16.7.26

Sob o signo da morte de Deus - VIII

 

Nesta época, passa-se algo similar ao que se passou na Idade Moderna em que qualquer dificuldade de um sistema filosófico era resolvida pelo recurso a Deus (Descartes, Newton, Berkeley, Leibniz e muitos, muitos outros). Embora a elaboração intelectual fosse bem maior, acabava por fazer lembrar o recurso da Alta Idade Média aos mistérios divinos sempre que se deparava a mais ínfima dificuldade. Agora, o instrumento de recurso para toda e qualquer dificuldade é a fé, fé na fé porque, como é bem visível neste caso, nem se sabe bem qual o objeto da fé. Ao menos no caso tratado anteriormente, Ricoeur, era bem evidente e bem pouco inovador o objeto da fé. Todos os casos são, porém, sintomáticos da mera razão preguiçosa. Neste caso, deixando por agora a questão se a religião é necessariamente moral, o que é, de facto, a questão central, gostaria de abordar mais esta sustentação do objetivismo axiológico. E também deixarei em suspenso, por enquanto, se a atitude religiosa implica necessariamente o objetivismo axiológico. Na verdade, parece-me bem mais o contrário: que aqui se usa a religiosidade para encontrar uma sustentação do dificilmente sustentável objetivismo. Como Dworkin declara: “The religious attitude (…) insists that values are real and fundamental, not just manifestations of something else; they are as real as trees or pain.”[1] Para que se perceba o carácter objetivista da tese, ele já tinha um pouco antes rejeitado que os valores possam ser reduzidos aos pensamentos e reações das pessoas, ou seja, sustenta a realidade dos valores fora do mero âmbito mental (muito embora não se perceba muito bem o estatuto pretendido para a dor neste caso). Em seguida, rejeitará todas as formas de “grounded realism”, incluindo as que se baseiam na biologia e não na metafísica. O seu argumento é que se julgamos com base na evolução que um ato está errado, isso pode resultar das idiossincrasias da espécie e não da verdade objetiva da proposição. Tem toda a razão. E o que é que poderá garantir essa verdade objetiva? Como se verá, a fé. A fé que nem é uma mera projeção mental… Na verdade, isto não é novo. O número absolutamente astronómico de gente que defende que os valores ou, ao menos, alguns deles são características intrínsecas às coisas ou aos atos é diretamente proporcional à mais completa ausência de vergonha pela desonestidade intelectual, os recursos falaciosos e a pura e simples mentira com que sustentam as posições. Repare-se que me estou a referir às defesas da posição e não à posição em absoluto que, porém, é indefensável recorrendo a justificações tão simplistas.

Os mais ingénuos defensores do objetivismo axiológico consideram que os valores são características como quaisquer outras das coisas. Cheguei a ver defendido que a proposição “As pirâmides são grandiosas” era objetiva. Até um retardado mental poderia perceber que uma hipotética entidade extraterrestre com 500 m. de altura dificilmente poderia julgar as pirâmides grandiosas (e uma entidade muito menor também). Se o juízo está dependente do nosso tamanho, então não é absoluto, nem universal, nem objetivo, mas relativo às nossas condições. Outros com um nível de desonestidade ou ignorância tão grande como a ingenuidade dos anteriores defendem que existe um núcleo de valores comum a todas as culturas, em todos os tempos, que não varia e, por isso, é demonstrativo da objetividade de alguns valores. Repare-se que esta unanimidade é idêntica aquela que resultaria da evolução da espécie, como foi referido por Dworkin, e nada garantiria quanto à verdade dos juízos de valor. Mas acontece que, ainda assim, é falsa. Lembro-me de autores, supostamente cultos, a defender que, em toda a parte e em todo o tempo, nunca foram elogiadas a mentira ou a inveja ou a avareza, e condenados a generosidade ou o altruísmo. Mesmo que não tivessem conhecimentos históricos dos mais clássicos que existem (por exemplo, Esparta), nem relativos à incrível diversidade antropológica, bastariam conhecimentos relativos a várias organizações contemporâneas, como a juventude hitleriana, para perceberem o disparate que estavam a dizer. Por isso mesmo, há outros autores que reconhecem a factual variação sem limites dos valores, mas que procuram encontrar um plano superior em que, de alguma forma, se encontrem os valores universais. Na verdade, só conseguem fazer isso de forma falaciosa, recorrendo a uma insuperável vagueza em que tudo pode querer dizer tudo. Veja-se esta pérola de César Tejedor Campomanes: “O que parece variar de umas culturas para outras é a aplicação dos princípios, não necessariamente os próprios princípios. Por exemplo, em algumas sociedades facilita-se ou provoca-se a morte dos idosos; na nossa cultura faz-se tudo o que é possível para prolongar a sua vida. Contudo, tudo o indica, em ambos os casos, age-se de acordo com os mesmos valores ou princípios (o amor e o respeito pelos idosos e pela vida em geral).”[2] Algo similar num texto de James Rachels a propósito do infanticídio esquimó[3] (e que inclui igualmente o homicídio de idosos) é reforçado, dada a superficialidade deste autor, com a perspetiva anterior, ou seja, que há valores comuns a todas as culturas, por supostamente ser impossível uma sociedade que estimulasse a mentira ou o homicídio.[4] Ambos os casos são desmentidos pelo exemplo espartano, onde as crianças eram treinadas, desde tenra infância, com grande crueldade, nas artes da mentira e do engano.[5] Mas, regressando a Campomanes que parece um pouco menos superficial, o que resulta considerar que mesmo matar idosos (ou, como ocorre agora, despejá-los em lares infetos onde é muito improvável pretender-se o maior prolongamento da vida) é revelador de amor e respeito pelos idosos? Lembro-me de oficiais de topo das SS a considerar misericordioso para as vítimas o gás das câmaras. Trata-se também de uma diferente aplicação do mesmo princípio de generosidade, de amor e respeito? A vontade de mentir e de se mentir, ou seja, de se iludir, não é exclusiva da teologia, permeia inúmeras convicções sem qualquer sustentação que os mais diversos autores vão debitando e se tornam populares por corresponderem à ilusão pelo público desejada. Esta convicção da existência de princípios universais que apenas variam na sua aplicação é especialmente absurda, pois tudo, matar, torturar, abandonar, maltratar, se poderia justificar como diversa aplicação do mesmo princípio do amor, mas está muito longe de ser única. No fundo, o que preside a estas conceções objetivistas é apenas o princípio da conveniência: para usar os próprios termos de Campomanes, a razão exige a universalidade, logo ela tem de existir em algum nível. Se não temos critérios para considerar uma ação certa ou errada, então tudo é permitido. Logo, têm de (ou seja, é conveniente) existir tais critérios. Mas como Campomanes reconhece a variação dos valores nas culturas, tem de colocar esses critérios num nível tão etéreo que acabam por permitir tudo o que se visava impedir.

Antes de considerar a versão do objetivismo de Dworkin, é importante colocar um problema prévio. Grande parte destas abordagens, sobretudo analíticas, concebem que a moral se fundamenta numa filosofia dos valores a que chamam, contemporaneamente, metaética. Tal resulta da redução da filosofia a questões semânticas, o que tem sido particularmente pernicioso para o pensamento. Chegou-se a uma altura em que a tutela analítica sobretudo anglo-saxónica se pode dar ao luxo de fazer uma classificação das posições que supõem fundamentar a ética e ignorar Kant. Mas Kant, por muito que seja acusado de psicologismo e outros insultos similares, bem naturais em quem vistas tão curtas tem, fornece um critério bem sustentado para deliberar objetivamente acerca dos juízos morais. A discussão axiológica analítica habitual tem sido uma discussão de opiniões, sem que seja quem for forneça uma fundamentação aceitável para sustentar que esta posição é melhor que aquela. Mesmo que todos os juízos de valor tenham sido, factualmente, subjetivos ou relativos, ou até mera expressão de reações emotivas, resta sempre a questão se não poderão ser mais do que isso. Kant mostra que o podem ser, mas não como premissas, apenas como resultados da aplicação do imperativo categórico. A generalidade do que os analíticos pretendem ser a metaética não passa, em Kant, de um resultado derivado da fundamentação da moral. Kant não pretende defender disparates como os que acima foram referidos, que existem valores comuns a toda a humanidade em todas as épocas ou que existem apenas divergências nas aplicações, usando-se sempre os mesmos princípios. Pelo contrário, a sua única esperança de uma sociedade decente, nacional e internacionalmente, assenta no egoísmo minimamente inteligente e não na racionalidade moral. O que ele pretende é fornecer, de facto, um critério baseado apenas na forma de o homem pensar universalmente que permita concluir o que é certo e errado, critério, aliás, alicerçado no simples conhecimento moral comum. Poderá ser ineficaz para orientar a sociedade, mas estará sempre disponível para quando a sociabilidade insociável do homem for forçada, pelo próprio desenvolvimento do conflito, a tornar-se minimamente decente. Dito de outra forma, Kant não nos diz que existem valores válidos para todos os homens, em todas as épocas. Diz-nos que deveriam existir e isto não como uma determinação dogmática, mas como resultado da simples aplicação da forma universal da razão pensar. Só os interesses particulares, desejos e medos, condicionantes sociais e religiosas, etc., fazem com as regras morais tanto divirjam. Recorra-se, única e simplesmente, à forma universal da razão e toda essa divergência deixará de ter razões para existir.

Bom, ao menos essa era a esperança de Kant – e talvez tivesse atingido o seu desígnio não fora ter resvalado na sua segunda fórmula específica para o antropocentrismo mais estrito. É fácil ver, nas questões de ética animal ou ambiental, como as duas fórmulas podem levar a resultados opostos. Porém, apontou um caminho para o objetivismo que estes autores muito modernos tenderam a menosprezar, apesar de ser bem melhor que o deles. Infelizmente, esse caminho foi trilhado no Ocidente apenas com sucessivas versões etnocentristas. Em vez de tentar encontrar um fundamento para sustentar determinado princípio, norma ou valor, o Ocidente partiu sempre do princípio que cada tese que tinha acabado de tornar mais ou menos consensual na sua cultura era universal e válida para todos os homens. Invariavelmente, isso dava-lhe, supostamente, legitimidade para impor a todos os outros os seus valores como os únicos legítimos, não seus mas universais. Primeiro foi o cristianismo, depois a ciência experimental, depois a liberdade religiosa, depois o capitalismo liberal, depois a racionalidade tecnocientífica, depois a democracia representativa, depois a emancipação da escravatura, depois os direitos dos trabalhadores, depois a autodeterminação colonial, depois a igualdade de género, depois a ética ambiental, depois a autodeterminação sexual, depois a autorregulação mundial dos mercados, depois a globalização informática, depois a identidade de género, depois os interesses ou direitos dos animais, etc. – e, em todos os casos, os juízos de valor a que chegavam, juízos que em muitos casos eu até acho meritórios,[6] eram sempre universalmente válidos, nunca estritamente ocidentais, mas sempre absolutos e indiscutíveis. Na verdade, todas estas mudanças ideológicas pareceram não dispensar o dogmatismo da inicial (o cristianismo) e isso talvez até seja mais importante que o etnocentrismo. Daí eu considerar que os esforços a que se tem chamado interculturalismo, tentativas de homens de boa vontade de qualquer cultura (ou seja, que não estejam movidos pela defesa de privilégios e outros interesses particulares) chegarem a formulações conjuntas de possíveis princípios universais, me parecerem especialmente simpáticos, muito embora ainda estejam longe (e provavelmente venham a estar para sempre) de poderem suportar um verdadeiro objetivismo. Mas vão no sentido que acabarei por defender, até porque, porventura, não é possível sustentar honestamente qualquer objetivismo senão de forma problemática. Quanto a outras vias, como as da psicologia genética, são apenas contributos adicionais que contribuem para o esclarecimento da direção a tomar.

E a perspetiva de Dworkin? Dworkin compara o domínio dos valores com a matemática e a física. Para quê? Para mostrar, no caso da matemática, que a sua sustentação depende da integridade do sistema que acaba por supor aquilo que se poderia pretender dever ser demonstrado, apenas se baseando em proposições matemáticas e não sendo fundado em outra coisa qualquer. Já a física, não tendo conseguido atingir essa coerência, não deixa de estar dependente apenas das suas próprias proposições, supondo, igualmente, crenças básicas que ela própria não consegue demonstrar (por exemplo, a existência do mundo exterior à mente). Em ambos os casos, Dworkin supõe que a totalidade dos domínios requer atos de fé. Depois, pretende transpor estas abordagens para o domínio dos valores. Neste, aliás, a maior complexidade e divergência até parecem requererem uma fé reforçada, uma experiência emocional do numinoso. Francamente, pareceu-me uma argumentação muito deficiente, cheia de conceitos pouco esclarecidos. Mas, antes de a considerar, gostaria de chamar a atenção para uma argumentação análoga, a de Pascal, que habitualmente só é conhecido pelos filósofos analíticos pela sua deprimente aposta. Na verdade, é muito mais importante no seu pensamento a radicação dos sistemas racionais nas verdades do coração. Entre estas verdades do coração estão as da fé, mas ele não reduz aquelas a estas (é o inverso). Pascal pega nos fundamentos do sistema de Descartes e chama a atenção para o óbvio: “espera aí, esta intuição que está na base do sistema da razão não é ela própria racional”. Nada a demonstra, constituindo uma evidência instintiva ou pulsional, não uma verdade racional. Como se sabe, Pascal é um fideísta e Dworkin também (embora não seja claro se o sabe), com a diferença de não encontrar um termo diverso como o coração de Pascal para incluir todas as verdades intuitivas (incluindo as da fé), chamando, ao contrário, tudo de fé. Como é óbvio, desde que esse termo latino, originalmente uma virtude cívica, foi apropriado pela linguagem cristã para traduzir a emunah hebraica, adquiriu um significado bem mais forte que a mera crença. Acreditar que se receberá o ordenado no final do mês não pode ser considerado um ato de fé, pois a emunah implica uma entrega completa da própria vida do crente que não admite a dúvida ou a concorrência de outras explicações. No caso da matemática, o uso do termo parece-me inadequado. A única coisa que sustenta a crença da matemática em si própria é o facto de os humanos não serem capazes de pensar de outra forma. Mesmo quando desenvolvem novas ordens matemáticas, isso não desmente as anteriores. Mas o que Dworkin quer sustentar com o exemplo parece-me ainda mais desajustado. De facto, ele procura sustentar o seu ungrounded realism. Ora, a crença na matemática não implica nenhum realismo, nenhuma realidade exterior à mente. O que está em causa é apenas a operação com as regras do próprio pensamento e a crença matemática na sua validade não produz qualquer salto de fé em direção à realidade exterior à mente. A sua aplicação à física é sempre problemática e não transpõe jamais a necessidade matemática para a física. Por outro lado, parece-me existir aqui uma ingenuidade semelhante à de Descartes, procurando transpor a certeza matemática para a certeza acerca da realidade como se aquela já dissesse respeito à realidade exterior às operações mentais – daí ser apresentada como um argumento favorável ao objetivismo. Pior ainda, a matemática encontra-se muito reforçada nos seus procedimentos pela necessidade consensual que exibe. O que se passa no domínio dos valores é exatamente o inverso, como Dworkin reconhece. Assim, pretende sustentar o seu objetivismo com o formalismo matemático que nada decide, à partida, a respeito da realidade e refugia-se num ato de fé que ignora que a enorme variação axiológica parece justificar-se muito mais com o emotivismo, o subjetivismo ou o relativismo do que com o objetivismo. Ao contrário da fé cega que parece estar a ser defendida por Dworkin, a própria fé tem razões mesmo que a pura razão as desconheça. Não deveria surgir do nada. Tal como os postulados da razão prática de Kant apresentam razões para se crer, também Dworkin o deveria fazer. Ora, ao defender a sustentação dos valores pelos próprios valores (como a matemática pela matemática), Dworkin apenas poderia defender a consistência formal do sistema alcançado – mas nada lhe permitiria partir daí para a afirmação da sua realidade extramental, até por a história da filosofia fornecer com facilidade muitos sistemas de valores consistentes diversos uns dos outros. Porquê um em vez de outro? Além disso, ele próprio na sua rejeição do grounded realism, sobretudo na sua versão biológica, mostrou que até mesmo o consenso nada garantiria em termos de objetividade, apenas uma forma comum à espécie de pensar. E a sua pretensão de que quem nega este seu salto de fé, não o refuta, apenas o nega por os refutadores não terem o ponto de vista religioso,[7] é ainda pior porque em lado algum ele demonstrou que o ponto de vista religioso implica necessariamente a sua perspetiva, apenas o supôs como uma evidência que mais adiante contestarei.

Admito que o exemplo da física, a vários títulos, parece-me bem mais adequado. Em primeiro lugar, pretende determinar como é a realidade exterior à mente. Em segundo lugar, mantêm-se muitas discordâncias a níveis fundamentais. Em terceiro lugar, com muita facilidade, dados que podem resultar das nossas limitações cognitivas e experimentais, são interpretados, ingenuamente, como realidades ou características de realidades exteriores à mente.[8] Dworkin sublinha como ato de fé essa crença na realidade física exterior à mente, mas são bem mais sustentáveis razões para essa fé, do que para a rápida conclusão acerca de como são essas realidades. Para dar um exemplo que não requer muito desenvolvimento, não sendo este o assunto atual, concluir, de um mero problema de medida, dadas as nossas limitações cognitivas e experimentais, que a própria realidade quântica é indeterminada, é dar um salto de fé de onde todo o espírito crítico foi esvaziado. O equivalente a esta ingenuidade é a consideração, na nossa cultura atual, que as conclusões recentes e provavelmente transitórias a que chegámos acerca do que é certo e errado correspondem ao certo e errado na própria realidade, ou seja, são conclusões absolutas. Embora Dworkin não concretize muito os casos, a única vez que o faz serve perfeitamente para mostrar a ingenuidade do seu ungrounded realism e o caráter defeituoso da abordagem analítica. Estou a referir-me ao exemplo da crueldade. Até posso extremar ainda mais a situação e referir-me à crueldade com crianças, algo que parece afligir muito mais universalmente a empatia humana. No Ocidente atual, considera-se politicamente incorreto qualquer defesa de qualquer violência contra crianças, muito mais ainda crueldade. Não preciso de ir muito longe, apenas à minha infância (vivida ainda no Estado Novo), para encontrar modelos educativos que defendiam a violência e até a crueldade contra as crianças para as moldar conforme os adultos que a sociedade desejava que elas viessem a ser. “De pequenino se torce o pepino”, dizia toda a gente na altura como se fora uma verdade axiomática. Como Dworkin se defenderia de alguém do passado ou de outra cultura que defendesse que os castigos físicos são vantajosos para a formação do carácter do indivíduo requerido pela sociedade? Poderia ele garantir que a nossa civilização não se encontra em decadência exatamente por se preocupar, antes de mais, em mimar as crianças? Francamente, acho que ele nem responderia à questão, não apenas por ser dogmático, mas por só aceitar “argumentos morais”,[9] ou seja, argumentos que consideram atomicamente o problema em causa e que nunca pensam, de forma minimamente contextualizada, para que serve essa moral. Pessoalmente, tendo sido vítima de feroz violência “educativa” na infância, não posso deixar de ter a convicção na verdade da desvantagem do recurso à crueldade, mas, não apresentando mais argumentos, sobretudo até de índole política, psíquica e pedagógica, o estatuto dessa convicção não é mais que subjetivo ou relativo, dado ser partilhada, em geral, pelos sectores instruídos da minha sociedade, muito embora muito contestada por estratos mais populares. Mas diz Dworkin que só se pode ter essa convicção se se pensar que é objetivamente verdadeira. Tenho dúvidas, mas até o poderia admitir (de forma bem problemática), se Dworkin não usasse esta convicção como prova fideísta da sua objetividade, sem apresentar qualquer razão para descartar possíveis objeções. Volto a dizer, mesmo na fé, há fés superiores a outras, exatamente por apresentarem melhores razões para serem sustentadas. O mero facto de pensar algo, se não for de algum domínio estritamente formal, não garante que isso corresponda à realidade.

Ainda antes de tratar as questões mais decisivas, devo elogiar o argumento de Dworkin contra o realismo teísta fundamentado (grounded). A fundamentação radica o caráter absoluto dos valores na criação divina. Ora, se fosse um facto que Deus teria criado os valores, nada garantiria, só por esse facto, que os valores fossem bons ou gloriosos. Seria sempre necessário avaliar o valor das ações ou do universo, independentemente de como foi criado o mundo, para aferir se a ação era, na realidade, boa, ou o universo glorioso. Para se considerarem valores absolutos, é necessário que o seu valor seja intrínseco e esse valor não é concedido pelo seu simples surgimento.[10] Não é o berço, ao contrário do defendido por alguns retardados, que dá valor a alguém ou aos seus atos, é aquilo mesmo que faz. Assim, a suposta fundamentação acaba por ser, mesmo que camuflado, um ungrounded realism, tal como a perspetiva ateia de Dworkin. Não posso deixar, porém, de mencionar como é estranho que ele rejeite que se possa defender um mistério divino em que a natureza divina se funde com os princípios éticos.[11] Descartes chegou a defender que as próprias verdades de razão dependessem da arbitrariedade de Deus. Caso os valores fossem objetivos, seriam verdades necessárias e não teriam, de facto, um estatuto diverso da lógica ou da matemática. Pessoalmente, julgo a perspetiva de Descartes disparatada, mas pergunto-me se Dworkin tem legitimidade para julgar o mesmo. “We must draw a line somewhere between mystery and unintelligibility.” Pois é isso mesmo que eu estava a dizer no parágrafo anterior em relação à perspetiva objetivista do próprio Dworkin. A fé não pode justificar todo e qualquer disparate, sem qualquer razão para ser afirmado. Pode não conseguir provar racionalmente algo, nomeadamente os famosos mistérios, mas tem, pelo menos, de afirmar algo que não seja ininteligível. Mesmo que se tenha criado um sistema consistente, só por si, nada existe de inteligível na sua transposição para a realidade, que é o que o objetivismo sustenta, tal como a integridade de O Senhor dos Anéis não implica que Sauron, Gandalf ou Aragorn existam entre Benfica e o Monsanto. Pretender essa transposição sem qualquer experiência sensível que a suporte não é equivalente à suposição de objetividade na física, mas sim à suposição de objetividade na ficção. A suposição de objetividade na física implica um ato de fé, mas um ato de fé que apresenta razões para a crença, ao contrário do objetivismo axiológico de Dworkin.

Mas o maior problema na abordagem de Dworkin é a sua suposição de que a atitude religiosa implica crenças que na verdade não implica necessariamente. Qualquer estudo da história das religiões permite concluir que o desenvolvimento de uma conceção moral da divindade é tardio e, mesmo quando ocorre, está sujeito a regressões. Na verdade, as conceções moralistas na mítica tendem a ser precárias, visto serem dominadas pela imaginação. A moralidade tende a desenvolver-se apesar dos deuses e não por causa dos deuses, até porque o que é permitido aos deuses não pode ser permitido aos humanos. Além disso, a religiosidade mais profunda após o período axial tende a superar a moral, podendo até contraditá-la como nos exemplos dos heróis da fé ilustrados por Kierkegaard. Repare-se, porém, que não é caso único. No próprio budismo, só objetivos intermédios são alcançados pela moral. A iluminação não supera apenas os deuses, também supera a própria moral. Nos artigos anteriores, foi apresentada uma hipotética interpretação da mensagem de Jesus que supera claramente a simples moral pela exigência do amor aos inimigos, uma exigência absolutamente excessiva segundo qualquer padrão moral. Dito de forma mais clara, a moral não tem de estar dependente da religião e a religião, tendo muitas vezes um conteúdo inequivocamente imoral, não tem de ser moral. Há muita falta de conhecimentos de história das religiões e de antropologia presente na afirmação de uma tal associação como essencial. Essa falta de conhecimento acaba por se revelar quase tão grande quanto a de Llosa: “Every tradition that proposes an afterlife conditions the proposal on moral and ethical judgment. People rise to heaven only if they have lived well: the alternative is hell – an afterlife in eternal flame and torment.”[12] Como é possível que se julgue que todas as tradições que afirmaram uma vida após a morte acreditassem num paraíso e num inferno? É isto o conhecimento da religião desta cultura a que os nossos nacionais prestam toda a genuflexão, o conhecimento da igreja do bairro.

Porém, o problema é maior, visto o mesmo que foi dito sobre a moral poder ser dito, até de forma mais ampla, da fé. A exigência da fé é típica das religiões do Médio Oriente, começando pela Pérsia, continuando na Judeia e na Arábia (na verdade, surgiram religiões e heresias deste género por todas as regiões do Médio Oriente). A partir daí, infetou todo o Ocidente e chegou também a outras culturas. Além disso, a sua matriz cultural tornou-se de tal forma dominante que se alastrou para outras áreas que não a religiosa. Ainda hoje, é, porém, perfeitamente evidente a diferente atitude da religiosidade do Extremo Oriente, muitas vezes qualificada de sincrética, visto com facilidade receber contributos de outras tradições religiosas, sem ver grande problema nisso. Bem diversa é a situação da Índia devido a ter chegado a ficar sob o domínio, primeiro, do Islão e, depois, da cristandade. Na China, a exigência de exclusividade só chegou através de outra importação ocidental, o marxismo. Por outro lado, a propósito de infeções, também a religiosidade light da morte de Deus no Ocidente se caracteriza, como antes foi referido, por essa atitude sincrética, desta vez um pouco importada do Oriente. Pelo contrário, a emunah exige uma absoluta exclusividade e é nesse sentido, sustentador de uma perspetiva absoluta, que Dworkin a transporta para a questão da defesa da objetividade axiológica.[13] Esta fé não só é exclusiva, como a simples dúvida é já um pecado, gravíssimo aliás, legitimando a menor divergência a extinção física dos adversários. A entrega pessoal que exige é também absoluta, anulando perante as ordens divinas as menores considerações individuais. É verdade que Dworkin poderia estar a pensar numa mera crença entre outras, mas não parece, pois tenta exatamente mostrar uma submissão emocional análoga, motivada pelo nosso desconhecimento, ao misterioso numinoso que constituiria exatamente o essencial da experiência da fé. Mas há aqui uma curiosidade. De forma alguma ele reconhece esse desconhecimento no teor dos juízos de valor a que, depois, atribuirá o estatuto objetivo. Ao dissociar a parte científica da valorativa, acaba por reduzir a sustentação axiológica à sua consistência (ou integridade) formal, aquilo a que chama escudar a sua integridade.[14] Poder-se-á presumir que pretende igualmente reduzir ao absurdo as alternativas como na física,[15] mas mesmo aí isso apenas refutaria essas alternativas, não excluindo alternativas futuras e, por isso, não escudando a fé na objetividade de forma absoluta, mas apenas provisória.[16] Embora admita e até considere necessária a evolução na física, parece defender uma objetividade fechada que, se fosse seguida pelos físicos, impossibilitaria dogmaticamente a evolução. A integridade formal está fechada e, rejeitando alternativas nos seus próprios termos, só requer o recurso à fé na passagem da integridade para a objetividade. Do ponto de vista analítico adotado, na verdade, já está a ser dogmático antes de se declarar dogmático, pois confia inteiramente na eficácia epistémica da consistência do seu sistema de valores. É como se dissesse que precisava da fé para passar da mera validade formal para a verdade material, isto sem sustentar os valores em quaisquer razões científicas, pois insiste na autonomia da integridade dos sistemas de valores. Naturalmente, assim pode passar de qualquer sistema de valores justificado por juízos de valores para a sua afirmação, pela fé, como valores objetivos. Pessoalmente, parece-me uma muito pobre e preguiçosa utilização da fé, mas reconheço que tal apreciação se pode dever a não ser nem fideísta, nem sequer favorável às abordagens analíticas cujas pretensões excedem sempre o domínio formal a que se deveriam ater.

Pretende, aliás, sustentar uma religião sem Deus baseado exclusivamente na objetividade dos valores, considerando que isso revela uma atitude religiosa porque recorre à fé. Mas, para lá da fé, como já referi, não ser uma característica essencial das religiões, falta, em Dworkin, toda uma série de características essenciais à religião na sua suposta religião: não há nenhuma religião que não oriente a vida de uma comunidade; tal não tem de ser feito de forma moral, como já sublinhei, mas é sempre feito repetindo os modelos sobrenaturais através de algo que não parece ter qualquer importância em Dworkin, os rituais; além disso, nunca usa sequer a palavra sagrado, o valor religioso por excelência, para se referir ao objeto da sua fé ou à sua vivência. Uma das características mais essenciais da experiência religiosa, a fragilidade humana dependente da ligação ao sagrado que leva a atribuir sempre toda a força que o humano possa ter ao que é trazido por essa ligação, está totalmente ausente. Só usa a palavra “sagrado” 3 vezes e sempre para se referir aos textos ou aos deveres de teístas, nunca para referir algo próprio da sua proposta religiosa. O que há de mais próximo da experiência do sagrado é o seu uso da palavra “numinoso”, considerada por Otto como um conhecimento da fé, um pouco à maneira das verdades do coração de Pascal. Só que, mesmo aí, os exemplos dados por Dworkin, seguindo certas figuras da ciência, são exemplos que remetem para a estética natural do sublime (embora mostre uma enorme dificuldade em distinguir o belo do sublime, sempre apresentados como um só pacote). E, novamente, a fé está ali operativamente à mão apenas para garantir emocionalmente a objetividade absolutamente injustificável ainda mais desses valores do que dos éticos ou morais. Já nem falo da sua absurda restrição dos valores estéticos objetivos à natureza,[17] embora isso mostre quanto das conceções objetivistas ingénuas está aqui presente, pensando os valores como realidades inerentes às próprias coisas:It was Einstein’s faith (em que ele se apoia) that some transcendental and objective value permeates the universe, value that is neither a natural phenomenon nor a subjective reaction to natural phenomena.”[18] E porque um grande cientista diz que aquilo que afirma não é uma reação subjetiva, podemos imediatamente crer que não é uma mera reação emocional ou uma manifestação de ingenuidade, como se isso fosse impossível em ciência. Na verdade, por vezes penso que a maior utilidade da separação entre a filosofia e a ciência é a de permitir que os cientistas possam ser ingénuos à vontade… Mas para que os filósofos não tivessem de ficar invejosos é que se criou a filosofia analítica.

Ainda antes de considerar a questão estética, gostaria de me debruçar sobre os valores práticos (segundo o significado tradicional de prático presente, por exemplo, em Aristóteles e Kant). Os valores práticos nada são senão apreciações das comunidades ou dos indivíduos sobretudo de comportamentos. Tenho sérias dúvidas que os indivíduos os projetem independentemente da cultura a que pertencem, mas as próprias culturas não produzem nada senão através dos indivíduos. Significa isso que não há nenhum certo e errado absoluto? Provavelmente há, mas nunca o poderemos saber de forma absoluta. A ingenuidade que referi no parágrafo anterior também se expressa bem na confusão entre ser e conhecer. O facto de um determinado enunciado corresponder ao melhor que pode atingir, neste momento, o meu conhecimento, nada garante que isso corresponda à realidade. As sociedades ou parte delas (por exemplo, classes, ordens ou castas privilegiadas) julgam que determinados comportamentos são os mais vantajosos para elas, mas quase nunca o são, tal como se pode verificar nas consequências históricas dos seus juízos, invariavelmente conduzindo cada sociedade à degradação, decadência ou colapso. Esses juízos dão origem a regras e parece melhor se reger por regras do que no caos da arbitrariedade, mas, se os comportamentos sancionados eram, de facto, desvantajosos, as regras só potenciam ainda mais os efeitos negativos. Para obviar a estas consequências nocivas, certos filósofos, os utilitaristas, procuraram criar um critério universal que permitisse avaliar, caso a caso, o que era mais vantajoso. O resultado foi deprimente. Em primeiro lugar, dado o carácter problemático do cálculo de consequências, a melhor forma de reduzir a possibilidade de erros era conter o cálculo nas consequências próximas. Para demonstrar o rigor da abordagem, reduziam a consideração dos casos a situações atómicas abstratas, sem considerar jamais o contexto mais amplo. Isso não permitia calcular a maior vantagem global, pois é evidente que a maior vantagem imediata pode redundar em desvantagem ou até em enorme desvantagem. Em segundo lugar, nem mesmo a vantagem imediata está garantida, pois, não sendo o homem o Deus teísta omnisciente, não pode saber de forma necessária o que resultará de uma determinada ação. Se o valor das ações se mede pelas consequências, então uma ação deliberada pelo critério pode ser má, devido a consequências imprevistas. Claro que podem dizer que as intenções eram boas, mas um critério baseado nas intenções (como em Kant) é o que eles procuravam evitar. Em terceiro lugar, usam um conceito muito problemático para o cálculo, a felicidade. Desde a Antiguidade que este conceito se mostra muito discutível, pelo que os utilitaristas optaram por uma simplificação do mesmo: felicidade é o máximo de prazer e o mínimo de dor. Acontece que, também desde a Antiguidade, os filósofos alertaram que a busca descontrolada de prazer longe de levar à felicidade, leva à miséria do vício – isto para lá de uma vida sistematicamente sedada dar origem a indivíduos amorfos, incapazes de uma vida verdadeiramente ativa. A introdução de precauções prudenciais a médio ou longo prazo, desvirtuaria totalmente o cálculo pretendido, deixando de ser uma ética utilitarista e passando a ser uma ética semelhante às antigas. Em quarto lugar, sendo o objetivo a maior felicidade global, em vez dos casos atómicos que são sempre usados como ilustração, deveria ocorrer uma questionação acerca das implicações globais. Ora, se um político honesto tentar seguir o cálculo utilitarista, fornecendo o maior prazer e evitando a dor para a maior parte ou mesmo a totalidade da população, seria conduzido inevitavelmente a promover o consumismo, uma das mais perniciosas características do nosso tempo. Claro que se poderiam introduzir considerações prudenciais a longo prazo como em Jonas, mas isso voltava a pôr em causa o critério utilitarista que necessita do curto prazo para calcular mais rigorosamente o mais vantajoso. Em quinto lugar, a maior felicidade global pode ser obtida prejudicando ativamente as minorias. Infelizmente, em inúmeras épocas, a felicidade da maioria foi encontrada na perseguição de certos grupos detestados. Dificilmente, pode ser mais vantajoso para uma sociedade a promoção da crueldade ou da simples discriminação. Pelo contrário, isso levará ao incentivo de facínoras e celerados que, aliás, nunca se restringem aos alvos iniciais. O resultado, mesmo que um genocídio se efetive, será uma sociedade mais pérfida e mais predisposta para a destruição, incluindo a autodestruição.

Este relativismo disfarçado de universalismo que permite decisões, caso a caso, dependentes das mentalidades dominantes, baseadas num único princípio, tem dominado totalmente o discurso político e mediático, ao ponto de parecer não poder existir outra ética. Parece ser mais vantajoso para as sociedades a estabilidade de regras, mesmo que não sejam meramente deontológicas, mas resultem da reflexão das consequências prováveis a médio e longo prazo. Se é verdade que algo similar está presente nas atuais preocupações ambientais, não deixa de ser inquietante que essas preocupações só surjam perante ameaças imediatas e nunca se deixe de tentar satisfazer o consumismo, ou seja, de satisfazer o critério utilitarista, o maior prazer que for possível para o maior número. A nossa época caminha alegremente para o abismo sempre a aplicar o que julga a maior realização da racionalidade ética, o princípio utilitarista (numa das suas muitas versões que não alteram nada de relevante). O desenvolvimento da atual IA segue o mesmo princípio, maior prazer global e menor dor, respostas fáceis e acessíveis sem ter de sofrer a menor tensão resultante da investigação ou do estudo. E, como sempre, surge um discurso prudencial sem qualquer eficácia, velhos do Restelo dos tempos modernos. Poderia uma diferente ética, um diferente direito, uma diferente política ser mais vantajosa para uma sociedade? O que seria mais útil para qualquer sociedade é que o homem se deixasse de manias e tivesse uma consciência constante da incompletude e precaridade do seu conhecimento, não para dar saltos de fé em que parta da ignorância para a pretensão de valores absolutos, mas para constantemente examinar as razões que mostram estas soluções mais vantajosas para o conjunto da sociedade do que outras, sempre predispostos a reexaminar novas razões, pois sabe que o seu conhecimento é limitado. O que seria mais útil é que, em vez de se buscarem receitas fáceis e imediatas, se considerasse que tudo o que é solidamente vantajoso é demorado, difícil e ainda assim incerto, que a felicidade não é a acumulação de prazer e a eliminação da dor, mas a realização mais plena que for possível de indivíduos, grupos e sociedades no tempo por vezes bem longo, implicando frequentemente essa realização sacrifício e frustração. O que seria mais útil para a sociedade seria o abandono de todo o discurso preguiçoso da fé que nem na religião jamais foi necessário e que foi sempre pernicioso nas sociedades. Se se julga que algo é mais correto, apresentam-se razões para isso, razões que nunca dispensam o conhecimento adquirido. Os valores nunca deveriam ser pontos de partida como ocorre na abordagem estéril formal de Dworkin (e de tantos outros) que, por isso, precisa da fé. Os valores deveriam ser mero resultado da avaliação do conhecimento disponível, não só o estritamente empírico, mas também o que resulta da reflexão filosófica, sociológica, antropológica, psicológica, etc. Assim, seria garantido chegar a valores absolutos? Nem sequer a ciência consegue chegar a verdadeiras leis da natureza, apenas chega a conclusões que parecem ser as melhores possíveis dado o conhecimento adquirido. Aliás, se só é conhecimento as tais crenças verdadeiras justificadas, como proferem tantos dos nossos analíticos, em coro para terem maior força, o mais certo é não se ter qualquer conhecimento – e, de qualquer forma, nunca se poderia assegurar completamente. E importa muito ter consciência disto para combater o dogmatismo que invariavelmente se infiltra na ciência e na filosofia. Qualquer conhecimento é um conjunto de crenças precárias que se aceita por não se ter melhor ou se julgar não ter melhor a cada momento. O que importa sempre é o exame das razões e só das razões. Uma conclusão não correspondente à realidade, ou seja, errada, mas que é suportada nas melhores razões existentes num determinado momento, é melhor que uma correspondente à realidade (mas como sabê-lo?) que não apresenta quaisquer razões ou pede um salto de fé. Se se substitui uma crença por outra, isso deve ser feito por a outra apresentar melhores razões, sempre tendo consciência que todas as crenças são precárias e que só podem ser consideradas absolutas dogmaticamente. Crer que os conhecimentos obtidos são absolutos e definitivos é pernicioso para o desenvolvimento da própria ciência. Quão pernicioso será esse tipo de fé no domínio dos valores?

Volto à questão: Significa tudo isto que não há nenhum certo e errado absoluto? Para o homem, não deve haver e é bom que não haja, pois, como Dworkin acaba por afirmar implicitamente, só seria possível defendê-los através de uma fé cega que só poderia pretender a imposição da integridade do seu sistema como se fora lei da própria realidade. Seria uma crença infundada que se adotaria dogmaticamente e que impediria que se buscasse melhor solução. Para o homem, o que pode haver é procurar razões a ter em conta para ter os melhores resultados que for possível. O certo e o errado não são premissas da análise estéril da filosofia analítica, mas os resultados possíveis precários das razões existentes, ou seja, não passam do melhor e do pior, dados os conhecimentos e argumentos disponíveis. Pretende, assim, Dworkin instaurar uma religião sem Deus inteiramente assente no primado da fé em valores absolutos – mas essas religiões já existem há muito e de forma bem mais completa que a estéril fé axiológica que apresenta. Já referi o positivismo de Comte, mas poderia referir as múltiplas seitas marxistas, confissões de um tipo especial de religião que já foi tratado nestes artigos, a religião soteriológica, completamente obcecadas pela constituição de um mundo invisível e efetivamente irrealizável, mas que julgam sempre disponível já ali adiante por terem uma doutrina, ou seja, um sistema de valores de uma integridade a toda a prova e que creem, num puro ato de fé, que nenhum dado poderá desmentir, que corresponde à realidade absoluta empiricamente irrefutável. O facto de não usarem palavras como fé ou sobrenatural não significa que não adotem o significado por elas. Visto não admitirem qualquer refutação empírica, as suas supostas conceções ditas naturais remetem para um domínio intangível sobrenatural. Tal como a esperança paulina, desejam ardentemente a destruição deste mundo de iniquidades constituído pelo pecado a que chamam capitalismo. Fixados ex-staticamente na contemplação do horizonte radioso, repetem exatamente os mesmos rituais, anos após anos, décadas após décadas, nas reuniões e festas partidárias, nas sessões sindicais, nas greves, nada alterando o facto de serem cada vez mais ineficazes e reduzidos à subcave das opções políticas, mesmo sem qualquer perseguição. A revolução continua a estar ali ao virar da esquina das peripécias da história, assim como os cristãos continuaram dois mil anos à espera do Apocalipse iminente, não fossem ser apanhados sem se poderem apresentar adequadamente a juízo. A fé é autossuficiente, Deus não é preciso para nada. E assim, melhor seria um Deus não autoritário do que esta porcaria da fé que enche a boca de mil e uma orientações na nossa época, todas sedentas de sujeitarem todos os outros à sua autocracia.

Poder-se-á julgar estar a usar um argumento ad terrorem, visto se tratar de um autor liberal. Quando se evoca a fé e a fé religiosa, sem qualquer equívoco metafórico, como única sustentação da sua tese central, um realismo axiológico objetivista, não há qualquer razão para dosear as palavras. Durante os meus mais de 60 anos, tenho visto muitas tentativas autocráticas e até totalitárias, quanto mais não seja através da tecnocracia, a emergirem nos países liberais capitalistas. Muitas, aliás, surtiram efeito total ou parcialmente, não só vindas de extremos populistas, mas do próprio centro desses regimes. Se se evoca a fé, mesmo se procurando proteger com a tolerância por ainda não se ser dominante (mesmo a Igreja o fez no percurso para se tornar dominante no Império), está-se a criar condições para impor uma posição sem ter de apresentar razões. Ao menos, os marxistas podem se sentir vexados ao serem reduzidos a uma fé religiosa; neste caso, nem é preciso protestar contra a qualificação que é inequivocamente afirmada. O mesmo acontecia com o positivismo de Comte cujas intenções totalitárias eram óbvias. O facto de se pretender defender um sistema de valores autónomo dos dados científicos não serve em nada para me tranquilizar, antes pelo contrário. Repare-se que há uma diferença substancial entre Dworkin e os cientistas que cita como exemplo, nomeadamente Einstein: em nenhum caso, as suas conceções físicas estão dependentes do ato de fé, o ato de fé surge no final como uma experiência emocional, uma experiência estética. No caso de Dworkin, a fé suporta a tese central, a do objetivismo axiológico. Aquilo que me tranquiliza é apenas não ter conhecimento de nenhuma religião formada a partir desta posição, o que é natural visto não parecer ter consciência de algumas das características essenciais de uma religião. Mas, como tudo o que ocorre no império tem eco em todo o planeta, nunca se sabe se não poderá surgir. A única vantagem desta posição é apresentar o seu teor fideísta. Há muitos autores da filosofia analítica que falam a torto e direito de valores intrínsecos, ou como se fosse algo evidente por si, ou decorrentes das consequências nefastas que adviriam de não se ser objetivista (ou seja, por conveniência). São todos casos de fideísmo não declarado, fideísmo camuflado de racionalidade operativa.

O outro grande argumento alegadamente religioso por ser fideísta é a defesa do objetivismo estético natural. O próprio cosmos, como já foi visto evocando Einstein, conteria para lá de estrelas, matéria negra, energia, entre os seus componentes, beleza e sublimidade. O mesmo ocorreria nos quanta. Essa beleza e essa sublimidade não seriam nem fenómenos naturais, nem reações subjetivas. Como os fenómenos naturais também são apenas perceções do que ocorre no universo, a beleza e a sublimidade teriam um estatuto mais real, independente do sujeito, que os próprios fenómenos naturais. Como é que alguém pode defender seriamente tal absurdidade? Porém, no artigo anterior, contrapus-me, implicitamente (pois estava a caracterizar a situação e não a tomar posição), à atual avaliação das obras totalmente independente do seu valor intrínseco. Em que ficamos? Quase no mesmo plano da questão ética. Quase. Primeiro, todo e qualquer juízo de valor é uma apreciação de um sujeito que revela bem mais sobre o sujeito do que sobre as características do objeto. Nesse sentido, os juízos de valor são inerentemente subjetivos. Sua verdade ou falsidade reside apenas na honestidade de quem os profere. Naturalmente, podem ser proferidos por instâncias coletivas, caso em que poder-se-ia dizer que são particulares, mas essas instâncias coletivas são compostas de indivíduos, mesmo que anulados na sua individualidade pelos processos de manipulação de massas. Dizer que a Via Láctea ou a Sagrada Família são sublimes ou que uma flor ou a Sagração da Primavera são belas em nada caracteriza tais coisas ou obras. Apenas caracteriza a forma como eu fui afetado por essas coisas ou obras. A proposição enunciada está-se a referir a mim, enquanto afetado por objetos, e não aos próprios objetos. Nenhuma conclusão em relação ao objeto se pode retirar de dizer que ele é belo, ninguém jamais poderia saber de que objeto se trata se tivesse como única informação de que seria belo. Pretender que tais qualificações são características dos próprios objetos é algo que é muito difícil não qualificar de grave perturbação cognitiva. Então, como poderia estar eu a criticar a civilização do espetáculo pela sua incapacidade de avaliar as obras pelo seu valor intrínseco? Volto a lembrar o que disse acerca dos valores éticos: eles não devem ser considerados premissas (caso em que a sua única base é subjetiva ou coletiva), mas como resultados. Resultados de quê? Do conhecimento do que está em causa (leis, atos, coisas naturais ou obras de arte) e das razões, ou seja, argumentos que sustentam, com base nesse conhecimento, os juízos de valor. Por isso, a pretensão de Dworkin de fechar os juízos de valor em si mesmos apenas redundaria no mais estrito subjetivismo, por muito que se quisesse passar por universalismo ou objetivismo por via da fé. Como também já disse, o próprio conhecimento é sempre precário, pelo que nunca garantiria a objetividade absoluta, mesmo na ética, direito e política. É também bem mais decisivo na arte do que na apreciação da natureza e quem procurou (verdadeiramente e não só para defender um ato de fé) defender o objetivismo estético (como Aristóteles ou Beardsley) focou-se exatamente nas características factuais das obras. Quando se fala, pois, de valor intrínseco de uma obra, deveria, de facto, dizer-se o valor atribuído às características factuais intrínsecas de uma obra. E isso mostra como é absurdo separar os juízos de valor dos dados cognitivos, a não ser que se pretenda reduzir os juízos de valor ao mais obtuso subjetivismo, meras reações emocionais sem justificação fora de si mesmas. Dir-se-ia que não se supera o subjetivismo ao fazer depender os juízos de valor do conhecimento possível e das razões aduzidas. Eu diria que, pelo menos, se tenta – aliás, o próprio conhecimento não passa de uma contínua tentativa. O que distinguia Sócrates dos sofistas não era pretender atingir o saber absoluto, era não desistir de tentar, mesmo que nunca o alcançasse. Mas há alguma garantia de uma aproximação à verdade como pretendia Popper na evolução da ciência? Duvido que se possa garantir tal coisa mesmo na ciência. Os filósofos dogmáticos são, na verdade, intelectualmente desonestos porque sabem bem que estas questões são bem mais complexas do que fazem crer as soluções simplistas que apresentam. Querem garantir poder sobre o assunto e não procuram, de facto, investigar a realidade, o que implicaria se contentar com respostas provisórias, precárias e complexas. Podem ficar todos contentes com as respostas definitivas e finais que encontram, mas tais respostas dificilmente garantem qualquer correspondência à realidade e, por isso, não passam de ilusões.

Todo o conhecimento humano é precário, nunca havendo possibilidade de assegurar de forma absoluta duas das condições da conceção CVJ. Se ser precário implica não se tratar de conhecimento, então não há qualquer conhecimento. Mas o ser humano deveria libertar-se das suas pretensões desmesuradas e reconhecer que o que pode saber é incerto, havendo apenas que avaliar, entre as incertezas, quais as que apresentam melhores razões. Nunca se alcançam assim conclusões definitivas, mas para que é que se querem conclusões definitivas? A humanidade vai se extinguir ao virar da esquina e quer as respostas últimas antes disso? Ou o que está em causa é só uma vontade de poder desmesurada que prefere se iludir com uma resposta mal-amanhada como última, do que continuar sempre a busca por melhores respostas? E entre as respostas mal-amanhadas, não é exatamente a mais preguiçosa a fé? Julgando o fenómeno religioso pela igreja do bairro, muitos alegados filósofos ocidentais acabaram por julgar que a fé seria a essência da religião e, por isso, foi possível descartar o tradicional objeto de fé, Deus, sem prescindir da religião, ou melhor, da fé. Porém, nem a fé é essencial à religião, nem tem de se restringir à religião. O objetivismo fideísta de Dworkin tem características religiosas muito ténues. Um dos aspetos mais fundamentais da religião é a consciência da fragilidade e impotência do ser humano frente a forças que o superam e uma imensidão desconhecida. É verdade que todas as religiões tentam ordenar esse caos aterrorizante, criando algo similar a uma conformidade protetora, mas essa fragilidade humana não deixa de estar presente e, por isso, precisa de reatualizar constantemente a sua ligação ao sagrado, a tudo o que lhe dá força para se confrontar com todas as adversidades e que o homem religioso considera sempre, de uma ou outra maneira, transcendente – mesmo se essa transcendência é imanente. A consciência da incompletude humana, da precaridade do seu conhecimento, da incerteza do que é certo e errado, do mistério que é, para o homem, a própria realidade, é muito mais religiosa que o recurso à fé. Embora haja fé que sublinhe todas estas características da situação humana, mostrando-se assim ainda tributárias de um profundo sentimento religioso, há, pelo contrário, diversas manifestações de fé, a maioria na verdade, que não passam de pura arrogância. Todos os dogmatismos, sejam ou não pretensamente religiosos, se caracterizam por essa arrogância, a pretensão de possuir as respostas finais que não podem ser postas em dúvida. Longe disso ser sinal de religiosidade, pretende ser um antídoto à religiosidade, eliminando as mais profundas motivações dos indivíduos para a experiência do sagrado e enclausurando o sagrado no formalismo das respostas humanas. E, naturalmente, Dworkin, ao pretender fornecer a autoridade da fé às suas respostas formais, como se se tratassem do próprio tecido oculto da realidade, nada faz de diverso e revela igual arrogância.

Nada há pior do que a fé, a emunah do Antigo Testamento, restaurada, senão mesmo reforçada, por Paulo. As religiões do período axial, entre as quais se contam as religiões reveladas do Médio Oriente, as religiões da fé, assim como também se contam, sem essa noção de fé, a filosofia grega e as religiões e reflexões da Índia e China, todas se insurgiram, de uma ou outra forma, contra a absurdidade do imaginário mítico, quer de um ponto de vista ôntico, quer do ponto de vista moral. As conceções do divino e da moral a que chegaram são claramente mais racionalizadas. Mas, no Médio Oriente, tiveram medo da razão que usaram contra as crenças pagãs. Então, colocaram um travão à razão, a fé. Não há pior confusão do que considerar esta fé sinónimo de mera crença. Para garantir a sua eficácia e silenciar de vez a razão, conceberam um Deus ainda mais despótico que os deuses pagãos, um Deus que só reconhecia o mérito da obediência, o mérito do herói da fé. Já num dos artigos anteriores mencionei, na esteira de Kierkegaard, o exemplo de Abraão e Isaac. Mas há um exemplo muito mais ilustrativo do significado desta fé, o de outro herói da fé, o seu irmão, Lot, o justo a que se deve o salvamento da família da destruição de Sodoma. Onde se revela a justiça de Lot? Antes de mais, na oferta das filhas publicitadas como virgens à multidão, para que não incomodassem os forasteiros (eventualmente, sob ameaça de sodomia) e para usá-las como lhes aprouvesse.[19] A multidão mostrou-se, aliás, mais contida que as palavras do justo Lot, virando-se apenas contra ele. Os forasteiros eram anjos e, pela sequência narrativa, talvez Lot o tivesse percebido desde o início. Todo o episódio importa por ser o teste para considerar alguém justo. Os anjos vinham verificar se alguém era justo na cidade, prometendo não a destruir se encontrassem pelo menos 10 justos. Mas só encontraram 4 (6, se se contar os estranhos genros que deixaram as esposas virgens e não acreditaram em Lot) ou 1, se se considerar que só concederam essa possibilidade de fugir por causa de Lot. Porque é justo Lot? Por ter protegido os anjos, mensageiros de Deus – atirando, literalmente, as filhas à lubricidade de uma multidão. O que está em causa, tal como no episódio de Abraão é a subordinação absoluta a Deus, só esta torna um homem justo, não qualquer padrão moral aceitável. A mulher de Lot é castigada por ter desobedecido a uma instrução, não por ter cometido qualquer pecado moral. Esse mesmo Lot fará filhos a ambas as filhas, segundo reza a narrativa, sem dar por isso (proeza notável) e também não se vê qualquer objeção, quer a ele, quer às filhas, na narrativa bíblica. A justiça que eles demonstram para merecerem ser salvos reside unicamente na submissão a Deus. Causou polémica a declaração de Saramago em 2009: “A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Pergunto-me se há muitos desses indivíduos que reagiram ultrajados que tenham lido os textos sobretudo do Antigo Testamento, se, ao contrário, são apenas hipócritas ou se são defensores daquela conceção do divino. Porque há quem continue a sê-lo. A atual liderança israelita está a cumprir as ordens divinas de limpeza étnica, desculturação e, sobretudo, de explícito genocídio,[20] seguindo a promessa muitos séculos anterior, tal como ocorreu no retorno do Egito, pois a promessa a Abraão já teria, nessa altura, uns 7 séculos. E, do outro lado, o Corão não fornece orientações divinas muito melhores. O próprio cristianismo, ao salvaguardar o Antigo Testamento como texto sagrado, pode cometer todas as atrocidades segundo a sua interpretação das palavras de Deus que dificilmente poderiam estar contidas na mensagem de Jesus. Proíbem-se ideologias como a nazi por serem criminosas e o pior crime que defendem é o mesmo do texto sagrado dos proibicionistas. Mas exatamente esse Deus despótico está ausente da conceção de Dworkin. Porquê trazê-lo para aqui? Porque o problema não está em Deus, está na fé. A alguém pode convir encher a boca de Deus com as palavras do Mein Kampf, mas para assegurar que elas sejam seguidas cegamente em toda a sua violência e crueldade é necessária a fé. A boca de Deus poderia estar cheia de palavras muito diversas. Quaisquer que fossem, requerem que se condicionem as comunidades a considerar que não há maior pecado que não ter suficiente fé, a primeira exigência e, na verdade, a única, pois inclui quaisquer outras, é a de ter fé na fé. A fé é sempre invocada para justificar o injustificável. É assim em Abraão, assim é em Moisés, assim é em Paulo, assim é em Agostinho, assim é em Ricoeur, assim é em Dworkin e assim é numa miríade de adoradores da fé pela fé no nosso tempo.

A fé é a morte da inteligência, não é nenhuma inteligência superior. Acreditar que se vai receber o ordenado não é um ato de fé. Acreditar que se conseguirá superar as dificuldades decorrentes de um sismo não é, por si só, um ato de fé. Acreditar que se vai ganhar a lotaria não é um ato de fé. Em todos esses casos, sabe-se que a expetativa pode sair gorada. Em todos esses casos, se se silencia a dúvida, para ter uma verdadeira fé, estamos na verdade perante uma fé fraudulenta. No caso da lotaria, diz o povo que se trata de uma fezada porque, na verdade, o crente sabe bem que o mais provável é que o palpite saia furado. A fé exige a submissão de Job mesmo se todas as suas esperanças e sonhos forem destroçados. Acreditar que o provável aconteça, acreditar até que possa ocorrer o improvável, não é um ato de fé. Ter a certeza que o impossível acontece, ter a certeza que o injustificável é verdadeiro, ter a certeza que o absurdo é sabedoria, nem passar pela consciência a mínima sombra de uma dúvida em relação à declaração mais disparatada – isso é o ato de fé. É por isso que Dworkin se qualifica como homem de fé. Mas é bem possível que se trate de uma fé fraudulenta, nascida apenas para fornecer uma saída para a pretensão de defender a objetividade dos valores. Considerar que uma justificação não é última dá origem a uma crença problemática que não fecha as portas à continuidade da investigação. O facto de se desistir de qualquer justificação e a substituir por um ato de fé atesta apenas a vontade de dominar sem razão. Dworkin percebe quão precária é qualquer fundamentação dos valores e elimina essa precaridade, impedindo a questionação. Em vez da calma e eterna investigação racional que poderá não chegar a nenhum destino final, mas permite uma cada vez maior penetração dos problemas, Dworkin prefere a via do desespero. É habitual associar a fé à esperança e algumas fés não têm outro conteúdo, como já se viu nestes artigos, senão essa esperança. Mas não se dá o nome de fé a nenhuma esperança razoável. Só as esperanças absolutamente fantasiosas, alucinadas ou absurdas requerem a fé. Mas porque é que alguém se entrega a uma esperança de tal modo infundada, não apenas não suficientemente justificada, mas absolutamente irracional? Só há uma razão, o desespero. Perante o cancelamento das possibilidades que origina o desespero, o futuro fiel busca uma saída até no impossível, a solução mais irrealista começa por afigurar-se possibilidade e acaba por se transformar em obsessão porque a alternativa é o beco do desespero. Assim, a única substância desta fé é não a esperança que apenas surge como uma saída qualquer da situação, mas o mais completo desespero. E é por isso que, embora a religiosidade profunda nunca tenha sido tão escassa, nunca houve época que mais apelasse à fé, não necessariamente a fé em Deus, mas sobretudo a fé na fé. Porquê?

Nunca houve uma oferta tão vasta de uma miríade de crenças, atitudes, estilos, dados, instrumentos, etc. É natural que uma tal profusão de possibilidades dê origem a inúmeras situações extremamente penosas de angústia. Mas não é o que acontece. Ontem como hoje, sobretudo se se estiver a referir alguma duração, a angústia é rara. Porque é rara? Porque requer coragem. A angústia resulta do confronto com as possibilidades últimas da existência e, por isso, é dificilmente sustentável. A maioria tem medo desse confronto. Bastou um instante de vislumbre do que seria a angústia para fugir dela a sete pés. Preferiu cancelar todas as possibilidades à incerteza aterrorizadora perante as possibilidades infinitas. Ao fazê-lo, cancelou toda a possibilidade de existência. Se passo a vida a fugir do confronto comigo mesmo, com a minha absurdidade, com a minha incerteza, com a minha mortalidade, só me resta dispersar-me em distrações, em entretenimentos, sem fornecer a mínima continuidade à existência. Disperso pelos múltiplos consumos, a fugir sistematicamente de mim, não é possível encontrar o menor sentido para a existência. É nessa situação que o indivíduo se encontra disponível para qualquer saída, desde que não implique o confronto consigo próprio. A crendice sempre teve esta raiz, mas nunca, como hoje, se contentou com tão pouco. A fé procurava tradicionalmente alguma consistência. É verdade, desde que se tenha suficiente fé, sem a menor hesitação, uma montanha obedecerá e atirar-se-á ao mar – mas mesmo o cristianismo mais supersticioso alguma vez se reduziu a esta crendice disparatada? Mas, agora, propaga-se por toda a parte a mensagem da fé pela fé. Tem que se acreditar no poder da fé. Se não se consegue a fortuna desejada, a mulher dos sonhos, a objetividade dos valores é porque não se teve suficiente fé. A culpa é sempre da falta de fé por maior que seja a fé manifestada. O crente não pode ser apenas crente, tem de ser acéfalo. E o que é mais espantoso é que, em muitas dessas receitas de fé, nem sequer há um claro objeto de fé. A fé é autossuficiente, nem precisa de uma doutrina, só precisa da anulação da consciência. A fé é o cancro da nossa civilização, já com metástases por todo o planeta e o único antídoto bem precário é a dúvida. Mas, claro, a primeira coisa proibida por qualquer fé é a questionação. É natural. São inimigos viscerais. Uma anula a outra. Um truque da nossa época é ter tornado a fé tão fácil, tão acessível, tão consumível. A questionação, ao contrário, é sempre difícil. Tudo se encaminha para um caos onde apenas existirão fés, superficiais como nunca, mas fés que erradicarão toda a dúvida profunda. Nesse caos em que se acreditará em não importa o quê, tudo passa a ser possível. Qualquer alternativa impossível ou pouco razoável passará a ser objeto de fé. Durante já quase um século, o holocausto nuclear foi impedido porque se acreditava, razoavelmente, que não traria vantagens a ninguém. É certo que se continue limitado por essa crença razoável? Com a fé, tudo passa a ser possível. Além disso, os homens de fé tendem a menosprezar ou desprezar os danos, mesmo que sejam massivos. E a esperança derradeira que as múltiplas fés se limitem umas às outras no seu mercado concorrencial, é totalmente infundada historicamente. Sempre foi essa concorrência que deu origem aos desastres mais colossais. É só olhar para a história. Os Himalaias não seriam nada se as vítimas fossem preservadas fisicamente ao longo da história e os seus corpos fossem zelosamente empilhados para a posteridade. Seja quem for, explícita ou implicitamente, como em certas ideologias políticas, que apresente a fé como a solução, não passa de um criminoso.



[1] Ronald Dworkin, Religion without God, Cambridge, Mass., London, Harvard U. P., 2013, p. 13.

[2] César Tejedor Campomanes, Introducción a la Filosofía, Madrid, Ed. SM, 1992, p. 199.  

[3] James Rachels, Stuart Rachels, tr. port. Delamar José Volpato Dutra, Os elementos da filosofia moral, 7ª ed., s/l, AMGH Editora Ltda., 2013, p.34.

[4] Rachels, op. cit., p.35.

[5] Henri-Irénée Marrou, Histoire de l’éducation dans l’Antiquité, I. Le monde grec, Éd. du Seuil, 1948, reimpr. 1981, p. 50: referindo-se ao séc. IV a. C., “le soin méticuleux avec lequel on entraîne la jeunesse à la dissimulation, au mensonge et au vol.” Os castigos eram dados não por mentirem, mas por serem apanhados. Penso que não é preciso exemplificar a estimulação ao homicídio, de tal forma são conhecidos esses exercícios espartanos. Mas o que é mais importante é que tais práticas estão longe de ser únicas na história.

[6] É natural, fui criado nesta cultura.

[7] Dworkin, op. cit., p. 21.

[8] Até críticas (à absurdidade da interpretação de Copenhaga) como o famoso gato de Schrödinger foram transformadas em ingénuos enunciados acerca da realidade.

[9] Dworkin, op. cit., p.15. E não é diverso o tratamento desenraizado dos problemas do direito que parecem ocupar muito mais a sua obra.

[10] Dworkin, op. cit., pp. 24-26.

[11] Dworkin, op. cit., pp. 30-31.

[12] Dworkin, op. cit., p. 152.

[13] Isso é claro desde o início do livro, logo na p. 2.

[14] Dworkin, op. cit., p.90

[15] Dworkin, op. cit., p.87.

[16] Como é óbvio, estou a pensar no modelo de Popper. Aliás, tenho muitas dúvidas quanto à epistemologia de Dworkin que permite fazer declarações como: “our concept of causation is formed out of the laws of our own universe” (Dworkin, op. cit., p. 97), o que é absurdo a vários títulos. Só se começou a raciocinar causalmente quando se descobriu estas supostas leis e formando esses raciocínios exclusivamente com base nessas leis? Se se pensava antes causalmente e se pensa causalmente agora se se tiver crenças de outro tipo, sem recorrer a essas leis, o que impede de pensar sem elas? Que garantia para lá da fé se tem, aliás, que essas são as leis da natureza e não do que alguns pensam acerca da natureza e que vai funcionando por enquanto, como já funcionaram outras teorias entretanto abandonadas? Mas no que se refere à restrição do uso da noção de causalidade, já num outro artigo, chamei a atenção para a pretensão de Schopenhauer, seguindo Kant, de só admitir o princípio da causalidade no âmbito dos fenómenos não o ter impedido de, usando outras palavras, estabelecer uma verdadeira relação causal (pois umas se originavam na outra) entre a vontade universal e as individuais, supostamente não causal. Os vícios da abordagem de Hume continuam a fazer-se sentir: o princípio da causalidade é um princípio vazio requerido para pensar tudo o que aconteça ou possa acontecer, independentemente quer de qualquer repetição, quer de qualquer regra (para agregar a versão de Kant). Não fora assim, nunca se poderia pensar o inusitado. Se alguma coisa aconteceu, é sempre legítimo perguntar porquê, exista ou não espaço e tempo, mesmo que não tenhamos condições para responder à questão. O princípio de causalidade é apenas um princípio de pensamento, não determina o conhecimento e, por isso, não está restringido ao domínio dos fenómenos, nem às leis que supomos neles.

[17] O núcleo metafísico da religião, p. 10 – o que mostra também que está sempre a pensar, de facto, de forma teísta. O valor do universo (e não da arte) reside no seu carácter sobrenatural, como ocorreria se tivesse sido criado por Deus (e não pelo homem).

[18] Dworkin, op. cit., p.6.

[19] Gen., 19.8. O paralelo com Jui., 19.24 evidencia como uma mulher era descartável, mesmo se, depois, serve de justificação para a matança sob ordem divina. Na verdade, nesse segundo episódio, é o queixoso que entrega a concubina aos bandidos para evitar a sua sodomia e vai dormir descansado, só dando conta que ela estava morta à sua porta quando se dignou a acordar. A raiva posterior parece ser provocada por ela ter morrido e não por ser usada e abusada para proteger o seu ânus.

[20] Deut., 7.1-5, 20.16-17 (e, antes, para povos mais distantes, ordenava matar os homens todos e sequestrar-lhes as mulheres, assim como todos os bens).

9.7.26

Sob o signo da morte de Deus - VII

 

      “Deus morreu.” Na cultura europeia e suas ramificações, a atual importância de Deus, na compreensão do real, na determinação da ação e na orientação da criação, chega a ser ridícula. Mesmo entre os que se dizem crentes, a natureza é compreendida sobretudo a partir das crenças científicas, muitas vezes através de áreas pseudocientíficas que fingem operar conceitos científicos de que não entendem patavina. O mesmo se diga do funcionamento psíquico ou social. Os investimentos seguem as regras económicas do mercado; o consumo busca satisfazer ou necessidades concretas, ou necessidades induzidas pelos media, sempre buscando as últimas novidades tecnológicas; os dilemas éticos são resolvidos por diversas variações dos critérios utilitaristas; as opções políticas alternam entre posições estranhas à religião (mesmo se algumas procuram ganhar votos com um apelo ao divino; basta serem confrontados com alguma contradição entre o que propõem e a doutrina que dizem seguir para descartarem, logo, a última, mostrando bem tratar-se de um postiço); os costumes são regulados pelo que se diz que é correto, as determinações do coletivo indeterminado, muitas vezes em contradição direta com as determinações religiosas; o vestuário é decidido pelos ditadores laicos da moda, frequentemente com clara hostilidade às religiões supostamente dominantes; os problemas de saúde são resolvidos pelos médicos e só em casos de desespero se recorre indiferentemente à bruxa, às práticas alternativas ou às promessas ditas religiosas, etc. Aliás, em geral, a religião é mantida como um último recurso do desespero quando todas as outras possibilidades parecem esgotadas. Talvez, por isso, tenham redobrado a sua força as confissões mais fanáticas, nomeadamente as mais literalistas, pois, como já foi visto, a defesa da consistência literal entre tudo o que se considera texto sagrado requer uma completa entrega à irracionalidade – mas, de resto, mesmo nesse caso, toda a sua vida decorre sob o domínio de outras áreas e, sobretudo, da mentalidade técnica. Em alternativa, as religiões ocidentais mais abrangentes buscam soluções ecuménicas, tão latitudinárias, tão ligeiras, que permitem que os jovens adiram aos seus eventos sem que tenham de se corresponder à menor exigência, sem sequer conhecerem qualquer doutrina, sem ter que ocorrer a menor alteração na sua vida. Desta forma, consegue-se uma revitalização vazia que reduz a oferta religiosa a mais um produto no mercado. Isto não parece ser apenas a morte de Deus, mas da religião e do sagrado. Mas será assim? Na verdade, tratam-se de três noções bem distintas e a morte de uma não parece implicar necessariamente a das outras, ou a possibilidade de ressurreição não parece ser necessariamente conjunta. No primeiro artigo desta série, tratei a questão como se fosse um único pacote e talvez o fosse na declaração de Nietzsche, mas não é nada claro que não se possa conceber a religião e/ou o sagrado sem Deus. A religião morreu? O sagrado morreu?

Há já algum tempo, li dois livros que, supostamente, parecem apresentar teses idênticas às que apresentei em vários textos, mas, na verdade, acabam por ser apenas oportunidades para expor discordâncias fundamentais que contribuem para esclarecer a minha própria posição. Tratam-se de Religion without God de Ronald Dworkin e A Civilização do Espetáculo de Mario Vargas Llosa. Gostaria de dedicar este artigo ao livro de Llosa e o próximo ao outro. Llosa elenca toda uma série de considerações que se tornaram no nosso tempo banalidades, mas banalidades que eu subscrevo inteiramente, até por só terem tendência a agravar-se, mesmo quando isso não parece ser já possível. Porém, mesmo aí, o seu posicionamento político parece distorcer a análise e faz com que reduza a civilização do espetáculo, a redução da cultura ao consumível superficialmente e ao que produz emoções intensas e passageiras, efeitos imediatos sem esforço, apenas a um resultado da democratização e generalização do acesso aos produtos culturais que acabaram por se tornar totalitárias e não permitir qualquer elitismo cultural como aquele que tornava possível a antiga noção de cultura. A substituição dessa antiga noção pela moderna noção de origem antropológica terá facilitado o cancelamento da exigência de elaboração e profundidade, pois, se tudo é cultura, não há razão para fazer grande esforço a produzir uma obra que acabará por ir concorrer com mil produtos superficiais e mal-amanhados, mas que serão apreciados por um público que se julga capacitado com os seus elementares meios de apreciação, sendo, porém, tão ou mais iletrado que a massa analfabeta do passado. Quem lesse o que escrevi sobre a obscenidade no Jazigo[1], também veria um paralelo óbvio com as declarações de Llosa acerca do desaparecimento do erotismo.[2] Muitos outros seriam os paralelos que se poderiam estabelecer com outros textos.

Porém, ainda fora do âmbito da religião, parece-me que Llosa confunde o que eu chamaria o ajavardamento da cultura com o emudecimento ou mesmo desaparecimento de uma elite social requintada. É verdade que, mesmo nas classes altas, os indivíduos são condicionados desde tenra idade a só considerarem as obras como entretenimento e, por isso, a não serem capazes de considerar obras que impliquem um envolvimento intelectual e emocional profundo. Ao contrário de outras épocas, a outrora cultura grosseira da plebe tornou-se todo-poderosa e eliminou a figura do público culto. A atual civilização está reduzida às figuras do especialista e do grunho, tendendo o especialista a ser um grunho fora da sua muita específica área, muitas vezes ainda reduzida à simples operacionalidade sem conhecimento sequer dos seus próprios pressupostos. Mas, por exemplo, o ataque que Llosa dirige às artes plásticas, precursoras aliás desta civilização do espetáculo, não é compatível com esta explicação do desaparecimento das elites sociais e culturais. Na verdade, o abastardamento das artes plásticas foi produto de elites cada vez mais afastadas e hostis ao grande público. O mesmo se diga do filosófico pós-modernismo que também é um dos alvos de Llosa. Ambos comportaram uma fortíssima componente socioeconómica, resultando em boa parte da indolência da classe burguesa já instalada e, no caso das artes plásticas, tendo o seu verdadeiro público num mercado só acessível às elites financeiras. O que acabou por se generalizar e chegar ao grande público foram slogans, estereótipos, lugares comuns, sem qualquer conhecimento das obras referidas, o que também ocorria, aliás, no passado. As obras disruptivas exatamente, em muitos casos, por nada dizerem ou pela ausência de elaboração artística tornaram-se icónicas e inspiraram discursos pretensiosos, gongóricos e estéreis sobre o seu valor, dando origem a infindas imitações que já nada têm de disruptivo, mas que reproduzem todas as outras características. Um comentador televisivo insurgia-se contra os espetadores boçais dos museus que invariavelmente faziam a piada da apreciação do extintor ou outra análoga. Ora, por muito obtuso que seja o lugar comum, a verdadeira questão é se o chiste não é justo. Para isso, dever-se-iam definir as condições que tornam uma obra, obra de arte. Mas as únicas condições compatíveis com o estado das artes plásticas no último século são ou inaceitavelmente vagas e estéreis, ou convencionais e estabelecidas arbitrariamente pelo mundo e mercado da arte. De resto, chega a ser caricata a forma como se tenta definir a arte por aí, justapondo características que nem se nota serem contraditórias entre si. Ora, todo esse processo que tornou as artes plásticas absolutamente irrelevantes e sem qualquer capacidade de produzir qualquer efeito sensível no mundo foi levado a cabo pelas elites sociais, financeiras e culturais e não pela democratização da cultura. Algo similar ao pós-modernismo ocorreu igualmente noutras artes (ou segmentos das mesmas) que não as plásticas. Muito embora o efeito desta democratização seja muito relevante e tenha íntimas relações com a civilização do espetáculo, talvez a explicação desta última deva ser procurada numa instância mais funda, capaz de explicar a ausência de sentido quer do que resulta do elitismo, quer do que resulta do igualitarismo.

Porém, o âmbito em que a minha discordância mais se acentua é o da religião. Não deixa de ser surpreendente que um intelectual que pretende atacar uma civilização do espetáculo que se caracteriza pela ausência de conhecimento, sobretudo no domínio diacrónico, e pela ausência de qualquer busca de compreensão aprofundada, mostre uma tão grande falta de compreensão da declaração de Nietzsche e uma tão grande falta de conhecimento da totalidade da área de que está a falar. E, para variar, a falta de conhecimento não impede declarações categóricas espetaculares como aquelas que o próprio autor critica em outros atores e eventos. O seu registo é o do jornalista que verifica que existem muitas manifestações religiosas no mundo e que elas influem muito no decorrer dos acontecimentos. Ora, para lá da declaração de Nietzsche incidir no niilismo europeu (e de origem cristã), não estando propriamente a referir-se ao Islão, cuja reação à imposição dos critérios ocidentais (ou europeus alargados) na determinação dos seus destinos contra a sua vontade explica, em grande medida, o posterior carácter extremista dos seus fundamentalismos, o próprio episódio da Gaia Ciência não nega que o fenómeno religioso continue a existir sob a versão caricatural de uma das manifestações mais primitivas da religião, a veneração dos queridos defuntos, o culto dos antepassados – além disso, considera que a sua declaração ainda não pode ser compreendida pela maioria, tal como não foi compreendida por Llosa, mesmo sendo essa maioria a assassina de Deus. Jaspers chamava a atenção para o facto de a falta de fé, associada, digo eu, a uma cada vez maior falta de conhecimento de qualquer tipo, sucumbir na fé cega.[3] Esta fé cega é uma fé qualquer, não só numa confissão religiosa, mas em qualquer movimento político (incluindo nestes as ideologias alimentares, sexuais, animais, etc.), na ciência como é entendida pelo senso comum, numa conceção literária, num clube desportivo, etc. Jaspers já tinha sublinhado antes o carácter paradoxal da fé popular na ciência não implicar a menor atitude científica, muito menos as suas exigências metodológicas e os seus protocolos. Na verdade, o verdadeiro espírito científico ou mesmo tecnológico é extremamente raro e a adesão do público a algumas teses científicas, em geral muito mal compreendidas, é caracterizada pela mesma fé cega de tudo o resto, uma fé que se concentra no consumo de um produto de forma imediata, sem a menor reflexão. É verdadeiramente caricato ver como certos paladinos da ciência se insurgem nas redes sociais contra os defensores de teses ridículas ou contra os fundamentalistas religiosos, declarando o mais absoluto dogmatismo talvez tributário das conceções de Comte (que muitos se esquecem que era tão-pouco cientista natural quanto esses paladinos) que, felizmente, a ciência há muito abandonou, se é que alguma vez defendeu. Porém, Comte tinha consciência do seu dogmatismo e até tinha intencionalidade religiosa. Os atuais paladinos, entre os quais muitos professores de nível médio, médicos, engenheiros, gente com muito pouca, se é que alguma, formação epistemológica, estão convencidos que tudo o que é defendido pela comunidade científica é exato, sem saberem sequer o que pretendem dizer com a palavra, porventura lógica ou metafisicamente necessário, mas sem saberem o que estas qualificações significam, e, por isso mesmo, indiscutível, sem teor ideológico, sem qualquer carácter dogmático, afirmando um absoluto consenso mesmo em relação a produtos como o DSM3/4/5, numa subserviência abjeta não só a um paradigma, mas simplesmente a uma potência politicamente dominante. Porém, como Kuhn claramente mostra, esse consenso só se obtém pela exclusão dos divergentes da própria comunidade científica. Frente à ascensão, até no império que tomam como referência, de forças anticientíficas, obscurantistas e autocráticas, a única resposta que encontram é serem irracionalmente dogmáticos, tentando, ineficazmente, ser mais autocráticos que os opositores.

De facto, após as infelizes atitudes do séc. XIX, a ciência tem tido uma consciência muito mais crítica de si própria, mas a estupidez das gentes tende sempre a destruir o que há de mais valioso na nossa cultura. Quando Llosa julga referir factos que testemunham que Deus não está morto, está a referir-se a formas de fé tão superficiais e ignorantes como os exemplos referidos dos supostos paladinos da ciência. Na verdade, são piores, pois nem se dão ao trabalho de conhecer as doutrinas das confissões a que aderem. As crenças religiosas estão equiparadas não só às crenças científicas, mas a quaisquer outras, reduzidas a uma referência de tipo clubístico, um produto no mercado, um emblema num crachá, ser aficionado de uma atividade ou fã de uma estrela popular. A Igreja Católica soube renovar a sua força junto da juventude, como é visível nas suas Jornadas, mas fê-lo à custa de tornar a sua religião um produto pop. As declarações dos jovens nesses eventos não são diversas das obtidas num festival musical laico qualquer. Tive a oportunidade de comparar as respostas de jovens num e noutro, com um intervalo de tempo muito reduzido entre elas, e foram exatamente iguais, reduzidas à satisfação do consumo momentâneo, vivendo, na melhor das hipóteses, a “transcendência” da fusão na multidão. Estar ali adiante o papa ou a Taylor Swift é absolutamente irrelevante no tipo de efeito produzido. Aliás, a própria comunicação das estrelas é adaptada a este nível de envolvimento, sabendo bem que qualquer frase banal será hiperbolizada pelos fãs, sem que isso, porém, tenha qualquer efeito consequente. Boa parte dos supostos crentes não veem nenhum problema em juntar manifestações de outras religiões sem terem consciência da incompatibilidade das doutrinas, pois não têm conhecimento de qualquer doutrina. A sua consciência é do domínio da mera imagem, do símbolo sem simbolizado, nem chegando a produzir um sincretismo doutrinário pois tudo se situa ao nível dos ícones publicitários. Cristo pode estar na mesma prateleira de Buda e Che. A salvação é para problemas de saúde nesta vida, o karma são as consequências das ações durante esta mesma vida e, por isso, a revolução marxista pode confundir-se com a Redenção transcendente. E o panorama não é muito melhor nos devotos: podem até ir numa peregrinação a Roma e não admitirem misturas com outras religiões, mas a sua religião ocupa um espaço mínimo na determinação da sua vida, seguindo, em tudo aquilo que lhes pareça não colidir com a sua fé, muitas vezes até colidindo sem que eles tenham disso conhecimento,[4] toda uma imensa série de outras orientações laicas. A religião que determinava uma cosmovisão completa e todos os aspetos da vida, ao menos no Ocidente[5], já não existe. É isso que significa a declaração de Nietzsche e não que deixaram de existir indivíduos que dizem que acreditam em Deus. Mas acreditam em quê nessa declaração vazia de acreditar em Deus? O já referido Jaspers (mas podia ir buscar outro autor religioso mais antigo como Kierkegaard) declara sem equívocos que a vida da maioria dos cristãos é não cristã – eu diria, anticristã – e que a vida verdadeiramente cristã já não existe para as massas.[6] Ele não está a dizer que não a seguem, a massa nem tem consciência que ela possa existir, pois não é capaz de conceber seja o que for para lá dos estímulos imediatos e suas reações.

Mas não seria assim no passado, antes da emergência da Idade Tecnológica? Não terão sido sempre muito poucos os verdadeiros cristãos, sendo a esmagadora maioria uma massa pagã pouco consciente das suas crenças? O facto de ter muito pouco conhecimento para lá da sua tradição religiosa fazia com que o povo seguisse, muitas vezes, de forma estrita a doutrina religiosa. Até um cumprimento mecânico e acéfalo não deixava de ser acompanhado por um conhecimento memorizado de muitos conteúdos agora ignorados. Mesmo os analfabetos encontravam na doutrina transmitida uma constante orientação da sua vida, cujo sentido dependia de uma transcendência misteriosa e de uma promessa vaga que enquadrava o todo da duração e que fazia que o maior ignorante tivesse consciência que a realidade não se reduzia aos seus interesses mais imediatos e mesquinhos. A globalização trouxe uma oferta multiplíssima de crenças e práticas, mas todas são apropriadas muito ligeiramente sem conhecimento, sempre subordinadas, aliás, a uma mentalidade operativa que tudo concebe sob a forma de receitas técnicas para uso imediato, nunca envolvendo, ao menos na massa, um compromisso em que se empenhe o todo da vida. Tudo é consumido como entretenimento, comida rápida para deglutição imediata, inclusive as religiões, apenas mais um conjunto de produtos no mercado.

Porém, há algo nas questões colocadas no parágrafo anterior que toca num aspeto essencial para perceber as origens da civilização do espetáculo, exatamente nos termos expostos por Llosa, a cultura popular do passado que se tornou a única cultura, mas, ao contrário do por ele suposto, precisamente devido à morte de Deus e não encontrando qualquer antídoto ou resistência na revivescência contemporânea da religião. Antes pelo contrário, esta suposta ressurreição está tão ou mais restringida à mesma civilização do espetáculo que Llosa parece contrapor à religião. Na verdade, essa civilização do espetáculo teve origem na religião popular onde ele julga ver um antídoto. Em artigos anteriores, tentei mostrar como têm invariavelmente ocorrido as deturpações, degradações e distorções das mensagens espirituais em cada tradição, desenvolvendo, sobretudo, mas não só, o exemplo cristão. Para satisfazer as gentes e garantir o seu apoio, todas as religiões universais acabaram por fornecer maravilhas de consumo fácil, para as quais não era preciso qualquer profundidade, nem exigências muito rigorosas. Rapidamente, se foram acumulando os milagres, as ocorrências sobrenaturais, as lendas e os mitos, os preconceitos populares, as superstições, os ressentimentos primários, os cultos pagãos, a moral corrente, etc., mesmo que em inequívoca contradição com a mensagem original, como atesta bem o caso cristão aqui tomado como referência. Nos casos mais patentes, deve ter existido recurso à censura, observável hoje apenas em casos só considerados especiais por terem deixado rasto. Mas parte da mensagem original manteve-se, provavelmente, porque a massa de crentes nem era capaz de detetar as incongruências. Durante algum tempo, deverá ter sido mantida algo da mensagem original devido ao facto de as congregações conhecerem os textos anteriores. Porém, só seria possível manter longo tempo as contradições por as comunidades se terem tornado cada vez mais incapazes de relacionarem os conteúdos. Finalmente, mantiveram-se como textos sagrados tradições sem nexo, desarticuladas e inconsistentes, sem que isso representasse qualquer problema, porque as igrejas foram treinadas para recortar citações sem contexto, apresentar as interpretações que lhes convinham, muitas vezes contraditórias com os textos, e, no caso judaico-cristão, recobrir tudo pela fé nos textos sagrados, apresentando todos os disparates sem nexo, maus sentimentos e manifestos desrespeitos pelas palavras do(s) fundador(es), tudo como palavras do Senhor. A absurdidade foi subsumida como mistério, sinal de profundidade, sofisticação e requinte intelectual, enquanto as massas eram condicionadas a tudo seguirem sem a menor questionação, diligentemente condicionadas a crer que não havia maior pecado que a mais ínfima dúvida. Hoje, no mundo cristão (mas há processos análogos em muitas outras religiões), já nem é preciso recorrer a qualquer sofística teológica, de tal forma as massas apenas retiveram a fé nem sabem bem em quê. Mas como nada ou quase nada sabem acerca do teor doutrinal da fé, esta também não implica qualquer comprometimento a não ser a fé na fé (em si mesma vazia). Que tantas seitas se reduzam, hoje, à apresentação de uma sucessão de milagres, encenações destinadas a impressionar papalvos, não admira, pois essa religião do espetáculo, sem qualquer teor doutrinário, esteve sempre disponível para o povo. Nada há que tenha preparado mais o caminho para a atual civilização do espetáculo que este abastardamento da religião – e é ele que Llosa pensa estar a revitalizar a religião, quando só se trata de explorar a popular religião do espetáculo milagreiro, fantasioso e sobrenatural, já sem qualquer teólogo ou místico mais profundo a ter qualquer impacto e, como tal, reduzida à indigência espiritual que sempre caracterizou as gentes e que é a responsável, de facto, pela morte de Deus.

Como é que Llosa não viu que o processo que se desenvolveu na religião é em tudo similar ao que ocorreu nas outras áreas da cultura que identificou? Na verdade, como é que ele não viu que este é o processo que está na raiz dos restantes e que se corresponde inteiramente à morte de Deus declarada por Nietzsche? Tal qual nas outras áreas, a religião popular tornou-se a única referência dos media, pois, quer naquilo em que acreditam, quer nos seus eventos mais destacados, fornece aquilo de que as forças do mercado, incluindo os seus consumidores, estão sempre sedentos: espetáculo. Mas já não haverá religiosidade mais profunda que a de uma celebração pop ou de uma idolatria pagã? Certamente, tal como ainda existirão literatura, arte plástica, filosofia, etc., com penetração maior que a película do espetáculo, mas, como Llosa muito bem viu nestes últimos casos, o que elas não têm é público. Llosa tem toda a razão ao declarar que dificilmente, nesta época, será possível a criação de obras com o grau de complexidade das críticas kantianas, da tetralogia wagneriana ou da obra magna de Proust. Porquê? Porque é difícil investir uma vida inteira de sacrifícios na criação de uma obra que ninguém irá ler ou ouvir. Na melhor das hipóteses, tendo um contexto social favorável, conseguir-se-ia vender exemplares da obra aos familiares e amigos ou a uma clique muito restrita de associados culturais,[7] porventura também criadores. Isso talvez chegasse como motivação, caso o criador não tivesse consciência que esses compradores só lhe compravam a obra pelas ligações afetivas e sociais, e, na verdade, nunca a leriam ou ouviriam. Se acaso o autor se tornar icónico, porventura após morrer, então haveria mais público a comprar ou até a ler, mas com possibilidades muitos escassas de compreender a obra. Qual a diferença, então, de épocas anteriores? A inexistência de um verdadeiro público letrado, um público que consiga ler, ver ou ouvir as grandes obras sem pertencer a nenhuma clique ou aos amigos e parentes. E acaso seria diversa a situação com uma grande obra teológica ou mística, mesmo tendo apoio institucional de uma igreja?

Paralelamente a esta incapacidade cultural para lá do espetáculo, proliferam cada vez mais os sofistas. Quem são os sofistas neste contexto mais amplo que o estritamente filosófico? São os simulacros caricaturais do génio do passado, indivíduos que fornecem a ilusão ao público de estar a contactar com grandes obras, quando, na verdade, esses autores apenas vão seguindo as modas, alinhavando lugares comuns ou desarticulando o dizer até ao ponto de nada significar para dar a impressão de profundidade. Sem me estar a referir, agora, à cloaca comercial, também estes sofistas mais não produzem que diversos tipos de espetáculo no sentido de Llosa, não espetáculos complexos e profundos como o do anel wagneriano, mas espetáculos ligeiros, facilmente digeríveis e que não provocam a menor alteração espiritual, até por não haver público a não ser para a impressão e reação imediata e passageira. A arte autêntica de Tolstoi ou Collingwood cedeu, completamente, o seu lugar aos ofícios, nomeadamente às artes do entretenimento. Mesmo o que se tenta fazer passar por algo mais não passa de caricaturas deformadas das artes do passado. Na melhor das hipóteses, estes sofistas procuram produzir o mot d’esprit, não almejando muito mais que os cronistas e outros colunistas – por vezes, até bem menos. É estranho que Llosa consiga identificar este processo e, assim, denunciar, a profunda decadência da cultura atual, pois, como já referi, muitas vezes, o seu registo não se alça acima do discurso jornalístico e mostra-se incapaz de compreender teses e argumentações que vão para lá dele. Ou seja, Llosa é, assim, cúmplice dessa mesma cultura do espetáculo e nada consegue entender, em certos domínios, para lá dela. Porventura, o facto de ser descrente contribuiu para isso na abordagem da religião a que apenas consegue aceder no registo jornalístico, extrínseco e superficial, como é típico dos descrentes do nosso tempo. E, na verdade, não existe maior sintoma da degradação da cultura que o predomínio, sem alternativa que se possa ouvir, dos modos de comunicação jornalística.

Deus morreu porque os homens se tornaram demasiado pequenos para Deus. Quer a profundidade intelectual da metafísica e/ou da teologia, quer a penetração existencial da mística, tornaram-se inacessíveis não só à massa que nunca as compreendeu, mas poderia, por vezes, admirar, mas a todo e qualquer público letrado que, a pouco e pouco, se tornou cada vez mais indistinto da massa até se diluir nela ou, ao menos, se confundir com ela. Como Nietzsche bem viu, boa parte dos movimentos políticos revolucionários no século a ele anterior não passava de cristianismo sem Deus (democracia, socialismo, comunismo, anarquismo) e cristianismo até bem mais cristão que o das massas que se continuaram a entregar à religião milagreira. Porém, todas as novas crenças laicas, agnósticas ou ateias, ao se legitimarem num âmbito imanente, surgiram como inevitavelmente contingentes e, em sequência, descartáveis e venais. Os valores absolutos foram gradualmente substituídos pelos valores transacionáveis e o sujeito, conscientemente ou não, sem uma transcendência a que se subordinar, acabou por desembocar no seu próprio vazio, o mesmo que, na verdade, sempre o impulsionou a buscar fora de si algo que o preenchesse. Acabando por não conseguir evitar esse vazio e a absurdidade da existência consciente da finitude, só o desespero restou para a maioria incapaz da coragem da angústia. Para evitar a todo o custo esse confronto, tornou-se necessário o fornecimento de doses cada vez mais massivas de entretenimento que possibilitassem a distração, a cada instante, do sujeito de si próprio. Quando o entretenimento do espetáculo já não chegasse, forneciam-se todo o tipo de substâncias alienantes, garantindo que nem um segundo cada qual se confrontasse com seu vazio e absurdo. O consumismo não é o resultado de meia dúzia de capitalistas malévolos, mas uma necessidade constringente que resulta da existência desesperada no niilismo contemporâneo. Mas esse niilismo não implica qualquer consciência de si próprio, até por o desespero existencial querer a menor consciência possível, de forma a poder se entregar plenamente aos seus consumos, sejam os alimentares ou de vestuário, sejam os dos produtos comerciais audiovisuais, sejam os do turismo, sejam os das práticas ditas espirituais, sejam os dos produtos artísticos, sejam as das crenças pseudocientíficas, pelo teor ou pelo método, sejam os dos estupefacientes, sejam os do desporto competitivo, sejam os dos produtos religiosos. É por isso que tudo se fundiu e confundiu, e deixou de haver possibilidade de distinguir alta cultura da cultura de massas. Nada tem valor intrínseco e nesse relativismo generalizado não há diferença entre o Guernica e uma lata com as fezes do artista, entre a Noite transfigurada e os 4’33’’, entre Sein und Zeit e um dos manuais populares de autoajuda. Em ambos os casos de cada par, o valor advém do espetáculo proporcionado. Desde que cause impacto imediato, é consumido, ficando depois entre os produtos icónicos mais ou menos indiferentes que constituem o caótico acervo que hoje vai constituindo o património cultural. Como nos enlatados musicais, o que mais importa é, porém, o número de consumidores, tanto que na dita música popular os fãs argumentam invariavelmente com o número de seguidores e não com quaisquer qualidades musicais. O que tem valor é o que junta grandes massas de espetadores e tem tanto mais valor quanto consegue produzir efeitos emocionais coletivos, o que, como já escrevi noutro texto[8], é mais produto da própria massa do que de qualquer qualidade intrínseca do objeto de idolatria. Neste caldo cultural, não há acima e abaixo, não há superficial e profundo, não há mero afloramento e penetração, tudo é igualmente indiferente após a reação imediata. Mesmo as obras profundas são reduzidas a resumos na internet e, para não haver riscos de algum trabalho demorado, já inventaram ferramentas ditas de IA que transmitem respostas estereotipadas mais que suficientes para o consumo pretendido. Tudo nivelado bem por baixo, a profusão de produtos oferecidos nos media é toda contida no boçal e universalmente acessível. O complexo e profundo que alguém faça nunca terá público significativo. Caro Mario, se isto não é resultado da morte de Deus, eu também não sei o que é essa morte de Deus.

Quem declara a morte de Deus, denuncia o ato perpetrado pelos homens. Como Diógenes buscava um homem, o insensato dos Salmos buscava Deus – e não encontram quer um, quer outro, apenas a galhofa daqueles que se entretêm e já não buscam nada a não ser o próximo consumo. Se não se busca, para quê o dizer da poesia, a revelação da arte, a transcendência do sagrado, até mesmo a ciência para lá da produção de engenhocas para a renovação dos consumos? A própria filosofia está cada vez mais entregue aos calculadores de problemas atómicos, não havendo o menor amor à sabedoria, desaparecido na redução da filosofia a uma técnica operativa. Deus morreu, o poeta morreu, a arte morreu, a filosofia morreu, o homem está reduzido ao último homem de Nietzsche[9]. Indestrutível não como o pulgão, mas como a barata, o último homem não é uma pessoa, é o ser mais mesquinho que existe, é o consumidor, entretido constantemente pelos produtos e incapaz de qualquer consciência diacrónica, a não ser alguma elementar, esquemática e fantasiosa narrativa infantil. Esse homem pode, porém, ser terrível, pois sendo apenas uma goela, qualquer frustração pode ser usada para o transformar em massa e a massa é imparável na destruição do seu inimigo natural. O seu inimigo natural não é outra massa, mas sim a pessoa. A gente busca eternamente o seu extermínio e nunca esteve tão perto de o conseguir. O último homem é a consagração da gente e a gente é a matéria prima a partir da qual se produz a massa. A massa é a gente tornada arma. A gente já é dominante antes de ser massa, precisa se tornar massa para liquidar a mais ínfima ameaça e se sentir poderosa. O domínio atual da gente é omnipotente. Ressoa em cada televisão, computador, escola, festival, não deixa espaço para o menor desabrochar de pessoa. Mas, caso floresça a pessoa, o seu emudecimento é de tal forma garantido à partida que nunca incomodará a gente. Este é o tempo do dulocrata. E esta é a civilização do espetáculo.

Ora, Llosa, no livro aqui usado como referência, ataca a civilização do espetáculo com uma visão mediática das próprias realidades. Declara ele: “a crença num ser supremo, criador do que existe e em outra vida que antecede e sucede à vida terrena, é parte de todas as culturas e civilizações conhecidas. Não há exceções a essa regra. Todas têm seu deus ou seus deuses e todas confiam em outra vida depois da morte, embora as características dessa transcendência variem infinitamente, segundo o tempo e o lugar.”[10] Onde foi ele buscar este axioma? Qual o Deus criador do budismo? Ou do jainismo? Ou de Lao-Tse ou Chuang-tzu, antes da criação do panteão bem mais tardio dos Mestres Celestiais? Ou não correspondem a culturas? E uma vida que antecede a vida terrena? Aí, nem sequer o segue a religião dominante na sua cultura. E, para a posterior, como encarar os saduceus? Ou será que esta regra sem exceção é afinal uma disjunção, ou seja, pelo menos existe uma destas crenças? Mas não, só admite a disjunção entre Deus e deuses, tudo o resto é conjunção de proposições universais. Por acaso, estudou sequer a questão ou, visto ser descrente, “achou” que seria assim inevitavelmente porque foi esse o conjunto de crenças com que contactou? Ou terá julgado, por exemplo, que os devas (sobretudo, os dharmapalas) dos budistas ou os bodhisattvas do mayana seriam deuses criadores? Julgaria, assim, também os anjos e os santos católicos? E as superstições integradas na religião popular posterior à origem das religiões, óbvias no budismo ou no taoísmo, desmentem o significado original da doutrina? Será este último que não corresponderia a uma cultura? E outras questões, em sentido oposto, se poderiam pôr em relação a diversas religiões animistas.

Mas ainda acrescenta: “não foi só a ideia da morte, da extinção física, que manteve viva a transcendência ao longo da história. Há também a crença complementar de que, para tornar esta vida suportável, é necessária, indispensável, uma instância superior à terrena, onde se recompense o bem e se castigue o mal, onde haja distinção entre boas e más ações, sejam reparadas as injustiças e crueldades de que somos vítimas e sejam punidos os que as infligem.”[11] Aqui, não é tão claro na declaração axiomática da universalidade, mas acaba por isso estar implícito visto resultar da motivação universal de injustiça infligida aos mais fracos. Ora, supor que a crença num paraíso ou num inferno ou numa ordem moral equivalente é uma realidade generalizada na religião mostra, inequivocamente, sem margens para supostas interpretações, a ignorância de Llosa sobre o assunto. Este tipo de crenças é extremamente tardio na história das religiões e mesmo contemporaneamente está longe de abranger todas as religiões. Llosa apenas avalia a religião pelas confissões religiosas com que tem mais contacto no seu país – e ainda aí, se tivesse investigado as crenças passadas de alguns indígenas (e. g., aymaras), poderia ter chegado a diversas conclusões. É verdade que o etnocentrismo é uma cegueira comum e especialmente grave na questão religiosa. Mas ninguém o obrigava a escrever sobre um assunto que não dominava. Finalmente, acaba por declarar que o que mantém a maioria na ordem não é a lei humana, mas sim a divina. O processo de moralização da religião é também tardio, começa antes do período axial em algumas tradições, mas, novamente, não está necessariamente ligado à ideia de uma lei divina. Além disso, parece supor que a maioria das pessoas religiosas têm um comportamento decente que não existiria se não tivesse fé numa ordem divina, quando na verdade as pessoas com um comportamento decente são tão escassas entre os crentes em Deus, como entre os ateus. Não sendo eu um especialista no assunto, nem perto disso, as falhas de Llosa no conhecimento da totalidade do fenómeno religioso são demasiado gritantes para que até eu as não possa notar – e a razão delas é sempre a mesma, julgar o conjunto do fenómeno religioso a partir da tradição cristã em que foi criado. Também, por exemplo, no mundo anglo-saxónico, especialmente nos Estados Unidos, pelo menos no âmbito da filosofia analítica, considera-se que a filosofia da religião é a filosofia que trata teses similares às defendidas pelas confissões cristãs, como se estas constituíssem o conjunto da religião. Não é de admirar que desconheçam outras tradições religiosas, pois nem a sua própria história filosófica conhecem. Muitos defenderam, por exemplo, que não se poderia chamar teologia à filosofia da religião que trata determinadas crenças religiosas porque a teologia teria de ser dogmática, ligada a uma revelação específica.[12] Outros até admitem uma teologia natural, estritamente filosófica, mas insistem em ligá-la apenas a uma fé específica.[13] E é difícil perceber porque não é essa teologia natural aquilo a que chamam filosofia da religião, pois na verdade, nessa suposta filosofia da religião, só tratam problemas colocados por confissões teístas,[14] tendo sido, aliás, para isso, que surgiu essa noção que está muito longe de abranger a totalidade do fenómeno religioso. Ora, para lá de, na Idade Moderna, já se distinguir a teologia natural da revelada, à semelhança da distinção entre religião natural e revelada, já Aristóteles se referia à teologia sem qualquer relação com uma revelação ou uma outra qualquer dogmática[15]. Ou seja, a religião parece ser um assunto onde, com muita facilidade, se proferem declarações ou sem grande conhecimento do assunto, ou sem um pensamento devidamente cuidado. Por vezes, há autores com muito conhecimento em certos assuntos (por exemplo, teologia calvinista ou católica) que, com muita facilidade, supõem conhecimentos noutros (neste caso, no conjunto do fenómeno religioso), um pouco como é descrito pela crítica socrática à suposta sabedoria dos seus interlocutores. É muito provável que eu próprio esteja a fazer o mesmo, com falhas aqui e acolá, mas, para lá destes artigos não terem grandes pretensões, pelo menos, tento evitar tais erros, o que não me parece que ocorra nestes autores. Não seria preciso muito estudo para certos erros grosseiros terem sido evitados.

 Existem muitas outras divergências relativas, normalmente, a lugares comuns que, como em qualquer registo jornalístico, são tomados como verdades indiscutíveis, como é o caso da enésima referência ao pseudoparadoxo da tolerância.[16] Porém, o que mais importa da crítica feita a Llosa é o facto de revelar uma enorme dificuldade de entender a religião senão através das confissões próprias da sua cultura. Ora, pareceria que este defeito se poderia superar com o livro de Dworkin. Infelizmente, a obra de Dworkin também revela muitas limitações no conhecimento histórico, a começar pelo uso do termo teísta. Aliás, quer Dworkin, quer Llosa leram a obra de Dawkins[17] e, como tanta gente, sobretudo no mundo anglo-saxónico, ainda conseguiram simplificar as poucas distinções de Dawkins. Sem me alargar nesta frente, a palavra teísmo não foi inventada agora e está longe de simplesmente significar a crença na existência de Deus. Logo ao ser criada, no séc. XVII, foi uma palavra que foi oposta a deísmo, o que mostra, imediatamente, a absurdidade da definição anterior, visto que o deísmo também afirma a existência de Deus.[18] Mas tal definição também não permitiria a distinção do fideísmo[19] (de que, estranhamente, Dworkin acaba por apresentar mais uma versão) e do panteísmo (este é referido por Dworkin, mas, aparentemente, por ter sido referido por Dawkins como um disfarce do ateísmo[20]). Aliás, em muitas declarações desta gente que fala muito sobre o que pouco conhece, parece claro que atribuem ao teísmo teses do fideísmo. Os meus alunos ao longo dos anos, ao menos os melhores, sabem mais acerca das posições filosóficas respeitantes à existência de Deus que todos estes autores que escreveram livros sobre o assunto. E esses alunos, para lá de terem sido meus alunos no Ensino Secundário, nem precisavam de se interessar particularmente sobre a questão.

Ora bem, a obra de Dworkin defende a possibilidade de religião sem Deus, algo de que Llosa nem concebe a possibilidade, pois associa uma coisa indissociavelmente à outra. Já antes sublinhei o desconhecimento demonstrado por Llosa, mas não é claro que o desconhecimento seja menor em Dworkin, se se excetuar o recurso, numa nota, a uma decisão judicial norte-americana[21] e mais algumas referências esparsas[22]. Mais intrigante ainda num autor de formação analítica é o silêncio sobre a proposta do fundador do positivismo de uma Religião da Humanidade que, aliás, apesar da oposição de Dworkin ao positivismo jurídico, tem demasiadas semelhanças com a sua proposta de religião. Talvez a sua dissociação entre ciência e valor o afastem, mas ele parece simplesmente desconhecer a proposta de Comte. Apesar de todo o seu esforço de superar as limitações da dita filosofia da religião do seu país, acaba por mostrar um etnocentrismo similar, supondo, por exemplo, a associação essencial da atitude religiosa (toda e qualquer) a uma conceção objetivista da moral e da estética natural (rejeitando a possibilidade de valorização religiosa da arte…). Mas, para lá do etnocentrismo que nem concebe a possibilidade de religiões e atitudes religiosas amorais, reflete igualmente a curteza de vistas analítica, incapaz de conceber uma religiosidade que supera o estádio moral e que, na verdade, se presta bem melhor à categoria do numinoso que pretende agregar à fé na objetividade axiológica.

Isso será já objeto do próximo artigo.



[1] Joaquim Lúcio, O Jazigo do Poeta, III – terra, 3ª edição, Barreiro, KDP, 2022, pp. 127-130.

[2] Capítulo IV. Infelizmente, a edição em que li a obra não tem paginação. Pelas págs. do pdf, estará entre as págs. 55 e 66. Mario Vargas Llosa, La civilización del espectáculo, 2012; trad. port. Ivone Benedetti, A Civilização do Espetáculo, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2013.

[3] Karl Jaspers, Vom ursprung und ziel der geschichte, 1949; trad. inglesa Michael Bullock, The origin and goal of history, New Haven and London, Yale University Press, 1953, p. 132.

[4] Lembro-me de um caso de uma figura mediática, especialmente boçal, que se insurgia contra a falta de respeito à sua fé católica (na verdade, era só a crendice de Fátima que estava em causa), apesar de ganhar a sua vida, na própria televisão, com cartomancia e astrologia, sem nenhuma consciência do repúdio pela doutrina católica de tais práticas.

[5] Mas a Idade da Tecnologia espraia-se por todo o planeta e impõe por toda a parte uma cosmovisão e formas de viver incompatíveis com as religiões tradicionais.

[6] Karl Jaspers, op. cit., p. 131.

[7] Para a clique ser mais ampla, é preciso ter peso mediático ou ser membro relevante de um partido ou de uma Igreja, mas é muito improvável que as obras dessas figuras tenham a profundidade ou complexidade referida. Pelo contrário, o que se vê, mesmo com essas proteções, são obras de consumo fácil e/ou de muito baixa qualidade. Aliás, para quê se dar ao trabalho de maior elaboração se não é esta que garante as vendas?

[8] Joaquim Lúcio, ressurreição, KDP, 2022, pp. 220-223.

[9] Friedrich Nietzsche, Also Sprach Zarathustra, 1ª parte, Prólogo, 5.

[11] Mario Vargas Llosa, op. cit., VI, 86.

[12] Vários manuais de filosofia do ensino secundário subordinados ao atual domínio da filosofia analítica reproduzem a asneira. Poderia selecionar um, mas parece-me indelicado, até por conhecer boa parte dos autores.

[13] William Rowe chamava a atenção para a teologia natural, mas continuava a insistir na sua ligação a uma religião, acabando por reconhecer que aquilo que faziam na filosofia da religião acabava por ser similar. William L. Rowe, Philosophy of Religion: An Introduction, Fourth Edition, Wadsworth, Cengage Learning, 2007, pp. 1-2. Reproduzindo esta confusa posição, os manuais referidos na nota anterior começavam por negar que pudesse existir outra teologia que não a dogmática (por vezes, com uma linguagem vaga: “corpo de doutrinas”), para um pouco adiante distinguirem desta a teologia natural. E gente da lógica formal (ou subordinada a essa gente) nem nota a contradição…

[14] Também importa saber o que é isso de teísmo, como se verá nos artigos seguintes.

[15] Aristóteles, Metafísica, 1026a19; 1064a34-1064b3.

[16] Isto está fora deste assunto, mas poderei fazer uma muito breve referência esquemática: a tolerância não é um valor defensável, expressando uma atitude sobranceira e paternalista, universalmente não desejável; de facto, afirmar-se tolerante já é demonstrativo de um fundo de intolerância; daí que não seja difícil que os tolerantes se tornem nos seus supostos inimigos ao serem intolerantes aos intolerantes; a tolerância é irrelevante nas formulações jurídicas; o que importa é a preservação do estado de direito e fazer cumprir rigorosamente as leis; concordo, aliás, com a posição de Rawls a este propósito.

[17] Richard Dawkins, The God Delusion, Boston, Houghton Mifflin, 2006; London, etc., Bantam Press, 2006.

[18] Ao referir o séc. XVII, até parecia ir introduzir o deísmo, mas percebe-se, depois, que só se refere ao panteísmo: Ronald Dworkin, Religion without God, Cambridge, Mass., London, Harvard U. P., 2013, p. 32; o que é algo estranho pois a passagem que refere em relação ao panteísmo é a mesma em que se refere o deísmo, Dawkins, op. cit., p. 18.

[19] A ausência da noção de fideísmo quer em Dawkins, quer em Dworkin é especialmente grave porque não lhes permite considerar uma das características mais importantes do teísmo, a sua pretensão a harmonizar razão e fé, algo que já abordei em artigo anterior. Eu próprio tentei mostrar que, na verdade, se trata de uma mistificação, mas é muito diversa uma posição que rejeita logo a razão como via de acesso a Deus e outra que defende a via racional, mesmo que não passe de uma mera camuflagem da fé. Ao menos, tentará apresentar argumentos e, logo, sujeitar-se-á à sua análise.

[20] Dworkin, op. cit., pp. 41-43 – aliás, acaba por subscrever a tese de Dawkins, mas remetendo Spinoza para o ateísmo religioso.

[21] Dworkin, op. cit., p. 161.

[22] Por exemplo, Buda é reduzido a algo próximo a um deus, Dworkin, op. cit., p. 107, o que tem alguma verdade no Mahayana (e variações), mas não no Theravada.