2.10.26

Elogio ao que há de melhor no povo português

 

            Nunca é de mais celebrar as virtudes de um povo. Dirijo-me naturalmente ao escol desse povo, não no sentido de elite, mas de melhor, correspondente à sua natureza mais disseminada, aquilo que verdadeiramente encarna a alma da nação. Ao contemplar a grandeza oculta neste povo comum, é a minha alma que treme a ponto de se poder despedaçar, tal a sublimidade incomensurável com que se confronta. E é das suas excelsas virtudes que, brevemente, irei falar, injustamente decerto, pois não há forma de adequadamente realçar a glória das qualidades éticas de um tal povo. Peço, assim, antecipadamente perdão pela modéstia do meu elogio, não sou capaz de me alçar à magnificência necessária, mas pensei, talvez erradamente, que bem pior seria ficar em silêncio, mesmo correndo o risco da vergonha do meu encómio não merecer, nem pouco mais ou menos, tão transcendente objeto, o esplendor do inefável.

              Alguns, certamente indivíduos desprezíveis, poderão colocar em causa tal nobreza do nosso povo. Mas os factos mais imediatos estão aí para demonstrar o contrário. Existe acaso povo mais preocupado com o indigente, o discriminado, o oprimido, o humilde, o massacrado, o perseguido do que este? Existe acaso povo mais humanista que o português? Perante uma gritante injustiça, acaso alguma vez este povo se calará? Não farão tudo, posts, manifestações, apupos, protestos, podcasts, cartazes, outdoors, vídeos, etc., para proclamar o ultraje perante uma flagrante violação dos direitos humanos? Ficarão de braços caídos enquanto um herói do amor ao próximo é achincalhado e aviltado? Deixarão passar o facto de um imaculado defensor dos deveres humanos ser ostracizado, violentado, linchado? Não cerrarão fileiras na defesa de um mártir que soçobre vítima de um regime autocrático, por defender a liberdade de expressão, os direitos das mulheres ou as diversas orientações de cada qual? Não se elevará a voz deste povo contra a concentração de poderes nos media para garantir despedir e impedir novo emprego a quem denuncie arbitrariedades ou apenas relate honestamente os factos? Aceitará passivamente que se cometam crimes contra a mais elementar consciência ética? Alguém duvida que qualquer português merecedor de tal nome se insurja contra qualquer abuso dos mais frágeis? Alguém suspeita que não se indigne? Alguém terá a desfaçatez de questionar a inabalável integridade lusa? Poderá hesitar, vacilar, recuar? Poderá desprezar, desdenhar, trair? Poderá não mostrar a mínima decência? Jamais.

            Certamente, nunca apoiará quem representa ditadores, assassinos e violentadores. Certamente, nunca alinhará com quem promove regimes que reprimem todas as liberdades femininas e amordaçam a mais ínfima liberdade de expressão. Certamente, não estará disposto a sufragar embaixadores de tiranias violentas, repressoras de toda a pluralidade e que ostentam com orgulho as marcas da crueldade. Certamente, não seguirá os media dominados pelos milionários mais egoístas e mais poderosos, promotores da discriminação, preconceito e ódio. Certamente, bons cristãos, os portugueses não defenderão os vaidosos, os arrogantes, os orgulhosos, mesmo contra outros iguais. Certamente, não valorizarão o circo, o entretenimento, a diversão estéril, em vez do que verdadeiramente afeta e lesa a comunidade. Certamente, não colocarão, acima de todos os valores, os valores do negócio. Certamente, uma parte substancial deste povo não se juntaria por considerar uma afronta insuportável um motivo fútil, agravo de caprichos narcísicos, vexames imaginários de indivíduos tão habituados a serem mimados e lisonjeados que considerassem uma ignomínia seja o que não fosse a absoluta subserviência. Certamente, isso não seria possível num povo decente, especialmente se, simultaneamente, se silenciasse contra toda a prepotência, atrocidade e calamidade que florescem nos quatro cantos da terra.

            Assim, se tanto deste povo se une na defesa de uma figura prejudicada, certamente ela será um modelo inquebrantável de virtude, um herói, um santo, um mártir, alguém que sacrificou a própria vida por amor ao próximo: talvez um homem rico que, ao contrário do referido no Evangelho, distribuiu tudo o que tinha pelo pobres e, assim, passou pelo buraco da agulha; talvez um cuidador de vítimas de ébola que acabou contagiado pelo mal que procurou aliviar nos outros; talvez um insurreto torturado até morrer por denunciar as atrocidades cometidas por uma polícia despótica; talvez alguém vilipendiado após e exatamente por ter passado a vida inteira a trabalhar na assistência aos mais necessitados; talvez alguém justamente aclamado por ter acabado com a fome na terra ou com as intermináveis guerras ou com as doenças letais, e, ainda assim, não só não devidamente respeitado, mas verdadeiramente injuriado na sua probidade. Aliás, como está implícito num filósofo bem famoso, verdadeiramente, só é digno de respeito o que espelha o ideal ético. Certamente, outra qualquer pessoa de menores méritos não recolheria um apoio massivo, mesmo que um aspeto atraente fizesse sonhar muitas hormonas ou que uma campanha mediática procurasse empolar as situações. Certamente, não se sentiria e muito menos se exigiria gratidão a não ser que uma figura tivesse transcendido o limiar ordinário da vida humana, tornando-se, pelo seu impacto ético, um modelo para as gerações vindouras. Certamente, não mereceria a idolatria de um povo tão virtuoso e lesto a condenar os defeitos, alguém apenas zeloso na promoção da sua fama e do seu enriquecimento. É certo que a idolatria torna os crentes cegos, mas um povo que gosta de se honrar pela associação da origem do seu país à cruz de Cristo, dificilmente poderia trocar seu ideal por um culto pagão, sem qualquer teor moral ou espiritual. Certamente…

            Ou talvez seja altura de todo esse povo aprender, finalmente, algo basilar: o sentido do ridículo.  

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