todos os homens se pode desenvolver a capacidade de fazer, ou seja, de trabalhar, mas é sempre uma ínfima minoria que se mostra criativa. O que se vê na vasta população que, nos países privilegiados, já nada é obrigada a fazer, é o cultivo de uma indolência brutal de que os meios digitais bem mostram a natureza, sobretudo, mas não só, nas redes sociais. Os defensores dos amanhãs que cantam sempre foram precursores não de sonhos, mas de horríveis pesadelos. Todos os maiores crimes já cometidos pela humanidade e contra a humanidade foram cometidos devido a uma promessa de um futuro, aquém ou além, radiante. Mesmo o atual colapso ambiental, resulta do sonho simultaneamente democrático e industrial, da satisfação sem limites dos desejos de todos. O utilitarismo surgiu como a filosofia adequada a esse sonho, o da maximização do prazer e da eliminação da dor, e hoje todo o discurso político, consciente ou inconscientemente, é dominado por esse ideal. O que torna impossível escapar ao colapso ambiental é que todos tentam tornar o futuro sustentável sem prescindir dos seus níveis de consumo ou até, no caso dos países ditos em vias de desenvolvimento, aumentando tais níveis. Com toda a tendência a aldrabar todos os dados e a falsear todas as estatísticas, arranja-se sempre maneira de fazer um discurso de aparência onde se diga estar a fazer exatamente o contrário daquilo que se faz. Portugal ou a própria Europa diz-se defensora do meio ambiente, recorrendo à sujidade dos outros. Os jovens consomem sem controlo e vão para manifestações culpar os mais velhos do estado do planeta. Na verdade, são ainda mais estimulados a consumir pelos adultos e seus programas de intercâmbios, de digitalização e de ludicidade. Os defensores da paz são, quase invariavelmente, promotores da guerra. Os meios de comunicação que se declaram fidedignos são máquinas de propaganda que constantemente transmitem juízos de valor como notícias. As escolas tornam-se, cada vez mais, instituições certificadoras de saberes inexistentes, de atitudes conformistas em vez do espírito crítico e da autonomia que dizem promover, de habituação à indolência que tornam os nossos jovens cada vez mais incapazes de resistirem às exigências de um mercado de trabalho. Um país clientelar do Estado, seja sob governos de esquerda, seja sob governos de direita (apenas de modos diferentes), enche a boca constantemente com o empreendedorismo – de facto, cheguei a ver políticos que fizeram toda a sua carreira no Estado a defender que era melhor a precariedade da construção do currículo na iniciativa privada. Aquilo que se declara é constantemente negado pelas ações e a denúncia das ações é constantemente negada por linguagem eufemística e/ou mistificadora. A mentira só não tem plenos direitos de cidadania porque não agrada aos poderes toda a mentira, mas apenas aquela que camufla aquilo que estão a fazer. De resto, não se pode dizer nada de forma clara, tudo é tratado de viés, as realidades não são chamadas pelos nomes, o que ocorre é sempre camuflado por um qualquer volteio retórico considerado aceitável. A honestidade intelectual é tratada como um crime e a malícia é considerada manifestação de inteligência emotiva.

            É verdade que existem tendências por toda a Europa que infletiram o rumo no âmbito da educação. Não creio que se enraízem longamente devido à tendência democrática para a lisonja e o facilitismo, para nem falar da alienação artificial. Porém, a questão que será sempre a central enquanto ainda existirem seres humanos é se o saber ou o conhecimento são ou não negligenciáveis na escola. Na verdade, se forem negligenciáveis, não se percebe para quê os rios de dinheiro que se gastam no sistema educativo. Pior ainda, criar-se-á sempre tensão enquanto se mantiver o recrutamento docente ancorado nos saberes académicos, os tais ligados às disciplinas que os demagogos dizem que são irrelevantes e onde se sediam os diversos saberes. Enquanto esta for a sua origem, haverá sempre docentes reacionários que resistirão na medida das suas possibilidades ao aviltamento a que é sujeito o saber que os formou. É verdade que já há modelos de certificação que premeiam financeiramente quem não se predispuser a aprender mais nada, ao passo que nada é dado a quem ainda busca aprender algo. Mas, talvez com medo das repercussões políticas, insistem em manter um recrutamento académico que cada vez mais desprezam, ao menos, para os outros, os jovens que não têm acesso a escolas de excelência. Mas, se o objetivo for apenas uma qualquer forma de animação de algum tipo para ocupar os meninos e fazê-los produzir algo sem qualquer exigência objetiva, para quê pagar a tantos docentes formados nos mais diversos saberes? De facto, para quê professores se 2+2 pode ser 3, 5 ou 22? Para quê materiais didáticos se tudo pode ser tudo, se a lua pode ser uma estrela, queijo ou um portal interdimensional? E mesmo a própria fantasia, não bastará sonhá-la, visto que tão-pouco farão sentido regras de gramática e escrever histórias fantásticas dá trabalho demais, acabando por ser pouco inclusivo? Aliás, como poderão os outros entender a história, se cada qual desenvolver as suas próprias regras? Os sofistas de hoje são os mesmos de sempre, visam o sucesso fácil e pouco se importam com o bem comum, apenas em fazer vingar como bem comum o seu relativismo e a sua arbitrariedade. Dispensar como objetivo último da escola o saber é retirar-lhe a razão da sua existência. Poderá continuar a chamar-se escola, mas não se distinguirá da creche e do lar. E se se dispensasse assim o saber por toda a parte, seria a sociedade que acabaria por colapsar. Mas não se dispensa em toda a parte. Em breve, a escola pública e uma parte das escolas privadas serão apenas para as grandes massas. Aqueles que não tiverem grandes ambições para os filhos, não os querendo, apenas, sujeitos a ambientes de exclusão social, procurarão algumas situações intermédias. Mas, além disso, manter-se-á um ensino privado de excelência que assegurará a quase totalidade dos futuros quadros que dominarão a sociedade. Isto nem sequer é futurismo, é o que já está a acontecer, promovido pela escola da inclusividade presente e da exclusão futura.

            O mundo nunca foi o simples sítio onde se encontram as coisas. O cosmos grego era uma ordem instaurada pelos deuses em oposição ao caos. No mundo judaico-cristão, sempre viram teólogos e filósofos o sinal de um desígnio devido à ordem que se manifestava no todo e na parte (por exemplo, na orgânica dos seres vivos). Vivendo, hoje, sob o signo da morte de Deus, tornou-se evidente que a ordem cósmica sempre foi uma arquitetura da própria mente humana. Essa arquitetura é a do pensamento, mas ganha expressão, eficácia e partilha na linguagem. Aliás, não há pensamento sem linguagem. O pensamento estrutura-se pela lógica, várias lógicas, conforme as limitações do seu estudo. Essa lógica fundamenta a matemática, tornando possível o estudo do real; desdobra-se em aplicações, como a gramática, todas as gramáticas, qualquer gramática; e como a metodologia, a lógica aplicada que torna possíveis as diversas disciplinas. Com as ferramentas matemáticas, linguísticas e metodológicas, toda a arquitetura do mundo se orienta por essa filha da lógica, tantas vezes considerada por tantos bastarda, a causalidade, que não admite, logo a nível formal, que algo possa surgir do nada, mesmo que só tortuosamente ou nunca, sempre sem dispensar apoio empírico, se possa descobrir de que, concretamente, proveio isto ou aquilo. Nada se pode considerar explicado se não se conseguir determinar uma razão, um motivo, uma causa. E mesmo que não se encontre alguma causa, nunca se concluirá a sua não existência, mas apenas a própria ignorância, seja fenoménica, seja numénica, seja mesmo existencialmente, por muito que se tenha iludido uma geração com a afirmação contrária. Pela causalidade, por todas as ordens causais, se entretece o mundo. Sem causalidade, não se tem qualquer mundo, mas o caos. E o conhecimento a cada momento possível das múltiplas causalidades identificáveis, conhecimento transitório e sempre limitado pelas condições cognitivas da subjetividade, é a linha através da qual se tece, paulatinamente, o mundo. Quem o tece poderá ter uma espontaneidade que não se deixa explicar desta forma, a não ser de forma imprópria, inadequada. Há um mistério na raiz deste mesmo entretecer que só se pretende apreender por formas ilusórias e manipuladoras. Mas esse mistério não poderá sequer mostrar-se a florescer se não lhe for permitido sequer entretecer o mundo.

As disciplinas são, de facto, arrumações de conveniência. Permitem, porém, fazer chegar às consciências as linhas que lhes permitem tecer mundos. A conveniência tão pouco é arbitrária. Ninguém pode saber tudo de tudo. Ninguém pode saber tudo de tudo, sobretudo numa determinação cada vez mais específica de cada uma das sequências causais e de cada perspetiva de as conceber. Assim, a arrumação artificial das disciplinas, se pode ser um obstáculo à criação de um verdadeiro mundo, devido à rigidez e unilateralidade com que é encarado cada saber, devido à redução à operatividade técnica, devido ao dogmatismo que facilmente habita cada tradição, é uma forma bem adequada de fornecer linhas e tijolos e argamassa e terreno e capacidades para erguer a arquitetura da consciência que torna possível o mundo. O relativismo pedagógico apenas dissolve materiais e capacidades até tornar o sujeito incapaz da mais ínfima construção. Receitas associadas de conformismo, o condicionamento da empatia e da positividade, apenas garantem mais completamente essa dissolução numa entidade amorfa, apenas capaz de reagir de formas estereotipadas ao ambiente. Claro que a maioria dos seres humanos acaba sempre por ter este destino, a inclusão na massa indiferenciada das competências transversais. Mas não só, pelo ensino disciplinar, pôde ter consciência de poder existir algo mais, como esse ensino lhe dá a efetiva possibilidade de ser mais. Dessa possibilidade depende a própria capacidade das sociedades responderem aos mais diversos desafios, possibilidade propiciada por poucos seres humanos, mas de que beneficiam muitos, talvez todos. Ao se cancelar tal possibilidade para vastas classes sociais, cancela-se a possibilidade mais especificamente humana das possibilidades humanas, a possibilidade de criar mundo – não para todos, como já salientei, elites socioeconómicas e mesmo políticas garantem todas as possibilidades aos seus rebentos – mas para aqueles que já à partida tinham condições mais difíceis, assim tornadas quase intransponíveis.

            A construção pelo próprio aluno da sua própria aprendizagem não é um objetivo futurista a atingir, mas uma inevitabilidade de qualquer aprendizagem. Não há aprendizagem que não seja autodidata, por muito que muitos professores promovam as mais diversas e criativas oportunidades de aprendizagem. É isso, aliás, que os melhores professores fazem, seja através de aulas de questionação provocatória, mesmo que tradicionais, seja através de debate que busque a sustentação argumentativa das teses, seja através da organização de trabalhos de projeto, seja através da dinamização de atividades em clubes, seja através da organização dos mais diversos eventos, etc. – os docentes procuram assim criar condições para o florescimento da pessoa a partir da gente indiferenciada, a gente dos preconceitos que toda a gente tem, das banalidades que toda a gente diz, dos comportamentos estereotipados que toda a gente segue, do ostensivo copianço que se parte do princípio que toda a gente faz. Porquê e para quê? Porque só a pessoa permite encontrar novas respostas e não o mero eco do ambiente social. Para que o mundo seja fecundado de novo sentido capaz de superar o caos que as gentes espalham pelo planeta. O mundo precisa de ser renovado e recriado porque a mensagem do passado se mostra incapaz de o manter mundo, visto ser perpetuada apenas sob as formas anquilosadas, unilaterais e acéfalas da gente que apenas se mostra capaz de seguir pouco importa ao certo o quê. Para essa gente, incapaz de criar, de dizer, de pensar, a não ser reproduzindo de forma deformada e estulta o já dito, é também fundamental o que as novas pessoas possam trazer, mesmo que, quase invariavelmente, sacrifiquem esses criadores sagrados à imolação pelos coletivos e à profanação posterior da sua apropriação desfigurada pelas gentes. Ora, travestida de construção pelo aluno do seu próprio saber, aquilo que os pedagogos e comissários promovem, é a reprodução do caos das gentes, cancelando qualquer possibilidade de escrutínio do que fazem, hiperbolizando os produtos de copy/paste, sacrificando a diferença individual ao serviço ao coletivo para garantir pseudoresultados a quem nada sabe ou quer saber, apresentando como espírito cooperativo o trabalho de uns para a indolência de outros e obrigando a uma constante adulação da ignorância, do desleixo e da completa ausência de verdadeira criatividade. Uma tal glorificação da mediocridade nos seus piores aspetos só pode contribuir para a deterioração e decadência social, para lá da já referida estratificação cultural que redunda, rapidamente, em estratificação económica e social, ainda mais extremada que aquela que apenas reproduz.

Pelo contrário, um ensino sólido que forneça modelos mais consistentes para as gentes imitarem, aquilo afinal que acabam sempre por fazer, não só torna os indivíduos capazes de um serviço profícuo à sociedade, como fornece uma plataforma de sentido suscetível de ser criticada e superada, no florescimento antagónico da pessoa. O sistema educativo deve procurar garantir a transmissão do saber consolidado para todos e estar sempre aberto para a possibilidade do florescimento raro e minoritário da individualidade, mesmo nos meios excluídos cultural, social e economicamente. E ele ocorre. Mesmo neste pórtico do sistema educativo entre um modelo de saber e um modelo de bem-estar imediato que já não cumpre qualquer função quer académica, quer técnica, quer social, ainda continua a haver alunos que manifestam a sua criatividade individual de formas verdadeiramente surpreendentes. São uma minoria, mesmo em turmas com elevados níveis de desempenho, e ainda são mais ínfima minoria no conjunto do sistema, mas é importante que não sejam esquecidos ou castrados, como tantas vezes acontece, quer pela reprodução tradicional do saber, quer pela defendida, atualmente, reprodução do caos das gentes. Poderá parecer um objetivo secundário visto só ser concretizado por alguns, mas, na verdade, não deveria ser perdido de vista pelo sistema, até porque um sistema que não seja castrador da individualidade é um sistema que está preparado para o florescimento da individualidade de qualquer um – e que recusa que tal possibilidade seja restringida aos meios cultural, social e economicamente privilegiados. Um sistema que nivela por baixo, que não avalia rigorosamente as aprendizagens, que força os professores a adotar práticas fraudulentas para não serem humilhados com anterior ou posterior ameaça e intimidação, que se satisfaz com a produção de qualquer porcaria e valoriza ou até sobrevaloriza declarações objetivamente erradas, que declara aos sete ventos que todos podem aprender tudo por não exigir a ninguém que saiba coisa alguma, que desvaloriza a herança dos conhecimentos consolidados, trocando-os por declarações holísticas que tudo e nada podem significar, que exige justificações sistemáticas e exaustivas do trabalho sério, enquanto toma decisões arbitrárias sem a menor justificação, ofendendo não só o sentimento de justiça, mas a própria lei, que não cria o menor problema a quem não ensina coisa nenhuma por apresentar um sucesso que não corresponde a nada, mas que persegue sem descanso quem cumpre o seu dever, que equipara tudo e, por isso, dissolve no oceano da nulidade cada contributo discente realmente individual, que certifica a ignorância e a equipara ao saber, que castra o desenvolvimento de um saber verdadeiramente sustentado, mostrando, incessantemente, a cada aluno que não vale a pena se esforçar, pois os seus esforços trarão o mesmo resultado que a ausência total dos mesmos, é um sistema que condenará a sociedade à regressão, incapaz de confiar numa ponte que seja feita por quem proviria de um tal sistema, incapaz de investir numa empresa promovida pelas vítimas da desresponsabilização e estímulo à apatia característicos do caos que passaria por sistema, incapaz de dar crédito aos técnicos que lhe comunicariam uma solução política, incapaz de aderir a algo a não ser por inércia e ausência de alternativa.

Esse sistema, na sua forma final, ainda não existe, fundamentalmente devido à resistência dos próprios docentes, muitas vezes até por maus motivos, por inércia, preconceitos e até preguiça, mas que têm sido a garantia que a distopia defendida acriticamente por pedagogos, comissários e carreiristas não se realiza plenamente. Por essa ou outra resistência, também os meios do Ensino Superior impediram que se acabassem com os exames nacionais, contra a vontade inequívoca do Costa idolatrado pelos pedagogos. Naturalmente, essa extinção seria a condição necessária para que não se efetuasse o menor escrutínio, para lá de tornar prática corrente os sistemas de favorecimento no acesso ao Ensino Superior (mais generalizados do que os que já existem). Assim, a falsificação sistemática de todos os resultados poderia ocorrer sem que ninguém desse por isso e sem que os políticos tivessem que assumir o ónus de acabar com as reprovações, a única coisa que já há muito tempo seria decente e justo fazer, dada a intencionalidade manifesta e constante das chamadas políticas educativas. Dizem os nossos comissários que, a pouco e pouco, se vão eliminando os resistentes e se vai conseguindo que cada vez mais gente esteja quase lá, presumo que na luz. Quando isso acontecer, não só aqui, mas por toda a parte, a única coisa que será garantida será, a médio prazo, o aceleramento da decadência das sociedades ocidentais, cada vez mais obsoletas e incapazes de competir com outros blocos, pois não chegará a educação das elites para fazer face à concorrência. A razão porque tantos docentes ainda resistem e protegem o seu saber das investidas é um sentido de justiça elementar e a consciência que a realização dos objetivos educativos é diacrónica e não sincrónica, não está reduzida à satisfação imediata, mas pretende criar condições para a realização de vidas. E esses docentes que zelam pelo saber como se fora um tesouro têm imensamente mais razão que os aduladores de massas, que os pedagogos dos amanhãs que cantam e que os comissários que venderam o saber pela efetivação, desfalcando os grupos disciplinares de profissionais. Nem refiro os carreiristas porque esses seguirão sempre quem detiver o poder, seja ele qual for. E assim esses docentes vão garantindo que haja uma nesga de possibilidade para a inclusividade atual não resultar sempre na exclusão futura, garantida a uma maioria cada vez maior. Estes pedagogos e comissários ainda não mataram, por completo, a possibilidade de pessoa nos meios menos favorecidos. Ainda não conseguiram persuadir todos que as suas indiscutíveis boas práticas sejam, de facto, boas, até por parecer suspeito a sua recusa de qualquer debate e aposta exclusiva na doutrinação. Ainda não conseguiram condicionar todos para não verem os resultados nefastos que cada uma das suas medidas provoca imediatamente. É preciso uma verdadeira disciplina marcial de desonestidade para conseguir interpretar sempre os resultados mais negativos como sucessos das boas práticas. Ainda não conseguiram generalizar nenhuma das novilínguas sucessivas para tentar alcançar o objetivo de uma escola inteiramente conformada com os seus modelos, de uma escola que não consegue pensar qualquer crítica àquilo que defendem, de uma escola que já não encontra palavras que se considerem adequadas para dizer, tão simplesmente, “o rei vai nu”.[3] Ainda não. E nada há com que mais sonhem do que cancelar a petulância inocente da criança dessa história…



[1] E para que é que se estaria a desgastar um aluno com horas adicionais, se é suposto toda a gente ser aprovada no final, em qualquer caso?

[2] Não sei se a intenção dos autores do filme era a mesma dos nossos comissários políticos. Tratava-se de uma criança cega de nascença que era forçada a dizer o que eram as cores, sem qualquer apoio alheio.

[3] Tendo ficado recentemente surpreendido com o desconhecimento da história por parte dos alunos, devo mencionar que esta é uma referência a um conto de Hans Christian Andersen.

1.9.23

Sob o signo da morte de Deus - I


           No ano letivo passado, mesmo no cair do pano, tive uma experiência insólita, mas, neste período, expectável. Preciso, porém, fazer um percurso algo demorado para a explicar. As DAE de Filosofia, seguindo uma verdadeira escola de ignorância que se faz passar por escola de rigor e cujos prejuízos filosóficos nefastos espero exemplificar noutro artigo, eliminaram toda a reflexão que era suscitada pelo tema do anterior programa relativo à dessacralização do real na nossa era. Na verdade, reduziram toda a abordagem da chamada (por norte-americanos e seus seguidores noutras partes) filosofia da religião (na verdade, mera teologia natural ou filosófica ou racional) à questão da existência de Deus, mesmo se é evidente a existência de religiões não monoteístas e até ateias. Além disso, seguindo a abordagem dita filosófica de certos teólogos dogmáticos, reduzem tudo a uma justificação argumentativa do teísmo, abordado, aliás, segundo uma ótica cristã não referida, mas constantemente presente. Fingem considerar outras perspetivas ao abordar a repugnante aposta de Pascal (refiro-me só à aposta e não ao muito interessante pensador que é, na verdade, totalmente ignorado nestas abordagens), como se constituísse o fideísmo, e as elaborações posteriores do chamado dilema de Epicuro, como se constituíssem o ateísmo. Diga-se, aliás, que ambas as abordagens são, hoje e há muito, facilmente refutáveis (mesmo que certos professores não tenham consciência disso, exatamente por não perceberem o enquadramento dos argumentos, como é típico da abordagem atómica da filosofia analítica), o que só serve para reforçar o teísmo. Outras abordagens como a do paradoxo da pedra nem sequer atingem as conceções ortodoxas teístas há muito consolidadas, apenas podendo refutar teorias como a de Descartes, cuja lógica deixa muito a desejar (por exemplo, admitindo a possibilidade do impossível). Toda a abordagem do anterior programa do agnosticismo (mesmo se aqui é fácil recorrer a muitos autores analíticos) e do ateísmo, incluindo a referência aos chamados, por Ricoeur, mestres da suspeita, Marx, Nietzsche e Freud, foi banida. Mas, na minha opinião, o aspeto mais pernicioso destas mudanças reside não tanto na eliminação da crítica ateia ou agnóstica mais sustentada, mas da possibilidade de tratar a crítica religiosa à perda de sentido do sagrado na suposta religiosidade contemporânea.

            Ora, embora em diversas turmas não tivesse tido tempo para uma abordagem decente sequer do agnosticismo e do ateísmo, sempre que ainda sobram uns minutos, procuro ter um tratamento breve deste último tema antes permitido, a crítica religiosa à religião ainda existente. Esta poderia ser feita com recurso a inúmeros autores, mas prefiro, habitualmente, recorrer a Kant, Kierkegaard e Ricoeur. Por vezes, recorro à morte de Deus nietzscheniana que, ao contrário do referido pela net, não é nenhuma declaração de ateísmo (para isso, diria “Deus não existe”), mas uma forma de expressar a dessacralização do real própria da cultura niilista europeia e, por extensão, de todas as suas ramificações. A própria declaração resulta de uma gradual evolução a partir de declarações cristãs, cada vez mais interpretadas, ao longo do séc. XIX, no sentido da dessacralização do mundo. A religiosidade de massas subsistente na nossa época tem uma consciência imediata disso, muito embora se recuse desesperadamente a tomar consciência reflexiva do facto. O maior vórtice de fé que existe no meu país revela bem isso. Em primeiro lugar, existe uma redução à religião popular supersticiosa e milagreira. O culto de Nossa Senhora, bem insustentável em termos teológicos, constitui uma crença popular à parte, havendo inúmeros crentes de Fátima que nem suportam tudo o resto que a Igreja oferece, incluindo os simples típicos discursos dos seus padres. Na verdade, a essência desse culto é pagã e, por muito que a Igreja declare o inverso, dizendo não se tratar de uma deusa, a sua adoração demonstra o contrário e é característica do simples politeísmo. O mesmo se poderia dizer dos cultos dos Santos. Aliás, há religiões politeístas que também declaram as várias divindades como meras emanações ou avatares de uma divindade única. Como os protestantes muito bem sublinham, é a idolatria das imagens que melhor evidencia esta natureza. Mas o mesmo se poderia dizer (e diz-se) da Trindade que a maioria dos protestantes também subscreve.

Por outro lado, em Fátima, nenhum teor moral ou místico é dado à fé. Aquilo em que se acredita é em poderes mais ou menos mágicos que, é certo, provêm de uma dimensão transcendente de forma mais ou menos arbitrária, mas apenas para satisfazer desejos imanentes. Vi vários vídeos e reportagens acerca dos peregrinos que sublinhavam, sem cessar, o poder da fé para a realização de tais sacrifícios. Ora, no percurso, os peregrinos encontravam postos de apoio onde voluntários não remunerados tratavam as feridas dos peregrinos e aliviavam as suas dores com massagens. Apesar de reconhecerem o mérito do seu trabalho, nem por um momento ouvi ser referida a fé a esses voluntários. Pelo contrário, quando se entrevistavam os peregrinos ou os crentes autoflagelados, para lá dos que não declaravam motivos precisos, não havia um único que não mencionasse motivos egoístas ou relativos ao círculo familiar mais próximo, nomeadamente através da insólita e pagã figura do pagamento de promessas que concebe a relação com o divino como um negócio, ainda por cima desconfiado, como se se tratasse de uma empreitada, só aceitando pagar após o serviço feito. E, contudo, talvez ainda digam que são cristãos e contem ser salvos por o serem. Mas o que é ser salvo neste culto? Ser eleito no Juízo Final? Nada disso. Ser salvo é ser curado de uma doença, resolver as dificuldades financeiras, conseguir realizar-se profissional ou afetivamente. E é isso a que se chama fé nos media, a fé de que se será salvo, através de poderes sobrenaturais, das dificuldades mundanas para poder gozar melhor a sua vida nesse mesmo mundo. A única exigência requerida para ativar tais poderes sobrenaturais é a fé intensa, sem haver qualquer tipo de exigência de melhoramento moral. Daí, no exemplo acima referido, não serem exemplo da fé os voluntários, mas os peregrinos, mesmo que apenas movidos por interesses egoístas. Quem tivesse a menor atenção ao mandamento cristão fundamental, o mandamento do amor, consideraria que quem estaria a melhor mostrar a fé cristã seriam os voluntários e não quem só se mostrava movido por interesses próprios ou particulares – mas não para esta conceção de fé implicitamente declarada e corroborada pelos media. Aliás, nem se percebe em que é que a autoflagelação pela autoflagelação que ocorre com certos crentes agradaria mais ao Deus do amor do que, por exemplo, auxiliar em obras humanitárias como o banco alimentar, a Caritas, as organizações não governamentais de ajuda internacional, etc. De facto, o amor ao próximo é, nesta fé, substituído pelo amor-próprio, incluindo essa extensão do amor-próprio que é o amor aos familiares, amantes e amigos. Até já ouvi católicos a fazer a reinterpretação que este amor particularmente interessado é que seria o único amor ao próximo, por muito que tal estranha exegese distorça totalmente o espírito do cristianismo. Por outro lado, se a conceção moral da divindade é ignorada neste culto, a conceção escatológica do cristianismo não o é menos.

De facto, se há algo que é fundamental no cristianismo, mais do que o cumprimento do mandamento do amor, mais do que o sacrifício em prol do próximo, mais do que o esmagamento do desejo e da vontade subjetivas frente à transcendência absoluta do ser infinito, é a promessa de salvação da morte, a morte inerente a este mundo carnal do pecado. Ora, estes crentes referem-se imenso a serem salvos, reproduzindo a simples linguagem médica e assistencial, ela própria já equívoca, e não a linguagem teológica e escatológica, mas apenas para continuarem a entregar-se a este mundo ou até, visto quererem ser libertados de uma qualquer condição limitadora, poderem mais completamente chafurdar no mais imundo pecado, poderem gozar mais plenamente a sua carne. Na recente pandemia, ninguém vi mais obcecado pelas medidas preventivas mais extremas do que alguns crentes. Talvez exista uma boa razão para isso. O tipo de crenças mais comum a todas as religiões não é o relativo a divindades, mas sim o relativo a alguma forma de vida para lá da morte. Essa vida para lá da morte até pode ser vista depois como negativa, como no samsara hindú, mas o facto de ter sido imaginada mostra uma motivação fundamental da religião no medo. Mas se essa vida para lá da morte é apenas um alívio da ansiedade pela imaginação, uma história infantil destinada a acalmar o sono, a manutenção da crença pode apenas mostrar a preservação de uma estruturação mental pueril assente no medo. Nesse caso, o que a motiva é um medo descontrolado da morte que mantém a crença supostamente ingénua como último recurso se não conseguir fugir da morte, uma derradeira consolação, mas cujo primeiro objetivo é evitar a morte a qualquer custo. É claro que isso coloca um problema relativo à sinceridade da crença quando essa crença afirma esta vida como teste para decidir o destino na verdadeira vida e quando a eleição depende, em grande medida, da libertação dos laços carnais. Tais crenças, se sinceras, implicariam um desapego em relação a esta vida transitória, centrando-se, ao invés, a preocupação no cultivo do merecimento da eleição. Reduzir as preocupações à preservação gulosa e obcecada desta vida só pode ser visto como uma degradação total e uma distorção completa da doutrina cristã. É muito provável que, no passado, a fé escatológica fosse tão forte que muitos procurassem o desprendimento da carne e aceitassem com alegria a libertação desta vida de pecado para poderem aspirar à eleição para a verdadeira vida. Mas vivemos sob o signo da morte de Deus. Ninguém acredita sinceramente em nada que não os ganhos obtidos aqui e agora, e procura salvar-se não no além, mas no mais mesquinho e grosseiro aquém. “Nossa Senhora salvou-me” – de quê? Da condenação eterna no inferno? Não. De um cancro que provocava sofrimento e impossibilitava que eu levasse uma vida normal. E o que é a vida normal? Uma vida de consumo, de concupiscência, de vaidade, de corrupção, de pecado. Estranhamente, o salvamento da Senhora parece ter os mesmos resultados que os tratos com o demo, a possibilidade de gozar esta vida até a morte levar o crente. Mefistófeles oferece o mesmo que Fátima. Em nenhum destes crentes, se mostra qualquer preocupação com o que possa ocorrer na outra vida, a que, para o cristianismo, era, supostamente, a verdadeira, ou com o que possa contribuir para merecer a eleição final, a única pela qual valeria a pena viver.

Toda esta conceção mundana da religião é agravada pela redução de todos os domínios à mesma uniformização técnica da produtividade e do mercado. O mundo do mercado e da tecnociência lida com grandes massas e estas reduzem a sua consciência à reação imediata que o ambiente social solicita. As massas dirigem-se para as mesmas praias, os mesmos hipermercados, as mesmas discotecas, os mesmos centros históricos, os mesmos festivais, os mesmos santuários – e executam sempre os mesmos gestos ritualizados, o mais depressa possível para não prejudicar a produtividade e garantir a possibilidade de consumo igual para os restantes. Em toda a parte, funcionários zelosos asseguram que tudo se processa com a maior eficácia e que o consumo anterior não prejudique o posterior, de forma a garantir a fluidez do lucro. A azáfama é igual em funerais, casamentos, restaurantes, monumentos, eventos ditos espirituais, centros comerciais, competições desportivas, etc. Tudo se destina a garantir a prossecução das cadeias de fabricação e consumo, como se por todo o lado se reproduzissem as linhas de produção e comercialização em série, seja de bonecos, seja de alimentação, seja de competição, seja de iluminação, seja de morte. E as gentes gostam disto, um caos regulado unicamente pelas suas necessidades de consumo, que não lhes exige qualquer superação, mas que coloca todas as coisas ao mesmo nível, o nível que consegue compreender e em que consegue viver. As gentes não querem complicações doutrinárias, não querem práticas muito elaboradas, não querem exigências muito complexas e rigorosas. Querem alcançar a graça divina ou o milagre da Senhora com a mesma facilidade com que alcançam o produto na prateleira do supermercado. Têm mais que fazer e com que se preocupar. Quanto mais depressa despacharem a promessa, as velas ou as rezas, tanto melhor – e uma multidão espera para ser agraciada de seguida. Na verdade, não há, no essencial, diferença entre os diversos tipos de turismo (religioso, educativo, cultural, recreativo, etc.). Em todo o lado, se reproduz a mesma natureza pelicular que se verte, em seguida, nas redes sociais, evocando supostas experiências que não existiram, um aprofundamento da compreensão que se reduz à sua declaração, um cultivo da imagem própria que chega a substituir a vida própria na selphie que prova ter-se estado num dado lugar onde só se esteve o tempo suficiente para tirar a dita selphie. Em lado algum, a gente existe, para existir é preciso a complexidade autenticamente estruturada da pessoa e não o condicionamento elementar e ambiental da massa.

Voltando um pouco atrás, uma das críticas de Kant à religião popular incidia no facto de procurar sempre se furtar quer à justiça divina, quer à exigência de aperfeiçoamento presente na meta da santidade, refugiando-se na suposta arbitrariedade da graça: “É árduo ser um bom servidor (pois então ouve-se sempre falar de deveres); por isso, o homem preferiria ser um favorito a que muita coisa se desculpa ou, se infringiu grosseiramente o dever, tudo se resolve graças à mediação de alguém favorecido no mais alto grau, enquanto ele continua a ser o servo solto que era. (…) Para alcançar a graça, aplica-se o homem a todas as formalidades imagináveis, pelas quais se deve mostrar quanto ele venera os mandamentos divinos, para não ter a necessidade de os observar; e para que os seus desejos inativos possam servir igualmente para compensar a transgressão dos mandamentos, grita: «Senhor! Senhor!» a fim de não ter a necessidade de «fazer a vontade do Pai celeste» e, por isso, faz das solenidades (...) o conceito como de meios da graça em si mesmos; faz até passar a crença de que são tal por um elemento essencial da religião (o homem comum fá-la inclusive passar pelo todo da religião) e deixa à Providência, toda bondosa, fazer dele um homem melhor, enquanto se aplica à piedade (entendida como uma veneração passiva da lei divina), em vez de se entregar à virtude (ao emprego das próprias forças na observância do dever por ele venerado)”[1]. Se esta conceção popular da graça era já absurda, o que dizer de uma graça destinada apenas a satisfazer as preocupações mundanas, uma graça que não perdoa o comportamento dissoluto, mas assegura antes a sua continuação ou até agravamento? Kierkegaard espantava-se com a mistificação imensa daquilo a que se chamava Cristandade: “Toda a pessoa dotada de um pouco de discernimento que considera seriamente o que se chama cristandade ou o estado de um país dito cristão, deve, certamente, cair na maior perplexidade. Que significa que tantos milhões de pessoas se digam cristãs sem quaisquer dificuldades?!”[2] Há já muitos anos, lembro-me de ter perguntado a uma aluna católica se tentaria, ao menos, amar o seu inimigo. Respondeu-me que mais depressa lhe arrancaria “os fígados”. O mandamento cristão é para a maioria dos cristãos, mesmo os que mantêm alguma prática, letra morta ou até tão-só vazia. A maioria dos cristãos “nunca compreendeu que pode ter na sua vida uma obrigação para com Deus”[3], nem sequer vai à igreja, muda de canal se na tv surge um padre a falar (a não ser que esteja envolvido em algum escândalo), não conhece nada da doutrina da sua confissão e “faz de uma certa integridade física o máximo do seu ideal” – daí, a religiosidade milagreira tantas vezes restringida à restauração da saúde. Mais caricata ainda é a figura do católico não praticante. Costumo dizer, nas alturas em que declaram isso, que eu também sou suicida não praticante. Se se perguntar, em seguida, porque é então católico, a resposta quase invariável é a de que acredita em Deus. Questionado acerca da razão porque não é protestante ou ortodoxo ou judeu ou islâmico ou ainda muitas outras confissões que acreditam em Deus, não consegue dizer nada. Quer praticantes, quer não praticantes, ao menos entre os simples crentes, nada sabem da sua doutrina, não sabem o que é a Trindade, nunca ouviram falar da transubstanciação, nem da ressurreição dos corpos, nem de coisíssima nenhuma que seja próprio da crença católica. Mas, sobretudo, mesmo entre os praticantes, não há nenhuma preocupação escatológica, a paixão de Cristo é ignorada ou transformada num espetáculo, o único desejo é ser feliz aqui e agora (como declaravam os jovens nas recentes jornadas) e o que tem significado é a celebração dos gozos desta vida. Quanto ao bem maior número de não praticantes, serão católicos ou cristãos em quê?

Kierkegaard sublinha o facto de que ser cristão não é uma coisa fácil, mas, ao contrário, muitíssimo difícil. O mandamento do amor ao próximo que tem como corolário o amor ao inimigo é um mandamento de aplicação extremamente árdua. O mandamento não diz: “respeita o teu inimigo”; nem diz: “não faças dano ao teu inimigo”; nem mesmo: “trata bem o teu inimigo”; diz: “ama o teu inimigo”. Como o amor-próprio me aconselharia a detestar o inimigo, o teor do mandamento exige que eu o ame mais que a mim próprio. Como se pode, pois, aceitar que alguém seja cristão se nem sequer tenta amar o próximo? Só porque o diz? Se um banqueiro, toda a vida dedicada à acumulação de capital, declarasse que era comunista ou anticapitalista, ser-lhe-ia dado crédito? Ser cristão é um ideal que só se pode perseguir através da ação dedicada, do esforço, do empenho, mesmo que sejam inevitáveis as falhas que acompanham o estatuto de pecador. É preciso que ao menos se tente cumprir o mandamento. Não é cristão quem o diz, é cristão quem merece, pelos seus atos, ser considerado como tal. Caso contrário, a declaração de que se é cristão ou católico tem apenas um significado social, a identificação da pertença vaga a um coletivo, sem o mais ínfimo significado sagrado, sem qualquer sustentação doutrinária, muitas vezes sem sequer as formalidades rituais. Tal declaração poderá ser relevante para a sociologia, não para a religião. Do ponto de vista religioso, é uma blasfémia, uma profanação, uma profunda falta de respeito para com o ideal cristão.

Ora, a Igreja Católica tem total consciência de tudo isto, mas não lhe importa qualquer verdadeira fé, importa-lhe alimentar essa ilusão de uma imensa cristandade, porventura por tão-pouco acreditar nas suas próprias doutrinas e lhe importar bem mais o seu poder neste mundo. Contabiliza como seus crentes os tais católicos não praticantes, contabiliza até os batizados que nem se declaram católicos, estimula a religião milagreira para objetivos imanentes, contemporiza com toda a crendice blasfema ou herética que mistura as suas práticas com as ditas “espiritualidades”, até promove eventos em que se congregam curandeiros e videntes, bruxas e médiuns, todo o tipo de esoterismos tradicionalmente condenados pela Igreja. Tudo lhe serve para tentar recuperar o poder mundano. E preocupa-se em manter as suas exigências a um nível tão light que podem ser facilmente consumidas por toda a gente. O próprio atual papa, alegadamente tão progressivo, justificava a reação às caricaturas de Maomé, exatamente depois do massacre dos humoristas ocorrido em França, através da legitimidade de esmurrar quem nos ofenda. É natural: perdoar a quem nos tem ofendido, dar a outra face, são exigências extremistas que o povo dificilmente tentaria cumprir – e a Igreja recebe todos, todos, mesmo aqueles cujas práticas estejam nos antípodas dos ideais cristãos, mesmo que os receba como pecadores e contraponha estes pecadores aos justos que é difícil discernir quem são. Talvez os justos sejam os sucessivos banqueiros (Jardim Gonçalves, Ulrich, Salgado, Macedo, etc.) que se declararam diversas vezes, como poucos já o fazem na sociedade civil, defensores da fé cristã e da necessidade da sua defesa, tão contrários à perda de valores cristãos nesta nossa sociedade, mas certamente, como sempre, só para os pobres, pois nunca os vi cumprir a exigência de Jesus no episódio do homem rico.[4] E, porém, é com eles e outros análogos que as mais altas esferas da Igreja se sentem bem, para não dizer cúmplices, agora e pelo século dos séculos. A hipocrisia desta gente e da Igreja, tão bem denunciada por Marx, tornou-se, porém, muito mais difícil de sustentar quando os textos por eles considerados sagrados se tornaram acessíveis ao comum dos mortais.

Ora, voltando ao início, estava eu a tecer considerações deste tipo, não as do último parágrafo, mas dos anteriores, quando um aluno declara: “O setôr é mesmo ateu.” De facto, como os alunos já sabiam, sou mesmo ateu, mas o que eu estava a tratar era a crítica religiosa à religião contemporânea, ou seja, a crítica de pessoas profundamente religiosas, até de diversos pontos de vista (moral, existencial, hermenêutico), à perda de sentido do sagrado. O aluno em causa está longe de ser um aluno medíocre, é um aluno com uma inteligência viva, interessado e atento, participativo e autónomo, mesmo que um pouco menos estudioso do que deveria. Como poderia, então, considerar que as críticas inspiradas em Kant, Kierkegaard ou Ricoeur tinham um teor ateu? Estaria distraído? Confuso? Não, vive apenas nesta época e não deixa de ser reflexo dela. Com o pouco tempo que tinha, apenas relembrei que estas críticas tinham sido enunciadas por homens verdadeiramente religiosos, mas, se tivesse possibilidade de uma explicação mais demorada, teria dito que a acusação do aluno era reflexo do maniqueísmo grosseiro que domina totalmente os meios de comunicação nesta era e que cria um ambiente generalizado de anulação das distinções no pensamento dos indivíduos, para lá do alinhamento em duas manadas opostas. Ou se é crente, ou não crente, e todas as distinções entre os crentes são caladas para produzir um exército mais coeso, e todas as diversas críticas dos não crentes são consideradas como pertencendo a um mesmo pacote, o do exército oposto. O dogmatismo é notório de ambos os lados e, por vezes, até bem maior, nesta época, do lado ateu. Mas é um dogmatismo cego que nem sabe ao certo que doutrinas está a defender exceto a vaga tese do pró e contra a religião. Se se está a criticar algum aspeto das crenças religiosas, mesmo tratando-se do fideísta Kierkegaard, só se pode ser um ateu; se se defende alguma crença, só se pode ser um homem de fé, de toda a fé, nem se sabe bem qual, visto tudo pertencer ao mesmo pacote. A religião do padre Fontes é a mesma da teologia de Aquino, a de Fátima é a mesma de Calvino, a de Francisco, o papa que justifica a agressão, é a mesma de Jesus, a religião dos teólogos é a mesma do povo, a religião moral de Kant é a mesma do fideísmo de Pascal, a religião estatutária tradicional é a mesma da fé escatológica de Ricoeur? E, do outro lado, as perspetivas de Clifford, Ayer ou Russell são as mesmas que o panteísmo de Spinoza ou o ateísmo de Meslier, o ateísmo de Marx é o mesmo que o de Mackie, a perspetiva de Nietzsche é a mesma da de Freud?  

A este maniqueísmo grosseiro instilado pela cultura popular norte-americana, já seguido por outras (a europeia, a japonesa, etc.) de forma mais ou menos acéfala, corresponde uma formatação do pensamento da maioria que se tornou incapaz de sequer tentar compreender, não as diferenças mais subtis, nada para o qual seja requerido o esprit de finesse, mas apenas as mais elementares discriminações do espírito geométrico.[5] Para tal, também muito contribui a irrelevância da religião para a vida corrente, aquilo que é expresso pela declaração nietzscheniana da morte de Deus. Noutras eras, a religião enquadrava toda a vida da comunidade pela repetição anual dos rituais que tornavam de novo vivo o tempo sagrado, toda a compreensão da realidade era determinada pelas crenças religiosas, nenhuma prática, financeira, económica, moral ou política, era admitida se não fosse sancionada pelos modelos sagrados. Hoje, aqui na Europa, mesmo um crente, compreende o mundo através da ciência laica, regula os seus investimentos pelas regras do mercado, segue as modas de vestuário mais hostis às conceções religiosas, é condicionado constantemente pelas opiniões formadas pelos media, comporta-se, na sua vida afetiva, segundo as mentalidades determinadas pelo mundo profano, pode até mesmo ter comportamentos ostensivamente opostos aos da doutrina da Igreja que diz professar (contracepção, orientação sexual, “espiritualidades”, etc.) – e reserva um anexo remoto da sua existência para a sua suposta religião, um último recurso para quando se sente aflito, ainda assim subordinado ao médico, ao psicólogo e talvez ao guru. A reserva do próprio crente lembra a das visitas aos túmulos dos falecidos. Há que ainda mostrar o seu respeito, mas a vida segue, na sua quase totalidade, sem sequer se lembrar dos defuntos. Essa é a maior evidência da morte de Deus e não as teses ateias. No final do célebre texto da Gaia Ciência em que Nietzsche declara a morte de Deus, compara-se as igrejas a jazigos onde os crentes vêm ainda prestar homenagem ao Deus falecido. Deus morreu, não pelas teses ateias, não por o homem se ter superado a si próprio e tomado o lugar do próprio Deus, mas pelo mais mesquinho que existe no homem, por aquilo que é ilustrado na imagem do último homem proposta no Zaratustra, pela pequenez da homogeneização que se ilude com diferenças toscamente superficiais, pela nivelação que dispensou Deus por se ter tornado incapaz de transcendência, pela impotência de olhar para lá do ambiente próximo, de escutar algo mais do que o ruído da manada, de dizer algo que tenha significado para lá das operações necessárias ao funcionamento coletivo. Nesse ambiente, a questão de Deus está reduzida a um ridículo Benfica/Sporting, um absurdo esquerda/direita, um acéfalo creio/não creio, sem a menor profundidade ou compreensão, sem a menor intenção de explicitação, uma mera escolha ao calhas, fútil, como comprar este vestido em vez daquele – e não se nota a menor diferença entre as vidas dos que escolhem para um lado ou para outro, pois tal escolha se tornou irrelevante. Qual a diferença entre as declarações de felicidade dos jovens nas recentes jornadas e aquelas que foram produzidas logo a seguir no Meo Sudoeste? E qual a diferença entre os horizontes destes jovens e aqueles que são descritos por Nietzsche a propósito do último homem? “«Descobrimos a felicidade», dirão os Últimos Homens, piscando os olhos.”[6]

No caos a que o último homem chama mundo, não há alto e baixo, não há superficial e profundo, não há saber e ignorância, há apenas a reiteração da mesma pequenez sem fim que confunde a imensidão do número com grandeza. Os likes substituíram a fala e em breve até os slogans serão demasiado complicados. A própria filosofia está reduzida a um cálculo binário que incinde sobre esqueletos argumentativos elementares e atómicos. Nada se justifica senão por objetivos utilitários imediatos e nada tem valor se não for objeto de negócio. As críticas deístas, panteístas, agnósticas ou ateias não foram as responsáveis pela morte de Deus, mesmo se contribuíram um pouco para ela. O plebeu mesquinho que desprezava a religião através de um ateísmo prático mais ou menos secreto tornou-se todo-poderoso e apenas estendeu, pelo número, o desprezo e a incompreensão já antes sentidas. Este processo foi crucial para nos livrarmos de crenças e práticas religiosas arbitrárias, muito mais que os argumentos de legiões de filósofos, literatos e cientistas. Porém, associado à morte de Deus ou da religião, ocorreu um processo muito mais grave e prejudicial para toda a existência. É a morte do sagrado. Tudo se tornou venal e, logo, tudo se tornou profano. Melhor, nem sequer profano, pois este depende da oposição ao sagrado, mas boçalmente indiferente. A galhofa com que é recebido o louco que procura Deus (o reverso do insensato dos Salmos) no texto de Nietzsche é que matou não apenas Deus, mas a própria possibilidade de sagrado. É minha convicção que, sem sagrado, a própria existência perde qualquer sentido possível. Mas o sagrado não implica nem o teísmo, nem o fideísmo, nem a escatologia. Este é o primeiro de vários artigos que dedicarei à questão religiosa atual. Esta foi uma primeira abordagem da dessacralização contemporânea. Voltarei a ela no final. Antes, porém, gostaria de rejeitar as sucessivas restaurações do teísmo e fideísmo, denunciando-as como meras restaurações de ilusões perniciosas. Na verdade, uma série de autores procuraram dar razão à crítica ateia, corroborá-la, incorporá-la, para pretender, depois, superá-la por aquilo que sustentaram ser a verdadeira religião ou a verdadeira fé que, supostamente, teria ficado incólume após a referida crítica. De tal “operação”, são exemplos Levinas e, sobretudo, Ricoeur. É minha convicção que não passam de soluções requentadas que tentam desesperadamente recuperar as velhas ilusões, recorrendo, aliás, para isso, a toda uma série de truques camufladores de falácias grosseiras. Importa, pois, após seguir as vias mais tradicionais da crítica ateia ou agnóstica, a analítica e a genealógica, o confronto com estas “novas” propostas de restauração do divino. A clarificação do ateísmo tem o desígnio de libertar a possibilidade de pensamento futuro de toda a tralha teológica e fideísta que está a atravancar o caminho, provocando regressões constantes e justificando as próprias tendências mais irracionais da religião popular. Mas a afirmação ateia não implica a rejeição do sagrado. E desconfio que, se se escavar suficientemente a tradição teísta ocidental, sem necessitar de recorrer ao oriente, se poderá encontrar, na origem, esse sagrado bem próximo do ateísmo.

Porém, é irrelevante que se aceite ou não uma tal interpretação, o que importa é a instauração de sentido aqui e agora – e um tal empreendimento é bem mais difícil que a aceitação de uma reinterpretação do passado. Importa escutar, não o além infinitamente distante, mas o emudecido, por esta época, mesmo aqui ao pé; importa o zelo, o cuidado, a atenção pelo caráter único de cada acontecer; importa gerar o possível, gizar o futuro, gestar a promessa de vida no cultivo, no trabalho, na procriação, na própria obra; importa fazer o humano, por fim, digno de si mesmo; importa demandar não o sentido transcendente alucinado, mas o perdido sentido do aqui e agora; importa indagar o deserto da operatividade e desvelar a transcendência inevitável da própria imanência; importa desdobrar a existência compactada num invólucro utilitário e fazer florescer a palavra e o discurso pela poesia e pensamento; importa dizer algo por si significativo e não meramente funcional; importa inspirar, enlevar-se pelos odores da terra ignota, ouvir a música das cores, falar verdadeiramente para o outro, ouvi-lo como se nada mais importasse atender; importa compreender a incompleta totalidade, a ignorância da origem, o mistério da alteridade; importa importar-se e não negligenciar o mais ínfimo fragmento de ek-sistência; no caos técnico sem freio da rapina, agressão e concorrência, importa persistir, importa a resistência. E, se nada disto importar, não importa mesmo nada.



[1] Immanuel Kant, tr. port. Artur Morão, A Religião nos limites da simples Razão, Ed. 70, Lisboa, 1992, pp. 201 – 202.

[2] Sören Kierkegaard, tr. port. João Gama, Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor, Ed. 70, Lisboa, 1986, p. 37.

[3] Sören Kierkegaard, op. cit., p. 38.

[4] Mateus, cap. 19, vers. 16-24; Lucas, cap. 18, vers. 18-25.

[5] Referência a uma distinção bem conhecida de Pascal.

[6] Friedrich Nietzsche, tr. port. Alfredo Margarido, Assim falava Zaratustra, Guimarães ed., s/l, s/d, p. 18.

11.11.22

O mundial do Qatar e a noção de pessoa

            Uma das teses polémicas defendidas no livro que recentemente publiquei sob outra assinatura, ao menos numa forma preliminar (https://www.amazon.es/-/pt/dp/B0BHKGL3LP?psc=1&smid=A1L8AUWF5E7W59&ref_=chk_typ_imgToDp&fbclid=IwAR1gyjawTdASLaJY7Hqmk3VRbcVDeNfOmr2wNRYvVxvjRQXCvgWYLiCwhnA), é a de que, se a pessoa contém uma dignidade especial (e, no livro, são examinadas diversas possibilidades para fundamentação deste pressuposto constante da nossa linguagem) que a torna merecedora de uma consideração especial, fazendo, por exemplo, com que as pessoas não se considerem meros animais, mas, seguindo a tradição aristotélica, seres racionais, então, mesmo que se pudessem tornar pessoas, os seres humanos, na sua imensa maioria, não são, de facto, pessoas. Tem se tornado habitual, nomeadamente no âmbito das discussões sobre o aborto e sobre a consideração ética relativa a outras espécies animais, sublinhar que a mera potencialidade abstrata da racionalidade, se não efetivada, não constitui condição suficiente para que se possa considerar algo como pessoa. Tal restrição mantém-se mesmo quando se buscam conceções mais abrangentes, como as relativas à temporalidade (memória/projeção), que até conseguem incluir certos outros animais, mas não os seres humanos antes postos em causa. Deixo a consideração mais detalhada da tese para o livro. Aqui, só pretendo considerar a tradicional conceção da racionalidade, aquela que faz muitos continuarem a sustentar uma espécie de primado ético do humano em relação a outros animais. Ora, entre os vários projetos de abordagem que tive de cancelar, dado o porte que o livro estava a tomar, tenho pena de não ter desenvolvido mais a consideração do dito mundo do futebol, um âmbito onde, exatamente, a mais irracional das entidades desenvolve toda uma articulação de explicações causais como seria de esperar na projeção do mundo pelo mais racional dos seres, sem que isso tenha qualquer efeito na maior racionalidade de toda a sua restante vida. De facto, isso até mostra que a racionalidade pode ser efetivada de um modo de tal forma distorcido que serve para uma das mais globais formas de irracionalidade. Tal como a racionalidade técnica da gigantesca ordenação do extermínio nazi não pode permitir a sustentação de uma dignidade superior, visto estar ao serviço da mais absoluta irracionalidade, também a racionalidade unilateral referida não o devia permitir.

            Muitos dos entusiastas de futebol, figuram entre os envolvidos nos recentes debates sobre a guerra da Ucrânia. Disse debates, mas, na verdade, não são debates. Quase nenhum dos envolvidos é capaz de reconhecer a mínima razão adversa e, no melhor dos casos, resume-se a apresentar unilateralmente as supostas razões da sua propaganda. Não vou entrar aqui nessa discussão, na qual muitas irracionalidades haveria a apontar de parte a parte, porque fazê-lo seria uma perda de tempo. É absolutamente inútil argumentar num ambiente em que ambas as partes estão absolutamente convencidas de estar a realizar uma cruzada do bem angélico contra o mal demoníaco. Porém, algo que ambos os lados gostam de fazer sobressair são as ofensas aos direitos humanos, as atrocidades cometidas sempre só pelo outro lado, em relação às quais fazem todo o tipo de proclamações tonitruantes, incluindo o metafórico rasgar de vestes.

            Ora, no Catar, não há lados, cada qual convencido das supostas razões que os suportam. Num ambiente de absoluta ostentação de riqueza, procurou-se realizar tudo com o menor gasto possível com aqueles que garantiram o evento,[1] para poder assegurar posteriormente os maiores gastos possíveis com o espetáculo. Trata-se de uma nova versão da racionalidade técnica e económica ao serviço da completa irracionalidade. Sabe-se, há muito, por relato de apenas alguns dos países de onde são oriundos os trabalhadores imigrantes, que muitos milhares de trabalhadores morreram vítimas de condições inomináveis. É possível que, se alguma vez for possível a contabilidade total, se chegue aos cinco dígitos. Volto a dizer: isso é sabido há muito. A FIFA que deixou tudo acontecer e, de certo modo, até provocou que acontecesse, procura fazer uma limpeza na imagem, só agora se lembrando de algumas fiscalizações e investigações. Até já reconheceu 3 mortes, o que é simplesmente hilariante. De resto, está em marcha a campanha de lavagem da imagem (quem já se lembra das suspeitas de corrupção, tal como aconteceu em edições anteriores?) que tenta mostrar este evento como exatamente o contrário do que é, uma apoteose de inclusividade global. Algumas seleções de consciência pesada preparavam ações simbólicas ou faziam exigências de última hora, mas até isso a FIFA veio proibir, com o argumento de não se misturar política com o futebol, coisa que a própria FIFA tem feito constantemente sempre que julga ter alguma coisa a ganhar com isso. Porém, as seleções que preparavam esses protestos são piores que seleções como a nossa, cuja desfaçatez é completa. São apenas colaboracionistas que queriam disfarçar a sua colaboração, quando só o boicote seria admissível. Em certos casos, aliás, só se lembraram das ofensas aos direitos humanos que não implicam e/ou implicaram a morte – que também são muitas. As televisões proclamam o sucesso de terem conseguido a transmissão de tantos jogos. As marcas esfregam as mãos de contentes com o negócio garantido com tantos milhares de mortes. E já tudo se concentra nas peripécias da disputa do troféu.

Pessoalmente, eu recuso-me a ver um único desses jogos, mas sei que o efeito dessa decisão, mesmo que acompanhada por muitos outros que já a tomaram, será absolutamente nulo. A esmagadora maioria daqueles defensores dos direitos humanos só em guerras televisionadas não hesitará um segundo em seguir o campeonato. Mas cada um dos desconhecidos mortos no Catar só morreu para o deleite futuro desses espetadores. Cada qual dos espetadores será um cúmplice em gigantescos crimes contra seres humanos e, desta vez, não existem argumentos, mesmo que muito rebuscados, para defender a legitimidade do Catar. Pouco importa, regressamos ao tempo em que a carne do trabalho estava barata, sobretudo se for de condições sociais e nacionalidades desprezadas, e se podia realizar grandes obras à custa de dezenas de milhar de vidas. Foi o que aconteceu, por exemplo, nas duas tentativas de construção do canal do Panamá e em muitos outros empreendimentos dessa época. Mas aí, ainda se podia evocar um objetivo utilitário – neste caso, a utilidade resume-se ao deleite de uma massa privilegiada que só se preocupa com direitos humanos se isso não interferir com o seu prazer. Nada há que possa minorar a vergonha da colaboração. E, porém, muitos dos rasgadores de vestes nem a sentirão enquanto se envolvem em entusiásticas camisolas, bandeiras e cachecóis. Por muitas vozes que se juntem no protesto, tenho a certeza que este Mundial será o que terá maior sucesso financeiro de todos os tempos e, assim, quando alguém vier defender que, na própria atualidade, a generalidade dos homens são pessoas por serem seres racionais, só terei como resposta o riso. QED.



[1] Fala-se muito, a este propósito, de trabalho escravo. Trata-se de uma velha distorção tipicamente burguesa das relações de produção envolvidas. No início da revolução industrial, a burguesia promoveu, sob o manto da liberdade, a ideia da dignidade superior do trabalho assalariado em relação ao trabalho escravo ou servil. Na verdade, o trabalho assalariado pode ser a pior forma de exploração do homem pelo homem quando não existe a menor imposição de qualquer responsabilidade social e apenas o mercado dita o preço e as condições do trabalho.