15.6.26

Sob o signo da morte de Deus - III

 

            Newton repudiava rancorosamente a metafísica, mesmo se diversas teses e conceitos seus têm origem ou mesmo natureza metafísica. Para o ter percebido, seria preciso que se dedicasse criticamente à área que repudiava. Este ódio quase cego aos metafísicos dificilmente poderia ser justificável apenas pela oposição entre a filosofia experimental e a filosofia metafísica. Esta oposição levou até maior tempo a consolidar-se, dado o seu cartesianismo juvenil. O seu rancor tinha motivações religiosas profundamente enraizadas. Acabaria, aliás, por considerar que se tratava de uma única mesma luta e que a distorção dos metafísicos da verdadeira fé era a mesma que a da verdadeira ciência. Não só a teologia papal e até as teologias reformadas, mas as influências neoplatónicas na consagração de Atanásio e sua doutrina trinitária, assim como as religiões mesopotâmicas ou egípcias, tudo o que, do seu ponto de vista, tinha deformado a religião original de Noé, corrompido as Escrituras ou introduzido interpretações aberrantes nas crenças cristãs, era resultado da metafísica. Sem partilhar as suas cronologias delirantes, mas típicas da época, nem a extrapolação do ataque até para as outras religiões mais antigas, não posso deixar de lhe dar alguma razão. Mas estou certo que ele não daria razão à forma como eu entendo o cerne fundamental do seu ataque.

A teologia, recorrendo à linguagem metafísica, tentou recobrir as narrativas das Escrituras com interpretações forçadas e, muitas vezes, absurdas dos textos. As suas doutrinas abstratas colidiam constantemente com o texto das Escrituras e, assim, tinham que dizer, constantemente, que o que lá estava escrito era outra coisa que não o que qualquer um poderia ler. Fizeram isso para sustentar uma doutrina supostamente racional, mas, como foi visto no artigo anterior, só conseguiram criar mais absurdos, pois não podiam prescindir completamente das crenças originais e elas não eram, na verdade, compatíveis com uma abordagem metafísica verdadeiramente racional. Assim, tudo era envolvido por uma nebulosa de noções propositadamente ininteligíveis e por uma recusa de discussão para lá dos seus dogmas, fornecendo, pela ausência de contraditório consequente, a aparência de uma doutrina consistente. Para não complicar muito, os atributos metafísicos essenciais de Deus são, por exemplo, detetáveis na narrativa bíblica? Como um artista que produz a sua obra, Ele não tem sequer a certeza se o trabalho irá sair bem. A cada passo da criação, ele verifica, no final, que o que fez é bom. Aliás, parece ser o desagrado com o estado da terra e do mar que o motiva a produzir a primeira coisa que aprecia como boa, a luz. Como não parece ter consciência de quaisquer consequências futuras, nomeadamente quanto ao homem, parece-me, aliás, que o paralelo com o artista ainda pode ser levado mais longe e o seu “bom” ser, de facto, uma apreciação estética da aparência imediata. A palavra hebraica tanto se poderia traduzir por “bom” quanto por “belo”.

Não vou perder tempo a mostrar como a predestinação ou a presciência são inventadas pelos teólogos que as supõem sistematicamente num texto que em nada as refere, que a criação a partir do nada não é referida em lado algum e apenas é suposta pelos mesmos, sem sustentação, no versículo inicial, que a criação de todo o existente no Universo, incluindo toda a espécie humana, colide diretamente com a narrativa que faz Caim encontrar mulher a leste do paraíso (apesar do disfarce introduzido em certas traduções), que Deus se arrepende das suas ações e, aliás, se enfurece, sem controlo, ao ponto (e é apenas um exemplo de muitos, muitos, muitos) de mandar matar dezenas de crianças por terem gozado com a careca do seu profeta, que, embora muito poderoso, para não dizer tirânico, em lado algum, nestas narrativas mais primitivas, é afirmado como omnipotente, só surgindo o qualificativo todo-poderoso em textos mais tardios, etc., etc.. Todas estas narrativas mostram-no como um ser muito poderoso, mas muito longe de ser um ser soberanamente perfeito – e fazem-no exatamente por estarem a falar de um sujeito, não o sujeito autocontraditório da metafísica, pois a cisão inerente ao sujeito é incompatível com a noção de ser perfeito, mas apenas um sujeito muito poderoso com todas as características que fazem de um sujeito um sujeito. Ao tentarem, na metafísica, atribuir-Lhe os predicados do Ser parmenidiano, os teólogos entraram em contradições insanáveis: Como incluir as óbvias mudanças do seu humor, o devir, na imutabilidade eterna do Ser? Como admitir que esse Ser admita outros seres a existirem fora de si? Como pode esse Ser, todo, sem limitação, encarnar num homem? Para que é que um tal Ser se dedicaria a criar, a ter desígnios para a sua criação, a punir e a premiar as suas criaturas, como se fosse uma criança a brincar com bonecos para se entreter e divertir? Como explicar que puna e premeie infinitamente pecados finitos? Como é que a possibilidade de escolha do mal pelo homem é uma capacidade superior, se é depois considerada impossível na vida superior no paraíso? As teias de aranha conceptuais desenvolvidas pelos teólogos para tornarem aceitáveis tais absurdos (e muitos outros) apenas evidenciaram a sua má-fé, a busca da defesa da sua fé custe o que custar, mesmo contra os mais óbvios truísmos.

Volto ao Deus do 1º capítulo do Génesis. Esse Deus é um sujeito que age e aprecia, tal como todo o sujeito. A Sua ação resulta da sua espontaneidade. O que origina essa espontaneidade e a orientação da mesma não é dito. Ainda aqui, trata-se de um sujeito como qualquer outro. Talvez tenha consciência de motivos, mas é possível que o que causa a ação seja obscuro para Ele próprio. Afinal, parece se surpreender com o que fez e vai fazendo. Para aqueles que teologicamente pressupõem isso impossível, sigam para o episódio com Adão e só poderão supor que Ele não se surpreende, pressupondo-o contra o que está no próprio texto. O que leio no texto da criação é um autor que se maravilha, surpreendido, com a sua própria obra, como pode ocorrer com qualquer sujeito. E assim é porque, após a obra ser feita, deixa de fazer parte dele, é algo estranho à sua espontaneidade, algo que pode ser apreciado como objeto. A partir do momento em que a criação é feita, torna-se estranha ao seu controlo, mesmo se Ele a habita (como poderia acontecer com um arquiteto). E assim é com toda a criação. Sendo assim, aquilo que provém daí pode entristecê-lo, provocar arrependimento, enfurecê-lo, compadecê-lo, etc. Exatamente por não ter controlo algum sobre o que criou é que tem de, repetidamente, intervir nessa criação para a corrigir, segundo os seus critérios muitas vezes dificilmente compreensíveis – e, novamente, assim acontece ou pode acontecer com qualquer sujeito.

Afinal, os homens pouco sabem do que os faz agir como agem. Verificam o que lhes apetece e agem em conformidade, na maioria dos casos, sem sequer se perguntarem porque lhes apeteceu, de onde veio aquele apetite. A maioria das justificações do que fazem surge posteriormente, tentando racionalizar o já feito. Essa é, aliás, a maior diferença de outros animais, a capacidade de falsificar o que aconteceu. O que faz de um sujeito um sujeito é o desejo, em si mesmo vazio, em si mesmo de nada, mas que invariavelmente se busca saciar com objetos. O próprio conhecimento só existe como apropriação de objetos e, logo, tem na sua raiz o desejo. É inconcebível um sujeito sem desejo. Sem desejo, poderia ser uma coisa, mas nunca um sujeito. Mas ser um sujeito de desejo, passe o pleonasmo, implica um vazio bem contrário à plenitude do Ser. Não há forma de o sujeito aliviar esse vazio a não ser com objetos e, na verdade, nunca poderá colmatá-lo completamente, caso em que deixaria de ser o que é, sujeito, como ocorre na morte. A plenitude do Ser até pode ser objeto de desejo, até mesmo o objeto de desejo por excelência, correspondente ao seu vazio original, mas inatingível enquanto o sujeito se mantiver sujeito. Ora, os teólogos metafísicos tentaram pegar no sujeito das Escrituras que, de facto, é um sujeito similar ao humano, muito embora com maior poder, e atribuir-lhe todos os atributos do Ser parmenidiano, na via da verdade, obviamente incompatíveis com a própria noção de sujeito. Quiseram manter Deus como um sujeito com consciência, mas afirmaram uma suprema perfeição (entendida como plenitude de Ser) incompatível com o facto de ser sujeito. Para disfarçar a incongruência, dotaram esse sujeito de poderes máximos, omnipotência, omnisciência, predestinação, etc., procurando ocultar com atributos perfeitos que o ser sujeito o impedia de ser perfeito, ou seja, mesmo que ele tivesse poderes máximos, nunca poderia ser esse máximo de ser, sob pena de deixar de ser sujeito e, logo, Deus. E é como sujeito que cria, que tem desígnios, que se sente afetado pelo que fazem as suas criaturas, podendo enraivecer-se ou comover-se, que elege estes em detrimento daqueles, que mostra ter preferências entre os homens e os povos, tudo características incompatíveis com um ser absolutamente perfeito. Diga-se, aliás, que em boa parte dos textos sagrados não se notam grandes desígnios, pelo menos não se verificam desígnios a longo prazo. Ele parece criar pelo prazer de criar e, depois, julga os atos das suas criaturas. Não só se encoleriza, como se encoleriza contra si mesmo, reconhecendo ter errado. Mesmo em textos mais tardios das Escrituras, é preciso ter muita imaginação para ver neles os vários atributos metafísicos, pelo que Newton tem razão no facto de ter havido uma sistemática adulteração do Deus bíblico, seja ele qual for, nas multiplíssimas versões apresentadas nessa coletânea.

É habitual distinguir os fanáticos (ou, em termos de posições filosóficas e teológicas, os fideístas) dos defensores da compatibilização ou até da harmonia entre fé e razão (que é o que caracteriza o teísmo e não o simples facto de afirmar a existência de Deus, como se afirma na internet na sequência de obras de autores particularmente ignorantes, muito populares no império da superficialidade intelectual que domina o lado de lá do oceano). Supostamente, os primeiros aderem a qualquer crença que considerem revelada, mesmo que o seu teor seja obviamente absurdo. Como consideram que a razão não tem a mais ínfima capacidade de aceder a Deus, depositam inteiramente na fé, ou seja, num puro ato de vontade, o acesso à verdade divina. Mas como é possível saber sequer o teor daquilo em que se acredita sem qualquer recurso à razão? Não é preciso ao menos entender, como dizia Anselmo? Na verdade, todos os conteúdos da fé requerem interpretação e esta não pode ser um mero ato da vontade. Porém, ao recusar o recurso explícito à razão, os fanáticos caem com facilidade em noções absurdas, indignas da conceção da divindade. Os teístas, como Tomás, consideram que nenhuma verdade da fé pode ser contrária à razão, também doada por Deus, pelo que uma eventual contradição deverá levar o crente a reexaminar a sua crença porque a contradição deverá ser devida à sua errada interpretação e não à revelação. As verdades da fé podem estar acima da razão, mas não contra a razão, pelo que, mesmo que uma verdade da fé seja um mistério divino e não puder ser demonstrada racionalmente, tem de ser exequível explicar a sua possibilidade. Acontece, porém, que o que se considera racional depende, em boa medida, de um outro ato de fé.[1] A inacreditável quantidade de crenças que se justificam como racionais e que, para lá de serem absurdas, são defendidas por meros exercícios de retórica vazia é esmagadora. Como é óbvio para qualquer pessoa minimamente isenta, dessa qualificação não escapam os teólogos de todas as confissões, mas muito particularmente os cristãos.

Em meados dos anos 90, participei na organização de um evento em que figuravam diversos representantes de confissões religiosas, nomeadamente um teólogo dos adventistas. O seu grande argumento em defesa da existência de Deus era a de que a Bíblia tinha sido revelada por Deus, o que se provava pela inexistência de quaisquer inconsistências ou incongruências entre as diversas partes da Bíblia. Trata-se de um argumento de racionalidade formal que nada decide quanto ao teor das teses. Com facilidade se poderia afirmar que a existência dos unicórnios estaria provada porque todas as inúmeras histórias acerca deles seriam consistentes entre si. De facto, isso não provaria qualquer existência de unicórnios, mas apenas que as diversas histórias seriam concordantes a respeito de uma eventual fantasia. Porém, alguém poderá objetar que não existe essa concordância a respeito dos unicórnios, existindo, ao contrário, uma enorme quantidade de discrepâncias. É fácil ver que isso continua a nada decidir quanto à existência de unicórnios. Da mesma forma, existem milhões de estudos que evidenciam as discrepâncias notórias nas diversas tradições vertidas na coletânea denominada Bíblia, por vezes até no mesmo livro. São, aliás, de tantos tipos diversos que é até difícil sistematizá-las: conceção inicial da própria divindade como múltipla (Elohim), conceções morais muito díspares e até opostas, disparidade entre monolatria e monoteísmo, divergências semânticas, disparidades proféticas, versões incompatíveis das mesmas histórias, atribuições de autorias e datações impossíveis, relato de factos geograficamente impossíveis, etc., etc. – são tantas as incongruências que o menor estudo honesto histórico, hermenêutico e/ou teológico teria permitido ao referido teólogo perceber a vacuidade do seu argumento a nível da simples verdade das premissas. Mas, ainda por cima, o argumento é falacioso mesmo que elas fossem verdadeiras, tirando uma conclusão irrelevante quanto à existência de Deus. De facto, porque é que só Deus é que poderia ter dado consistência a uma tradição religiosa quando todas as doutrinas humanas buscam ser consistentes em si mesmas? Porém, o que é interessante é que este teólogo fideísta, mesmo que falaciosamente, buscou um alegado apoio da razão para a sua fé, considerando racional a articulação da Bíblia, na verdade por muito que os factos o negassem. Na altura, fez um desafio ao auditório para tentarem identificar uma incongruência. Ninguém o fez (são muito fáceis estes efeitos quando os auditórios são, em geral, ignorantes do assunto e, mesmo que o não fossem, estariam intimidados) e tenho pena de eu não o ter feito (afinal, era o anfitrião), pois os truques de retórica que teriam sido usados para negar o inegável teriam sido agora excelentes ilustrações do fundamento da suposta racionalidade da fé.

No meu trabalho sobre a polémica entre Leibniz e Clarke, abordei a estranha conceção de racionalidade que este último atribui ao texto bíblico, na sua segunda conferência de Boyle, isto apesar de o mesmo Clarke ter toda uma série de outras argumentações solidamente racionais até do ponto de vista metafísico a que os newtonianos são, normalmente, tão avessos. Se me é permitido citar-me a mim próprio: “Nas explicações de Clarke, a razão confunde-se com os objetos de fé, considerando provas racionais os relatos bíblicos, as profecias (e as suas interpretações) e argumentos de uma singeleza pueril: por exemplo, como prova da verdade, os martírios, os milagres, a semelhança da mensagem, a fidelidade à causa ou a extensão geográfica da sua ação, tudo exemplos que poderiam ser dados até de confissões bem mais recentes contraditórias entre si, todas com mártires, com alegações de milagres, com uma mensagem determinada por uma doutrina, com pessoas leais e abrangendo diversas nações! E depois de dezenas de páginas de argumentos deste nível e de outras menções bíblicas, considera-se tudo racionalmente provado. (…) Clarke poderia dizer que se trata apenas de uma certeza moral, contrariamente à que pretendia na outra conferência, a de 1704. Mas o que, de facto, está a fazer é a tentar passar objetos de pura e simples fé por provas racionais. Ora, qualquer um pode se habituar de tal forma a uma alegada verdade de fé que acaba por a considerar racional, mas isso retira o conteúdo à razão.”[2] Newton elevará a parada e pretenderá poder demonstrar as verdades proféticas do Apocalipse como se se tratassem de verdades matemáticas naturais, recorrendo à mesma linguagem dos Principia, definições, proposições, etc.[3] Mas a interpretação newtoniana e dos newtonianos (são muitos os newtonianos que se dedicam a estas questões, e. g., Whiston, Clarke, Derham, Bentley, etc.) é caracterizada pelo literalismo e uma forte tendência unitariana, mais tarde moderada numa conceção subordacionista.[4] Apesar disso, não desistem da defesa da racionalidade da fé. Porém, essa racionalidade esgota-se na declaração de que é racional, saltando para a alegação de prova demonstrativa sem qualquer sustentação lógica. Ora, talvez estes autores tão envergonhados no que toca ao uso de uma razão metafísica possam não ter a sustentação de uma harmonia entre fé e razão que possamos encontrar numa Igreja Católica que sempre foi teísta, que sempre recorreu a autoridades que não a Escritura e que tem evoluído para conceções cada vez menos literalistas da própria Escritura. Ao contrário das noções absurdas de conceções fideístas ou, ao menos, mais fideístas, teríamos, então, finalmente, uma conceção caracterizada pela racionalidade. A ilusão não poderia ser maior.

A selva de interpretações espúrias que constitui o catolicismo parece não ter fim e, longe de se corresponder à racionalidade que supostamente caracterizaria o seu teísmo, acaba por se mostrar tributária de conceções pagãs, com a agravante de as recuperar em notória contradição com as conceções monoteístas que diz professar. Um bom exemplo é o dogma da Imaculada Conceição. Embora o dogma só tivesse sido fixado no séc. XIX, o século da reação ultramontana da Igreja às revoluções anticlericais, a crença remontava à Idade Média e já estava consagrada na doutrina católica, pelo menos, desde o Renascimento. É, aliás, juntamente com a Assunção, consagrada como dogma já no séc. XX, uma ilustração poderosa do sentido global da evolução doutrinária da Igreja Católica. Ao contrário das declarações de cada vez maior harmonia com a razão, associadas a uma Igreja que se pretende compatibilizada com a Ciência e a Filosofia, observa-se uma cada vez maior decadência doutrinária que procura legitimar a crendice e a divinização, de facto, de figuras associadas a cultos pagãos como os marianos. A Imaculada Conceição é um dogma com uma raiz inteiramente argumentativa, mas o argumento evidencia, em primeiro lugar, uma racionalidade truncada, eventualmente aceitável para uma filosofia analítica, visto considerar a inferência de forma inteiramente isolada e sem quaisquer considerações de consequências adicionais, e, em segundo lugar, o carácter distorcido, para não dizer perverso, da própria conceção essencialista de pecado defendida pela Igreja. O argumento é simples, para não dizer simplório, e consiste em afirmar que Jesus, puro e isento de pecado, não poderia ter provindo de alguém que estivesse maculado pelo pecado. Que Maria tivesse gerado Jesus virgem é um conteúdo explícito em algumas Escrituras, mas que ela própria tivesse sido gerada sem pecado é algo que resulta das conceções perversas do que é o pecado, entendendo a carne, no sentido sexual, como inerentemente pecaminosa, apesar de dela depender a procriação supostamente abençoada, e, por outro lado, do processo de divinização de Maria, cuja idolatria na nossa época é o mais cabal desmentido de não se tratar em tudo de uma deusa. Ora, se para nascer sem pecado, Jesus não poderia provir de um ser com pecado, Maria, então esta também não poderia ter nascido com pecado, ou seja, dito de forma explícita, também ela não poderia ter sido gerada por sexo – daí, a Imaculada Conceição. Mas, como deveria ter sido óbvio para séculos de teólogos, isso implicaria a mesma exigência para Ana, mãe de Maria, e para a mãe de Ana e assim sucessivamente até Eva – e assim não existiria qualquer pecado original e todos seriam seres etéreos que nunca estariam submetidos ao comércio carnal. Como isto entra em contradição direta com a doutrina cristã do pecado original, das duas uma, ou a necessidade do imaculado nascer do imaculado é falsa, ou o que é falso é a própria conceção de pecado associado à carne. Em qualquer caso, uma destas doutrinas é irracional por ofensa do princípio da não contradição.

As justificações teológicas e escriturais são, para não ser excessivo, ridículas, indo buscar trechos sem a mínima relação com a questão, apenas mostrando os dotes sofísticos da retórica teológica. O trecho mais direto, o da oposição da mulher e da serpente, resulta da má tradução latina que transforma ele em ela. O absurdo, porém, não fica por aqui. Em que texto bíblico se apoiam os crentes para afirmar que Maria ficou virgem até o fim da vida e que ascendeu aos céus em corpo e espírito? Nenhum. Os irmãos e irmãs de Jesus são explicitamente referidos nos Evangelhos e, em lado algum, são supostos serem gerados imaculadamente, o que seria, aliás, contrário ao carácter único de Jesus. Além disso, é óbvio o distanciamento de Jesus em relação à sua família, incluindo a sua mãe, o que dificilmente poderia mostrar uma comunhão doutrinária entre ambos que justifique a santificação de Maria.[5] Para tornear a óbvia discrepância, os teólogos não cessaram de inventar ao longo dos séculos para manter o carácter imaculado de Maria: ora os irmãos seriam primos, ora seriam meios-irmãos, apenas filhos anteriores de José – com base em quê? Com base em nada que não seja a sua imaginação e a sua intenção de divinizar Maria, à luz das deusas pagãs caras a Roma. Costuma dizer-se em relação aos marxistas que, quando a realidade não bate certo com a teoria, é a realidade que está errada. O mesmo se poderia dizer dos católicos e outros cristãos, considerando que a Escritura deveria ser para eles a revelação da realidade. A exegese bíblica foi frequentemente um mero exercício de pura falsificação, feita sem qualquer vergonha, apenas de forma a legitimar as mais absurdas conceções teológicas. Os diversos responsáveis religiosos gostam de se defender com a necessidade de respeitar a sua conceção de sagrado, mas ninguém desrespeita mais os textos que dizem ser sagrados e a pura manifestação da revelação divina. Não é por acaso que a generalidade das conceções protestantes rejeita a Assunção, visto terem uma tradição muito mais escritural. Não há qualquer base bíblica, para lá da imaginação desenfreada de teólogos católicos, para sustentar um tal dogma. Ele é, aliás, sustentado como dogma através de um outro dogma que consegue ser ainda mais absurdo, o da infalibilidade papal, quando seria muito fácil mostrar quantas conceções contraditórias foram defendidas pelos diversos papas ao longo da história. Quanto a considerar que estas e aquelas conceções correspondem à infalibilidade papal e outras não, visto ser um juízo posterior correspondente ao que se considera a doutrina em cada momento, introduz um relativismo de tal forma absurdo que nenhuma declaração doutrinal católica poderá ser levada a sério.

A tentativa católica de compatibilizar razão e fé foi e é ridícula. Durante muito tempo, a impensabilidade de denunciar esse ridículo, sob pena de aniquilação, protegeu a aparência de racionalidade, mas, quando as objeções se multiplicaram no contexto do iluminismo e do anticlericalismo, a Igreja ultramontana resolveu transformar essa harmonia entre razão e fé num dogma, ou seja, numa verdade de fé, ainda com a esperança, típica do séc. XIX, de restaurar a perdida autoridade da Igreja. Desta forma, tornou-se claro que a palavra razão na boca de um católico não é mais que um novo travestimento da fé. A principal utilidade desta defesa da harmonia da razão e da fé é, aliás, a do uso do princípio de autoridade, permitindo o recurso sistemático aos padres e doutores da Igreja como forma de trair as Escrituras ou, se se preferir, interpretar os textos sagrados de formas verdadeiramente bastardas que nunca ninguém se lembraria a não ser para defender doutrinas insustentáveis à luz dessas mesmas Escrituras. E a principal intencionalidade que tais “interpretações” revelam é a da correspondência à religiosidade popular, à crendice mariana e a todas as manifestações de paganismo que já antes denunciei. E aqui relembro a acusação newtoniana de a verdadeira religião, segundo Newton, a escritural, ter sido distorcida pela sistemática introdução de artifícios metafísicos, atingindo o seu maior paroxismo na Igreja Católica. Essa acusação até é anterior aos dogmas recentes aqui referidos, havendo ainda hoje maior razão para a fazer. Longe desses artifícios terem racionalizado fosse o que fosse, contribuíram para dar origem a uma religião absurda, por muito popular que ainda consiga ser. É verdade que a pretensão à racionalidade com base na Escritura dos próprios newtonianos é injustificável – e o mesmo se poderia dizer das pretensões calvinistas, mesmo estando libertas dos absurdos marianos e outras formas de crendice. Mas quanto mais uma religiosidade se afastar dos absolutos metafísicos, mesmo que sem coragem para se afastar por completo, tanto mais produzirá um conjunto de crenças procedentes, mesmo que dominadas mais pela imaginação do que pela razão – ao menos, não será um círculo quadrado.

Contemporaneamente, como sempre aconteceu na história, frente à óbvia refutação das pretensões das diversas Igrejas cristãs, multiplicaram-se os soldados intelectuais que procuraram encontrar uma brecha que lhes permitisse sustentar as suas formas de fé mais disparatadas. Assim aconteceu na adaptação ao platonismo pela patrística, ao aristotelismo pela escolástica, ao cartesianismo, ao kantismo, ao hegelianismo, à fenomenologia, à psicanálise, à filosofia analítica, etc., etc., etc. Apresentam-se sempre como muito modernos, mas a sua única intencionalidade é a de conseguirem sustentar os velhos dogmas com uma aparência de linguagem inovadora, não propriamente original, mas traficada das novas correntes intelectuais. São miríades de teólogos, tão fraudulentos como os do passado, mas que procuram dissimular o que são com truques meramente verbais. Dizem que não são teólogos, mas filósofos da religião, ou fenomenólogos, ou hermeneutas, ou outra coisa qualquer, mas nunca conseguem fazer mais que uma diferenciação cosmética. É impossível estar a tratá-los todos, nem sequer de forma breve e parcial. Gostaria apenas de exemplificar as modernas formas de fraude teológica. Talvez venha no futuro a usar como exemplo também Plantinga ou Levinas, mas agora vou me contentar com Ricoeur e a ele e à sua subserviência a Paulo dedicarei o próximo artigo desta sequência. Que não haja dúvidas que considero Ricoeur admirável em muitos aspetos, tal como os outros (talvez menos Plantinga), e que me influenciou razoavelmente aqui e acolá. Mas o mesmo aconteceu com Agostinho, Tomás ou Malebranche, por muito que me repugne a sua intencionalidade mais fundamental e as falácias que têm que dissimular para a realizar. Estes soldados da fé não são nenhuns broncos, possuindo uma fina, requintada e complexa intelectualidade que merece tanto mais consideração quanto maior é a oposição.



[1] Foi o que procurei mostrar, entre outras coisas, implicitamente, neste texto: Joaquim Lúcio, O Jazigo do Poeta, III terra, 3ª ed., Barreiro, KDP, 2022, pp. 69-85.

[3] Joaquim Narciso, op. cit., pp. 288-9.

[4] O que também é tradicional desde o arianismo da Antiguidade.

[5] Para a identificação dos irmãos, Mateus, 13.55–56 e Marcos, 6.3; já o episódio do distanciamento em relação à família biológica, Mateus, 12.47-50, Marcos, 3.31-35 e Lucas, 8.19-21 (versão um pouco atenuada, mas com o antecedente precoce de Jesus rebelde em relação aos pais, 2.48-49, já sem falar das contradições na efabulação da história de Jesus criança entre os vários evangelhos). Não há nenhuma razão para interpretar estes irmãos como primos e o próprio contexto desmente cabalmente tal distorção. Tal não passa de uma fraude teológica (uma entre milhões). Aliás, essa hostilidade mútua entre Jesus e a família estende-se à região, Mateus, 13.57, Marcos, 6.2-4, João, 6.42, 7.2-5 (apesar de uma aparente harmonia inicial, 2.12). O mais mariano evangelho de Lucas, 1.35, não resiste mesmo a rejeitar, antecipadamente, uma interpretação mariana do culto cristão pela boca do próprio Jesus a admoestar uma crente, 11.27-28. O abandono da família natural é mesmo uma exigência geral de Jesus, Lucas, 9,61-62 (já sem mencionar a insensibilidade do abandono dos mortos), 12.52-53, 14.26 (aqui o termo original, distorcido nas traduções latinas, é mesmo odiar), 18.29-30. Poder-se-ia pensar que a doutrina é diversa em João, dada a preocupação final de Jesus com a mãe que só neste evangelho está junto da cruz, 19.25-27. Mas o relato anterior não mostra nenhuma consideração especial pela mãe que nem é nomeada, sendo Jesus considerado filho de José (isso é necessário para a pretensão de ser filho de David, requisito para ser o Messias, o que já tinha levado Lucas a expressar a incerteza, 3.23, resultante da contradição óbvia entre a sua genealogia tornada espúria e a história de ser só filho de Maria), tratando Jesus, rispidamente, a própria mãe por mulher, João, 2.4. A referência de tradução para todos estes artigos é, em geral, a da tradução de Frederico Lourenço, neste caso, Volume I.

20.11.25

A promoção de ovelha negra para traidor

 

        Há quase meio século, senti, pela primeira vez de forma clara, a diferença entre os dois estatutos. Entre os 13 e os 14 anos, pertenci, durante uns meses, à União dos Estudantes Comunistas, uma organização de juventude posteriormente extinta do Partido Comunista Português. Durante esses meses, mesmo sem ser assim explicitamente nomeado, gozei do estatuto de ovelha negra. Eu era o único que se atrevia, na sala de convívio de um centro partidário, a referir como tal a aliança de 39 entre os soviéticos e os nazis. Ela até podia ter existido, até podia ter legitimado a ocupação do leste da Polónia e a anexação em 40 dos países bálticos e da Moldávia, assim como a tentativa anterior de fazer o mesmo com a Finlândia. Não podia era ser mencionada.[1] Logo surgia um membro do Partido a dirigir-se exclusivamente a mim (apesar de se tratar de um diálogo), dizendo que estava a incomodar os camaradas presentes no centro e salientando que essas conversas deviam ser reservadas para as reuniões. Como é óbvio, nada desses ou doutros assuntos jamais poderia ser verdadeiramente discutido nas reuniões dos órgãos do partido por estar sempre fora da ordem de trabalhos. E assim passei rapidamente de incómodo (a ovelha negra) a traidor, apresentando a minha carta de despedida. No verão de 79, concluí rapidamente que não havia perestroika nem glasnost[2] possíveis numa tal organização e alcancei o superior estatuto de traidor. É, de facto, um estatuto superior porque, ao ser odiado, passei a ser tido em consideração, ao passo que antes era desprezado ou menosprezado, uma incomodidade desqualificada que se poderia ignorar. Uma atitude alternativa surge, porém, para lá da mera hostilidade, a atitude paternalista daqueles que esperam um regresso quando, finalmente, se desfizerem as confusões que levaram à atitude de rutura. A carta de desfiliação que referi nunca chegou a ser apresentada aos órgãos do partido, soube-o mais tarde, porque um desses camaradas paternalistas a reteve, esperando que acabasse por ver a luz e regressasse. Apesar de os outros militantes me insultarem de traidor por todo o lado, não faço ideia quanto tempo continuei a figurar nos registos como militante da organização. Julgo mesmo que o amigo referido terá andado a pagar as cotas. Muito mais tarde, ele próprio passou pelo mesmo processo, assim como muitíssimos outros, a conta-gotas, sempre sentindo a solidão do gesto individual esmagado pelo peso do coletivo.

            Embora esteja longe de ter integrado um grande número de organizações análogas, políticas, sindicais, religiosas, etc., cheguei à conclusão que não era preciso pertencer a qualquer organização expressamente ideológica para ocorrerem as mesmas atitudes acima descritas, por vezes atenuadas pelo habitual estilo de brincadeira, de forma a covardemente poder recuar face a uma confrontação direta. Que a sua natureza é a mesma, é algo que se mostra, porém, na perda do estilo humorístico assim que existe uma generalização à totalidade do coletivo. Afinal, o estilo de brincadeira só é necessário se não se alcançar uma aceitação coletiva ou maioritária.[3] Por exemplo, se se for efetivo numa escola pública, o que parece (parece…) não ter qualquer caráter ideológico, a decisão de mudar para outra, mesmo se antecedida da manifestação de múltiplas críticas e discordâncias, patenteadas de forma bem pública ou aos órgãos competentes, acaba por ser exatamente objeto dos mesmos procedimentos. Porquê? Porquê considerar traidor ou desertor alguém que simplesmente muda para outra escola do mesmo sistema público de educação? Haveria algum compromisso ou dívida que teriam sido defraudados, uma ausência de gratidão para com situações passadas, vantagens alcançadas, favores, promoções, etc., ou a rejeição de uma anterior adesão ou apoio de projeto? Imagine-se uma situação em que alguém que, se encontra na situação de mudança acima referida, nunca foi beneficiado em nada na sua vida pessoal ou, por exemplo, académica, sendo até explicitamente recusada qualquer ajuda se em algum momento a solicitou, que chegou a ser alvo de um processo ad hominem que prejudicou a sua própria atividade docente, que múltiplas vezes sacrificou a vida pessoal para cumprir funções que lhe foram solicitadas muito para lá das obrigações ordinárias, que nunca beneficiou da menor redução letiva e até, por vezes, não letiva para concretizar diversos projetos extracurriculares, ao contrário do que muitos outros beneficiaram, que nunca teve qualquer vantagem horária similar às que muitos outros tiveram, que nunca pretendeu ocupar qualquer cargo e só os ocupou por ser obrigado a fazê-lo, que, apesar disso, sempre cumpriu todos os deveres diligentemente, mesmo se discordava visceralmente do que estava a fazer, que explicitou, múltiplas vezes, as suas discordâncias em relação ao rumo que estava a tomar a escola, que avisou com grande antecedência que tinha a intenção de sair – em que é que esse indivíduo traiu fosse o que fosse ao pretender mudar de ares? Talvez por ter sido, no passado, avaliado positivamente em termos de desempenho docente? Mas poderia uma escola ter procedido de outro modo face às evidências existentes e até a uma avaliação que era parcialmente externa? Será essa a justificação para ser alcunhado de traidor, mesmo nem sendo mencionada a menor justificação?

            Não. Estes procedimentos evidenciam simplesmente a natureza dos coletivos, da gente como lhes chamo em tantos textos. Um aspeto inicial central é que nunca importam as razões. Os indivíduos que se identificam com os coletivos, ou seja, que não só lhes pertencem, mas que os consideram como parte essencial da sua identidade, mesmo coletivos de que se tornaram membros de forma acidental ou sem qualquer comprometimento ideológico explícito, consideram qualquer crítica ou discordância um ataque que deve ser ignorado, se possível, desdenhado, se necessário, combatido, se for sentido como uma ameaça. Podem até existir alguns membros que façam críticas análogas, mas elas são rapidamente subsumidas pela maior importância da pertença. Os poucos que chegam ao ponto de sair do coletivo, a não ser que se desejasse, por alguma razão, a saída, serão tratados como traidores mesmo por esses que, em tempos, comungaram as objeções aos órgãos ou práticas do coletivo. Nem esses quererão saber de quaisquer razões porque não pode haver qualquer razão que ponha em causa a pertença. A partir do momento em que se abandona o “nós”, passa-se a fazer parte dos “outros”, não outros indiferentes, mas outros contra os quais o “nós” se erige, mesmo que não seja essa a única razão da constituição do coletivo. Um jogador ou treinador de futebol termina o contrato com o clube. Nada o liga mais ao clube, cumpriu os seus deveres para com o clube e vice-versa. Tem toda a legitimidade para escolher o caminho a tomar na sua vida. Porém, é contratado por um clube rival que lhe dá condições que o antigo clube não estava disposto a dar. Logo, é tratado imediatamente pela massa adepta como traidor. Pensar-se-ia que as escolas não deveriam se portar como clubes, visto não estarem a concorrer entre si num campeonato qualquer. Pensar-se-ia mal. A concorrência entre escolas é inerente à captação de alunos, mas tem sido ainda mais estimulada pelas tutelas, de forma doentia, nas últimas décadas. Mais grave ainda que abandonar o “nós”, importa a adesão a “outros” que o “nós” desvaloriza constantemente como muito inferiores a “nós”. Isso é um insulto inadmissível. O antigo membro passa a ser um “outro” especialmente odioso porque evidencia que a pertença àquele coletivo não implica necessariamente não só a sua aceitação, mas uma entusiástica adesão. O soldado não deve ser apenas carne para canhão, deve sê-lo com intenso patriotismo, por muito que a pátria nunca lhe tenha dado nada que justifique tal paixão para lá do simples cumprimento do dever. O traidor ou o desertor é uma ameaça à própria organização que tem de ser prontamente exorcizada.   

            Arcanos rituais são convocados para cancelar definitivamente a ameaça: o insulto, a agressão, a injúria, a calúnia, a ridicularização e a difamação, tudo práticas que os coletivos nunca chegam a reconhecer como criminosas, exatamente por não serem feitas por indivíduos, mas sim como manifestações da supostamente justa indignação da massa. Qualquer indivíduo subsumido a um coletivo é capaz de atos bem piores que a história bem mostra, mesmo se muitos ficaram silenciados e ocultados para sempre, extorsões, intimidações, assédio, violações, linchamentos, autos de fé, genocídios, etc. O que é um insulto, mesmo que reiteradamente proferido, comparado com um linchamento ou até um genocídio? Assim, até parecerá inocente tal hostilidade, sobretudo na fase em que é disfarçada com o tom de brincadeira. O traidor, porém, provoca um gradual aumento da consistência do coletivo porque este, ao ter de lidar com a ameaça, requer que as diferenças individuais se diluam no exorcismo e este exorcismo é alcançado pelo repúdio generalizado da maioria, em breve do todo (ou o que parece o todo, pois se tende a ignorar as exceções). A pouco e pouco, ao menos face à ameaça, desaparece a pessoa e só persiste ou até se gera o soldado que abdica de considerar quaisquer razões para se reduzir à defesa do “nós” e ao ataque ao “outro”. Este é também um processo de expulsão do ultraje, de forma a sarar o tecido coletivo, esquecendo a pessoa e transformando-a numa coisa repugnante. Essa é, aliás, uma forma embrionária da criação de uma predisposição para levar a cabo ou apoiar os crimes de guerra. Antes de mais, é preciso desumanizar o inimigo, por exemplo, animalizando-o ou diabolizando-o. Apesar de todo este processo terminar com a anulação da importância da ameaça, o facto de ter tido de ser levado a cabo evidencia o estatuto superior do traidor em relação à ovelha negra. A ovelha negra é na melhor das hipóteses tolerada, pode ser denominada como tal até em eventos públicos, humilhada aqui e acolá para assegurar que é posta no seu lugar, mas o seu carácter vil e vergonhoso não ameaça o coletivo, é até sinal da magnanimidade do todo social permitir que tal disfunção permaneça no seu seio. O traidor, ao contrário, requer a convocação de todos, mesmo aqueles que pareceriam antes pouco integrados, para lidar de forma uníssona com a afronta. Isso chegaria para mostrar a sua maior importância. Mas não só. Se o visado fosse alguém que se queria à partida expulsar do coletivo, ninguém se daria ao trabalho descrito. Até poderia ser insultado, mas não como traidor ou desertor. O facto de se ter o trabalho de o desvalorizar, até o seu valor ser totalmente anulado, mostra que, à partida, se dava valor ao indivíduo. Ora, isso é o inverso do que os coletivos expressam com a imagem da ovelha negra, um incómodo certamente, mas, em geral, desprezado. O reconhecimento do estatuto de traidor a alguém que antes era considerado uma mera ovelha negra é, por isso, uma promoção.  

            De facto, a promoção é tão notória que alguns dos que se sentem ofendidos com a traição, real ou imaginária, tentam redimi-la através de súplicas ou de homenagens. A súplica pode surgir mesmo em casos em que a atuação anterior dos suplicadores só poderia ser interpretada como um decreto de expulsão. Mas basta se assumir a rutura que imediatamente a ovelha negra aviltada pode voltar a ser considerada perante a possibilidade de se tornar um traidor. Quanto a homenagens em tal caso, excetuando este ou aquele elemento bem-intencionado, são uma forma de agressão contra a ofensa, um dar a outra face que procura agravar o cariz da alegada traição. Em todos os casos, nunca ocorreriam para uma ovelha negra, pois só o estatuto de suposto, eminente ou efetivo traidor fornece a importância necessária para levar a cabo tais ações. Se Trotsky tivesse permanecido na União Soviética como ovelha negra, para lá de morrer muito mais cedo, seria mais um nome relativamente indiferente nas infindáveis listas das vítimas de Stalin. Ao guindar-se ao estatuto não só de traidor, o que era uma acusação comum e relativamente indiferente nos julgamentos de Moscovo que nem requeria que o acusado fosse ovelha negra, mas o traidor por excelência ao qual eram imputados todos os males e todas as ligações com as potências inimigas que se iam sucedendo, Trotsky acabou por ser revestido de uma importância inigualável. Diria mesmo que o atual esquecimento desse estatuto de traidor, reduziu-lhe extremamente a importância, mesmo se ainda há muitos membros da seita estalinista que referi no início do artigo que continuam a zelar por lhe conferir tal distinção. Várias figuras da vida partidária (nem vale a pena dar exemplos, são demasiado óbvios) reduzidas, por justas ou injustas razões, ao estatuto de ovelhas negras, figuras totalmente rebaixadas ou até achincalhadas, ganharam uma nova vida ao romperem com o partido, podendo mesmo, mais tarde, ser recebidas de novo no mesmo partido, após ter lutado explicitamente contra ele, com toda a consideração restaurada. O mesmo se poderia exemplificar com transferências entre estações de televisão, conselhos de administração, trocas de empresas por trabalhadores especializados, etc. Na verdade, mesmo a traição individual tem o mesmo resultado. Alguém desprezado pelo parceiro faz renascer o entusiasmo e/ou nascer o ódio com a traição. Porém, a verdadeira traição a indivíduos parece bem mais ignominiosa do que a traição a coletivos, mesmo que não seja imaginária como várias das aqui relatadas. E isso ocorre por várias razões.

Em primeiro lugar, a relação individual é uma relação entre rostos. A intimidade dos rostos fica conspurcada pelas máscaras maliciosas que se interpõem. Pelo contrário, as máscaras são inerentes ao existir social, são mesmo exigidas constantemente, de tal forma que se é frequentemente condenado por não ter afivelado a máscara devida. Pior ainda, se a comunhão de rostos se aprofundou ao longo do tempo, qualquer cansaço, qualquer indiferença, qualquer ansiedade deve ser comunicada, pode até dar origem a rutura, mas não deve tornar-se suporte de traição. Quando se trai um rosto com a dissimulação de outro rosto perversamente mascarado, perde-se a autenticidade da existência e ingressa‑se no comércio obsceno das satisfações. Será sequer possível depois ter um rosto autêntico? Em segundo lugar, como procurei mostrar neste artigo, os coletivos consideram traição qualquer desvio à conformidade, não reconhecem direito à pessoa a não ser como seu servo, perseguem a diferença como se esta fosse inerentemente um insulto à sua identidade. Para sujeitar as pessoas, inventam abstrações fictícias que tratam como se tivessem realidade substancial, civilização, nação, classe, religião, partido, género, clube, até empresa ou escola. Um aldrabão que talvez venha a ser primeiro-ministro deste país defendeu a existência de um gene de ser português e a horda galvanizou-se entusiasticamente. Mas esta é a natureza mistificadora de todos os coletivos. Rejeitar essa imposição da sujeição nem traição é, é um grito de rebelião da pessoa encarcerada, é uma simples manifestação de saúde de um ser humano enquanto humano, é uma vitória precária da autenticidade de um indivíduo, de uma existência. Em terceiro lugar, não é apenas nos regimes totalitários que se eliminam sistematicamente as manifestações individuais por serem consideradas uma ameaça sistémica ao domínio total. Talvez haja menos recurso ao assassínio em massa, mas isso não significa que os coletivos não procurem eliminar de toda a consideração possível todos aqueles que se destacam por alguma particularidade, mesmo que essa particularidade em nada ameace o coletivo ou a sua chefia. Ora, isso leva a que os coletivos, em situações regulares, sejam absolutamente dominados pela mediocridade ou até por um nível que seria à partida inferior à mediocridade. Muitos são os autores que sublinham que a principal razão que levou à derrota estrondosa inicial dos russos na segunda guerra foi a eliminação sistemática de toda a competência militar nas purgas da segunda metade dos anos 30. De facto, nem conseguiram a vitória frente ao modesto exército finlandês. Ao contrário, o regime nazi começa por usar toda a competência acumulada no exército alemão, ainda não purgado ou rebaixado, e é ao longo da guerra que essa competência é desbaratada e substituída pelos lacaios ideológicos, nomeadamente submetendo o exército ao comando das SS. A partir de 41, a incompetência germânica tornar‑se-á cada vez pior, chegando a assemelhar-se à original dos soviéticos. Não conseguirão recuperar-se dela, até por não terem a imensidão do território soviético que permitiu, devido à situação de extrema emergência, voltar a selecionar os mais capazes disponíveis (quando não criar de novo) de forma a poder responder eficazmente à agressão. Porém, assim que acabou a guerra, novas purgas se livraram dessa nova perigosa competência. Tudo isto foi descrito longamente por diversos autores e pertence aos lugares-comuns da historiografia ordinária.

No entanto, como descrever a incompetência extraordinária do exército francês em 40, acompanhada em grande medida pelos britânicos que depois se tentaram redimir na batalha de Inglaterra? As próprias decisões da Iª Guerra, praticamente de todos os lados, atingem tal nível de absurdidade (mortos aos milhões para nada) que só podem ter na sua base uma extrema falta de mérito. E, apesar de ser um governo autocrático apenas, ou seja, não totalitário, como compreender a absurda colocação estática de tanques ao longo de mais de 60 Km de estrada, no início da guerra da Rússia com a Ucrânia, que apenas serviu para os esquadrões ucranianos fazerem tiro ao alvo? Tenho, aliás, a certeza que se se investigasse a generalidade dos malogros das grandes potências, Vietnam, Afeganistão para ambas, Iraque, encontrar-se-ia, por todo o lado o mesmo predomínio da mediocridade. De onde me advém a certeza? Da verificação empírica que é assim que procedem todos os coletivos em situações regulares. Se o podem fazer, preferem afastar as simples sombras de ameaças e recrutarem pessoal que se destaca por não se destacar em nada, que se afigura insuscetível de alguma vez fazer uma crítica, muito preocupado em se conformar à conformidade e se apresentar como inerentemente servil. É sabido que muita malícia e dissimulação se oculta, muitas vezes, nesta atitude, mas até na falta de princípios desta gente sub-reptícia os coletivos confiam sempre mais do que no mérito, pois sabem que, em princípio, estarão dispostos a defender veementemente o que for mais indefensável e trair tudo e todos para servir a chefia. A única forma de os coletivos darem valor ao mérito é a existência de uma situação de extrema emergência com a qual o coletivo de medíocres não consegue lidar. Na verdade, tais coletivos são invariavelmente ineficazes e tendem a ser devorados pelos mais diversos tipos de corrupção. Se um partido fascista desata a berrar corrupção, mesmo que seja evidente ser um coletivo com estas mesmas características, há sempre muita gente para o ouvir porque sabem bem a sociedade em que se integram. No meu país, a condução da política de saúde durante a pandemia foi desastrosa e errática sob diversos pontos de vista, mas só quando se atingiram os piores números do mundo é que, finalmente, recorreram a alguém mais competente, em determinadas dimensões, para pôr nos eixos a campanha de vacinação. É preciso grandes crises para os partidos se livrarem dos seus homens do aparelho e irem buscar alguém com mérito. Nos desastrosos incêndios de 2017, a nomenclatura resistiu incólume aos primeiros desastres, só sendo mudada na segunda fase – e não é claro que tivesse sido substituída por algo melhor, havia a confiança que as próprias condições climatéricas tratassem do problema (afinal já se estava em outubro).

Ora, porque razão é que um indivíduo que sempre assumiu a sua responsabilidade a título individual e que viu sempre os coletivos a lutarem sem freio contra qualquer afirmação individual que não fosse a anulação do indivíduo para se pôr ao serviço do coletivo, haveria de ter quaisquer escrúpulos em fazer algo que o coletivo consideraria uma traição, apesar de não trair o mínimo compromisso pessoal? Porque razão deveria ter qualquer deferência, para lá do estrito cumprimento da lei, perante instâncias que não se coíbem de usar sem limites as competências dos indivíduos, bem para lá dos deveres destes, sem nunca reconhecer o seu serviço e sempre reconhecendo uma espécie de aristocracia da mediocridade que só se destaca, não por um serviço, mas por ser servil[4]? Em tempos, quando ingressei numa escola, deparei-me com um lema do seu projeto educativo que me deixou estupefacto: pensamento coletivo. O PCP já tinha passado o período da sua maior influência, mas convenci-me que ali se encontrava um reduto subsistente da mesma. Estávamos já próximo do fim do governo Guterres. Ora, há medida que o tempo foi passando, percebi que a escola estava mais alinhada com o governo – de facto, ao longo dos anos, fui verificando que se alinhava com qualquer governo. Como os coletivos não pensam, o lema referido apenas exigia, na verdade, uma coisa: conformismo. Com o passar dos anos, foram também mudando os lemas e até passaram a incluir ideias bem mais aceitáveis, mas todas elas eram diversas formas de mentir. A única exigência que, de facto, se manteve foi aquele conformismo do lema inicial em relação a tudo e mais alguma coisa que a chefia decidisse. Mas, ao ser contratado, essa exigência não constava do concurso, nunca a votei e muito menos a aprovei, antes pelo contrário. Porque então seria uma traição minha a recusa desse conformismo ou de uma das suas metamorfoses mais extremas?

Os coletivos não criam nada, não resolvem nenhum problema, não produzem coisa alguma. Pior, têm a tendência já referida a basear o seu poder nos piores ou, ao menos, nos medíocres. O carreirismo é, habitualmente, uma mera competição de estupidez. Como se consegue, então, avançar e fazer alguma coisa com valor? Muitas vezes, não se consegue, mas, se houver necessidade de o fazer, o habitual é conseguir o trabalho de alguém competente, sem lhe dar qualquer crédito. Os governos não conseguiriam fazer seja o que for de meritório não foram técnicos especializados anónimos que nunca serão referidos. A melhor arte que pode ter um incompetente é conseguir tais serviços competentes – muitas vezes, nem isso consegue por não ser capaz de discernir a competência. Eventualmente, em períodos de grande crise, a competência pode ser reconhecida, mas o mais provável é que essa competência resida exclusivamente na capacidade de selecionar serviços de outros verdadeiramente competentes. Por outro lado, quando se fala de um valor que transcende o mero funcionamento, muitas vezes o valor de um indivíduo até pode vir a ser destacado, mas depois de já ter sido sacrificado pelo coletivo. O coletivo extrai os despojos do sacrificado e apropria-se deles à sua maneira, sempre de forma extremamente distorcida. Toda a inovação, toda a criatividade, toda a compreensão provém de pessoas mais ou menos isoladas que, invariavelmente, acabam por ser traídas pelas estruturas coletivas, no mínimo não sendo reconhecidas ou só o sendo quando já não vale a pena, por vezes após a morte, e de uma forma que adultera o seu contributo. O coletivo precisa dessa inovação e criatividade, mas não está disposto a suportar os próprios criativos quando brotam e florescem. Até o máximo, podem, aliás, ser ridicularizados, difamados ou eliminados quer da memória, quer, em certos regimes, da existência. E devo me preocupar com os veredictos dessas instâncias? Ser considerado traidor por elas é um distintivo que me honra.

Ser considerado ovelha negra pode ser até pitoresco, pode originar chistes bem humorados e nada mal intencionados, pode até ser objeto de carinho e permitir a identificação de um espaço próprio no seio de um coletivo, criar uma forma de pertença, mas é sempre aviltante, uma forma da gente mostrar a sua superioridade através da tolerância, um modo de mostrar a condescendência que permite a uma ovelha tresmalhada, apesar de tudo, continuar a ser recebida no rebanho, uma marca que identifica alguém como membro, certamente, mas com o destaque de ser o pior de todos, o de menor valor, o mais desprezado, maculado como enjeitado, como desqualificado, como inapto, como inválido. Aceitar prolongar a qualificação de ovelha negra é aceitar um estatuto de exclusão que deve estar grato pela compadecida caridade envolvente que até se dispõe a suportar a presença insuportável, aceitar que a sua contínua depreciação se torne coloquial, aceitar ser cada vez mais reduzido a um farrapo por simplesmente ter medo de romper com o ambiente que o apouca. Na verdade, pior que este estatuto só o da carneirada que anula a sua individualidade ou a torna servente das determinações do coletivo, convertendo a possível pessoa num títere sempre buscando sujeitar-se à conformidade, sempre pronto a apoiar os maiores disparates das chefias, um invólucro do qual foi extraída toda a autonomia que se supõe constituir a essência do humano. É verdade que existem muitos que contemporizam, só colaborando o estritamente necessário para não serem alvo de rejeição. É óbvio que não estão verdadeiramente empenhados no coletivo, mas também em nada a ele se contrapõem – as experiências totalitárias mostraram, porém, que é dessa massa pouco galvanizada à partida que depende a extensão do poder até se tornar total, pois não tem resistências intrínsecas capazes de se opor a uma ascensão emocional global. Ao menos, a ovelha negra mantém uma teimosa resistência que é a condição de possibilidade do ser pessoa, uma versão negativa da vontade que contém o embrião da autenticidade e da diferença que recusa a adesão acéfala à verdadeira traição, a da anulação da individualidade. É verdade que o humano é tudo menos racional e só muito precariamente possui alguma autonomia. A espécie humana sempre se caracterizou, maioritariamente, pela demência e pelo servilismo à demência. O totalitarismo só confirmou esta verdade à exaustão. Mas o indivíduo humano é capaz de ser mais, é capaz de ter como objetivo superar-se pela razão e/ou pela vontade, sendo isso que o torna digno de respeito, mesmo que apenas por tentar. A condição negativa para isso é a ovelha negra do coletivo, o que não vai por aí. A condição positiva só pode ser atingida por um traidor segundo os critérios do coletivo, embora não qualquer traidor, apenas um que renegue o próprio coletivo para não se trair a si mesmo. Esse é o primeiro passo para o objetivo de ser pessoa, se ser pessoa é algo merecedor do respeito devido a uma dignidade especial e não apenas uma designação de um membro da espécie que, só por isso, não possui qualquer respeitabilidade que o diferencie, que, só por especismo, se pode considerar como possuindo um valor superior. Seja qual for o ideal que vise realizar, é um objetivo porventura inatingível, mas cujo valor consiste em exatamente tentar sê-lo. E só aí há a esperança da redenção da espécie de ser mais que uma besta demente, esperança perenemente precária e eternamente malograda, mas a única que, na verdade, vale a pena.



[1] Não é de admirar, pois só foi reconhecida pela URSS no tempo de Gorbachov. Dado o PCP não lidar bem com este consulado, tal como continua a negar as fomes do tempo da coletivização forçada, é possível que continue a manter a mesma posição também sobre este assunto.

[2] Mesmo não conhecendo, como é cronologicamente óbvio, os termos na altura.

[3] Já descrevi o processo noutro texto: Joaquim Lúcio, O Jazigo do Poeta, III – terra, 3ª ed., 2022, KDP, p. 203.

[4] Frequentemente, servis para quem considerarem acima, despóticos, para não dizer pior, para quem considerarem abaixo. Nada é mais demonstrativo da falta de carácter que tão regularmente é recompensada pelos coletivos.

10.11.25

Aposentação

 

Hoje, pela manhã, a janela ofereceu-me a visão de uma massiva queda de folhas. Ontem, ao fim da tarde, recebi a notícia definitiva da minha aposentação. Chegou o outono. Chegou o ocaso da vida. Há uma certa tranquilidade em ter decidido antecipá-lo, um pouco como alguém que decidiu o suicídio e só lhe resta viver os últimos minutos, os últimos segundos, os últimos instantes, a serenidade de caminhar para o seu próprio patíbulo. Vou receber menos de 29% do que ganhava, talvez um pouco mais quando puder fazer as contas à remuneração líquida. Em breve, subiria, aliás, para o último escalão da carreira e a diferença seria ainda maior. Porquê, então, ter escolhido fazer o que fiz?

Uma razão preliminar prende-se com o caminho para o abismo que alegremente continuamos a percorrer. A agressão global do planeta nunca se irá infletir enquanto os indivíduos busquem sempre ter cada vez mais. Não são os capitalistas malvados que são as causas desta predação dos recursos, mesmo se a executam e potenciam. Eles fornecem o que os indivíduos desejam, muitas vezes sem sequer saberem à partida que o desejavam, pois a raiz desse desejo é a desesperada fuga de cada qual à sua condição finita através do entretenimento. Por isso mesmo, uma das características inerentes à existência inautêntica é a ânsia de novidades. Nada há pior e mais insuportável para os indivíduos privados de autenticidade do que a falta de novidades que os consiga efetivamente distrair, quer pelo deslumbramento, quer pela intensidade, quer pelo espanto, seja lá o que for desde que garanta que o indivíduo não fica repentinamente despojado do que o atraia para fora de si e reste reduzido ao confronto consigo mesmo, em toda a sua impotência, indigência e vazio. Mas tais momentos são extremamente raros porque todo um imenso mercado planetário oferece ininterruptamente novidades que impedem constantemente que os indivíduos fiquem nus perante si mesmos. Para garantir o fornecimento contínuo de produtos e serviços, todo o planeta é devassado em busca de recursos que garantam a prossecução e crescimento do consumo. A orbe é totalmente redesenhada para acomodar a distopia tecnocientífica da urbe global em que não haverá lugar para qualquer biodiversidade que não a que servir a busca cosmopolita de lazer em reservas diligentemente preservadas para o turismo e os ecossistemas que o homem secretamente arrasta consigo ocultos nas fundações dos seus edifícios e nos seus esgotos. A hipocrisia do ambientalismo atual, quer o dos ativistas, quer o dos políticos que dizem defender o desenvolvimento sustentável, só é minorada pelo facto de serem muito poucos os indivíduos que ainda conseguem pensar de forma complexa, contextualizada e rigorosa. Na verdade, quase é preferível a atitude dos trumpistas desta vida que se estão a borrifar para quaisquer preocupações ambientais. Os ativistas supostamente preocupados são dotados de uma verdadeira arte marcial do pensamento unilateral, pois são capazes, na mesma frase, de exigir o fim do uso dos combustíveis fósseis e o fornecimento de energia grátis ou, ao menos, muito mais barata – para quê? Naturalmente, para poderem consumir à vontade, sem constrangimentos de qualquer tipo. O mesmo se diga das medidas simbólicas ou cosméticas dos nossos políticos supostamente empenhados no desenvolvimento sustentável. Todas as medidas não passam de paliativos concentrados na única questão do aquecimento global que, naturalmente, de forma alguma evitam, sobretudo no ambiente marcial recente. Mas imaginemos que os Trumps até tinham razão, sabe-se lá como, e não existia aquecimento global antropogénico nenhum. Por acaso, deixariam de existir problemas ambientais, deixaria de estar em curso uma agressão global ao planeta, deixaria de estar a ocorrer a maior extinção da biodiversidade do decurso deste astro, ao menos num tão curto período?

Só existe uma forma de infletir o caminho para o abismo, embora a reconheça inexequível a não ser eventualmente num cenário apocalítico. Sobretudo nos antros de privilégio do planeta, é necessário viver com muito menos, ter um estilo de vida muito mais modesto, decrescer economicamente de forma drástica. Mesmo isso, se fosse exequível, seria moroso e deveria ser acompanhado de medidas draconianas de controlo da natalidade em todo o planeta. O consequente envelhecimento temporário da população até contribuiria para o arrefecimento económico, mas só se houvesse uma aceitação generalizada de uma forma bem mais humilde de viver. Foi exatamente o que decidi fazer ao decretar um corte de mais de 71% aos meus rendimentos, apesar de ainda ter um filho dependente, como se estivesse a dizer, para quem me quisesse ouvir, que é possível viver com muito menos do que atualmente se vive. Não é a primeira vez que o faço. Durante mais de 20 anos, toda a minha juventude, recusei tirar a carta por não querer contribuir para a poluição global. Quer uma, quer a outra atuação foi e será totalmente inútil. Mas não deixa de ser um marcar de posição contrária à absurdidade do caos atual a que se chama, habitualmente, mundo. Naturalmente, tal corte só é suportável por não ter uma casa para pagar, se se excetuar o IMI. Uma filha minha está a comprar uma casa mais pequena que a minha por quase 8 vezes maior preço do que aquilo que paguei – e certamente a inflação não explica a imensa diferença. Fá-lo porque a sua renda ia aumentar para um valor igual ou superior à obscena prestação que terá de pagar a partir de agora ao banco. Que governos ditos socialistas tenham criado ou permitido esta situação incomportável para as novas gerações entra no topo das traições iníquas que políticos executaram contra os seus supostos, mas alegados ideais. Que ex-governantes diretamente responsáveis pela área em causa durante muitos anos tenham a desfaçatez de vir, agora, criticar os responsáveis atuais entra também para o topo da mais completa falta de vergonha. Mas, sobretudo, tal distorção aberrante das condições de vida sobretudo dos mais jovens (mas não só) é consequência direta de um dos mais nefastos fenómenos do nosso tempo para a sustentabilidade planetária, um setor económico de puro consumismo que não satisfaz qualquer necessidade primária, que gasta recursos sem fim, que desvia força de trabalho de setores essenciais (colmatada com imigração maciça que, depois, serve de pretexto para os movimentos xenófobos) e que destrói todos os recantos em que se lembra de tocar. Estou a referir, naturalmente, o turismo, sobretudo o turismo de massas internacional praticado por tanta gente que se considera ambientalista. O turismo, a par com o desporto de alta competição, constitui o símbolo por excelência da nossa época perdulária, capaz de gastar oceanos de recursos só para garantir o entretenimento custe o que custar. O mais inacreditável nesse turismo de massas não é, porém, o seu impacto predatório, mas sim o facto de os indivíduos estarem dispostos a suportar situações absolutamente excruciantes para poderem tirar uma foto mentirosa, para poderem dizer aos conhecidos que estiveram em tal sítio, para poderem desesperadamente fugir do seu vazio existencial. Os indivíduos sujeitam-se às condições mais aviltantes só para ganharem o prémio de ter estado em Massai Mara nas migrações ruminantes que prejudicam gravemente, num suposto recanto paradisíaco tailandês ou polinésio infestado de gente, em Petra, no Taj Mahal, em Machu Picchu, em Gizé, em Paris, no Pártenon, na Sagrada Família ou nos Jerónimos – em todo o lado sofrem longas esperas amassados na multidão, multiplicam o stress do frenesim das deslocações, alimentam-se em manjedouras massificadas que não frequentariam na sua terra, fotografam-se apressadamente em todo o lado sem viver em lado algum, tudo isso e muito mais para garantir uma muito precária fuga a si próprio. Se há um paralelo possível para tal absurdidade, só me vem à cabeça os junkies que se sujeitam aos sofrimentos mais ignominiosos só para garantir a próxima dose. E, se este negócio satisfaz a voracidade de uma ínfima minoria, assim como fornece o rendimento a muitos trabalhadores, tem um fortíssimo impacto em todas as sociedades onde ocorre, provocando enormes danos ao nível de vida da maioria. As populações são expulsas das suas localidades originais e, ainda assim, têm de suportar, mesmo na periferia, condições extremamente onerosas. Toda esta busca do exótico massificado apenas garante danos absolutamente colossais ao meio ambiente, sem resolver em nada o desespero humano que a motiva. No regresso, apenas se avolumaram as situações familiares de que se procurava fugir e há que garantir mais consumos diversificados para poder suportar o insuportável. E lidar-se-ia com tudo muito melhor se apenas se ouvissem os conselhos dos Antigos e se procurasse viver uma vida frugal, moderada e modesta – é essa vida que me proponho a viver, visto não estar sujeito aos efeitos mais nefastos dos preços exorbitantes atingidos devido ao consumismo desenfreado.

Para lá desta razão preliminar, mais colocada pela negativa, há, porém, três conjuntos de razões principais e muitas adicionais acessórias para esta aposentação tão penalizadora em termos de rendimento. Penso que chega referir as principais.

Em primeiro lugar, o meu estado de saúde. Não vou aqui descrevê-lo, pois isso pertence a um domínio que me parece demasiado privado. Porém, sempre que o menciono, ouço invariavelmente a mesma pergunta: porque não arranjo um atestado? Durante a minha carreira, já a caminho das quatro décadas, vi muitos sinais da putrefação da vida social, mas poucos me pareceram tão corruptos como o recurso aos conhecimentos e/ou ao dinheiro para forjar atestados fraudulentos de longa duração. O que pensar de professores cujas baixas se prolongam até por anos, com alegadas lesões que não aceitariam de alunos como justificativas sequer de uma semana, mesmo quando aqueles beneficiavam de muito maiores facilidades de transportes? A falta de vergonha era diretamente proporcional à importância longamente cultivada na comunidade e/ou nos estabelecimentos de ensino. O certo é que passavam por juntas médicas com tanta facilidade como arranjavam os atestados. E o que é espantoso é que tais indivíduos continuassem a ser tidos em consideração pelas instâncias que prejudicaram de forma descarada. Porém, pensando bem, é natural que se tivesse em conta quem tinha mostrado tanto poder ao ponto de executar as fraudes à vista de toda a gente. Aliás, muitos outros casos de tipos diversos, não envolvendo alegadas questões de saúde, mostrariam esse mesmo arbitrário direito do poder. Como a “gente” não tem princípios e só reconhece a força, seriam de estranhar outros desenlaces. Mas pior ainda é a, em geral, inquestionada atuação corrupta da classe médica, muitas vezes nem agindo com o dolo associado legalmente ao crime de corrupção, ou seja, nada recebendo por isso, mas emitindo, de qualquer forma, atestados a pedido. A noção de corrupção está longe de se restringir ao crime tipificado no código penal, correspondendo a toda a atuação que contribui para a putrefação do tecido social, nomeadamente através da efetivação da desigualdade de tratamento, do sacrifício daqueles que têm sentido de dever em favor daqueles que não têm quaisquer princípios ou só têm códigos morais convencionais e/ou para os outros, do prejuízo das instituições e empresas, assim contribuindo sem cessar para o prejuízo global do todo social. Claro que nem se sente a diferença numa sociedade toda infetada pelo tráfico de influências e pela gestão constante do comércio de favores. E isto é algo que toda a “gente” sabe, embora nunca o diga explicitamente – mas estava implícito em cada vez que me fizeram a sugestão de arranjar um atestado. E, se bem que considero infundadas as pretensões de valores éticos intrínsecos, não posso deixar de repudiar as atuações que não podem deixar de agravar a saúde social, âmbito de onde sempre vieram os referidos valores, mesmo quando foram, como sempre, mal pensados em termos de vantagens para o tecido social. Não, não fui, nem vou “arranjar” nenhum atestado e considero a própria sugestão insultuosa, considerando-me, implicitamente, um dos deles.

O meu estado de saúde fornece o primeiro conjunto de razões não propriamente porque veja grande problema na morte, mas porque essa morte ocorreria sem sequer me ter libertado, por fim, do ambiente kafkiano dito da educação. Mas isso será tratado nas motivações seguintes.

Em segundo lugar, a deterioração assustadora das minhas capacidades cognitivas. Este motivo deve também ser associado ao primeiro conjunto. O ambiente a que se chama sistema de ensino é dos mais corruptos que conheço, no sentido em que tratei a noção de corrupção num parágrafo anterior, ou seja, sem que, em geral, na maioria dos casos, ninguém receba dinheiro por nada. É verdade que, no passado, cheguei a suspeitar que muitos professores eram especialmente rígidos a “dar notas” para criar clientes para o negócio das explicações que transacionavam com professores idênticos de outras escolas (e, por vezes, da própria escola). Alguns chegaram mesmo a confidenciar-me ser essa uma sua prática perfeitamente consciente, muito embora certamente o negassem em público. Esse negócio, porém, reduziu-se muito significativamente com a multiplicação de medidas inclusivas. Considero mesmo este o único aspeto inequivocamente positivo de tais medidas. Claro que ainda se vai fazendo o negócio, mas muito mais vocacionado para as pretensões de pais e alunos atingirem classificações superiores às que normalmente atingiriam para conseguir ingressar em certos cursos. Sendo assim, como posso considerar que o ambiente do ensino é extremamente corrupto? A maioria das vezes a razão para tal ambiente é simplesmente a preguiça. Imagine-se um docente que faz o mesmo teste para todas as turmas. Obviamente, a primeira turma a que é aplicado o teste é extremamente prejudicada, pois as outras já vão saber o que “sai”. Não deveria a mínima decência fazer com que o professor assim não procedesse? Qual quê. Alguns obrigam os alunos a entregarem o enunciado, com uma esperança mágica que assim a informação não chegue aos outros. Nunca lhes passa pela cabeça terem um pouco mais de trabalho. Já nem falo das ótimas condições para a cópia que esta única versão propicia. Muitos são os professores que declaram que este e aquele aluno copiou por um outro. Nem circula uma aragem entre os ouvidos a sugerir-lhe ser sua a responsabilidade de criar as condições para que isso não aconteça. Ou melhor, circular, já circulou, mas habituaram-se à prática e até podem arranjar argumentos esfarrapados para a justificar – por exemplo, alegam ser injusto que umas versões possam ser mais difíceis que as outras e que nos exames também só há uma versão ou duas com apenas trocas das escolhas múltiplas. Nem referem a distância bem maior dos alunos nos exames, para lá da simultaneidade. Podem até, frente à possibilidade de verdadeiras múltiplas versões, como os alunos cábulas (que querem o colega do lado a fazer uma versão igual) ou os da eterna galinha da vizinha que é sempre melhor que a minha, isolarem uma questão no meio de 15 ou 20 e dizerem que é mais difícil que a outra da outra versão, em vez de considerarem o todo do teste. Mas, sobretudo, nunca referem o abismo que separa uma pequena eventual diferença de dificuldade e a corrupção do tecido social que representa alguém que não sabe nada e nem quer saber ter uma boa classificação que um aluno esforçado, mas isolado ou honesto, não consegue ter. E o facto de não referirem algo tão óbvio evidencia o verdadeiro motivo por trás das práticas, a fiel preguiça.

Alguns, tendo consciência das múltiplas injustiças criadas por estas práticas, dizem antecipadamente as perguntas que sairão e as respostas devidas, chegam mesmo a ditar as respostas durante os testes e obtêm assim classificações muito inclusivas. Escusado será dizer que assim que tal sistema se instala, toda a aprendizagem cessa, como se pode verificar nos resultados se ocorrerem exames externos, contra os quais estes professores são naturalmente os primeiros a insurgirem-se. Claro que podem simplesmente acabar com quaisquer testes para que não exista qualquer verdadeiro meio de escrutínio da aprendizagem, o que é o que as Direções “modernas” defendem até por pressão das tutelas. Os outros instrumentos de avaliação até podem ser, se fossem concretizados como foram concebidos, bem mais exigentes, mas todos os docentes sabem que a sua introdução se destina a alcançar o sucesso e não a aprendizagem. Bem me recordo de como a bem exigente introdução dos portefólios se tornou rapidamente numa grosseira avaliação da arrumação dos dossiers, deixando, a muito curto prazo, de ter qualquer sentido. Mas arranja-se sempre novas formas de executar fraudes do ponto de vista educativo e há sempre palhaços gurus da educação que as sancionam todas, mesmo recorrendo aos piores sofismas como o de que, ao levar a cabo verdadeiros testes e exames, se está a ensinar as crianças, como se precisassem de tal ensino, “bons selvagens” dos tempos modernos, a serem desonestas. Porém, caso nenhuma destas práticas forje o sucesso exigido, existe uma miríade de outras práticas que não vou detalhar para forçar aprendizagens fictícias, decisões arbitrárias de aprovação e de melhoria das classificações, iniquidades múltiplas dentro dos mesmos estabelecimentos para satisfazer interesses bem conectados e, finalmente, caso nada mais resulte, extorsões autênticas sob ameaças veladas ou até explícitas. E a corrupção do tecido social presente e, sobretudo, futuro não cessa de crescer, sempre sob a pressão de políticos sem escrúpulos que sabem que a grande arma da demagogia desde a antiga Grécia é a lisonja.

E o que tem tudo isto a ver com a minha primeira afirmação? Ao longo de toda a minha carreira, procurei ser decente. É difícil tal a indecência reinante. Para garantir a equidade, multipliquei o meu trabalho cada vez mais, não só nos famigerados testes, mas através de múltiplos outros instrumentos de avaliação. Se acabava por inflacionar as classificações, fazia-o sempre segundo critérios universais. Tendo em conta que a minha lecionação era invariavelmente mais exigente que o habitual na disciplina em que sou formado, nem me parece que beneficiasse assim muito os alunos com a referida inflação. Assim, porém, garantia aprendizagens significativas a quem estivesse disposto a aprender. Isso tornou, durante bastante tempo, menos absurda a atividade docente. Por outro lado, durante a maior parte da minha carreira, na verdade a esmagadora maioria, fui sempre diligente nos cumprimentos administrativos, até porque a incúria, o desleixo, quando não a prevaricação em tais funções, é um terreno fértil para proliferarem outras práticas corruptas. Porém, isso garantiu-me uma ainda maior multiplicação do meu trabalho com inúmeras tarefas adicionais. Tal execução dessas tarefas obrigou-me a não ter dias de descanso, a estar sempre ocupado e nunca ter disponibilidade mental para mais nada. E assim desperdicei as minhas capacidades cognitivas, diluídas neste ambiente tóxico em que apenas procurava preservar a minha decência, cumprindo o que julgava serem os meus deveres. Sobretudo, sinto-me sufocado por toda a atmosfera de inutilidade e absurdo que pesou sobre todo esse exercício de longos anos. Estou longe de ser o único, em menor ou maior grau, mas se quem assim age e assim se sente fosse a maioria, há muito que o sistema de ensino seria algo mais decente. Porém, a maioria vai apenas reagindo indolentemente ao ambiente e assim vai durando, ao passo que alguns poucos se encarregam de mudar de crenças e princípios a cada mudança na ideologia governamental, sempre garantindo a prossecução de todos os desígnios do poder, sempre pensando em quais os argumentos que poderão ser carreados para os defender e nunca revelando qualquer integridade ideológica própria que persista para lá dos consulados, nem sequer procurando disfarçar com uma aparência de articulação as mudanças sucessivas. Admito que também esta possa ser uma tarefa árdua, mas é sempre mais fácil não ter espinha e assim se moldar aos propósitos alheios e politicamente superiores. Sinceramente, não tenho dúvidas que, se continuasse até ao fim da carreira, sobretudo tendo em conta algumas circunstâncias adicionais mais recentes e que tratarei no terceiro conjunto de razões, caso persistisse vivo, perderia as poucas faculdades que ainda me restam. Quero tentar usá-las, por fim, em alguma coisa que valha a pena e mesmo que já não o consiga fazer, ao menos libertarei deste teatro do absurdo do sistema de ensino o que me restar de lucidez.

Em terceiro lugar, suponhamos que, numa civilização extraterrestre longínqua, um jovem se licenceia em, por exemplo, engenharia civil e que concorre a um emprego que exige, como condição necessária, a licenciatura em engenharia civil e só em engenharia civil. É aceite e começa a laborar, mas, desde o primeiro instante, é sistematicamente censurado por usar até os mais elementares conceitos de engenharia. De facto, tudo o que lhe é solicitado tem pouco ou nada a ver com engenharia civil: tem de organizar eventos, elaborar relatórios relativos ao funcionamento da organização, preencher infindos formulários, participar em atividades de animação, etc., mas nem é requerido que faça, por exemplo, uma verificação da planta de um edifício. Como a sua formação é aquela, não pode evitar recorrer a ela aqui e acolá, mas fá-lo cada vez mais clandestinamente. A pouco e pouco, perde as competências de engenharia que tinha e só lhe resta pensar em sair ou olvidar a sua formação. Acontece que acaba por perceber que a hostilidade à engenharia é generalizada no seu país e embora também perceba que inúmeros desastres estavam a acontecer devido à negligência de tais competências, a maioria não tem sequer competência para perceber que o caos nas construções e outros empreendimentos advém desta atitude dessa mesma maioria. De facto, em vez de reverem a sua atitude, culpam os meios académicos e exigem que eles se tornem mais simples e acessíveis, em vez de se perderem em intrincadas complexidades que julgam não servirem para nada. E, por muito óbvia que seja a absurdidade, ninguém se questiona porque exigiam competências específicas no acesso aos empregos, se depois as desprezavam ou menosprezavam.

Ora, essa é cada vez mais a situação do nosso sistema dito educativo. Desde o início da minha carreira, senti essa hostilidade generalizada ao saber académico. Grande parte dos docentes e até dos responsáveis das escolas fazia gala de nunca mais ter pegado num livro da sua área após o curso, se excetuarmos os manuais escolares. Há já uns valentes anos, lembro-me de uma mestre de Geografia que passou uma vergonha num concurso televisivo por não saber qual o estreito que separava a Ásia da América. Isso não é nada de especial. A ignorância nas próprias áreas dos docentes é verdadeiramente pandémica. Poderia dar muitos exemplos concretos disso, mas o que é mais impressionante é que essa ignorância está muitas vezes associada ao maior poder no seio das escolas, mantendo-se os docentes mais conhecedores em posições discretas, a não ser que não haja alternativa. Não é só nos regimes totalitários que o mérito é liquidado e se busca, sistematicamente, valorizar a mediocridade, a ausência de princípios e o servilismo. De facto, para poder contemporizar neste ambiente, assim como para descer a bitola para a tornar compatível com o nível de conhecimento e de linguagem requerido, o docente deve se tornar cada vez mais ignorante, quando não mais estúpido. Não vale a pena fingir, será descoberto. Se quiser sobreviver, terá de regredir e muito. Por outro lado, desde há muito que qualquer valorização académica na área específica é menosprezada no Ensino Básico e Secundário e o próprio impacto na carreira tornou-se cada vez menor. A tentativa contrária de exigir a maior parte da formação contínua docente na área específica foi rapidamente escamoteada, sendo considerada formação específica tudo e mais alguma coisa que se enquadrasse nos desígnios ministeriais, sobretudo a propaganda pedagógica e o desenvolvimento de competências digitais. Há muito que ouvi responsáveis das escolas a defender que qualquer professor poderia ensinar (já foi há tanto que ainda se dizia ensinar) qualquer assunto. Presumo que hoje com a alegada inteligência artificial e com as DAE ainda seria mais fácil. Na realidade, ao longo de muitos anos, bem antes das DAE, o cumprimento programático já tinha sido reduzido a uma superfície esquemática em que se considerava um mal aprofundar fosse o que fosse. O ataque ao conhecimento pelo conhecimento foi e é constante, pretendendo com tal ataque visar todo o saber disciplinar. Na verdade, os ideólogos educativos defendiam e defendem a dissolução das disciplinas e o próprio fim do ensino. O sistema educativo deveria, apenas, propiciar condições para os alunos desenvolverem os seus projetos autónomos. Em todos os casos em que se desenvolveu tal prática, esses projetos autonomamente desenvolvidos eram, na maioria dos casos (claro que houve casos contrários e até brilhantes), miseráveis. O papel dos docentes era, no fim, mascarar os resultados, dando ideia de que tinha ocorrido uma grande aprendizagem. Nos casos em que não existiam exames, podia-se inventar os resultados que se quisessem. De resto, os entusiastas de tais práticas lutavam, invariavelmente, contra os exames, pelos motivos mais que óbvios.

Essa tendência generalizada teve um incremento muito significativo nos últimos anos. Até o último consulado de centro-esquerda, apesar da atitude hostil para com o saber académico, sempre senti poder dar contributos relevantes com base no meu conhecimento quer entre pares, quer para os alunos. Isso mudou radicalmente. A cartilha é a mesma que vinha desde o governo do virar do século, mas a implementação muito mais forçada. Segundo essa cartilha que vou enunciar tão mal explicada como chega aos professores, na sua forma mais primária, defendida como modelo de indiscutíveis boas práticas, conhecer por conhecer é mau, o saber académico disciplinar é péssimo (claro que se excetuam as ditas ciências da educação), estamos a preparar os alunos para profissões que em breve deixarão de existir, devemos é prepará-los para as profissões futuras. Há uns tempos vi um cartoon (também há um vídeo) em que uma mãe se gabava de ter um filho que não queria saber do que habitualmente se ensinava, pois só queria estudar para profissões que ainda não tinham sido criadas (como os sofistas da área da educação e da política repetem à exaustão). Questionada acerca do que estudaria ou das profissões, respondia que não sabia porque, afinal, ainda não teriam sido criadas. Mas, deixando a piada, o que pretendem estes ideólogos em concreto defender? Já múltiplas vezes chamei a atenção para o facto de que o argumento é sistematicamente usado contra os cursos vocacionados para o prosseguimento de estudos, onde não se está a preparar ninguém para nenhuma profissão específica, e não contra os cursos profissionais que se tornam obsoletos a um ritmo alucinante – isto porque nestes já se “passa” toda a gente há muito sem grande exigência (por vezes, nem pequena), o que nem sempre acontece nos cursos alvos do ataque, o que mostra bem qual o verdadeiro ideal prosseguido. Mas supondo que não se trataria de uma falácia do espantalho, qual o objetivo destes ataques? O objetivo é diluir as exigências disciplinares, promovendo as ditas competências transversais. Qualquer pessoa sensata julgaria que as disciplinas de Matemática, Português, até mesmo Filosofia ou Inglês, desenvolveriam competências transversais. Não é o que estes ideólogos defendem. Todas estas disciplinas são obsoletas e deverão ser dissolvidas, as profissões do futuro não precisam fazer operações matemáticas complexas ou elaborar textos bem estruturados, devem saber comunicar de forma clara e concisa, operativa, resolver problemas particulares, trabalhar em equipa, ter capacidade de liderança e planificação e, sobretudo, inteligência emocional. Ou seja, segundo os nossos ideólogos, as profissões do futuro serão todas mais ou menos semelhantes aos nossos atuais políticos. Como os criticados por Platão, não têm de saber nada de nada, mas têm de parecer saber perante a multidão dos ignorantes, serão mestres de retórica e de manipulação coletiva, adaptar-se-ão a todas as circunstâncias e farão eventos em que parecerão imensamente inovadores enquanto dura a performance publicitária. Quanto ao que ocorra depois, como consequências na sociedade, nunca os retóricos assumirão qualquer responsabilidade. Se forem acusados, saberão se livrar com elegância da situação apenas com mais retórica.

Reconheço até que a recente viragem à direita aliviou um pouco a saturação ideológica que passava por conhecimento dos assuntos nos anteriores responsáveis políticos. Porém, esta direita só pode fazer isso, atenuar um pouco os efeitos mais nefastos da política dita educativa. Além disso, a alternativa que pode surgir à direita é ainda pior, como o mostrou bem o consulado de Crato ou as recentes declarações sobre o assunto de deputados fascistas. A única alternativa que lhes passa pela cabeça é a do mestre-escola e a reprodução dos modelos industriais de ensino, razão, aliás, porque Crato não via nenhum problema no aumento muito significativo do número de alunos por turmas. Afinal, as fábricas de produção intensiva podiam juntar centenas de trabalhadores num pavilhão gigantesco a executar quer as mesmas tarefas, quer as tarefas especializadas da produção em série. Ao delírio do inferno da produtividade industrial, o partido de centro-esquerda opôs o delírio do paraíso da felicidade imediata que garante a escravização futura. Estas são as únicas alternativas que os nossos políticos e ideólogos admitem, ou a memorização mecânica, ou a completa ausência de exigência no saber. O verdadeiro desenvolvimento da autonomia intelectual, alicerçado num conhecimento sólido e contextualizado, capaz de interpretar e criticar, em suma, a formação iluminista do cidadão é-lhes completamente estranha. O que chamam de crítica nas competências transversais é uma anedota, um sucedâneo técnico redutor e simplista, sem que se julgue necessário, aliás, qualquer conhecimento à partida. Ora, neste modelo que se mantém vitorioso, mesmo se atenuado, deve-se abandonar os saberes disciplinares, desenvolver umas místicas competências transversais hostis ao saber especializado, promover eventos de dinamização dita cultural a todo o instante e reduzir as exigências a um esqueleto ínfimo e indiferente. Mas, nesse caso, porque se continuam a contratar professores por grupos disciplinares? Aquilo que é requerido no atual sistema pode ser satisfeito por qualquer um, de forma tão indiferenciada como a formação que se está a propiciar aos próprios alunos (naturalmente, nestas periferias desfavorecidas, as elites não têm esta formação). Porque razão me contrataram a mim, há mais de 36 anos, licenciado em Filosofia? Ou teria sido contratado pela posterior licenciatura no Ramo Educacional?

Obviamente, não. Não só esse Ramo Educacional também estava ligado à disciplina, como até mesmo os partidários no sistema desta dissolução disciplinar nunca quiseram ou souberam aplicar modelo pedagógico nenhum. Quando me formei, ainda se seguia a pedagogia por objetivos, nomeadamente a chamada pedagogia da mestria. Tratava-se de um modelo temporal em que se admitia a existência de ritmos diferentes de aprendizagem conforme os conteúdos ou atividades. Um aluno poderia só alcançar determinado objetivo mais tarde que outro, ao passo que o outro poderia levar mais tempo a alcançar um outro objetivo. Os alunos mais adiantados eram estimulados para servirem de monitores aos que revelavam maior dificuldade num dado objetivo, isto para lá da simples diferenciação do próprio ensino. Associada a esta pedagogia da mestria estava a preponderância da avaliação formativa contínua. Apesar deste modelo ser na altura já clássico, ainda hoje parece revolucionário para muitos professores, quando sequer o compreendem. Lembro-me de, em pleno Conselho Pedagógico, ainda nos anos 90, estarem a elogiar planificações apenas por usarem infinitivos que expressavam objetivos apenas do professor ou que eram tão vagos ou psíquicos que eram inobserváveis, mostrando claramente não terem a mínima ideia da taxonomia de Bloom e muito menos do seu fundamento comportamentalista. Ainda hoje, pelo menos um quarto de século depois de todos os programas e documentos oficiais do ministério transmitirem a ideia de que a avaliação discente deveria ser predominantemente formativa, muitos desses documentos defendendo que a única avaliação sumativa deveria ser a do final de períodos ou semestres e anos letivos, ainda a maioria dos docentes continua a defender que a avaliação formativa não pode contar para nada. Que alguém tente mostrar a contradição entre considerar a avaliação predominante formativa e a avaliação formativa não contar para nada a esta gente – é inútil, não consegue incorporar o mais elementar dos argumentos. Pessoalmente, desde os anos 90 e até ser explicitamente proibido, apliquei este modelo temporal, não só para atingir os níveis mínimos, mas também mais altos, conforme os diferentes projetos de vida dos alunos, defendi-o nos relatórios, todos sabiam que o fazia, tendo até consciência do enorme trabalho que isso me dava (basta dizer que os testes e outros instrumentos eram sempre diferentes). Porém, houve alunos de um outro docente com suficiente poder na instituição que se atreveram a dizer-lhe que prefeririam ter-me a mim como professor. Não demorou muito tempo a vir uma proibição do Conselho Pedagógico (outro que não o anteriormente referido) a exigir que não fizesse quaisquer testes de recuperação (o que não era exatamente o que eu fazia), que reduzisse toda a avaliação a 5 exames sem sequer 2ª chamada a valer 90% (eram, aliás, os critérios que seguia; a diferença é que subordinava essa estrutura de 5 provas à avaliação formativa e ao modelo temporal referido). Em grupo, a única razão aceitável que foi apresentada (para lá de uma confusa avaliação de atitudes que já eram avaliadas numa outra rubrica, como se fosse uma componente adicional oculta) foi a de se ter de uniformizar e, como o meu modelo dava muito trabalho, teria de se adotar o tradicional (como se o de Bloom não fosse já tradicional…). A decisão foi, na verdade, totalmente ad hominem. Inúmeros outros docentes faziam testes de recuperação e continuaram a fazer, sem o menor problema, a proibição aplicou-se apenas a mim. Mas foi possível ser decidida como se fosse geral. Ora, resta perguntar, para que serviram nesse caso as competências do referido Ramo Educacional?

Inúmeros exemplos poderia trazer de atropelos equivalentes, contrários aos conteúdos mais elementares em termos pedagógicos (diferenciação pedagógica trocada pela exigência de uniformidade, diversificação dos instrumentos de avaliação sacrificada à redução da avaliação a testes rigidamente formatados, uniformização de domínios por escola contrária à diversidade disciplinar contemplada pelas DAE, projetos interdisciplinares considerados irrelevantes, clubes extracurriculares desprezados, etc.), nomeadamente levados a cabo por muitos dos mais tarde defensores da dissolução do saber disciplinar. É verdade que as disciplinas são repartições artificiais, mas muito mais o são estas competências transversais desencarnadas que ensinam a comunicar sem ter nada para dizer ou reduzem a crítica a um esquema técnico simplista de consideração de prós e contras. Aliás, este enfoque, já com alguns anos, nestas competências transversais tem produzido um aumento da capacidade comunicativa, crítica, problemática ou de adaptação? Obviamente, não, antes pelo contrário. Reduzir essas atuações a um esqueleto técnico torna incapaz a maioria dos indivíduos de qualquer crítica ou autonomia, apenas cumprindo mecanicamente tarefas elementares que os entusiastas poderão depois tentar sobrevalorizar, ao passo que uma minoria as desenvolve como sempre fez, mas com muito menos instrumentos para o fazer que no passado. Porquê? Porque quem fornecia estes instrumentos, pior ou melhor, eram as disciplinas agora desprezadas e reduzidas, elas próprias, a um esqueleto rudimentar (as DAE) onde, por vezes, já quase não se consegue dar sentido ao que ainda é dito. Não se aprende a dizer nada não tendo nada para dizer. Claro que isto é programa para a inclusividade das periferias mais excluídas, porque, aqui como talvez em toda a Europa, já para não falar do império, existem escolas de excelência para os filhos das elites. Nestas periferias, só interessa formar pessoal indiferenciado, capaz de se adaptar a qualquer emprego, desde que implique muito poucos ou nenhuns conhecimentos. E assim a inclusividade é a melhor garantia que muito poucos, de preferência ninguém, ascende pelo seu saber e vai incomodar as elites. Quase ninguém aplica modelos pedagógicos nenhuns, por muito que digam o contrário e às vezes até tentem fingir, porque se sabe que o único objetivo é apresentar sucesso, mesmo sem aprendizagem nenhuma, como acontece na maioria dos casos do ensino especial. Os alunos do Ensino Especial são despejados, sem qualquer enquadramento, até em turmas científicas, e perante as evidências da absoluta ausência de aprendizagem dos conteúdos mais elementares, o que os comissários do Ensino Especial fazem é forçar os docentes a darem positivas. São até capazes de defender a diversificação da avaliação, a consideração dos diferentes estilos de aprendizagem ou dos diversos tipos de inteligência, alegar procurar garantir que alguma aprendizagem de algum tipo se realiza, mas assim que o docente dá a positiva, mesmo dizendo explicitamente que o aluno não sabe nada, imediatamente se deixa de falar no assunto, ninguém do Ensino Especial vai verificar se houve a mais ínfima aprendizagem – o que prova que pouco importa se o aluno aprende alguma coisa ou não, o que importa é fingir que aprendeu. Mas o que isso significa é que estes alunos, com muito poucas exceções, estão simplesmente abandonados nas escolas e todos, em primeiro lugar a tutela, estão a se borrifar para eles. Assim, os governos poupam muito em relação ao que seria um verdadeiro Ensino Especial e a lisonja democrática apraz em geral ao povo. A multiplicação de docentes do Ensino Especial não visou, em geral, apoiar estes alunos, nem sequer foi dada aos docentes uma formação adequada a tal desígnio. Sabe-se hoje, aliás, que mesmo as poucas exigências dessa formação não foram em muitos casos cumpridas. Os docentes encontraram aqui um expediente para se efetivarem, desfalcando, aliás, os seus grupos originais de recrutamento disciplinar, o que é uma das razões da atual rápida falta de professores. A tutela procurou criar um corpo de comissários cuja missão era garantir o pleno sucesso que não foi garantido em tentativas anteriores, como a do governo Guterres.

Visto a aprendizagem não importar, nem no Ensino Especial, nem fora dele o objetivo dos governos se encontra nela: o que importa é arranjar instrumentos contra os professores que ainda mantêm alguma exigência para impedir que eles maculem a imagem de sucesso. Para isso, estão dispostos a gastar muito dinheiro, mas não para a aprendizagem, porque, tal como para os sofistas da Idade Antiga e os políticos de todas as eras, o que importa é parecer conhecedor perante a multidão de ignorantes e não ser, de facto, conhecedor. Se se exigisse a aprendizagem, era sempre possível verificar a não aprendizagem. O melhor é acabar com tal exigência espúria sobretudo para as classes baixas e garantir, em qualquer caso, o sucesso. Porém, como já tive a oportunidade de defender inúmeras vezes, se estes políticos e os responsáveis, por exemplo, do Conselho Nacional de Educação se insurgem desde o século passado contra qualquer retenção, considerando-as sempre como nefastas, porque é que não acabam com elas? Caso não houvesse retenções, não seria necessário recorrer a uma constante fraude avaliativa e os dados teriam um mínimo de fiabilidade que hoje não têm. Então, porque não o fazem? Porque não querem ficar com o ónus da medida. Preferem criar um corpo de comissários destinados a forçar que os professores falsifiquem as avaliações, preferem aviltar a dignidade profissional docente, forçando-os a mentir sistematicamente, preferem culpabilizar os docentes, instilando constantemente má consciência sobre as suas práticas e exigindo o cumprimento de práticas impossíveis, cujo único objetivo é forçar os mais resistentes professores a aderirem à bem mais fácil fraude – do que assumir frontalmente o que desejam. E os Institutos de Educação vão inovando constantemente a retórica gongórica não para levar a cabo novas práticas educativas, mas para intimidar os docentes até eles se convencerem a efetuar a fraude requerida que, nos últimos tempos, já não é só a das aprovações, mas a dos níveis atingidos, procurando garantir uma esmagadora maioria de Bons e Muito Bons. Quando nas manifestações os sindicatos tradicionais faziam os docentes exigir respeito, traduzindo-se isso apenas na tabela salarial, eu não podia deixar de me insurgir. Nunca ninguém faltou ao respeito a ninguém por o salário ser mais baixo que um outro, nem ninguém mostrou qualquer respeito por ter dado um maior salário. Mas estas práticas que aqui descrevo e que os sindicatos tradicionais subscrevem, não só faltam ao respeito, como são verdadeiramente aviltantes dos docentes. E embora eu tivesse sido suficientemente flexível para quase nunca tais práticas me terem atingido (apenas uma vez no segundo ano da carreira), isso não significa que eu não as tivesse visto inúmeras vezes em execução e só muito raramente com boas razões (porque, na verdade, também há casos de puros abusos de docentes).

Mas o desrespeito é muito mais amplo. Exige-se a todos os docentes a rigorosa planificação das suas aulas ao longo do ano e até aula a aula. As maiores planificações têm que ser burocraticamente depositadas em várias instâncias. Porém, qualquer político sem qualquer conexão com a escola pode decidir boicotar as aulas e atividades previstas porque hoje é o Dia da Poupança, amanhã o Dia da Paz, depois da amanhã tem de se receber o senhor ministro, talvez devido a uma outra comemoração qualquer, num outro dia o senhor presidente da Câmara, quem sabe depois vem o Marcelo, de seguida parte da turma vai para Erasmus, deputados apresentam-se para sessões do Parlamento Jovem, visita de estudo aqui, ali, acolá, almoço do Dia da Filosofia, peça de teatro hoje, amanhã ou depois, numa outra semana, um torneio de voleibol, em seguida decide-se fazer não um simulacro da proteção civil, mas uma preparação de um simulacro, depois vem uma enfermeira no âmbito da Educação Sexual, na sequência o próprio simulacro, ou melhor, dois, um de incêndio, noutra semana de sismo, segue-se o Dia do Patrono, outro é dedicado às apresentações de projetos dos cursos profissionais, depois um desfile de modelos, mais além o dia aberto para as instituições de Ensino Superior, adiante o Dia do Agrupamento, mais um corta-mato e outro torneio, desta vez de futebol, quermesse para arranjar fundos para o passeio de fim de ano, e assim por diante sem parar – e então para que é que se planificou o desenvolvimento curricular? Importa sequer o que se faz na sala de aula? O desprezo pelo trabalho letivo tornou-se tão ordinário que os professores já nem se indignam perante o constante boicote da sua atividade, sabem bem que a aula está em último lugar na lista das prioridades – e, se algumas dessas atividades alternativas estavam programadas com antecedência, muitas não estavam (sobretudo as políticas) ou são tantas que não é possível tornar exequível qualquer planificação da lecionação. E isto porque se considera que a essência da Escola hoje está em todo esse caos de atividades e de forma alguma nas aulas, por mais dinâmicas que estas sejam. Estas tornaram-se quase obsoletas por todas estas periferias que vão parar ao fundo dos rankings dos exames e os responsáveis nem querem ouvir falar numa diminuição destas dinamizações, até por serem estas que têm visibilidade e, tal como em relação aos políticos, afere-se o valor das escolas por esta ostentação tantas vezes vazia. Muitas vezes se sublinha que o desrespeito se evidencia antes de mais na indisciplina discente. Mas porque razão os alunos manifestariam grande respeito por quem é de forma tão generalizada desrespeitado? Não será mais natural que reflitam o menosprezo ambiente e, como tal, pouco se preocupem em cumprir orientações docentes? Porque deveriam respeitar alguém que foi contratado por um saber do qual, depois, ninguém quer saber, exigindo-lhe, ao contrário, que cumpra tarefas indiferenciadas, quando não ridículas? O que é surpreendente é que ainda tantos alunos não se deixem influenciar por tal ambiente e tentem levar a cabo as atividades dinamizadas pelos docentes. Ainda mais surpreendente é que ainda haja alunos, nestas periferias, que tentem verdadeiramente aprender. E verdadeiramente espantoso é que, entre estes, ainda haja alunos que aprendam alguma coisa… Aprendem apesar da Escola e não por causa da Escola. Pela Escola atual, pouco importaria que aprendessem ou não.

O que se passou nos últimos anos convenceu-me que já nada tinha a dar ao sistema dito educativo. Muitíssimo mais haveria a dizer e muito tenho dito noutros artigos. Mas julgo ter apresentado, de forma elementar, alguns dos motivos mais imperiosos. Aguentei o suficiente até poder garantir a sobrevivência com a aposentação. Pela primeira vez na vida, poderei ter uma espécie de bolsa para levar a cabo verdadeiro trabalho na minha área. Infelizmente, temo já não ter as capacidades para o fazer. Mas vou tentar.


(Nota: comecei o artigo em 17/10)