Elogio ao que há de melhor no povo português
Nunca é de mais celebrar as virtudes
de um povo. Dirijo-me naturalmente ao escol desse povo, não no sentido de
elite, mas de melhor, correspondente à sua natureza mais disseminada, aquilo
que verdadeiramente encarna a alma da nação. Ao contemplar a grandeza oculta
neste povo comum, é a minha alma que treme a ponto de se poder despedaçar, tal
a sublimidade incomensurável com que se confronta. E é das suas excelsas
virtudes que, brevemente, irei falar, injustamente decerto, pois não há forma
de adequadamente realçar a glória das qualidades éticas de um tal povo. Peço,
assim, antecipadamente perdão pela modéstia do meu elogio, não sou capaz de me
alçar à magnificência necessária, mas pensei, talvez erradamente, que bem pior seria
ficar em silêncio, mesmo correndo o risco da vergonha do meu encómio não
merecer, nem pouco mais ou menos, tão transcendente objeto, o esplendor do
inefável.
Alguns,
certamente indivíduos desprezíveis, poderão colocar em causa tal nobreza do
nosso povo. Mas os factos mais imediatos estão aí para demonstrar o contrário.
Existe acaso povo mais preocupado com o indigente, o discriminado, o oprimido,
o humilde, o massacrado, o perseguido do que este? Existe acaso povo mais
humanista que o português? Perante uma gritante injustiça, acaso alguma vez
este povo se calará? Não farão tudo, posts, manifestações, apupos,
protestos, podcasts, cartazes, outdoors, vídeos, etc., para proclamar
o ultraje perante uma flagrante violação dos direitos humanos? Ficarão de
braços caídos enquanto um herói do amor ao próximo é achincalhado e aviltado?
Deixarão passar o facto de um imaculado defensor dos deveres humanos ser
ostracizado, violentado, linchado? Não cerrarão fileiras na defesa de um mártir
que soçobre vítima de um regime autocrático, por defender a liberdade de
expressão, os direitos das mulheres ou as diversas orientações de cada qual?
Não se elevará a voz deste povo contra a concentração de poderes nos media
para garantir despedir e impedir novo emprego a quem denuncie arbitrariedades
ou apenas relate honestamente os factos? Aceitará passivamente que se cometam
crimes contra a mais elementar consciência ética? Alguém duvida que qualquer
português merecedor de tal nome se insurja contra qualquer abuso dos mais
frágeis? Alguém suspeita que não se indigne? Alguém terá a desfaçatez de
questionar a inabalável integridade lusa? Poderá hesitar, vacilar, recuar?
Poderá desprezar, desdenhar, trair? Poderá não mostrar a mínima decência?
Jamais.
Certamente, nunca apoiará quem
representa ditadores, assassinos e violentadores. Certamente, nunca alinhará
com quem promove regimes que reprimem todas as liberdades femininas e amordaçam
a mais ínfima liberdade de expressão. Certamente, não estará disposto a
sufragar embaixadores de tiranias violentas, repressoras de toda a pluralidade
e que ostentam com orgulho as marcas da crueldade. Certamente, não seguirá os media
dominados pelos milionários mais egoístas e mais poderosos, promotores da
discriminação, preconceito e ódio. Certamente, bons cristãos, os portugueses não
defenderão os vaidosos, os arrogantes, os orgulhosos, mesmo contra outros
iguais. Certamente, não valorizarão o circo, o entretenimento, a diversão
estéril, em vez do que verdadeiramente afeta e lesa a comunidade. Certamente,
não colocarão, acima de todos os valores, os valores do negócio. Certamente,
uma parte substancial deste povo não se juntaria por considerar uma afronta
insuportável um motivo fútil, agravo de caprichos narcísicos, vexames
imaginários de indivíduos tão habituados a serem mimados e lisonjeados que considerassem uma ignomínia seja o que não fosse a absoluta subserviência.
Assim, se tanto deste povo se une na
defesa de uma figura prejudicada, certamente ela será um modelo inquebrantável
de virtude, um herói, um santo, um mártir, alguém que sacrificou a própria vida
por amor ao próximo: talvez um homem rico que, ao contrário do referido no
Evangelho, distribuiu tudo o que tinha pelo pobres e, assim, passou pelo buraco
da agulha; talvez um cuidador de vítimas de ébola que acabou contagiado pelo
mal que procurou aliviar nos outros; talvez um insurreto torturado até morrer
por denunciar as atrocidades cometidas por uma polícia despótica; talvez
alguém vilipendiado após e exatamente por ter passado a vida inteira a
trabalhar na assistência aos mais necessitados; talvez alguém justamente
aclamado por ter acabado com a fome na terra ou com as intermináveis guerras ou
com as doenças letais, e, ainda assim, não só não devidamente respeitado, mas
verdadeiramente injuriado na sua probidade. Aliás, como está implícito num filósofo
bem famoso, verdadeiramente, só é digno de respeito o que espelha o ideal ético.
Certamente, outra qualquer pessoa de menores méritos não recolheria um apoio
massivo, mesmo que um aspeto atraente fizesse sonhar muitas hormonas ou que uma
campanha mediática procurasse empolar as situações. Certamente, não se sentiria
e muito menos se exigiria gratidão a não ser que uma figura tivesse
transcendido o limiar ordinário da vida humana, tornando-se, pelo seu impacto
ético, um modelo para as gerações vindouras. Certamente, não mereceria a
idolatria de um povo tão virtuoso e lesto a condenar os defeitos, alguém apenas
zeloso na promoção da sua fama e do seu enriquecimento. É certo que a idolatria
torna os crentes cegos, mas um povo que gosta de se honrar pela associação da origem do seu país à cruz de Cristo,
dificilmente poderia trocar seu ideal por um culto pagão, sem qualquer teor
moral ou espiritual. Certamente…
Ou talvez seja altura de todo esse
povo aprender, finalmente, algo basilar: o sentido do ridículo.
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