Sob o signo da morte de Deus - VI
“Eu
e o Pai somos um”[1]
– supondo que a frase é do próprio Jesus e não tão-só do evangelista que
procurou fazer uma vaga cosmogonia alternativa com o bem helénico divino Logos
(cuja história filosófica e mística era já longa), tão helénico que se refere à
lei judaica como a vossa lei (ou deles)[2], o que poderia Jesus estar
a dizer? Todo o destino posterior do cristianismo, nomeadamente com a criação
da conceção trinitária, vai no sentido de uma divinização deste específico
homem, Jesus, como único coeterno Filho de Deus. Mas, desde o início, é
possível a leitura inversa a que só autores bem mais recentes e heresias
minoritárias e quase esquecidas se atreveram: a humanização do divino. Reduzir
Deus a algo existente no homem ou entre os homens seria considerado, por toda a
tradição teísta, ateísmo – e talvez não seja por acaso que os romanos tenham
chegado a julgar pessoas por ateísmo devido às suas crenças cristãs. Mas é isso
que Jesus responde aos judeus que o acusam de se fazer passar por Deus ao dizer
que “Eu e o Pai somos um.” Alega que a própria Escritura se refere àqueles para
quem veio a palavra de Deus como deuses, citando o Salmo em que são designados
filhos do Altíssimo, tal como ele se afirma Filho de Deus.[3] Isso não o impede de
afirmar-se como homem.[4] Por isso, não é estranho
que a mesma afirmação feita em relação a si, seja feita como objetivo para
todos os crentes, para que todos sejam um, como ele e o Pai são, para que todos
sejam divinos.[5]
Se a declaração “Eu e o Pai somos um” se devesse entender no sentido
trinitário, então a conceção trinitária incluiria todos os crentes numa espécie
de panteísmo. Todos os que receberam Jesus, presumo que na doutrina e na
prática, tornam-se filhos de Deus, nascendo de novo, provenientes, não de
sangue ou desejo carnal, mas de Deus.[6] O próprio amor que os
torna filhos de Deus é, em João, sobretudo referido à comunidade dos
crentes, o que não significa necessariamente uma rejeição do amor aos inimigos
de Mateus e Lucas[7]
– afinal, ao contrário da visão espiritual e assética que se procura dar,
também nas comunidades dos crentes há inimizades. Porém, é possível que se
encontre aqui uma distinção entre dois tipos de amor, difíceis de
compatibilizar. De facto, dizer que “Deus é amor”[8] carece de esclarecimento
quanto ao teor do amor, tal como na equívoca linguagem ordinária acerca do
amor. O amor tóxico que acaba a assassinar o parceiro não deverá ser o amor
aqui em causa, mesmo considerando quantos o Deus judaico terá alegadamente,
segundo a narrativa, executado. Mesmo no Novo Testamento, há muitas manifestações
diversas de amor: o amor comunitário judicioso e subordinado à sua autoridade
de Paulo (já tratado antes), o amor comunitário de João, o amor
universal, sobretudo aos inimigos, de Mateus e Lucas, mas também
o muito amor devoto e exclusivo por Jesus[9], o amor específico
dedicado não só ao autor do Evangelho dito de João,[10] mas também ao homem rico,[11] e o amor do Pai pelo
Filho e vice-versa, assim como pela humanidade. Talvez também se pudesse
acrescentar um excecional[12] amor pela mãe sob a forma
da preocupação manifestada no final de João.[13] Qual destes amores é mais
compatível com a natureza divina do ser amor? Naturalmente, o amor do Pai pelo
Filho, apesar de exigir o seu sacrifício, segundo a narrativa evangélica,
poderia parecer o modelo, mas, nesse caso, o objetivo final seria o amor aos
homens todos. Se assim é, o amor humano que melhor segue o modelo deste amor
ontológico universal é o amor até sobretudo aos inimigos de Mateus e Lucas.
Além disso, como já disse em anterior artigo, é esse que constitui a verdadeira
prova de fé, a libertação de tal ordem do amor-próprio que se consegue não
apenas respeitar, mas amar o inimigo. Porém, só no amor comunitário de João
(e não no autoritário de Paulo, bem contrário à declaração dos discípulos como
amigos e não escravos[14]) faz sentido a declaração
“eu venci o mundo”, só esse permite ser um com o Pai e com o Filho, só esse
permite o envio do auxiliador que ficará com os crentes para sempre, o espírito
da verdade – mas que, exatamente, o mundo não pode receber,[15] para usar a linguagem
dualista de João. Mas aqui depara-se aquela que é, porventura, a maior
dificuldade nos conceitos cristãos: o que é o espírito santo?
Aqui,
não pretendo fazer um recenseamento das conceções teológicas desenvolvidas, ao
longo dos séculos, acerca do espírito santo. São multiplíssimas e extremamente
díspares, mesmo quando usam uma linguagem equívoca para dar ideia de
pertencerem a uma mesma ortodoxia. Porém, considero todas elas como distorções
mais ou menos extremas feitas sobre textos que já foram o resultado de óbvia
efabulação. Como exemplifiquei com Ricoeur, nem mesmo os contemporâneos
teólogos camuflados de outra coisa qualquer, hermeneutas, fenomenólogos,
filósofos analíticos, existencialistas, linguistas, etc., merecem maior
respeito – de facto, até merecem menos, visto dissimularem as suas conceções
requentadas como se fossem muito diversas e inovadoras. Mas mesmo as
formulações teológicas tradicionais são meramente sofísticas, inventando
distinções semânticas sem nexo, como, por exemplo, entre gerado, criado e
proveniente ou entre substância, pessoa e manifestação. Não é por se inventarem
distinções artificiosas entre palavras que se resolvem absurdos e contradições.
Por exemplo, se a palavra pessoa tem algum significado metafísico, é o de ser
uma específica substância (por exemplo, racional) e não pode, pois, ser
contraposta à noção de substância. Se diversas manifestações pertencem a uma
mesma substância, se faz sentido atribuir-lhes o termo pessoa, só podem igualmente
pertencer a uma mesma pessoa. Mas tudo isso pertence ao domínio das
sofisticações dogmáticas metafísicas posteriores que pouco têm a ver com os
textos que aqui estão a ser considerados, excetuando algumas notórias
interpolações ou falsificações. Ora, o conceito de espírito santo deveria fazer
parte integrante do vocabulário do próprio Jesus e num lugar central da sua
mensagem. Mas é perfeitamente evidente que deveria ter sido identicamente
obscuro para os seus discípulos e seguidores. Só isso explica as disparidades
extremas que se encontram no Novo Testamento. O termo pneuma tinha já,
logo no início, como muitos outros da linguagem original cristã, uma longa
tradição filosófica (pelo menos, desde Anaxímenes), na qual se salienta a
conceção estoica. Porém, apesar de ser, nesta última, expressão do Logos
cósmico, o que estava em causa era o conjunto dos processos vitais naturais. É
óbvio que a utilização cristã do termo é bem mais restritiva. Todos os
Evangelhos o associam ao batismo por João e declaram-no a descer, como uma
pomba, sobre Jesus.[16] No Codex Bezae, o
mesmo do episódio da mulher adúltera que interpretei como tendo resistido à
censura, a voz vinda do céu declara, em Lucas, que “eu hoje te gerei”, o
que corresponde a um dos adocionismos que foram, posteriormente, declarados
heréticos. Em João, após este episódio, Jesus batiza num espírito santo.
Neste Evangelho, o espírito ainda não existe para os crentes, visto requerer a
glorificação de Jesus,[17] atingida pela sua morte.
Nos capítulos 14 a 16, surge sob a figura do paráclito, o auxiliador, que o Pai
enviará após essa morte. Mas, ao contrário, em Lucas, o espírito santo
não está de todo circunscrito a Jesus antes da sua morte, já habitando João
Batista no ventre da mãe,[18] desce sobre Maria,[19] Isabel fica plena dele,[20] o mesmo acontecendo
posteriormente com Zacarias[21] (pais de João Batista), e
estava sobre Simeão, revelando Cristo e inspirando os seus atos.[22] De forma mais breve, em Mateus,
Maria concebe a partir de um espírito santo.[23] Nos sinópticos, é o
espírito que impele Jesus para o deserto para sofrer as tentações do diabo.[24] Um pouco como o paráclito
de João, Jesus tranquiliza os discípulos sobre o que terão de dizer
quando forem alvo de perseguições, pois o espírito do Pai falará por eles.[25] O mesmo Pai dará um
espírito santo a quem lho pedir.[26] Jesus expulsa demónios em
espírito de Deus, o que significa a chegada do reino de Deus.[27] Mas, talvez, a declaração
mais relevante para a compreensão da importância da noção é a de que tudo seria
perdoável, até blasfémias contra o próprio Jesus, mas não qualquer blasfémia
contra o espírito santo.[28] Finalmente, em
correspondência com o anúncio anterior em João, Jesus ressurreto sopra
para que os discípulos recebam o espírito santo.[29] Em Mateus, surge,
mesmo no final, uma aparente fórmula trinitária.[30] Excecionalmente, talvez
se deva fazer uma breve referência a Paulo: o espírito auxilia e intercede;[31] para ele, os crentes são
o templo de Deus, templo de Deus que é santo e, assim, também os crentes, visto
o espírito de Deus os habitar;[32] todas as variedades de
dons são atribuídas ao mesmo espírito, Senhor e Deus;[33] o fruto do espírito é
amor e a comunidade deve viver e caminhar em espírito;[34] no mesmo sentido, uma
atuação contrária entristece o espírito santo que marcou os crentes para a
redenção.[35]
Nos Atos, o espírito parece um administrador executivo, ordenando a ida
deste e aquele para aqui e acolá.[36] Mas talvez a mais
insólita versão do espírito seja a do espírito assassino que mata dois
mentirosos que se atreveram a não dar todo o dinheiro de uma venda, dizendo o
contrário.[37]
Refiro estes dois últimos
casos dos Atos para que se perceba que há uma inequívoca evolução para a
crendice mais despudorada, muito longe da subtil noção espiritual antes
declarada. Mas serão razoavelmente credíveis todas as outras referências? Em Lucas,
os dois primeiros capítulos parecem ter a intenção de idolatrar Maria,
estabelecendo o seu estatuto ao menos de bem-aventurada, contrariamente ao que
ocorre nos restantes textos dos Evangelhos, até mesmo em Mateus. Mas
essa idolatria é contrariada no próprio Evangelho de Lucas. Para lá do repúdio da família natural em favor
da família espiritual que será tratado mais adiante, neste mesmo Evangelho há
uma rejeição explícita, já antes aqui referida, por Jesus, de um embrião de uma
mariana, contrapondo-a à palavra e prática de Deus.[38] Em lado algum do restante
Evangelho há uma reiteração, mesmo que passageira, da adoração da Virgem. Pelo
contrário, o início do capítulo 3 tem todas as características da abertura do
texto, incluindo uma genealogia alternativa à de Mateus, apresentada no
início desse Evangelho, antes da explicação do nascimento de Jesus. Apresentar
essa genealogia após os dois primeiros capítulos é, no mínimo, insólito e, por
isso, alguém terá sentido necessidade de acrescentar “segundo se supunha”[39]. Mas não consegue afastar
a discrepância total entre o lugar não dado à mãe por Jesus neste mesmo
Evangelho e os dois capítulos iniciais, ou melhor, colados, posteriormente, a
um texto pré-existente.[40] Mais subtil é outra
colagem. O Evangelho de Mateus é aquele que mais circunscreve a pregação
de Jesus e dos apóstolos aos judeus,[41] até com requintes de
xenofobia, como no exemplo já referido da mulher cananeia. Quer este episódio,
quer o do centurião são exceções originadas por um alegado extremo de fé. Mas,
do nada, sem qualquer antecedente, o Evangelho encerra dando como objetivo da
atuação dos discípulos todos os povos, juntando a esta ordem a fórmula
trinitária tradicional: Pai, filho e espírito santo.[42] Também já salientei quão
artificiosa é a declaração de Simeão no mesmo capítulo 2 de Lucas para
“todos os povos: luz para a revelação dos pagãos”.[43] Provavelmente, existirão
muitas outras adulterações identificáveis, mas as motivações doutrinárias
posteriores destas são óbvias. Por isso, centrar-me-ei nas restantes passagens
acerca do espírito santo.
A noção de pneuma,
antes de teor muito materialista, ganha, na mística desta altura, um teor
animista, claramente oposto à carne, mas não deixando a associação tradicional
à respiração. O próprio uso do símbolo da pomba estará, provavelmente,
associado à noção aérea original. Jesus, na ressurreição de João, sopra
o espírito que é recebido, dir-se-ia inspirado no sentido pneumológico, pelos
discípulos. Uma caracterização típica de quem é habitado pelo pneuma (neutro no
original) é a de estar cheio ou pleno de espírito, um pouco como o peito se
enche de ar na respiração. Nos sinópticos, não há qualquer personificação do
espírito, apenas podendo ser interpretada dessa forma a figura do paráclito em João.
Em geral, nos sinópticos, o espírito é o espírito do Pai. Mesmo em João,
com as suas fortes tendências pré-gnósticas, o espírito é enviado pelo Pai,
muito embora seja enviado em nome de Jesus, tendo a mesma função dos sinópticos
de inspirar a palavra aos discípulos.[44] Estranhamente, os
discípulos já são puros (katharós) sem ainda ter recebido o espírito,
apenas pela palavra. Porventura, isso torna-os dignos de receber o espírito.
Escolhidos do mundo, deixaram de pertencer ao mundo,[45] no sentido de mundo
governado pelo príncipe das trevas.[46] Deixaram de pertencer ao
mundo tal como o próprio Jesus não é deste mundo.[47] Mas há aqui alguma
indefinição pois tinha sido Jesus que tinha associado as suas palavras ao
espírito para os discípulos,[48] no passo em que anuncia
que a sua carne e o seu sangue são o alimento verdadeiro, tendo isso motivado a
deserção de muitos discípulos. O que há de comum a todas as variantes é que o
espírito é dado pelo Pai, mesmo o espírito que impele Jesus para o deserto para
vencer os seus desejos. Jesus purifica os crentes, tornando-os capazes, logo ou
diferidamente, de receber o espírito. A essa purificação está associada a
libertação dos demónios, também levada a cabo pelo espírito. E o espírito santo
está acima do próprio Filho do Homem, sendo imperdoável pecar contra ele (e não
contra Jesus), porventura porque isso significa pecar contra a teofania por
excelência, teofania de que os próprios Filhos de Deus, incluindo o próprio
Jesus, estão dependentes. Daí que, se as formulações trinitárias são
incompatíveis com estes textos, talvez ainda o seja mais o subordinacionismo
ariano, não tanto por o Filho estar abaixo do Pai, mas por claramente o
espírito não ser considerado abaixo do Filho, antes pelo contrário. O espírito
santo é a expressão cristã de algo similar à iluminação, até porque também a
metáfora da luz é frequente.[49] Os seguidores são o sal
da terra e a luz do mundo.[50] O espírito santo é a
habitação de Deus no crente. Só por ele é possível ser um com Deus. Trata-se de
uma transcendência imanente. Representa uma transcendência relativamente ao
mundo do pecado e, por isso, é a redenção e a realização imediata do Reino de
Deus, mas habita o crente e a comunidade aqui e agora.[51] “Deus connosco” é, na
verdade, o único Deus inteiramente reduzido ao Homem que é um com o Pai, visto
ser habitado pelo espírito de Deus. Essa habitação do espírito é o amor que é
indemne ao mundo, aconteça o que acontecer ao crente. Nesse sentido, como
noutras correntes da época, a alma torna-se uma autarquia livre das
vicissitudes do mundo, autonomamente feliz por muito que o seu corpo receba
todo o tipo de torturas e sacrifícios. Mas, como é pelo amor que essa redenção
se realiza, é na verdadeira família de Jesus, na comunidade dos seus
seguidores, desde o início, que Jesus venceu o mundo, que Jesus, pelo espírito
que habita os crentes, realizou o Reino de Deus.
Aqui, é inevitável a
consideração de um dos aspetos mais polémicos da doutrina de Jesus, a
hostilidade à, o repúdio da e até o ódio à família natural. Nem é preciso
conhecer as formulações teológicas para imaginar a ginástica que terão feito,
ao longo dos séculos, para compatibilizar isso com a entronização eclesiástica da
Sagrada Família, para não falar da idolatria de Maria, a contraditória com os
textos perpétua virgindade da mesma Maria, os irmãos, etc. É verdade que os
teólogos estão tão habituados a mentir que, porventura, não terão sentido
especial dificuldade em fazê-lo aqui. Mas é precisa uma desfaçatez completa e
uma total falta de vergonha para se terem formulado os dogmas marianos da
doutrina católica. Mesmo no séc. IV da definição da Trindade, ainda eram
consideradas heréticas seitas que professavam uma adoração a Maria que a
tornavam, na prática, uma deusa, exatamente o mesmo que agora a Igreja Católica
não só sanciona, mas em que encontra a maior força da sua crendice milagreira.
Talvez não haja assunto em que seja tão óbvia a vontade de mentir que anima a
teologia, entre teias de aranha conceptuais e imaginativas explicações para
defraudar o teor patente nas passagens. Propositadamente, os autores dos
evangelhos referem uma tentativa da mãe e dos irmãos falarem com Jesus, que
este recusa, considerando que nem sequer são a sua verdadeira família e
afirmando que a sua verdadeira família é constituída pelos seus discípulos.[52] Esta recusa surge, em Marcos,
num contexto em que a família natural o acusa de ter enlouquecido, alinhando
com os ataques dos escribas.[53] A forma como, em João,
Jesus trata a mãe, sempre sem nome neste Evangelho, é de franca
desconsideração, por muita ginástica que façam os teólogos para lhe retirar o
seu significado.[54]
E aqui até a família o acompanha inicialmente,[55] muito embora o retrato
mude drasticamente, depois, quando os irmãos o instam a ir para a Judeia,
sabendo que lá o procuravam para o matar, o que parece bem mais grave do que a
sua simples descrença.[56] Aliás, a rejeição da sua
terra está também associada à família.[57] E esta atitude é, ainda,
sustentada numa tese geral, a tese da espada que separa as famílias naturais.[58] Emblemática da crueza de
Jesus neste aspeto é a exigência de que os seus renascidos abandonem os mortos
seus familiares, incluindo os mortos literais, até o próprio pai.[59] Em Lucas, tal é
enquadrado, claramente, na rejeição de qualquer preocupação ou cuidado com a
família natural.[60]
Este é, aliás, o Evangelho, se excetuarmos a adulteração mariana, em que se usa
mais forte linguagem contra a família natural, considerando que deve ser
odiada.[61] O abandono das ligações
familiares é mesmo condição da vida eterna.[62] Mas a adulteração mariana
do início deste Evangelho não impediu que Jesus fosse, aí mesmo, designado
apenas como primogénito de Maria,[63] tal como ocorre em Mateus,
em que José apenas se priva das relações sexuais com Maria até o nascimento de
Jesus[64] – ou seja, mesmo os
únicos Evangelhos que sustentam a virgindade de Maria na conceção de Jesus,[65] reservam-na para Jesus,
tendo, após o seu parto, Maria sido uma esposa normal de José, dando-lhe vários
filhos ou, do ponto de vista de Jesus, vários irmãos e irmãs. Na efabulação de Lucas,
não deixa de ser expresso o desprezo de Jesus pela família natural já na
infância.[66]
Já foi referido o passo em que Jesus rejeita a adoração de Maria, contrário ao
espúrio capítulo 1,[67] provavelmente por o autor
já tardio do original deste Evangelho estar a reagir ao início das crenças
marianas. Finalmente, o único sinal contrário de Jesus em relação à mãe surge
em João, no momento da morte.[68] É o único Evangelho que
coloca a mãe e a tia junto de Jesus na sua morte, nunca chega a ser denominada
e a sua preocupação poderia ocorrer mesmo num filho que destratasse a mãe.
Aliás, trata a mãe da mesma forma que em 2.4. Mesmo considerando esta exceção,
existe um quadro geral de animosidade mútua de Jesus com a família que é
consagrado na exigência geral de abandono da família natural por todos os que o
seguirem. Sem entrar em pormenores biográficos, certamente discutíveis, Jesus
parece julgar necessário o desprendimento dos laços naturais do mundo para se
poder receber o espírito santo e assim o divino habitar o homem.
Se os laços naturais
devem ser desfeitos, os sociais devem desaparecer totalmente. Existem muitos
autores que consideram tão absurda a proposta que só a consideram possível num
contexto em que se estava à espera do fim do mundo a qualquer instante.[69] Na verdade, tratam-se de
autores burgueses ou aristocratas (mesmo tendo ideais socialistas como Russell)
que dão uma importância extrema à segurança financeira e às precauções com o
dia da amanhã. Do seu ponto de vista, a sabedoria consiste na mesquinha
preservação da serenidade do bem-estar típico dos privilegiados. Assim, alguém
só poderia afirmar “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de
amanhã preocupar-se-á consigo mesmo”[70] se estivesse à espera do
fim do mundo para esse amanhã. Presumivelmente, consideram também que a
rejeição da riqueza, da inveja, da cobiça, do rancor, da ostentação, da
higiene, do julgamento dos outros, das regras judaicas só ocorre num contexto
escatológico mais ou menos imediato, não admitindo que pudesse surgir uma
mensagem de despojamento a não ser que se esperasse que tudo acabasse a
qualquer momento e, por isso, já nada importasse. Mas não só os caminhos de
libertação orientais, como diversas correntes filosóficas helenísticas iam, em
geral, no mesmo sentido, na mesma época, sem qualquer ligação com uma
escatologia histórica. É verdade que existem variadas declarações acerca do fim
do mundo iminente no Novo Testamento,[71] muito embora as parábolas
que procuram expressar a incerteza acerca do momento exato, sempre associadas a
ameaças de castigo eterno, garantam a possibilidade de uma espera eterna. Eu
não sei se estas crenças pertenciam ao conjunto de doutrinas do Jesus original.
É possível. Mas considero mais provável que resultem do ressentimento provocado
pelas perseguições, garantindo a esperança de uma vingança fantástica contra a
injustiça de que foram vítimas Jesus e seus seguidores. Ora, nos conteúdos
doutrinais que acabaram por passar, nas narrativas, entre as simples
manifestações milagreiras de poder, não se nota nenhuma ligação necessária
entre as recomendações e as crenças escatológicas históricas. Não há qualquer
conteúdo ético associado a essas esperanças de fim do mundo iminente. Estas
parecem ter sido justapostas, tal como os milagres, o cumprimento de profecias,
a ressurreição, sobre um conteúdo ético e existencial pré-existente e que não
precisava dessa crendice para nada. O mesmo se diga dos conteúdos místicos mais
profundos, como ocorre em João, nitidamente pouco preocupado com a ética, mas
mais com uma espécie de metafísica pouco distinta, onde não ocorre uma
declaração clara de fim do mundo iminente, antes considerando a salvação uma
decorrência imediata e direta da fé.[72] No texto do Sermão da
Montanha, não se justifica de todo a não preocupação com o dia de amanhã por
ele não existir, mas com os ritmos naturais que asseguram a vida a plantas e
animais sem qualquer necessidade de acumular para se salvaguardar. Procurar o
Reino de Deus[73]
não tem aqui o sentido do fim do mundo iminente, mas da prática que se deve
seguir, sem ligar ao que Deus garante desde o início dos tempos. A referida
crença na dependência destas conceções da escatologia histórica, apesar dos
contraexemplos óbvios na história da filosofia e da religião, mesmo no exemplo
dado de um autor mais ou menos socialista, mostra a dificuldade dos nossos
burgueses ou aristocratas em se colocarem na pele de um verdadeiro excluído da
sociedade. A maioria dos seguidores de Jesus era constituída por excluídos de
vários tipos, os que não podem falar,[74] usando a bela expressão
de Mateus que a tradução católica neutraliza com “os simples”,[75] os que não têm voz na
sociedade, muitos deles perseguidos e outros tantos desprezados. Para essa
massa de excluídos, seria tão estranho entregar-se a uma comunidade de amor, na
qual a entreajuda garantiria uma proteção, quando não mesmo um conforto e afeto,
que nunca encontravam abandonados a si próprios? Infelizmente, a filosofia é
quase invariavelmente elaborada por privilegiados que têm apenas uma noção vaga
e abstrata dos problemas sociais de que podem ter alguma consciência, mas que
mantêm numa segura distância intelectual.
A mensagem original de
Jesus que se pode supor quando se afasta toda a crendice popular, seja
milagreira, seja escatológica, assim como algumas tentativas de adulteração
doutrinária, consiste numa mensagem de libertação do mundo social que então
existia, não através de uma revolução política, mas de uma revolução espiritual
que poderia, no entanto, se se expandisse, pôr em causa todas as estruturas
sociais e políticas. E é por constituir tal ameaça que Jesus foi morto.
Em primeiro lugar, a
rebelião de Jesus era claramente contrária às regras hebraicas e, sobretudo, aos
grupos e classes associados ao poder judaico. A tentativa de fazer de Jesus um
estrito cumpridor da Escritura hebraica só pode ser qualificada de fraudulenta.
A contradição criada por essa tentativa está na origem de diversas divergências
posteriores, heresias segundo a ortodoxia, quer recuperando a lei judaica, quer
repudiando-a. E isso era inevitável porque a menor honestidade faria qualquer
um reconhecer a incompatibilidade. As razões da hostilidade judaica ou, mais
precisamente, de muitos sacerdotes, fariseus e escribas são bem conhecidas: o
não cumprimento das proibições estabelecidas para o sábado (trabalhar, curar,
etc.),[76] muitas vezes acompanhadas
de declarações profundamente provocatórias como a de que o Filho do Homem é
senhor do sábado[77]
ou de que o sábado foi feito para o homem[78]; a pretensão de perdoar
pecados, judaicamente reservada a Deus[79], também associada à
mensagem de misericórdia[80]; rejeição das práticas de
jejum[81]; confraternização com
pecadores e cobradores de impostos[82]; o abandono e até a
oposição às regras de higiene decorrente de disposições rituais[83]; a oposição ao divórcio[84]; o perdão, especialmente
escandaloso na misógina sociedade judaica, das pecadoras[85]; repúdio do amor
farisaico pelo dinheiro[86]; a já mencionada rejeição
da vaidade e ostentação[87]; recusa da excessiva
rigidez e escrúpulo fariseus com os outros, nada exigindo a si[88]; acusação por serem
filhos dos assassinos dos profetas (como se o próprio Jesus não fosse judeu)[89] ou até só assassinos em
geral[90]; exclusividade que rejeita
a ascensão dos profetas[91]; e, por fim, a pior de
todas, a equiparação a Deus[92]. Porventura, outras
razões poderiam existir, como a recusa dos juramentos[93], recusa bem concordante
com toda a restante mensagem de Jesus, mas que não me parece crucial na
oposição dos poderes hebraicos. A acusação mais injusta é, obviamente, a de
serem filhos de assassinos, mas é também a menos associável ao Jesus original,
visto pertencer, antes, à expressão do ressentimento cristão face ao sacrifício
de Jesus (e as perseguições aos seus seguidores) que, aliás, é “profetizado”
nestas acusações pelo alegado Jesus, ou seja, a acusação está associada à
afirmação que irão fazer o mesmo de novo. A estas razões, se poderia
acrescentar a defesa da integridade do prepúcio (entre outras anulações da lei,
por exemplo, alimentares, muito embora pudessem ser derivadas da ausência de
impureza do que entra na boca) feita por Paulo, mas, como este optou por ser o
apóstolo dos gentios e afastar-se da Judeia, para lá de encontrar forte
oposição da comunidade cristã que terá permanecido aí por algum tempo, é
possível que este escândalo fosse mais sentido entre as fações cristãs.
Quanto às restantes razões
que explicam a hostilidade dos poderes hebraicos, há uma que, simultaneamente,
é esclarecedora da natureza do movimento original e é dos contributos mais
negativos do cristianismo para a posteridade: a questão higiénica. Seria
preciso esperar por meados do séc. XIX e, ainda assim, com um impacto
restringido a poucas regiões europeias, para se começar, por ação tecnocientífica,
a debelar os efeitos nocivos da determinação cristã. Ainda hoje, devido à
tendência a conceber, miticamente, a história de forma linear e progressiva, os
indivíduos declaram sem cessar que as pessoas, na Antiguidade, viveriam 30 ou
menos anos, julgando que teriam de ter uma longevidade menor que a medieval e
moderna. Ora, a longevidade antiga era notoriamente superior à medieval e, ao
menos, a parte da Idade Moderna. E a razão para isso parece estar nas práticas
de higiene, rituais ou não, que os cristãos repudiaram. Pergunto-me até que
ponto este repúdio não contribuiu mais para a degradação final do Império do
que quaisquer orientações éticas ou místicas. De facto, é claro que a maior
longevidade contemporânea está mais ligada às práticas de higiene e sanidade do
que a quaisquer retumbantes inovações médicas. É óbvio que, para os cristãos
que viam esta vida como um teste que havia que sofrer para aceder à verdadeira
vida, pouco importariam estas preocupações. Já aqui foi visto como a narrativa
milagreira só via as doenças e deficiências como ocasiões para mostrar os
poderes divinos. Ora, mesmo que essas crenças escatológicas transcendentes não
existissem no movimento original, ainda assim percebe-se bem a crítica de
Jesus: em primeiro lugar, é parte da acusação dirigida, sobretudo, a fariseus e
escribas de se preocuparem apenas com a aparência exterior, pouco se importando
com a disposição interior. Diga-se que é uma acusação que poderia ser dirigida
a todas (ou quase todas) as Igrejas cristãs ao longo dos séculos. A igreja
estatutária rapidamente se esvazia no cumprimento de formalidades vazias, sem
qualquer verdadeira exigência interior, muitas das quais desrespeitando,
claramente, as disposições do próprio Jesus.[94] Em segundo lugar, a
crítica permite uma bem oposta noção de pureza: o que torna a pessoa impura não
é o que entra na boca, mas o que sai dela.[95] Estranhamente, até esta
declaração direta não foi entendida pelos discípulos, sendo até considerada uma
parábola. Claro que se pode questionar se isso torna a pessoa impura ou se,
pelo contrário, a raiz do que sai da boca, o coração, já seria impura.[96] Agora, o que é óbvio é
que a crítica é perfeitamente consonante com o desprendimento, para não dizer
repúdio, das convenções sociais que é revelado por toda a mensagem que parece
ser a original de Jesus. Essas convenções eram muitas vezes consideradas disposições
divinas, mas é óbvio que Jesus rejeitava tal estatuto – e a contradição entre
este facto e declarações obviamente acrescentadas como a de que a Escritura não
pode ser anulada[97]
evidenciam bem alguns tipos de fraude introduzidas não para fornecer espetáculo
milagreiro, não para fornecer esperanças escatológicas, nem sequer para
sustentar doutrinas trinitárias ou marianas, mas para defender compatibilidades
objetivamente impossíveis entre Velho e Novo Testamento.
Em segundo lugar, esta
revolução contra as regras hebraicas, assumida sem hesitações pelo movimento
original, tinha um alvo fulcral mais amplo, a própria estrutura social, não no
além, onde a justiça transcendente fosse realizada, mas logo aquém através da
condenação direta (e não apenas nos fariseus e escribas) da riqueza.[98] Associada a esta
condenação, sobressai também o imperativo da generosidade.[99] Da mesma forma, a
condenação estende-se aos vendilhões do templo,[100] embora nesse caso possa
ser considerada uma extensão da acusação aos fariseus e sacerdotes de fazerem
do sagrado um negócio. O bem conhecido episódio do homem rico, comum a todos os
sinópticos, tem uma sequência igualmente comum, mas desarmante pela sua
aparente ilogicidade, sobretudo em Mateus e Marcos. Em Lucas,
o absurdo é atenuado porque a reação não é claramente atribuída aos discípulos,
mas a quem o ouvia em geral. Que absurdo é este? Frente à impossibilidade de um
rico entrar no reino de Deus, os discípulos interrogam-se acerca da
possibilidade de alguém se salvar.[101] Porque é isto absurdo?
Pela razão avançada um pouco adiante: esses discípulos largaram todos os bens
para seguir Jesus,[102] ou seja, fizeram
exatamente aquilo que o homem rico recusou fazer. Como é bem visível nas notas
de rodapé, há sempre um versículo pelo meio. Nesse versículo, Jesus afirma que
a salvação (depreende-se que por se livrar de todos os bens) é impossível aos
humanos, mas não a Deus. Ora, o versículo seguinte já referido mostra que isso
já foi possível para humanos, os próprios discípulos de Jesus. Será uma
contradição de Jesus? Só não é, se se supuser que o que eles tinham feito,
tinha sido feito por Deus, ou seja, que eles já não eram humanos mundanos, mas
habitados pelo espírito de Deus. Embora esta pareça mais a linguagem de João,[103] esta história foi
preservada nos três sinópticos, mesmo que não tenha sido bem percebida e se
tenha sentido a necessidade de uma compensação. Aí, já há alguma divergência,
mas Marcos e Lucas consideram que a compensação já está dada pela
boa-nova no presente, antes de qualquer recompensa eterna, ao passo que Mateus
remete inteiramente para o além a recompensa e sente necessidade de lhe
acrescentar tronos de juízes para cada um dos apóstolos.[104] De qualquer forma, a
sequência do episódio só é explicável de duas formas: ou trata-se de um absurdo
que os próprios autores não detetaram; ou o despojamento de todos os bens,
existente, aliás, noutras experiências espirituais, é considerado já por si um
ato divino, um ato divino realizado por homens na medida em que foram
inspirados pelo espírito.
Em terceiro lugar, o
repúdio da riqueza insere-se no mais vasto repúdio dos desejos, como é, aliás,
característico dos caminhos de libertação quer orientais, quer ocidentais. É
esse o sentido quer do arrancar do olho, quer do corte da mão,[105] quer dos eunucos,[106] não tanto uma
recomendação literal, mas uma redução ao absurdo da exterioridade da lei
judaica quando a raiz se encontra no desejo, o olhar intencional, por exemplo,
para uma mulher.[107] O que é preciso é
arrancar o próprio desejo, até porque arrancar um olho nada garantiria quanto
ao uso do outro. Nesse sentido, a própria rejeição do divórcio[108] deverá ser vista no
contexto da rejeição do desejo. Aliás, a resposta dos discípulos é reveladora:
se assim é, o melhor é não casar.[109] Porquê? É necessário
poder mudar de mulher para o casamento ser preferível? Os discípulos revelam
aqui uma verdadeira lubricidade que foi compreendida como tal por Jesus e,
nesse contexto, lhes recomenda que, se não se conseguem controlar, o melhor
seria castrarem-se. E é nesse contexto de repúdio dos desejos e não devido à
expetativa do fim do mundo que se deve compreender a declaração que burgueses e
aristocratas têm tanta dificuldade em compreender: “Não vos preocupeis com o
dia de amanhã” que é a recomendação de uma vida despojada das obsessões
mesquinhas pela futura comida e bebida ou pelo vestuário (o que se associa
também à já referida mensagem contrária à ostentação) ou, presumivelmente, até
pela habitação, restringindo-se aos pequenos desejos requeridos para viver, ou
seja, a satisfação das necessidades de cada dia.[110] Mas a rejeição do desejo
é mais vasta, é a rejeição do mundo, da vaidade, da ostentação, do
reconhecimento social, questões já aqui tratadas, mas que mostram que a mais
abstrata rejeição do mundo em João não deixa de encontrar um eco mais
concreto nos outros Evangelhos. O reconhecimento social, o reconhecimento da
gente mundana é até um sinal de perdição[111]: “Ai de vós, quando
todas as pessoas vos elogiarem!” Não é possível evitar vir à cabeça todas
aquelas sessões de elogio mútuo que preenchem a vida mediática, na cultura, na
política, etc. Se alguma vez esses indivíduos fizeram alguma coisa de
verdadeiramente meritório, não é certamente por isso que se entregam a essas
atuações vazias e não alcançariam nenhuma dessa unanimidade se já não se
tivessem entregado à mais completa vacuidade.
Em quarto lugar, a solda
que une todos os aspetos da mensagem de Jesus é o amor. Mas, logo aqui, a
interpretação parece chegar a uma aparente contradição. Não é o amor um desejo?
Tal como a razão que tem necessariamente um fundo pulsional, até por sinal
desmesurado, mas se acaba por opor às emoções, o amor proposto por Jesus pode
ser um desejo de libertação do domínio dos desejos. É, porém, preciso avançar
gradualmente nesta questão. Como já referi, há uma enorme ambiguidade criada
pelas várias utilizações da palavra no Novo Testamento. O problema ainda mais
se adensa se se tenta ligar os diversos conteúdos da doutrina de Jesus a este
amor. Em primeiro lugar e em nova aparente contradição, este desejo parece ser
um desejo de paz: “Bem-aventurados os que fazem a paz”[112]. Quem vive pela espada,
morre pela espada.[113] Como, se Jesus declara
trazer a espada (ou a cisão) e não a paz?[114] Vou deixar esta questão
em suspenso para ser respondida adiante. Por agora, sublinho que muitas
disposições éticas dos Evangelhos procuram apenas assegurar a convivência
pacífica: Reconcilia-te com o teu irmão, sê bem-intencionado com o teu adversário,[115] perdoa aos outros os
seus erros,[116]
não julgues os outros quando tanto em ti poderia ser julgado,[117] sê caridoso com os
necessitados,[118]
não pratiques extorsão, falsos testemunhos, chantagem,[119] faz aos outros o que
gostarias que a ti fizessem.[120] Nada aqui pode ser
interpretado senão como um simples desejo de paz. Neste âmbito, também pode ser
considerado o cumprimento das obrigações políticas, dar a César o que é de
César.[121]
Em segundo lugar, existem as determinações que, claramente, excedem a regra de
ouro e até a resistência pacífica que se generalizou em muitos movimentos do
século passado. Não mostra apenas um desejo de paz, mas de boa-vontade,
patenteando a injustiça ao ofensor e aos outros que testemunham o ocorrido –
sobretudo estes, porque o habitual é que o ofensor redobre no abuso ou
agressão. Aliás, o contexto é o da explícita rejeição da proporcionalidade da
lei judaica:[122]
dá a outra face a quem te agredir;[123] dá também a túnica a
quem procurar extorquir-te a capa;[124] anda duas milhas com
quem te força a andar uma;[125] nada reclames contra
quem te roubar;[126] empresta sem esperar
devolução.[127]
A rutura com a lógica da proporcionalidade moral está também presente no
exemplo do filho pródigo e outros análogos.[128] A própria exigência de
que sejam servidores, seguindo o exemplo do próprio Jesus e incluindo dar a
vida,[129]
parece obedecer a esta lógica passivo-agressiva pela qual se patenteia a
injustiça. Se aqui se mostra um desejo de paz, é por se mostrar como mal quem
faz o contrário. A guerra é eterna se se anda a contabilizar sistematicamente
deve e haver. De facto, já está aqui presente uma mensagem de despojamento dos
interesses particulares em prol de uma generosidade excessiva, em prol de uma
mensagem espiritual superior aos apegos mesquinhos. Em terceiro lugar, os
próprios imperativos do amor decompõem-se entre os proporcionais e os
desproporcionais. Amar o próximo como a si mesmo é condição de possibilidade do
reino de Deus.[130] Este é, sobretudo, o
amor da comunidade, amarem-se uns aos outros, aquele que identifica os
discípulos.[131]
A fé proposta por Jesus é, antes de mais, a fé no amor, a fé expressa pelo
amarem-se uns aos outros. É esta consistência comunitária do amor e da palavra que
torna possível ser um com Deus.[132] Porém, em quarto e
último lugar, a verdadeira prova de fé, a verdadeira realização da fé reside no
amor aos inimigos.[133] Porquê prova de fé?
Freud no Mal-estar na Cultura chama a atenção para o absurdo da
exigência.[134]
Amar é eleger, é dedicar cuidado e atenção ao amado, totalmente incompatível
com um amor universal, sobretudo aos inimigos. Já a versão de Marcos
contém a prova de fé de forma mais críptica, pois liga os destinatários aos
próximos – mas coloca-os em pé de igualdade consigo próprio. O amor próprio é a
eleição básica do amor e, ao amar outros, deseja-se torná-los como que uma
extensão do seu amor próprio. Todo este amor particular se estilhaça ao exigir
que se ame o inimigo, o que só pode significar virar-se contra si mesmo, visto
recusar o cuidado de si ao amar quem objetivamente ameaça o próprio indivíduo,
quem lhe deseja ou lhe faz mesmo mal. Desta forma, o significado real do
imperativo é, de facto, “ama o teu inimigo, mais do que a ti mesmo” – e, por
extensão da inferência anterior, “ama o teu inimigo, mais do que os teus
próximos”. Ao diluir o amor ao ponto de incluir os inimigos, desvaloriza-se
imensamente o amor que deveria ser dedicado aos mais próximos, ao ponto de
equipará-lo ou até inferiorizá-lo em relação ao que é dedicado aos inimigos. O
mandamento não exige uma mera convivência pacífica, não diz “respeita os teus
inimigos”, não diz “não agridas ou insultes os teus inimigos”, não diz “não
hostilizes ou desprezes os teus inimigos”, ordena “ama”. E di-lo como exigência
fundamental para ser Filho de Deus, alguém que segue os passos de Jesus. Freud
usa a famosa expressão “Credo quia absurdum” para renegar este
mandamento que insulta o amor que devo dedicar aos que me amam, mas essa
expressão é característica indissociável de todas as verdadeiras provas de fé.
Exatamente, o que está implícito no mandamento de Jesus é crer exatamente por
ser absurdo, o tal absurdo que corresponde à sabedoria divina. E é exatamente
por isso que, muito embora Jesus esteja a defender a única possibilidade de
verdadeira paz, não traz a paz, mas sim a espada.
A exigência de cortar os
laços com a família natural (e até consigo próprio) é a exigência que constitui
a própria condição de possibilidade do amor defendido por Jesus. Como pode,
porém, ser realizado numa comunidade este amor? Através da comunidade de fé no
amor universal, até aos maiores inimigos. Se todos partilharem esta convicção,
criam uma família espiritual que, exatamente, Jesus opõe à família natural.
Esta convicção põe em conflito os que defendem laços particulares e aqueles que
creem neste amor divino, o único compatível com a noção de Deus, aquele que se
realiza universalmente como espírito. Esta comunidade de fé não rejeita
ninguém; quem peca, quem sofre, quem se dana é quem se mantém agarrado aos
desejos particulares. É essa oposição que cria a cisão e que torna possível que
até os familiares se tornem perseguidores dos fiéis.[135] O amor assim defendido
é, com certeza, um desejo de paz, mas que pretende abolir através da fé todos
os desejos para lá da satisfação das necessidades imediatas. Fé em quê? Numa
vida eterna de prazeres? Isso seria apenas protelar o objeto de desejo, mas
manter a escravatura do desejo tal qual. É por isso que a fé de Jesus só pode
ser a simples fé no amor realizado aqui e agora na comunidade. O reino de Deus
consiste na habitação dos fiéis pelo espírito santo. Mas porquê ser preciso a
fé e não simplesmente amar? A grosseira tradução da palavra emunah por pistis
ou fides, esta última até começando por ser uma virtude cívica, talvez
não expresse a exigência extrema da fé religiosa. Os atuais crentes reduzem a
fé a um acreditar qualquer e até se julgam cheios de fé por percorrer a pé uma
considerável distância ou rastejarem numa adoração. Mas a verdadeira natureza
da fé só se revela na prova de fé. A verdadeira prova de fé é aquela que ordena
algo que ofende a inteligência, que exige algo que esmaga o orgulho, sobretudo
o mais intrínseco de todos, o orgulho da consciência individual. O exemplo de
Abraão poderá ser ilustrativo, mas é bem menos exigente que o amor aos
inimigos: a Abraão é ordenado por Deus o sacrifício do filho que lhe havia sido
dado pelo próprio Deus. O absurdo é total: para quê Deus lhe dar um filho de
que depois exige a morte ainda criança; como pode ele saber que não está a ser
ordenado pelo diabo; como pode saber se não estará alucinado; como se pode
justificar perante o povo de que é patriarca, etc.?[136] A prova de fé é prova de
fé porque exige algo que, naturalmente, estando são, o indivíduo nunca
consideraria aceitável. Porém, o fiel perante Deus não é nada, a sua
compreensão finita nada é perante a infinitude, o abismo entre a imensidão de
Deus e a sua pequenez é intransponível. Ao fiel só resta submeter-se, esmagar
todas as considerações próprias e particulares, entregar-se à decisão divina. O
herói da fé é herói da fé porque realiza o ordenado por Deus por muito que isso
infrinja não só as regras morais, não só os desejos mais enraizados, como os
instintos mais básicos do animal humano. É por isso que Abraão é um herói da
fé. E, porém, a prova de fé perante este divino transcendente nada é comparado
com o divino tornado imanente através do amor. Como se pode exigir que alguém
ame os inimigos? Para poder ser sequer tentado tal amor, nada há de mais
esmagador do indivíduo, do seu amor próprio, dos seus desejos, até das suas
razões. É racional defender a coexistência pacífica com os adversários, tolerar
até os inimigos, mas é absurdo exigir a qualquer um que os ame. Como se pode
amar, sentir de facto amor, não o dizer apenas da boca para fora, quem se tem
todos os motivos para odiar, temer ou, ao menos, desprezar? Será sequer
possível? Será que, como disse Nietzsche, o único cristão morreu na cruz?[137]
Como disse antes,
globalmente dou razão a Nietzsche na sua análise, mas não em muitos pormenores.
Considerar que o cristianismo de Jesus é um mero retardamento da puberdade ou
que Jesus não nega coisa alguma porque nunca sai da identidade eterna não me
parece corresponder à realidade. Em relação à primeira referência, também se
poderia dizer que Nietzsche nunca se libertou das secreções excessivas de
testosterona da adolescência. E, com isso, alterava-se o quê na apreciação das
suas teses e argumentos? Nada. Quanto à segunda, o caso é diverso. É verdade
que a atitude geral por ele defendida é a de a ninguém se opor, a ninguém
resistir, não agir contra ninguém, qualquer coisa similar ao não agir de
Lao-Tse. É verdade que o espírito de Deus é uma categoria ontológica fora do
tempo, um eterno agora que se realiza no amor do crente. Esse amor liberta o
crente das preocupações temporais e permite-lhe viver num eterno presente,
liberto das preocupações com o futuro e das obsessões provenientes do passado
(rancores, dívidas, créditos, desejos, humilhações, etc.). Mas, por isso mesmo,
esse amor é a negação do que João chama “mundo” e a que costumo chamar
caos por nada ter da ordem normalmente associada à palavra mundo. Esse mundo é
o caos do pecado, o caos das gentes perdidas em medos, desejos e vícios,
incapazes de uma existência, apenas reagindo ao meio social instante após
instante. Os apegos, os cuidados, as vinganças, os sucessos, os falhanços, mas
também as crenças e as consolações são episódios de uma única e mesma perdição,
de uma generalizada deficiência de ser. Mas não apela também Jesus a crenças?
Na verdade, reduz toda a fé a um único mandamento, a sua fé reside inteiramente
em viver o amor. Tudo o que é adicional a esse amor é postiço, adicionado pela
crendice posterior à mensagem original. E é possível esse amor autêntico até
aos perseguidores, aos torturadores, aos vilipendiadores, aos assassinos? Não
sei se é possível, mas essa é a prova de fé. A possibilidade de redenção do
caos do pecado reside ao menos no ousar a possibilidade desse amor. E ousar tal
possibilidade implica romper com o caos das ligações que prendem, retardam e
anulam o espírito. Não sei se é possível, mas também não me parece que fosse
desejável. Parece-me uma situação similar à da possibilidade de uma sociedade
anarquista. Essa, não vejo nada que a impeça em absoluto. O que mais a impede é
a covardia da gente que prefere camuflar o seu real poder por trás de
instâncias de poder. Assim, nunca é responsável por nada. É possível, mas
apenas de uma forma que contaria com a oposição dos nossos anarquistas, todos
terrivelmente individualistas. Claro que com os sonhos desarticulados e
caóticos desses anarquistas é que, de certeza, nenhuma sociedade seria
possível. Ao contrário, a possibilidade seria a de uma ditadura direta da
gente, sempre vigilante contra a mínima manifestação de individualidade. Tais
manifestações teriam de ser sistematicamente despistadas pela comunidade, não
por via coerciva, mas condicionando o indivíduo coletivamente. Algo similar
poderia ocorrer na primitiva comunidade dos seguidores de Jesus, mas potenciado
pela mística do amor, negando sistematicamente as manifestações particulares e
tudo aceitando como dádivas divinas. Claro que há contradições nos próprios
Evangelhos, já aliás referidas, e, não cumprindo qualquer função doutrinária
compreensível, é possível que correspondam a episódios, de facto, ocorridos,
correspondentes a dedicações de amor especial entre Jesus e alguns dos seus
crentes. Talvez Jesus não fosse tão perfeito como o projetavam os crentes e
talvez nem percebessem a contradição. Mas isso não altera o sentido essencial
da mensagem, amor divino, amor que tornava a comunidade divina, amor que amava
os seus próprios perseguidores, amor que aceitava a agressão como expressão do
sofrimento da escravidão no pecado e, por isso, se compadecia do agressor, amor
que não se deixava capturar por quaisquer interesses materiais, amor que
garantia o paraíso aqui e agora sem a ansiedade de esperar por qualquer outra coisa
no além. Para ser possível o amor aos inimigos é necessário uma transformação
espiritual radical, similar ao despertar budista, mas, na verdade, diverso, por
exatamente essa transformação, a habitação do espírito santo, ser alcançada não
por um mero despertar para a verdadeira realidade, mas por um amor que
transcende todas as formas de amor reconhecidas no mundo do pecado.
Porque é que, nessa
comunidade de amor, no reino de Deus, os maiores são as crianças?[138] Diria, aliás, que não há
maior demonstração da incompatibilidade entre a doutrina de Jesus e o
cristianismo que emergiu de Paulo: nem traço da doutrina do pecado original que
Paulo ao menos prepara. Para quem não vê a oposição, pode, por exemplo, ler a
descrição de Agostinho dos bebés[139] e perguntar-se se, mesmo
com todas as deturpações, se encontra algo de semelhante nas palavras e
atitudes de Jesus. Para Jesus, as crianças são a realização imediata do Reino
de Deus. As próprias Igrejas têm oscilado sistematicamente entre a conceção das
crianças como manifestação do pecado original através de um egoísmo extremo e a
conceção delas como inocentes. Aliás, resolvem isso, como é habitual,
ritualmente, através do batismo, mas não é nada evidente (antes pelo contrário)
que o batismo fosse praticado em crianças e isso não impedia Jesus de
considerar que era delas o Reino dos Céus. Porquê? Não há egoísmo, mentira,
violência, mesmo crueldade nas crianças e entre as crianças? Eu próprio já fiz
uma caracterização análoga das crianças, contrapostas ao caos da gente, mas por
motivos que me parecem bem diversos dos de Jesus. Para mostrar que a acefalia
da gente não é inata, nem o ponto de partida comum e natural, mencionei a
curiosidade intelectual das crianças na primeira infância e o seu questionamento
de tudo quanto se lhes depara. Em que estaria a pensar Jesus? Provavelmente, na
mesma idade (primeira infância, três a cinco anos), não tanto devido à
curiosidade intelectual, nem propriamente devido a ser impossível aí a mentira
ou a violência, nem sequer por qualquer falta de egoísmo, bem patente nas
famosas birras, mas pela ausência, em geral, de fixação dos maus comportamentos
sem redenção facilmente acessível. Um típico comportamento de criança, por
vezes até idades mais tardias, é o de, no dia seguinte a uma zanga feia com um
parceiro, já tudo ser deixado para trás, pois é mais importante brincar do que
guardar rancores: é um verdadeiro deixar a cada dia o seu mal. Parece-me esta
uma das razões que poderiam estar presentes na mente de Jesus e isso mostra que
ele entendia o mundo do pecado não como categoria ontológica, mas sim social.
Por outro lado, a indiscernibilidade, nessa idade, entre real e fantasia, abria
a jovem mente às possibilidades, tanto às crenças disparatadas e fantásticas
que posteriormente substituíram a mensagem cristã, como à mensagem ousada
original de um amor que incluía os inimigos. A mente adulta não está
simplesmente agarrada aos seus vícios e medos, aos seus laços e aversões, às
suas crenças e ceticismos – está anquilosada nos seus hábitos comportamentais e
mentais de tal forma que nem consegue sequer conceber a possibilidade de um
amor como o que era defendido por Jesus. É preciso renascer, ou seja, voltar a
ser criança, para poder sequer ser capaz de tentar esse amor. A própria
recomendação de humildade se insere aqui, pois não há nada que mais seja
necessário do que a libertação da arrogância que vai fazendo os adultos reagir
ao seu meio, quer sujeitando outros, quer respondendo à violência com
violência, quer exigindo cada tostão, quer registando cada ofensa real ou
imaginária para arquitetar a futura vingança. É claro que se pode considerar que
se trata de uma visão idílica das crianças, pois todos esses comportamentos se
podem verificar, de forma embrionária, nelas. Mas que toda essa maldade tenha
de ser aprendida chega para mostrar uma origem social. Além disso, esta
valorização das crianças também serve para mostrar que a última coisa que Jesus
defenderia seria algo análogo ao pecado original – o que deveria chegar para demonstrar,
mesmo para quem ainda tivesse dúvidas, que existe uma inequívoca oposição entre
Jesus e Paulo. Jesus não precisa da redenção do Cristo ressurreto para salvar
as crianças do pecado de Adão, dessas crianças já é o Reino de Deus antes da
manifestação de qualquer superpoder extraordinário.
Embora toda a minha
abordagem que tenta chegar ao Jesus original seja hipotética, não me parece
haver dúvida que os conteúdos por mim referidos se mantiveram nos próprios
textos que nos chegaram. Pode haver quem (haverá certamente, se alguém vier a ler
isto) defenda que a existência desses conteúdos não elimina a veracidade dos
outros, nomeadamente toda a narrativa milagreira, a obsessiva referência ao
cumprimento das escrituras, a presciência da paixão, a ressurreição e a
promessa de juízo final de salvação ou danação, etc. Gostaria de ainda tentar
mostrar que a própria natureza desses conteúdos originais elimina o sentido
dessas narrativas que considero justapostas, adicionadas à história que estaria
a ser transmitida nas comunidades cristãs. Há casos, porém, da teologia
católica que nem são hipotéticos, mas categoricamente falsos. Como é sabido,
toda a teologia ortodoxa defendeu, mesmo antes de Jerónimo, a virgindade eterna
de Maria. Se se pusesse em dúvida tal dogma, ser-se-ia imediatamente rejeitado
como herético. Isso é uma evidência flagrante de como todos esses teólogos são
aldrabões, desrespeitando o próprio texto evangélico que é inequivocamente
claro, mesmo nos casos (que não são todos) que afirmam a virgindade de Maria.
Mas não se trata, apenas, de pura e grosseira desonestidade intelectual. A
razão para o dogma é uma visão perversa do que se considera impuro, pecaminoso,
sujo, que, aliás, continua presente em todos os eufemismos usados para referir
os partos. Essa perversidade profundamente misógina rebaixa o maior milagre
natural a que se pode, de facto, assistir a um estatuto de absoluta sordidez.
Não há maior prova da perversidade da mentalidade eclesiástica do que esta
necessidade de inventar uma mãe imaculada, considerando que a mácula reside no
facto de ser uma verdadeira mulher, em vez de um fantasma desencarnado. E
claro, tudo para criar uma idolatria pagã que o próprio Jesus se encarrega de
repudiar, passagem que os clérigos marianos se esqueceram de censurar. Nessa
passagem, Lucas, 11.28, Jesus repudia a adoração do ventre e seios
maternos, e declara que os bem-aventurados são antes aqueles que ouvem a
palavra de Deus e a põem em prática. O que torna alguém puro é a palavra, como
é referido em João, 15.3, não qualquer origem mais ou menos desencarnada.
Ora, em que é que essa palavra é beneficiada, potenciada, estendida ou outra
qualquer coisa positiva, pelas narrativas milagreiras, escriturais e
escatológicas?
Começando pelos milagres,
o que é que nestes contribui para que a palavra seja interiorizada e seja
convertida numa prática? Quanto mais milagreira é a narrativa, tanto menos
importa a mensagem de Jesus. A fé que salva nos milagres é a fé não na palavra,
mas nos poderes de Jesus e, em alguns casos, na sua identidade sobrenatural.
Não há a menor indicação, na generalidade dos casos, de que o milagre tenha
correspondido no beneficiado a uma mudança de mentalidade ou comportamento.
Tão-pouco o milagre é realizado por se verificar qualquer mérito a não ser o de
acreditar nos superpoderes. O milagre chega a ser realizado para que o
indivíduo tenha fé, não na mensagem, mas, novamente, nos superpoderes. Não há o
menor sinal nestas narrativas de que o milagre tenha contribuído para uma
adesão à palavra. A exceção está num dos poucos milagres que considero
credíveis, o dos possuídos por demónios, pois apenas requerem uma transformação
psíquica (na verdade, paralisias, cegueiras e outras deficiências histéricas
também são curadas do mesmo modo). No início do capítulo 8 de Lucas, é
referido que Jesus era seguido e financiado por muitas mulheres curadas de
espíritos malignos, entre as quais Maria Madalena da qual tinham saído nada
menos, nada mais que sete demónios. Mas mesmo aí não é estabelecida nenhuma
associação entre a fé na palavra, a prática e a fé milagreira. Na verdade, a fé
milagreira não contribui para a afirmação da palavra, antes a substitui, como é
bem visível ainda hoje nas seitas mais milagreiras. Os conteúdos mais
elementares da mensagem de Jesus, como a abominação da riqueza, são eliminados
ou menosprezados, até o ponto de não terem a menor relevância, porque são os
milagres que constituem as provas da ação divina e até as demonstrações da fé.
Pastores existem que arrastam fiéis fazendo gala de ostentar a sua riqueza
pessoal, isto já sem referir a riqueza institucional, para a qual se poderão
encontrar argumentos que a tornam mais tolerável. Como é possível uma tão
manifesta contradição com os ideais de Jesus? É possível por os crentes serem
condicionados para terem uma fé milagreira cega nos poderes supostamente
entregues ao pastor pelo próprio Jesus. A acefalia é tão grande que se chegam a
oferecer milagres que, se se tiver suficiente fé, podem garantir a riqueza – a
mesma riqueza que era condenada por Jesus e cuja abominação deveria ser um dos
principais conteúdos da fé. Assim, a fé milagreira não contribui e até
prejudica, quando não anula a fé na palavra. E, na verdade, mesmo que a crença
na salvação remeta para uma dimensão transcendente como ocorre na maioria das
ortodoxias existentes, em que é que curar uma doença contribui para essa
salvação? E se a salvação ocorre, não além, mas aquém, não é exatamente a
mensagem de Jesus a de aceitar, com a própria felicidade interior de cada qual,
tudo o que exteriormente possa parecer negativo, agressões, opressões,
sacrifícios, até a própria morte?
Análoga à questão dos
milagres, é a do milagre por excelência, a questão da ressurreição. Apesar de
serem tão milagreiros, os Evangelhos ainda permitem concluir que a boa-nova é a
mensagem de Jesus, a chegada do Reino de Deus através da fé dos crentes no amor
de Deus, realizado na própria comunidade e expandindo-se até aos inimigos. Esta
habitação do espírito de Deus nos crentes é alcançada pela palavra e pela
prática. Ela é o Verbo encarnado, o Logos divino tornado humano, o homem
um com Deus se tornado, pelo espírito, Filho de Deus. Tudo isso está ausente,
como foi tratado num artigo anterior, nas epístolas de Paulo. É verdade que,
pelo menos as consideradas autênticas, são textos mais antigos que os
Evangelhos e isso nota-se na sua muito pequena propensão milagreira. Mas a
boa-nova é reduzida à ressurreição. A boa-nova passa a ser a transcendente
promessa de uma vida eterna além e Jesus é reduzido ao Cristo, o divino
ressurreto que salva a humanidade com o seu sangue. É verdade que a tese também
se encontra nos Evangelhos, embora de uma forma simbólica que, caso fosse uma
declaração original, poderia ser interpretada de outro modo.[140] Mas mesmo os Evangelhos
milagreiros e escatológicos não fazem uma redução da remissão dos pecados à
pura manifestação de um superpoder transcendente. Nas epístolas referidas, o
próprio amor comunitário é claramente reduzido à subordinação à autoridade (que
claramente estava ausente do amor de Jesus) e nem sombra de amor aos inimigos,
mesmo no seio da comunidade, como bem mostram muitas reações de despeito,
aversão e rancor de Paulo. Tudo isso é possível porque a boa-nova foi deslocada
da palavra e correspondente prática para o sangue e para a vingança das
injustiças pela eternidade de júbilo. Assim, uma religião de redenção imediata
pela habitação do espírito de Deus nos crentes do amor foi transformada numa
religião de ressentimento cuja esperança de compensação é inteiramente
depositada num além que negue este mundo da carne. Assim, a boa-nova de Jesus
foi cancelada pela boa-nova do Cristo paulino.
A própria esperança de
vida eterna parece contraditória com a mensagem de Jesus. Esta procura mostrar
que o caminho para a felicidade passa pela libertação dos apegos, das
preocupações, dos desejos, dos medos, das ansiedades, etc. “Confiai uns nos
outros, pedi e recebereis, não vos preocupeis com o dia de amanhã. Tudo é
superado pela entreajuda possibilitada pelo amor. O Reino de Deus está em nós
ou até mesmo entre nós (como reza a tradução católica). As próprias
perseguições e ofensas são dádivas que devemos aceitar, tudo deve ser perdoado
e nada deve ser julgado – e nada disso verdadeiramente afeta a nossa felicidade
pois esta reside na habitação pelo espírito de Deus.” Veja-se a diferença entre
esta atitude e esta: “Toda a vida não passa de sofrimento, é um teste para uma
outra vida. Devemos suportar a cruz[141] que nos está reservada
para ter acesso a um prémio infinito, muito embora estejamos dependentes da
graça divina predestinada. Nada somos e nada, só por nós próprios, podemos
garantir. Mas, com a graça divina, poderemos usufruir de todos os gozos que nos
foram interditos neste mundo.” A sobreabundância da graça paulina tão elogiada
por Ricoeur mantém todo o desejo do mundo do pecado, só que protelado para um
além transcendente. Novamente, há uma anulação da mensagem de Jesus de
superação do sofrimento através da superação dos desejos particulares, sem,
porém, qualquer condenação dos pecadores, vistos mais como vítimas do que como
réus, através da substituição desta mensagem por uma vingança no além, para lá
de se efetivar uma condenação dos pecadores, sobretudo depois de convertidos,
centrada na carne e, por excelência, na lascívia. No núcleo original da
mensagem de Jesus, a eternidade era realizada num renascimento aqui e agora que
negava qualquer sujeição ao tempo mundano. Justaposta nos próprios Evangelhos e
nas epístolas paulinas, aparece uma outra eternidade, transcendente e projetada
pelo ressentimento contra este mundo que se vingaria da injustiça de uns e
redimia o sofrimento de outros com a satisfação dos desejos. Jesus recebe as
ofensas, ninguém julga e ama os seus autores, Cristo condena o mundo e julga as
ofensas finitas com consequências eternas.[142] Enquanto Jesus exigia
uma completa mudança de mentalidade, capaz de subjugar a propensão humana para
possuir, violentar e se vingar com um amor superior ao domínio das afeições
particulares, a esperança na eternidade apenas requer paciência para obter a
vingança desejada e motivada por ressentimento e rancor. Esta não expressa,
aliás, qualquer vontade de justiça, visto não haver nenhuma conceção de justiça
que possa sustentar um castigo (ou prémio) eterno e extremo, por pecados (ou
méritos) necessariamente limitados – é uma pura projeção do desejo de vingança.
O movimento criado por
Jesus repudia claramente a lei judaica, incluindo disposições cujo desrespeito
é condenado, tradicionalmente, com a morte.[143] Qual o sentido, então,
de mentir, elaborar todo o género de falácias, reinterpretar para inventar um
cumprimento estrito das Escrituras que não pode existir, obviamente, em Jesus?
Provavelmente, tratou-se de uma reação cobarde da comunidade após a morte de
Jesus, tentando que os cristãos se tornassem aceitáveis para a sociedade
judaica. Mais tarde, a expansão do movimento entre os gentios tornou
dispensável essa cobardia, claramente contrária às intenções do fundador, mas a
pretensão de cumprir as Escrituras antigas já estava consolidada. E, com isso,
ganhou-se o quê? Para os judeus instruídos, era evidente que nada do que era
defendido pelos cristãos em relação às Escrituras era factualmente verdadeiro.
Essa animosidade hebraica em relação à releitura cristã foi, provavelmente, uma
das razões para tornar o Novo Testamento tão antijudaico, ao passo que muitas
vezes desculpabiliza os pagãos. Mas o repúdio, total ou parcial, da lei judaica
nos próprios atos de Jesus tem uma razão que me parece mais funda que a
libertação da sujeição à tradição. Jesus é profundamente anticlerical. Todas as
descrições da hipocrisia de sacerdotes, fariseus e escribas poderia ser
aplicada, sem tirar nem pôr, tal qual, ao posterior clero dito cristão. Tudo, o
exagero formalista ritual, recorrendo às vãs repetições obsessivamente, fazendo
da ostentação a imagem de marca da Igreja, condenando as mais ínfimas infrações
dos outros (e não as suas) e pouco se importando com a desgraça miserável da
vizinhança, predando as casas das viúvas, acumulando riquezas e associando-se
invariavelmente às ordens/castas/classes privilegiadas, promovendo ativamente a
violência perante a menor discordância, tudo poderia ser atirado às caras
eclesiásticas ao longo da triste história da Igreja. Como os abutres dos
Evangelhos, rondavam os moribundos céticos para extrair a conversão ou, caso o
não conseguissem, para inventar histórias de conversão. A propensão para a
fraude continuou ao longo dos séculos e nunca procuraram evitar qualquer tipo
de crimes. A descrição dos Evangelhos dos sacerdotes como um bando de
criminosos que está disposto a tudo, até matar o beneficiado por um milagre,
Lázaro,[144]
nada tem de surpreendente se se pensar que o seu primado é o poder, um poder
ínvio, perverso e dissimulado, mas poder. Jesus coloca as prostitutas e os
cobradores de impostos à frente dos sacerdotes no acesso ao reino de Deus.[145] Através da pena de
escritores como Gil Vicente, houve quem o continuasse a dizer ao longo dos
séculos – e muito embora tenham procurado atenuar a sua imagem, recentemente,
face à perda de influência política, o seu instinto sacerdotal, tal como foi
restaurado por Paulo, continua plenamente presente. Para manter o poder, não se
coíbem de nada, mesmo tornarem o seu suposto monoteísmo numa idolatria pagã
politeísta para agradar o povo, muito embora neguem o que evidentemente
defendem e praticam, recorrendo a distinções sofísticas totalmente espúrias que
procuram manter uma aparência artificiosa de cumprimento da doutrina original. Nunca
viram o menor problema em trair os ensinamentos do seu suposto fundador. O seu
único mandamento é o de dominar o povo, garantindo, claro, o gozo das riquezas
que resultam desse domínio. A história da Igreja é uma história de fraude e
traição que a própria Igreja procura hoje branquear com declarações de Miss
Universo. Vasculhe-se a história e ver-se-á que as atitudes e posições do atual
patriarca de Moscovo estão bem mais próximas da posição habitual da Igreja que
as declarações alegadamente evangélicas e ecuménicas. E estas não chegam para
ocultar os efeitos de instituições hierárquicas, fechadas, castradoras,
censuradoras e condenatórias que tanto podem permitir e ocultar crimes contra
pessoas, como a promiscuidade financeira com o crime organizado. Claro que
houve movimentos meritórios como os franciscanos, mas nunca conseguiram alterar
a natureza da Igreja, uma Igreja que nada tem a ver com a ekklesía de
Jesus (caso este tivesse usado o termo), uma comunidade de iguais unida pelo
amor. O que tem a pompa do Vaticano a ver com a comunidade de Jesus? O que tem
a idolatria romana da deusa eternamente virgem Maria que ver com o reino de
Deus realizado no amor dos crentes? E o culto dos santos, as imagens, a
ostentação de uma fé cega e postiça, onde foram defendidas por Jesus? Posso
estar enganado quanto à interpretação da doutrina de Jesus, mas não quanto ao
facto de a Igreja ser uma grosseira traição ao seu suposto fundador.[146]
Em nenhum aspeto, porém,
a traição foi mais completa que na questão do Estado. Se a declaração de Jesus
acerca de César e de Deus[147] é verdadeira (e não
encontro motivo para não ser), isso significa que a atual separação (com poucas
exceções no Ocidente, muito embora a do Reino Unido seja especialmente
desconcertante – mas há outras) entre o Estado e a Igreja é muito mais fiel à
mensagem de Jesus do que tudo o que aconteceu entre o séc. IV e o séc. XX.
César manda sobre o mundo do pecado, ordenando-o na medida do possível. O Reino
de Deus é outro, dominado pelo espírito. Para pertencer a este, é necessário
morrer para aquele. Muitas vezes se apresenta como vitória final do
cristianismo a sua adoção como religião oficial do Império Romano. Na verdade,
isso significou uma verdadeira venda do espírito ao diabo. Já não chegando a
constituição de uma religião estatutária, um clero muito similar ao condenado
por Jesus, os destinos da ortodoxia passaram a ser decididos pela influência
que estes e aqueles prelados alcançavam nesta ou naquela corte, infletindo-se a
doutrina, mais do que por sínodos, concílios e concílios ecuménicos, pelo apoio
ou até imposição deste ou daquele imperador, tanto nesses encontros
eclesiásticos, como fora deles. Os Césares do mundo do pecado passaram a mandar
sobre a suposta Igreja do espírito. Ver hoje teólogos e historiadores da Igreja
a referirem-se a posições falsas e erros doutrinários por referência à
dogmática atual e em detrimento do que acabou por ser considerado herético, quando
tinham a obrigação de saber (e sabem) que a definição desses dogmas não
assentou em quaisquer argumentos racionais decisivos ou sequer em argumentos
escriturais, mas apenas nas vicissitudes da política, para favorecer este ou
aquele partido próximo do poder ou para promover a unidade imperial que se
julgava mais garantida por esta ou aquela posição, entra no domínio não só do
caricato, mas da mais completa desfaçatez. E as interpretações de que essas peripécias
foram inspiradas pelo espírito santo não só poderiam ser feitas mesmo que o
próprio diabo do povo, com cascos a ressoar na calçada e tridentes a espicaçar
os indivíduos, tivesse instaurado o seu governo, como estão nos absolutos
antípodas daquilo a que Jesus se referia com o termo espírito. A habitação do
crente pelo espírito revela-se através do amor e não pelo cultivo das forças da
violência, do ódio, da malícia, da ganância e da mentira. Tudo isso Jesus
recomendava que fosse suportado sem oferecer resistência, mas não dizia para os
seus seguidores se tornarem agentes dessas forças. Não chegando o
estabelecimento de uma casta sacerdotal que Jesus reputou como filha do diabo,
essa casta tornou-se a polícia desse próprio diabo, tornando o mundo opressivo
do pecado ainda mais opressivo do que alguma vez foi. Por muitos exemplos
meritórios que tivessem surgido entretanto, quem veste uma batina deveria ter
consciência que é herdeiro, em primeiro lugar, dessa tradição de traição a
Jesus e não de Jesus.
Gostaria de dedicar umas
últimas palavras a uma das mais famosas passagens dos Evangelhos. Normalmente,
é referida da forma como surge na primeira tradução portuguesa, a feita pelo
protestante João Ferreira de Almeida: Bem-aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o reino dos céus. A tradução católica, muito embora se afirme
interconfessional, altera para: os que têm espírito de pobres; o que, no
mínimo, parece ser redundante, pois só significaria a humildade que logo a
seguir é mencionada noutra entrada. A tradução de Frederico Lourenço que, em
geral, tenho seguido traduz a expressão por: mendigos pelo espírito.[148] A tradução de Lourenço
parece-me ótima, a interpretação que é dada no seu comentário nem tanto.
Considera que isso significa: os que são levados pelo espírito a serem
mendigos. Não é por nada, mas a interpretação destrói completamente o
significado da expressão. Parece-me que tal interpretação se deve à passagem de
Lucas em que apenas são referidos os mendigos.[149] Acontece que o Evangelho
de Lucas está, nesta passagem, totalmente centrado nas vítimas (mendigos,
famintos, chorosos, perseguidos), o que não acontece com Mateus. Embora
também lá estejam as vítimas, o foco está muito mais centrado na busca de Deus
através da amabilidade, da procura de justiça, da misericórdia, da busca de paz
e da pureza do coração. E é essa busca que está presente também na primeira
declaração, a busca pelo espírito, os pedintes não de bens materiais, mas do
espírito. É verdade que o tradutor acaba por dizer o mesmo referindo-se à
“mendicância interior [que] radica num sentimento íntimo de carência: são
aqueles que anseiam por receber justamente palavras como aquelas que Jesus” vai
proferir (Sermão da Montanha).[150] Porque estou a dar tanta
importância à passagem? Inúmeras vezes vi interpretar esta passagem como uma
defesa da acefalia, considerada, aliás, correspondente ao elogio às crianças,
humildes, pequenos, todos mais ou menos, implicitamente, considerados deficientes
mentais. Talvez até interesse a certa Igreja tal impressão, tanto como
porventura a nietzschenianos. Mas nem a baixa escala social, nem a humildade
(antes pelo contrário), muito menos as crianças, implicam qualquer pobreza de
espírito. É verdade que existe uma certa oposição, em geral, no Novo
Testamento, à sabedoria de tipo académico, mas novamente isso não implica
nenhuma pobreza de espírito. A sabedoria académica reflete, muitas vezes, um
anquilosamento intelectual que muito mais facilmente poderia ser considerada
pobreza de espírito. Dos mendigos pelo espírito será o reino dos céus, não por
serem pedintes por bens materiais, mas pelo espírito – e este ser-lhes-á dado
porque apenas requer ser buscado: “quem procura, encontra”.[151] Noutra passagem, os que
fazem a paz serão chamados filhos de Deus[152] – já foi visto, neste
artigo, que aquilo que garante o estatuto de Filho de Deus é ser habitado pelo
espírito. E esta habitação, como se verá no sermão em causa, é consagrada pelo
amor que é claramente visto como a única possibilidade de verdadeira paz. O
único Evangelho canónico que pode ser interpretado como fornecendo uma certa
personificação do espírito é o de João. Aí, é concebido como uma ajuda
especial enviada por Deus após a morte de Jesus. Esta separação parece ser, de
facto, um pouco forçada e devida às conceções místicas do autor. Já aqui foi
visto como neste Evangelho existe uma tendência a substancializar tudo o que
seja relevante, verdade, vida, razão, espírito, amor, etc. Trata-se de uma
interpretação helenizante (assim como Mateus é judaizante) daquilo que
possivelmente o autor tenha ouvido dizer a Jesus. Tal interpretação tem
características místicas teológicas caras a algum pensamento filosófico, mas
estranhas, aparentemente, à mensagem de Jesus conservada em dois dos
sinópticos. Em geral, o espírito de Deus é Deus, pois Deus não parece ser outra
coisa senão espírito. Da mesma forma, o Lógos é Deus e, por isso, mesmo
encarnado, o Filho pode ser afirmado um com o Pai. O Filho é o Lógos
encarnado se o homem for habitado por Deus. Contrariamente à conceção judaica e
para escândalo dos judeus que se confrontam com as declarações de Jesus, Deus
não é remetido para o além, mas está presente de forma imanente nos que se
salvaram dos apegos do mundo através do amor que os transcende. Esse amor é
divino em si mesmo, o próprio Deus é reduzido ao amor, nada é para lá desse
amor que se realiza na comunidade de Filhos de Deus habitados pelo espírito.
Que se suponha agora que
um espírito contemporâneo declare: “O homem não deve se perder nos desejos
particulares, deve libertar-se de todos os laços que o prendem, transcender a
sujeição aos rancores e obsessões mundanas. A sua vida não deve ser sacrificada
quer no cumprimento de ordens de um além inacessível, quer na expetativa de uma
salvação fantástica. Deve viver a sua vida plenamente realizada em cada
instante, ser a sua própria redenção, sem estar dependente da ideia de um
propósito. Não há nenhum propósito, a vida deve ser vivida um dia de cada vez.
A única coisa que há divina é o amor entre os homens, não o amor obsessivo e
patológico, mas o que resulta do desprendimento das ligações particulares,
aceitando toda a realidade tal como é, mesmo que essa realidade fira, agrida,
persiga, mate e martirize. A única possibilidade de felicidade é realizada no
interior da alma do homem que se transcende imanentemente pelo amor. Só o amor
aqui e agora salva da sujeição ao desejo e ao sofrimento.” Qualquer um consideraria
tal declaração ateia, apesar de chamar divino ao amor. Mas é assim tão diversa
da mensagem original de Jesus? Se se considerar que só se pode falar em Deus se
Deus for uma entidade transcendente, como é defendido pelo teísmo e fideísmo,
então Jesus poderia ser, dando razão à minha interpretação hipotética,
considerado ateu. O seu Deus não é transcendente, é um com a humanidade que se
deixa habitar pelo espírito. Porém, se se admitir que Deus se pode realizar no
humano que supera a condição mundana através do amor, então Jesus não é ateu.
Repare-se que também não é panteísta, Deus não se identifica com o simples todo
natural, é espírito que habita quem se transcende pelo amor, Deus é (esse)
amor.[153]
Tudo o resto que foi adicionado no Novo Testamento a esta mensagem original é
tão grosseiramente contraditório com ela que pode ser entendido, em relação a
ela, como profanação e sacrilégio. Em Jesus, Deus torna-se humano e os filhos
de Deus são glorificados como divinos.
[1] João, 10.30.
[2] João, 8.17, 10.34,
15.25.
[3] João, 10.34-36,
referindo-se ao Salmo 82.6.
[4] João, 8.40.
[5] João, 17.11 e 17.20-23.
[6] João, 1.12-13.
Naturalmente, o mesmo é afirmado em epístolas paulinas e na primeira joanina.
Cf. Rom., 8.14-16; Gal., 3.26-28, 4.4-7; 1Jo., 3.1 e 9-10.
Implícito em Mat., 5.9, numa associação direta a fazer a paz.
[7] Mat., 5.43-48; Luc.,
6.27-29 e 35.
[9] Luc., 7.37-48.
[10] Já citado antes: João,
13.23; nova referência em 21.20.
[11] Mar.,10.21. Dada a
ausência de condenação da riqueza em João, o estatuto na sociedade
judaica que o autor parece ter, o nível académico do texto, pergunto-me se não
será a mesma pessoa que está a ser referida.
[12] Recorda-se que não há
qualquer outra manifestação de amor pela mãe de Jesus, antes pelo contrário, e,
neste mesmo Evangelho, ela nem tem nome. Mas essa questão será tratada adiante.
[13] João, 19.26.
[14] João, 15.15.
[15] João, 14.16-17.
[16] Mat., 4.1; Mar.,
1.10; Luc., 3.22; João, 7.39.
[17] João, 7.39.
[18] Luc., 1.15.
[19] Luc., 1.35.
[20] Luc., 1.41.
[21] Luc., 1.67.
[22] Luc., 2.25-27
[23] Mat., 1.18 e 20.
[24] Mat., 4.1; Mar.,
1.12; Luc., 4.1 – neste último, também está cheio de um espírito santo.
[25] Mat., 10.20; Mar.,
13.11; Luc., 12.11-12.
[26] Luc., 11.13.
[27] Mat., 12.28. Em Lucas,
o espírito é substituído pelo dedo de Deus: 11.20.
[28] Mat., 12. 31-32; Mar.,
3.28-29; Luc., 12.10. Cf. Atos, 1.8.
[29] João, 20.22.
[30] Mat., 28.19.
[31] Rom., 8.26-27.
[32] 1Cor., 3.16-17.
[33] 1Cor., 12.3-11.
[34] Gal., 5.22-25.
[35] Efe., 4.30.
[36] Atos, 13.24.
[37] Atos, 5.1-10.
[38] Luc., 11.27-28.
[39] Luc., 3.23.
[40] A minha abordagem
centra-se na consistência dos textos e não em provas históricas. Porém, mesmo
não existindo provas concludentes, é conhecido o facto de o Evangelho de
Marcião não conter os dois primeiros capítulos de Lucas. Este Evangelho
é uma adaptação de Marcião de um Evangelho de Lucas que não parece corresponder
ao atualmente conhecido (chegando a ser denominado esse hipotético texto de Ur-Lucas).
A verdade é que nesta altura, meados do séc. II, ainda não estava fixado o
texto dos Evangelhos, podendo o atual Lucas ser uma versão ampliada
destinada a contrapor-se às conceções de Marcião. Nesse caso, o Lucas
que hoje conhecemos não terá ficado fixado antes da segunda metade do séc. II. As
críticas de distorções do texto de Lucas por parte da patrística mais
tardia dever-se-iam ao facto de já suporem como texto autêntico aquele que,
afinal, só teria surgido posteriormente. Cf. João Diogo Loureiro, “Marcionitas”
in José Eduardo Franco e Porfírio Pinto (dir.), Dicionário Global das
Heresias – Teologia, Cultura e Literatura, Porto, Ed. Afrontamento, 20264,
p. 115. O próprio Ur-Lucas já deveria derivar de duas fontes diversas.
De qualquer forma, esse texto não só não conteria qualquer idolatria mariana
(dificilmente explicável pelo teor mesmo do Evangelho hoje conhecido, como
estou a mostrar), como não teria muitas das referências ao Antigo Testamento
(outro dos vetores das efabulações realizadas na fixação dos Evangelhos).
[41] Mat., 10.5-6.
[42] Mat., 28.19.
[43] 2.31-32. Em Marcos,
numa situação intermédia, a passagem para todas as nações ocorre pouco antes da
morte: 13.10.
[44] João, 14.26, 15.26
[45] João, 15.18-19.
[46] João, 12.31.
[47] João, 8.23.
[48] João, 6.63. Em
3.34, segundo, aparentemente, João Batista, Jesus transmite as palavras de Deus
e dá o espírito sem reservas.
[49] João, 8.12. Parece
claro que 9.39 tem o sentido de iluminação.
[50] Mat., 5.13-14.
[51] Embora, segundo João, só após a morte de Jesus.
[52] Mat., 12.46-50; Mar.,
3.31-35; Luc., 8.19-21.
[53] Mar., 3.21-22.
[54] João, 2.3-5. E a
reação da mãe é irritação que mostra e não qualquer presciência milagreira.
[55] João, 2.12.
[56] João, 7. 1-5.
[57] Mat., 13.55-57; Mar.,
6.3-4; Luc., 4.22-24 (com a particularidade de o expulsarem da cidade e
o tentarem matar). Em João, 4.44, também é referida a declaração de
ninguém ser profeta na sua terra, mas atribuída ao passado, sendo bem recebido
naquela altura. A ligação com a família surge mais tarde: 6.41-42.
[58] Mat., 10.34-39
(com a particularidade de referir uma cruz que, mesmo supondo a presciência de
Jesus, não poderia ter muito significado para quem o estava a ouvir); Mar.,
13.12; Luc., 12.51-53.
[59] Mat., 8.21-22; Luc.,
9.59-60.
[60] Luc., 9.61-62.
[61] Luc., 14.26. Para
variar, a tradução católica suaviza a semântica: “não me tiver mais amor do
que…”. Para os que não têm a tradução de Frederico Lourenço, o que lá está é
que se não odiar o seu pai, sua mãe, sua mulher, os seus filhos, seus irmãos e
irmãs e até a própria vida, não consegue ser seu discípulo. Já agora, segue-se
nova menção absurda à cruz, se se tivesse em consideração o auditório da
altura.
[62] Luc., 18.29. Há
mesmo uma passagem que pode ser interpretada como exigindo que os dignos da
outra vida não se casem, Luc., 20.35.
[63] Luc., 2.7.
[64] Mat., 1.24-25.
[65] Em Marcos, a
questão nem é tratada e, em João, é logo apresentado como filho de José,
1.45-46.
[66] Luc., 2.43-49.
[67] Luc., 1.48,
exatamente o mesmo termo, bem-aventurada, que é negado perentoriamente em
11.27-28.
[68] João, 19.25-27.
[69] E. g., Bertrand
Russell, Why I am not a Christian: and Other Essays on Religion and Related
Subjecs, 2nd. Ed., The Bertrand Russell Peace
Foundation Ltd, 1996; trad. port. Pedro Elói Duarte, Porque não sou cristão,
Coimbra, Ed. 70, 202010, reimpr. 20259, pp. 30-31.
[70] Mat., 6.34; Esta
exata frase não surge em Lucas, mas as mesmas ideias são expressas em
12.22-31.
[71] Para me restringir a
exemplos dos Evangelhos, e. g., Mat., 16.28, 24.34; Mar., 9.1,
13.30; Luc., 9.27, 21.32; talvez se possa interpretar assim João,
5.28-29.
[72] João, 3.36, 5.24. É
verdade que se refere a ressurreição dos mortos para o juízo final, mas os que
seguem, no presente, Jesus nem precisam de ir a julgamento.
[73] Mat., 6.33; Luc.,
12.31. É importante nunca esquecer o afirmado em Luc., 17.20-21.
[74] Mat., 11.25.
[75] A tradução protestante
prefere “pequeninos”.
[76] Mat., 12.1-2, 12.10-12;
Mar., 2.23-24, 3.2-4; Luc., 6.1-2, 6.7-9, 13.14-16, 14.3-6; João,
5.9-10, 5.16-18, 9.13-16. As justificações que, por vezes, acompanham estes
passos são totalmente improcedentes, visto não se tratarem de emergências. No primeiro
caso de João, o homem estava a sofrer da doença há 38 anos. No segundo,
era cego de nascença. Não há nenhuma razão para não pensar que Jesus agia
provocatoriamente contra as regras judaicas.
[77] Mat., 12.8; Mar.,
2.28; Luc., 6.5.
[78] Mar., 2.27.
[79] Mat., 9.2-6; Mar.,
2.5-11; Luc., 5.20-24; 7.47-50 – em João, é a tese geral
proferida logo por João Batista, 1.29; estendida aos discípulos ao soprar o
espírito santo, 20.22-23.
[80] Mat., 9.13 –
citando Oseías.
[81] Mat., 9.14; Mar.,
2.18; Luc., 5.33 – embora admitindo jejum após a sua morte. Cf. o
significado de Luc., 18.12.
[82] Estranha dupla reiterada
que faz questionar se os cobradores de impostos, visto serem destacados ao lado
de todo o tipo indiferenciado de pecadores, não seriam considerados o pior que
poderia existir, algo pior que qualquer outro pecador, ao menos para a
sociedade hebraica: Mat., 9.10-11, 11.19; Mar., 2.15-17; Luc.,
5.30-32 – repare-se que os cobradores de impostos até têm um lugar dedicado,
figurando como redução ao absurdo do amor aos que os amam em favor do amor aos
inimigos, Mat., 5.46.
[83] Mat., 15.2 e 20,
23.25-26; Mar., 7.1-5; Luc., 11.38-39. Em Marcos,
descreve-se, brevemente, a extensão dos costumes associados.
[84] Mat., 5.31-32 (com
a reserva da promiscuidade); Mar., 10.4-12 (onde se mostra o
desconhecimento do autor da lei judaica, admitindo o divórcio da mulher do
marido); Luc., 16.18.
[85] Os passos já referidos de
Luc., 7.37-50 e João, 8.3-11 – neste último caso, nem tão-pouco
há uma manifestação de arrependimento; para falar verdade, nem no primeiro.
[86] Luc., 16.13-15.
Algo indireto e ligado à questão dos juramentos, Mat., 23.16-17. A
acusação de devorarem a casa das viúvas também está claramente associada, Mat.,
23.14 (considerado interpolação, não sei porquê); Mar., 12.40; Luc.,
20.47.
[87] Mat., 23.5-7; Mar.,
12.38-39; Luc., 11.43, 20.46.
[88] Mat., 23.4,
23.23-24 – como é declarado no último passo, filtrar um mosquito, ou seja,
fazer exigências muito pormenorizadas (para os outros), e engolir um camelo,
falhar aos deveres mais básicos; Luc., 11.46.
[89] Mat., 23.31-35; Luc.,
6.23, 11.47-51.
[90] João, 8.37-44 –
esta passagem que acaba tão mal é especialmente insólita porque os judeus em
causa são inicialmente referidos como sendo crentes em Jesus, João,
8.31. Mas está longe de ser o único caso em que Jesus ataca os próprios
crentes. A sanha assassina pelo menos das autoridades judaicas também se revela
no episódio de Lázaro que acaba com os sacerdotes a tentarem matá-lo: João,
12.10.
[91] Implícita em João,
3.13 e que nega, por exemplo, mesmo existindo outros casos não tão canónicos, a
ascensão de Elias: 2Reis, 2.11. Na mesma linha, bem problemática em
relação à intenção de mostrar Jesus como um cumpridor das escrituras, poderia
ser lido o versículo: “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e
bandidos”, João, 10.8.
[92] João, 5.18,
10.30-36.
[93] Mat., 5.33-37.
[94] É só recordar o recurso
às vãs repetições, repudiado por Jesus: Mat., 6.5-8.
[95] Mat., 15.11; Mar.,
7.14-15.
[96] Mat., 15.15-20; Mar.,
7.18-23. Talvez percebendo a insustentabilidade da metáfora da boca, pois está
dependente de outra, a do coração, Lucas só se refere ao interior: Luc.,
11.39-41; mas faz a ligação coração/boca em 6.45.
[97] João, 10.35.
[98] Mat., 6.24, 19.16-24;
Mar., 10.17-25; Luc., 12.15 e 21, 14.33, 18.18-25. Em Luc.,
9.3, chega a exigir dos discípulos não só que não levem nem pão, nem dinheiro,
mas nem sequer duas túnicas, claramente estabelecendo o ideal mendicante tantas
vezes imitado ao longo dos séculos. Em 10.4, chega-se a exigir que nem
sandálias levem. Resta saber se 22.36 não foi, contraditoriamente, introduzido
para justificar outras práticas bem mais mundanas. No que toca a contradições,
também o episódio de Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos (ou seja, o
arquétipo do extremo dos pecadores), já não parece exigir a entrega de todos os
bens (só metade) para ser agraciado por Jesus, Luc., 19.1-10.
[99] Mat., 5.42, 25.40
e 45; Mar., 12.42-44; Luc., 3.11, 10.30 e 34-35, 12.33, 14.12-13,
16.13-15.
[100] Mat., 21.12-13; Mar.,
11.15-17; Luc., 19.45-46; João, 2.14-16. Poder-se-á questionar se
o menor destaque dado, no Evangelho de João, à questão da riqueza não
revelará o estrato socioeconómico do autor.
[101] Mat., 19.25; Mar.,
10.26; Luc., 18.26.
[102] Mat., 19.27; Mar.,
10.28; Luc., 18.28.
[103] “Eles não são do mundo”,
João, 17.16; embora, em João, com certas incongruências já
referidas, o espírito só seja dado depois.
[104] Mat., 19.28-29; Mar.,
10.29-30; Luc., 18.29-30.
[105] Mat., 5.29-30; Mar.,
9.43-48 (acrescenta-se aqui o pé, o que parece insólito – talvez uma forma de
retirar à metonímia, ao menos atenuar, o seu teor sexual).
[106] Mat., 19.12.
[107] Mat., 5.27-28.
[108] Mat. 5.31-32, 19.3-9; Mar.,
10.2-12; Luc., 16.18.
[109] Mat. 19.10.
[110] Mat., 6.11, 6.25-34; Luc.,
12.22-31.
[111] Luc., 6.26.
[112] Mat., 5.9.
[113] Mat., 26.52. Mas
em Luc., 22.36 recomenda a compra de espadas – embora, logo a seguir,
cure o escravo que foi alvo da espada recomendada. Queria, então, a espada para
exibir a cura?
[114] Mat., 10.34-37; Luc.,
12.51-53.
[115] Mat., 5.24-25.
[116] Mat., 6.14, 18.35
(onde parece ser exigida a reciprocidade); Luc., 6.37. Neste âmbito,
também se deve considerar o exemplo de Luc., 23.34 – se não figura em
vários manuscritos, isso, como já disse antes, não é garantia de
inautenticidade, muito embora aqui não seja visível um motivo para uma censura,
a não ser por parte de muitas correntes mais radicais que não estariam
dispostas a perdoar nada quer a pagãos, quer sobretudo aos judeus.
[117] Mat., 1-5; Luc.,
6.37; em João, o centramento em Jesus só permite leituras deste como
modelo, 8.15, 12.47.
[118] Mat., 25.35-45; Luc.,
3.11 (embora seja declaração de João), 14.13.
[119] Luc., 3.12-14
(idem).
[120] Mat., 7.12; Luc.,
6.31, a famosa regra de ouro.
[121] Mat., 22.17-21.
Já se viu como Paulo, eleva os cobradores de impostos à categoria de
funcionários de Deus: Rom., 13.1-7.
[122] Mat., 5.38.
[123] Mat., 5.39; Luc.,
6.29.
[124] Mat., 5.40; Luc.,
6.29.
[125] Mat., 5.41.
[126] Luc., 6.30.
[127] Luc., 6.35.
[128] Mat., 18.12-13,
20.1-16; Luc., 15.4-32.
[129] Mat., 20.25-28; Mar.,
10.42-45; Luc., 22.25-27: no mesmo sentido, embora de forma algo
equívoca, João, 13.5-16.
[130] Mar., 12.28-34.
[131] João, 13.34-35,
15.9-17.
[132] João, 17.6-23.
[133] Mat., 5.43-48; Luc.,
6.27-28, 6.32-35.
[134] Sigmund Freud, Das Unbehagen in der Kultur,
1930, V.
[135] Mat., 10.21; Mar.
13.12; Luc., 21.16, este último passo com a particularidade de também
referir os amigos.
[136] Recomendo a leitura do
bem detalhado Sören Kierkegaard, Frygt og Baeven; trad. port. Maria José
Marinho, Temor e Tremor, Lisboa, Guimarães Ed., s/d.
[137] Friedrich Nietzsche, O
anticristo, XXXIX.
[138] Mat., 18.2-6 e
10; Mar., 9.36 e 42, 10.14-16; Luc., 9.47-48, 15.16-17.
[139] Agostinho, Confissões,
I, 7.
[140] Mat., 26.28; Mar.,
14.24; Luc., 22.20; João, 6.53-56
[141] A metonímia foi
introduzida nos próprios Evangelhos de forma absurda, pois, mesmo que Jesus
possuísse presciência, o seu auditório não poderia entender a referência: Mat.,
10.38, 16.24; Mar., 8.34; Luc., 14.27. Trata-se, pois, de um
relato retrospetivo que nunca passou pela boca de Jesus.
[142] E. g., Mat.,
25.46; Luc., 13.26-27.
[143] Núm., 15.35.
[144] João, 12.10-11
[145] Mat., 21.31.
[146] Na verdade, embora
atribua a Paulo o início da traição, a Igreja não deixou de também trair o
próprio Paulo.
[147] Mat., 22.21; Mar.,
12.17; Luc., 20.25.
[148] Mat., 5.3.
[149] Luc., 6.20.
[150] Trad. port. do grego de
Frederico Lourenço, Bíblia, Vol. I, Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos,
Lisboa, Quetzal, 20169, p. 74.
[151] Mat., 7.8; Luc.,
11.10 – aliás, a primeira referência é a pedir.
[152] Mat., 5.9.
[153] 1Jo., 4.16.